16.1.12

O problema da escrita sensível

Dentro do universo gigantesco da escrita, há para muitos o que se pode designar por “escrita sensível”. É um termo como outro qualquer, dos milhares que se inventam para rotular isto ou aquilo mas, no caso da “escrita sensível”, lida simplesmente com sentimentos e emoções.

Há quem diga que a poesia faz parte desse género mas, para os menos exigentes, pode ser toda e qualquer escrita cujo teor seja voltado para os temas que referi, embora por exemplo considere que escrever sobre cintas adelgaçantes pode ser um tema sensível, mesmo que não transmita grande emoção ou sentimento.

No entanto, o problema da escrita sensível não está no conteúdo, mas sim no seu autor, que as pessoas confundem muitas vezes com reflexo do que escreve. Nem toda a gente que escreve belos poemas ou dispõe com mestria emoções no papel é aquilo que se pode chamar “sensível”.
A verdade é que podem até ser autênticas bestas, mas com a facilidade de canalizar emoções através da escrita. Tudo bem que aquilo tem de vir de algum sítio, mas podem estar escondidas debaixo de diversas camadas insuportáveis que constituem a sua personalidade. Quem diz isto diz também o humor, já que por detrás do texto mais cómico pode estar o maior animal.

Eis um exemplo, cujo o resultado final não espelha de facto o cenário por trás dele:

Pediram-me um dia, no contexto profissional, que fizesse um pequeno texto inspirador, quiçá poético, que traduzisse a origem e trabalho de determinada instituição. Depois de orientar essas linhas, foi-me indicada a pessoa que deveria dar o “ok” final ao texto. Pseudo-engraçadinho, não me conhecia muito bem, mas acho que a sua posição me faria encaixar qualquer piadola que achasse por bem disparar.

“Então, o que te traz por aqui?”
“Tenho aqui para aprovar a introdução X, que é suposto ser inspiradora, a puxar ao sentimento, assim um textinho sensível”
“Ui, textinho sensível....” gesto gozão ”Se calhar foi por isso que pediram para tu o fazeres...”
“Epá, isso não sei, mas se calhar foi por isso que me pediram expressamente para o aprovar contigo....”

Depois de umas quantas Indirectas, provocações baratas e jogo de cintura, veio a aprovação e um texto que ficou realmente sensível. Ah, como são bonitos os caminhos da escrita.

2 comentários:

  1. Como ex-escritora (sim sim... a mesma que é ex-publicitária) também já passei por este tipo de pedidos textuais, entre outros. Mas, para designar este tipo de material, eu costuma perguntar: "querem portanto um textinho poético-pastoril, não é verdade?"

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  2. Não há nenhum problema em ter várias vozes interiores, desde que as mesmas não sejam violentas e nos incitem a actos perigosos.

    Algumas até podem ser valiosos aliados em termos de escrita ;)

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Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.