26.4.12

Amizades de infância são uma pedra


A amizade é uma coisa muito bonita pelo que leio nos livros, em postais com animais mimosos e, com alguns erros ortográficos, em paredes espalhadas pelo mundo inteiro. Da minha parte, nada a dizer em contrário, embora pense que muita gente confunde por vezes amizade com coisas como interesse, dependência, carências, chupismo emocional ou partilha de espaços comuns. Felizmente, não tenho de provar nada disto, é a vantagem de ser um cínico optimista, basta dizer “Oxalá esteja enganado”.

Diria que uma excepção são os amigos de infância, pelo menos na sua génese. Surgem numa fase em que nada é definitivo e os que sobrevivem ao crescimento, à dispersão de caminhos e ao afastamento natural por norma têm fundações mais fortes do que a lógica.

Não acredito que se possam ter inúmeros amigos de infância, mas acredito que os poucos  que se tenham valem por muitos, talvez mais do que aquilo de que temos por vezes consciência. Se, como referi, sobrevivem aos filtros da vida é porque os valorizamos mesmo que, hoje em dia, ninguém perceba o que nos une. São uma ligação directa ao nosso passado e, por norma, tenha a infância sido má, boa ou assim assim, eles representam o que quisemos guardar de lá.

Tirando, no meu caso, o Carlitos. Tinha eu 5/6 anos e o Carlitos era o meu melhor amigo. Andávamos no mesmo jardim de infância, morávamos perto, brincávamos juntos e eu dizia insistentemente à minha mãe que me queria chamar Carlitos, tal como o meu amigo. Na altura a minha mãe ainda se ria quando eu lhe referia que queria usar nomes falsos. Até que um dia o Carlitos me começou a gamar berlindes, berlindes que eu de bom grado lhe teria dado se ele mos tivesse pedido. Mas não, roubou e negou, apesar de serem visíveis no bolso do bibe e eu tentei ir buscar a solução às fundações da nossa amizade. Tendo apenas encontrado escombros, resolvi aproveitar uma pedra da calçada, com a qual tentei meter juízo na cabeça do Carlitos, mesmo no meio da testa.

Foi a minha mãe que o levou ao hospital, de onde ele saiu com uma cabeça partida e eu com um castigo que durou uma eternidade. Hoje em dia, não faço ideia do que aconteceu ao Carlitos, mas continuo a manter uma óptima relação com pedras da calçada, apesar de já me terem causado uma rotura de ligamentos, me terem feito fugir da polícia e juntos termos danificado propriedade pública. Como vêem as amizades de infância têm uma solidez que não se explica.

2 comentários:

  1. Eh pá adoro a expressão "chupismo emocional" é que é mesmo isso.

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  2. muita gente confunde por vezes amizade com coisas como (...) chupismo emocional - excelente!

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