6.3.12

É t-u-d-o u-m-a q-u-e-s-t-ã-o d-e r-i-t-m-o

Não vou dizer que tudo o que resulta na vida tem a ver com questões de ritmo, até porque em termos de métodos contraceptivos a coisa é capaz de dar para o torto.


Contudo, isso é uma clara verdade no que toca à forma como se contam histórias. E isto vai da anedota, ao relato de como ontem houve um tipo no metro que se enganou numa sinfonia de Mahler que tentava executar utilizando apenas um garfo e uma lata de sardinhas vazia.

E quem diz alarvidades de forma tão convicta não tem qualquer pejo em passar a questão de ritmo para o cinema português.


Muitas vezes, parece-me a mim que o que mata um filme português é o seu ritmo, a que se junta a nossa propensão cinematográfica para temáticas que batem até à exaustão no ceguinho da miséria e da tragédia.


Culpa-se sempre a tradição do teatro pelo exagero dramático e pela tendência para uma lentidão exasperante na qual se desenrola a acção. Pelo meio vêm as influências estilísticas, a falta de meios, a escassez e falta de diversidade de actores capazes e o diabo a quatro, que se fosse filmado em Portugal seria o diabo a 1,5. Não é preciso entrar no frenesim de produções americanas em que a acção é mais rápida do que a história. Há milhares de exemplos de filmes acessíveis (sem ter que ser um filme paquistanês sobre uma ovelhas molestada e as suas reflexões sobre isso) de pontos diferentes do globo. A meu ver todos eles com a distinta característica em que a história é privilegiada em detrimento do exercício de estilo.



Dentro de um raciocínio absurdo, tento pensar sempre num filme como uma história contada por uma pessoa. Quando bem contada ou contada com piada, pode ser o mais alucinada ou até o mais corriqueira que possível e eu oiço-a toda com gosto e prazer.


Infelizmente, em boa parte do cinema português, parece o meu tio Orlando a falar detalhadamente do seu último exame à próstata. O truque é fechar os olhos e esperar que acabe.



PS – O descontentamento em relação à temática trágico-depressiva admito que seja uma questão de gosto pessoal. Mas o rtimo ou a falta dele é mesmo uma questão estrutural que cruza géneros e gostos. E sim, admitem-se excepções.

1 comentário:

  1. Totalmente de acordo, e o mesmo se passa com a literatura. Grande post.

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