24.4.12

A arte do engano a dar o número de telemóvel


Visitante, caso os contornos da tua moralidade sejam assim para o esbatido, certamente já terás feito isto ou algo parecido: perante alguém que te pede o número de telemóvel, tu acedes mas dás o número errado propositadamente.

Pode parecer um acto algo mesquinho mas, como dizê-lo, trata-se de sobrevivência social. O facto é que hoje em dia as pessoas levam a mal a recusa do número e não me refiro sequer a situações mais intimistas, até porque qualquer badameco de serviços ou inquéritos sabe que esse é dos prémios mais valiosos. Como tal, a solução alternativa é deixar tudo nas mãos de um destino trocado.

Trocar o número de telemóvel é, porém, uma arte que envolve algum requinte. Para inventar de forma natural e precisa, sem hesitações, descobri que o mais eficaz é trocar apenas um número número em relação ao nosso. Exemplo: partamos do princípio que o meu número é 91 234 567. Dona Maria Josefina, da Liga de Amigos a Favor da Fruta Fresca, insiste que eu vá provar a fruta na próxima iniciativa e que precisa do meu número. Simpático e bonacheirão, disparo sem hesitar 91 243 567.

A diferença é ténue e o facto é que o erro podia ser legítimo caso tivesse que me justificar num próximo encontro dos Amigos da Fruta Fresca. O facto de não ter trocado a rede ou o último número é propositado, já que são possivelmente os que seriam tentados de novo caso a pessoa fosse insistente e quisesse dar largas a uma vertente experimental.

Como vêem, sou um charme de pessoa.

Curiosamente, por vezes o destino também joga a nosso favor. Há uns meses encontrei um ex-colega do secundário que infelizmente continuava chato e boçal. O tempo não tinha sido um bom companheiro e a mentalidade ainda estava presa no secundário. Dez minutos à conversa e insiste em chamar-me Bruno, que não é o meu nome. Quando chegamos à parte do adeus e um abraço, pede-me o número: Por lapso, dou-lhe o certo e rezo para que não o utilize.

Há coisa de duas semanas, recebi uma chamada de um tipo que queria falar com um Bruno. Respondi honestamente, sem me lembrar da situação, que devia ser engano. Ligou de novo e eu voltei a dizer o mesmo, acrescentando que se calhar lhe tinham dado o número errado.

Horas mais tarde, lembrei-me de tudo e sorri. A sorte protege os audazes e, pelos vistos, os trafulhas.

9 comentários:

  1. Já bati na traseira de um Q7 branco. Foi muito ao de leve (trânsito compacto), e ao sair do carro vi claramente que nem tinha ficado marcado. O cagão do burguês nem se dignou sair do carro, pediu-me o telemóvel e o nome porque estava com pressa.
    Ora, os meus papás até me deram uma educação decente, mas naquele momento o Mr. Hyde proletariado em mim deu-lhe nome e nº falso. Já no carro rezava para que não tivesse reparado na matricula. -_-
    Deve ter sido dor de cotovelo pelo Q7.

    ResponderEliminar
  2. scenes of everyday life

    verme (não é o rodman) - olha, dá-me o teu número

    du - ..não?

    (já o meu pai, mais educado, uma vez trocou moradas com um japonês e deu uma rua que nem tinha aquele número)

    ResponderEliminar
  3. os contornos da minha moralidade são bem esbatidos. só não me safo na situação "deixa-me dar-te um toque que ficas já com o meu também". preciso aprimorar a técnica de fuga.

    ResponderEliminar
  4. Muito bom!

    É uma situação que já aconteceu uma vez ou outra... Para não dizer algumas vezes! E também utilizo a técnica de trocar só um número! Fico contente por saber que há mais pessoas com valores morais altos e princípios claros que utiliza a mesma técnica que eu!

    Só tenho que concordar com o Pedro B no que diz respeito a aprimorar a táctica de fuga quando ouvimos: "espero que dou-te um toque e ficas logo com o meu número"! Aí não cheguei! Sei que posso dizer: agora estou sem bateria, mas na altura nunca me lembro!

    Se houver alguma sugestão agradeço!

    ResponderEliminar
  5. @ Troll - Uns têm os carros, os outros têm os skills ;9


    @ du - Um não é de facto o mais simples, mas confesso que por vezes sou um lírico e gosto de rendilhar a coisa.

    @ pedro e viciante - sim, o dá-me um toque complica e aí o ando com problemas no cartão / sem saldo / sem rede é a porta de entrada para dá-me tu o teu e eu depois dou-te um toque....

    ResponderEliminar
  6. Eu digo com um sorriso "Nah... que tu depois vais-me ligar a tentar vender merdas e fazer publicidade...".

    Tem resultado. :|

    ResponderEliminar
  7. já me fizeram uma cena parecida. um maltês (sim, eu já me envolvi com um gang de malteses) deu os números de telemóvel dos conhecidos a uma empresa para publicidade. ganhou um bónus qualquer com isso. e uma canadiana, depois de descobrirmos o bufo. não subiu escadas sozinho durante 5 meses.

    ResponderEliminar
  8. Nesse caso também há o truque nonsense, que é tentares vender algo a quem te está a tentar vender alguma coisa via telefone, antes de eles terem hipóteses.

    ResponderEliminar
  9. Eu costumo fazer o mesmo, mas mudo só o último número. Obrigada pela dica porque vou passar a alterar um do meio só por causa das coisas... mas já me aconteceu ele pegar no número e mandar um toque (tinha-me visto a falar ao telefone pouco antes nao dava para dizer que não o tinha trazido...)... e pronto,fui apanhada... lá tive de dar o numero certo porque me tinha "enganado" no ultimo, e rezar para que não ligasse, mas não resultou.. :(

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.