23.3.12

Yuri, o c"#%ão que me lixou a teoria dos taxistas

Considero-me um tipo inteligente que está sempre a aprender. Contudo, ao longo dos anos desenvolvi algumas teorias cujos princípios se mantêm válidos há já algum tempo. Ou, no caso da teoria dos taxistas, “se mantinham”.

Ao contrário das pessoas que preferem que o taxista vá caladinho quando vão sozinhos num táxi, na minha teoria o princípio defende que é positivo que o taxista fale, dentro de um nível controlado. Afinal de contas, o seu silêncio leva a que o tipo possa ir a pensar nos males da vida, em bater o recorde de velocidade em avenidas de Lisboa, vá a dormir ao volante (82% dos taxistas que conduzem à noite têm mais de 200 anos) ou, pior ainda, que estejamos ambos a ouvir a estação de rádio da sua escolha.

Assim, o meu método sempre foi simples: pegando numa frase dita por ele ou lançando eu o primeiro o tema, a partir daí só precisava de repetir a última palavra dita por ele para manter uma conversação em loop. Não só não tinha que prestar atenção, como o percurso parecia mais rápido, com o tipo a debitar todo alegre as suas teorias.

Exemplo:

“Boa noite, é para rua Volfrâmio Santos, junto ao Jardim do Tragabolas”.
“Tem preferência pelo caminho?”
“Tanto faz, a esta hora não há trânsito, de dia é que...”
“Não me diga nada yada yada yada yada... e as pessoas ainda se queixam da economia.”
“...Pois e a economia já se sabe...”
“Então não, a economia yada yada yada, yada...o Governo”
“...O governo é o que temos...”
“É, mas nós yada, yada, yada, yada...e o Benfica”.
“Ui, o Benfica deixe lá ver...”
“Eles vão lá, yada, yada, yada...haja dinheiro”
“Por falar em dinheiro, pode encostar ali à frente, ao pé do largo. Quanto é?”

E posto isto, mais um percurso concluído e mais um taxista satisfeito, com o bónus de apenas com 10% de atenção ainda conseguia ficar com histórias para contar.

Até ontem, quando conheci Yuri o taxista.

Em dia de greve, tive de ir acompanhar o que na gíria se chamam “cenas profissionais a decorrer fora do local habitual de trabalho”. No regresso, o táxi era a opção óbvia, porque a boleia para lá não era válida para o regresso e visto dividir a viagem com uma simpática moçoila, a coisa fazia-se em dois tempos.

A senhora sai primeiro, vamos pela Avenida Sinbad que ela fica lá. Yuri, nessa altura ainda um taxista anónimo vai de bico calado e nós na conversa. Ela sai, estamos perto do centro da cidade e dou indicações para o resto do percurso. Yuri, noto-lhe o sotaque de leste, que confirmo no nome da licença, começa a desbobinar. Eis um excerto:

“Ser dia de greve e pessoas a trazerem ainda mais carro. Serem estúpidos.”
“...É uma estupidez é ...”
“C#”%”%lho, burro de m#&/da, vai lá no teu carrinho. Chegares a casa já nem veres telejornal ahahah.”
“O telejornal também é o que é...”
“Fod!$”#$-se, um frango dava para comer um frango e ainda ter dinheiro para sobremesa.”
“...Um frango?”
“Sim, esses c”#%ões não saberem preço de gasolina? Quase dois euros, o tempo que estarem aqui dava para poupar para frango e resto de jantar”.
“Pois...jantar...já deve haver pessoal com fome...”
“Filh#”!%!% da p#”$a, trazer carrinho novo, não ver nada à frente, eu que estar a pensar por mim e por ele. Vamos os dois para casa mais tarde e culpa ser desse p#!”$%!”%eiro”
“Vamos para casa?”
“Já estar aberto o sinal c€#$%lho. Estar tudo maluco, tudo a ir para casa de carro. Eu não trabalhar mais assim. Deixar senhor e f”#%”-se ir para casa, ainda não saber bem como.”
“Olhe, eu fico ali ao pé da paragem.”
“Ah, ser fácil, encostar ali mal p#”%”#%leiro do c#””#%#%lho que estar em segunda fila parar. Muito obrigado senhor”.

Saí espantado, acenando a Yuri que arrancou acenando de volta e soltando alguns impropérios contra um tipo que se atravessou à frente. A minha teoria falhou com Yuri, porque Yuri, se bem que não de feitio tresloucado, tinha um pensamento desconexo cujo único factor de união era o uso perfeito do melhor calão português. Cada tema que eu lançasse ia esbarrar na sua vontade de dizer vinte palavrões para qualificar o mundo que o rodeava.

Yuri do c#”%”%lho, lixaste-me a perfeição da teoria, mas foi um p”#$ta de uma viagem de táxi sui generis.

10 comentários:

  1. Caro Mak, só agora me apercebo do azar que tenho em nunca andar de táxi. É que assim, nunca irei ter a sorte de apanhar o Yuri,e fazer assim, a viagem da minha vida!

    P.S.-Na 1ª conversa, lembrei-me logo do episódio do Seinfeld que se chamava precisamente "yada, yada, yada", mas tinha nunces diferentes e desfecho trágico.

    ResponderEliminar
  2. Caro V,


    Eu frequento táxis normalmente apenas por motivos profissionais. Ok, a parte lúdica é um bónus.

    E gosto do uso de "Yada, yadas" por escrito, oralmente prefiro o "Fofonfon" da professora do Charlie Brown.

    ResponderEliminar
  3. dude, tu já andaste de táxi no porto...?

    ResponderEliminar
  4. Gostas pouco gostas :D

    ResponderEliminar
  5. O Yuri não pode ser considerado um taxista. Foi só um tipo do leste que por acaso ia a conduzir esse táxi. Por isso, tua teoria continua muito válida e comprovada por tantos outros viajantes.

    ResponderEliminar
  6. @Du - Por acaso não, mas não me choca palavreado, a ligação intermitente de temas é que me apanhou de surpresa.

    @ W - Faz tudo parte de um processo ;)

    @ Mr. White - Quando percebi o sotaque, verifiquei a credencial. Podia ser falsa, mas reduziu as possibilidades de estar a ter que, na melhor das hipóteses, fazer este comentário a partir de um dispositivo móvel na mala de um carro.
    Mas sim, ainda acredito.

    ResponderEliminar
  7. mak, a questão não é a linguagem.

    desde o taxista que me falou das duas armas que tem com ele, usando a que é ilegal para dar um tiro no cliente e depois atirar ao rio, e o outro que encosta as portas às paredes para a malta não fugir enquanto ele dá a volta para lhes bater, andar de táxi no porto é todo um mundo novo.

    eu já andei de táxi com um tipo que foi motorista no iraque 20 anos e senti-me senti-me mais seguro com ele.

    ResponderEliminar
  8. So true.
    No dia de greve apanhei um taxista que foi alegremente a contar uma viagem (aventura?) que teve com uma rapariga que ia para o Cacém e a brotar diarreia por todo o lado.
    Priceless. :)

    ResponderEliminar
  9. @Du - isso não são viagens de táxi, são misturas de filmes do Kusturica com Tarantino.

    @ Bunny - Cacém, diarreia e táxis, que bela associação conjunta.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.