28.3.12

O dia em que acabou o meu reinado nos carrinhos de choque

Já fui grande no Portugal dos feirantes e das diversões.
Tempos houve em que o meu nome era segredado por entre arrumadores de carrinhos de choque e o meu conselho era ouvido antes de se decidir se a pista ia bombar ao som da colectânea “NOW Vol.321” ou se Fernando Correia Marques e o seu “Burrico” iriam dar ritmo à noite.

A minha destreza ao volante de um carrinho de choque era tal que chegaram a vir italianos da Ferrari ver se era possível levar este know how para a Fórmula 1. Não era, mas pelo menos levaram farturas e algodão doce.

Cheguei a dar autógrafos com o pé direito enquanto fazia um pião e lia Roberto Bolaño, nessa altura ainda só os esboços que ele me enviava, nada de coisas publicadas. Com algum pesar, lembro-me de ter feito a piada de mau gosto, “Tu és bom Roberto, só te falta uma doença terminal para seres brilhante”.

Todavia, numa estrelada noite de Agosto, ainda a Feira Popular era mais do que um buraco negro no coração da cidade, fui vítima da minha soberba e porventura de um batido de ananás, a minha bebida de preferência nos “Três Irmãos das Farturas”, batido esse adulterado por alguém que me queria mal. Não me sentia bem, mas avancei para a pista.

Tocava um clássico, possivelmente Technotronic ou 2Unlimited ou um remix techno de Samuel Barber.

Depois de algumas acrobacias, senti a visão turva no preciso momento em que um estranho ousava invadir a minha pista. Conduzia como se fosse um domingueiro, pausadamente, repito PAU-SA-DA-MEN-TE, como se tal fosse possível no frenesim e adrenalina dos carrinhos de choque. Uma mão no volante e outra nas costas do outro banco, o bandalho a pensar que aquilo era dele.
Fui rápido e incisivo, dei uma volta larga para ganhar balanço e fui no ângulo cego, para lhe acertar de lado em potência máxima e o fazer rodopiar contra um rebordo.

No momento do embate, a tragédia. O braço que sobrava não estava lá a repousar por dá cá aquela palha, mas sim a proteger um pequeno ser. Conforme vi o carro a rodopiar e os gritos de condutor e acompanhante, por momento rezei para que fosse um anão alcoólico mas não, era mesmo uma criança. O carro imobilizou-se em segundos, a música parou e eu fiz o que qualquer homem que estivesse sob o efeito de um batido de ananás adulterado teria feito.
Fugi dali a sete pés.

No dia seguinte, passei por um quiosque e espreitei “O Crime”, em busca de notícia da tragédia. Não vinha nada para além do habitual crime passional com caçadeiras e um tipo que tinha sido traído por um burro. Estava safo.


Mas, não tendo um tio sábio como o Homem-Aranha teve, a minha aprendizagem traduziu-se num exílio auto-imposto a durar para sempre. Foi o adeus aos carrinhos de choque, pelos quais passo ainda hoje em feiras da terrinha e locais de férias, só para ouvir os ecos da minha fama.

5 comentários:

  1. Foi aí que tomaste à letra o aviso:"Se conduzir, não beba"?
    A nossa consciência é lixada...

    ResponderEliminar
  2. Os carrinhos de choque são um mundo à parte. Eu era sempre o Nelson Piquet. Depois os meus joelhos começaram a não passar no cokcpit. A minha promissora carreira terminou aí.

    Não deves ter ido correr ao Norte. Ou então o teu nome era aquele-que-não-se-pode-dizer-mas-corre-pra-cara**o.

    ResponderEliminar
  3. Ahahahahahaha!!!!
    Ouve lá, tu esmera-te e oferece coisas às meninas para votarem em ti, pá. Então uso o meu estatuto de jurada e nomeio-te e tu não fazes pela vida? Vá, apela ao coração das gajas pá.... (gosto muito de escrever pá muitas vezes, pá)

    ResponderEliminar
  4. @V - E eu deixava sempre a consciência em casa, para não a aleijar.

    @Troll - Era esse o meu nome, até em Ronfe e na Cedofeita.

    @Pipoca - Pá, eu agradeço-te a referência, mas nesse concurso eu já passei à história :) O máximo que posso fazer aqui é passar às histórias. Me aguarde.

    ResponderEliminar
  5. Nota-se que ficaste em choque!

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.