10.4.12

O roupão

A primeira vez que o vi foi junto ao Jardim do Campo Grande.
Era comprido, tinha ar de ser quentinho mas, acima de tudo, era cor de rosa. Não um rosa comum, nem sequer rosa choque era, o seu tom único era certamente fruto de anos e anos de utilização contínua, com a ironia por detrás do nome rosa velho. Os rebordos desgastados e coçados quase até às costuras e o cinto fino e triste, depois de tanto tempo e da monotonia do apertar e desapertar diário.

Sem ninguém por perto, preso a uma manga estava um saco de migalhas de pão que vagarosamente a outra manga espalhava à sua volta, rodeando-o de uma multidão de pombos sedenta de tudo o que Lisboa rejeita.

Passei por ele e observei-o durante esse ritual, lento e vazio de sentido, mas possivelmente a única coisa que ainda lhe dava forma. Despido da alma que o preenchia, o roupão limitava-se a fazer o que tantos fazem, a rotina dos dias.

Assim continuou, por mais alguns dias, até que um dia desapareceu. No chão, apenas um cinto fino, velho e caído no esquecimento ao qual até os pontos voltavam as costas. Talvez roupão e dono se tivessem voltado a encontrar num sítio melhor.

3 comentários:

  1. os roupões, para além das instruções de lavagem, costumam trazer uma etiqueta com o aviso: "Atenção, esta peça pode roubar a alma ao seu utilizador"

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  2. Vês, é destas coisas que gosto;
    Não perguntei logo porquê, porque queria ler todo o livro primeiro, mas agora que já o li (e foi o único até aqui) pergunto, sentimentos dúbios porquê?
    Leva o tempo que precisares a responder, sei que só tens uma mão agora...

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  3. Então não é que me usurparam o nome do blog? Um dia destes ainda vou encontrar por aqui uma lata de salsichas...
    Olá maneta :-)

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