27.3.12

Dicotomia das passadeiras

Ser peão é lixado.
No xadrez é o que se vê, não só vais em primeiro lugar como a probabilidade de seres comido por qualquer um que te apareça pela frente é enorme, sem qualquer tipo de satisfação para ti. Quando as coisas te correm mesmo bem, trocam-te por outra peça mais valiosa.

Na vida real, o teu maior perigo não é, ao contrario do que pensas, o veículo motorizado que tende a malhar-te no lombo quando não tens cuidado. Esse veículo raras vezes é a razão do confronto, já que quem manda nele é um peão como tu, tirando quando está ao volante. Aí passa a ser um condutor, muitas das vezes enraivecido, prepotente e desdenhoso de peões como tu (e como ele, tirando se vive no carro e cedeu as pernas numa acção de caridade).

Tu, que és um peão consciente, sabes bem que existem os chamados cam-peões, na forma de velhotes que desafiam as leis da física e da lógica ao atravessar a estrada ou também em formato adulto/jovem inconsciente que ainda não acreditam que o chassis é mais resistente que o esqueleto. Mas tu não és assim, jogas pela certa quando há semáforos e quando não há benzes-te duas vezes, mesmo que não sejas religioso, porque mal não há de fazer.

É que uma passadeira sem semáforo é o expoente máximo da relação entre peão-condutor. O primeiro pensa que esse devia ser um local sagrado, estilo igrejas no Highlander, onde nada lhe devia poder fazer mal. Já o segundo vê muitas vezes no peão prestes a passar na passadeira um empecilho para chegar sete segundos mais cedo a onde quer que tenha de ir exercer a sua pressa.

Quantas vezes não ficas tu, peão, parado na passadeira a ver mais uma tipa a acelerar e a fingir que não te vê ou um artista que mostra pelos seus óculos escuros que não tem tempo para lidar com peões, ainda por cima dos que atravessam estradas.

E é nesses breves instantes que tu, peão, cidadão calmo e atento às prioridades da vida, gostavas de ter super-poderes, não daqueles que dão para despir modelos checas à distância, até porque para isso já foi inventada a Internet e os cartões de crédito. Mas, por uns momentos, não te importavas nada de ter o poder de furar múltiplos pneus a um carro, sem causar mais órfãos, deficientes ou dramas familiares. Só para criar uma noção de que o tempo é um factor muito relativo e que a vingança também cheira a borracha queimada.

Mas peão, provavelmente tu não entras numa série da TV e não és um mutante que caminha entre nós. Resta-te suspirar, dar graças por fazeres parte da metade menos imbecil desta relação e seguir o teu caminho olhando em frente. Mas tem cuidado, onde não há condutores, há cocó no passeio.

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