30.3.12

A minha vida não dava um BILF

Aprendi a escrever com um monge quase cego.
Este, sabiamente disse-me um dia “Tem cuidado com os sentimentos que imprimes nas palavras, pois quando os passas para o papel eles passam a ser também de quem te lê”. Olhei com algum pesar para o monge, não pelo conteúdo das suas palavras, mas pelo facto de as ter dito voltado para um castanheiro, confundindo-o comigo.

Foi um período proveitoso mas, ao mesmo tempo, tumultuoso na minha adolescência, já que a minha mãe não aprovava o meu convívio com monges invisuais, ainda que pródigos na área de letras. Quando nos despedimos pela última vez, o monge colocou-me nas mãos um presente.
“Deixo-te com algo que te servirá bem melhor do que alguma vez o fez por mim”
“Pastilhas para a azia, monge?”
“Ah, desculpa filho, enganei-me...”

Retirando-me a caixa das pastilhas, entregou-me um pequeno livrinho com uma inscrição manuscrita na capa - “O segredo de perceber as mulheres”. Ri-me ao abrir o livro, que no seu interior estava completamente em branco tirando na primeira página, onde vinham dois símbolos desenhados – um smilie e uma lâmpada a piscar.
Voltei-me para questionar o monge sobre a origem do livro, mas ele tinha misteriosamente desaparecido. Quero acreditar que foi um mistério, apesar daquele miradouro em obras não ter sido o melhor local para uma despedida e à medida que me afastava ter ouvido ambulâncias uns quarteirões mais abaixo.

Durante muito tempo pensei, devido à simbologia do livro que o que as mulheres apreciavam eram electricistas sorridentes. Ponderei seguir Electrotecnia e colocar aparelho nos dentes. Confuso, acabei por colocar material eléctrico na boca, o que constituiu um choque, um sorriso brilhante e a noção que para mim essa carreira não dava.

Só mais tarde, quando comecei a escrever regularmente, é que percebi a metáfora no livro que o monge me tinha dado e não foi aquilo com que eu sempre sonhara – o smilie simbolizava o humor, a boa disposição e a lâmpada as ideias. Resumindo, um segredo para conhecer as mulheres afinal era o humor inteligente, o que me deixou danado porque eu acreditava mesmo na teoria do electricista.

Portanto, em retaliação por uma teoria falhada o máximo que aqui ofereço são laivos de pseudo humor inteligente que, longe de presunções, não têm como alvo as mulheres ou até os homens em geral, mas sim os electricistas. E isso, está longe de ser vida de BILF.


Nota: Serve o presente apontamento para honrar a alegre tertúlia bilfiana levada a cabo por esta senhora e o facto desta outra senhora ter tido a gentileza de me nomear para um certame em que, mais do que um outsider, sou um alien.

5 comentários:

  1. Mak, se o monge era quase cego, será que o livrinho não estava escrito em Braille?
    É que isso poderia ser interessante no decifrar sobre o verdadeiro objectivo do opúsculo, que os electricistas podem não ter nada a ver com o assunto, coitados.

    (o que será um verdadeiro bilfe? será aquele que se come com bataltas friltas?)

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  2. Dá-me ideia que na verdade ele não sabia o que estava no livro. Possivelmente pensava que era de receitas, que o tipo não cozinhava era tudo em take away...

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  3. Então para sua informação, senhor MAK, já nos idos BILF 2011 e na qualidade de júri, pois que foi nomeado por esta aqui ;)

    (isto da verificação para uma míope, é qualquer coisa)

    (o primeiro comentário deu erro, lá está, miopia, por isso não sei se terá ficado)

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  4. Pois então, que fique aqui a devida nota de agradecimento ou o pedido de desculpa por tão malogrado esforço.
    Ficando na dúvida, ofereço ambos.

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  5. Ah não era para isso, credo, apenas um reforço no ego, que a meu ver faz bem e merece. Nada de agradecimentos, era só o que faltava :)

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