20.3.12

Selecção dos Restos do Mundo

Os portugueses irritam-me e não apenas por eu ser um deles. Mas atenção, irritam-me da mesma forma como se dão duas lapadas a um irmão mais novo, não quer dizer que não gostemos deles, mas por vezes tiram-nos do sério.

Por um lado somos malta que durante a estadia em hotéis, pensões, residenciais, móteis e locais ocasionais de chavascal pilha tudo o que puder da casa de banho, sob o mote – “Epá, eu paguei a estadia, tenho direito a levar as coisas”. Por outro lado, ao contrário de outros povos de economias bem mais sólidas, andámos anos a resistir pedantemente à ideia de levar o que sobra de uma refeição paga no restaurante para casa. Tirando naquele historial óbvio que envolvia frases como “Meta por favor num saquinho, que é para o cão”.

A crise tem vindo a mudar isto e entre gangs da marmita e restaurantes às moscas, não são raros os locais em que vejo as pessoas a pedirem para levar o que resta da dose. E por pessoas não me refiro apenas a idosos que comem um carapau em dez fascículos.

No entanto, a mesma razão porque me irritam é aquela que tantas alegrias me dá na hora de contar histórias, como esta que envolve sobras num restaurante e uma família pseudo-possidónia.

Cenário: Restaurante, hora de almoço. Numa mesa, um casal e a sua filha estão prestes a pedir sobremesa. Empregado apresta-se para levantar os pratos, quando a senhora fala.

“Olhe, por favor ponha os restos numa embalagem que sempre ficam para o cão.”

Gritos de alegria da filha. “Papá, papá, viste a mãe. Afinal sempre vamos ter um cão.”

10 comentários:

  1. Triste realidade. A crise está dura, muito dura. Qual cão qual quê...

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  2. De mais! Foi engraçada a história, mas infelizmente por trás esconde algo muito duro, o que as pessoas estão a passar e a forma como lidam com isso.

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  3. Olá, desafiamos-te a escrever uma história para fazer parte do nosso livro. Estamos mesmo mesmo a começar, faz parte deste projecto ♥

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  4. E devia ter pedido uma embalagem daquelas que vai ao micro-ondas, não fosse o cão só gostar de comida quentinha.

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  5. A questão aqui é que não é vergonha nenhuma levar comida que sobra para casa, da mesma forma que quando se vai a um jantar em casa de amigos, muitas vezes os anfitriões pedem para se dividir a comida que sobra, etc.

    As pessoas é que criam um filtro na cabeça em que é preciso um subterfúgio para fazer o pedido. Sim, a crise é complicada, mas quem ainda vai a restaurantes, muito possivelmente não está no lado mais negro do espectro.

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  6. Eu, quando sobra, que sou gajo de bastante sustento, peço para levar. Já o fazia antes. Sem vergonha. Está pago e comida é comida.

    Quem tem vergonha passa fome. E eu com fome ainda fico mais rezinga. No can do.

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  7. a minha avó sempre levou para casa até metade de uma torrada no café (o que levou a que por diversas vezes criasse bicho na mala).

    o princípio é sempre não deixar nada na travessa. mas sobrando, a menos que tenha bicho ou fragmentos de unha do empregado, deves levar. nunca sabes quanto te empurram para dentro de uma carrinha e a bucha dá-te jeito se o rapto for longo.

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  8. Bem visto Du. É também a pensar em raptos que ando sempre com uma carcaça no bolso. Se for na mala do carro serve para matar a fome, se for raptado por uma bruxa com uma verruga em zona visível do corpo, serve para deixar um rasto de migalhas, que eu sei bem como se passam as coisas nestas histórias.

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  9. Não te esforces Mak, há dias falei nisso, caíram-me em cima.
    Ainda não entenderam que lá porque somos tugas, dizemos estas coisas "com carinho".

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