31.8.11

O monstro da minha rua

Ainda só se viam os primeiros raios da manhã e já o miúdo escolhia pedras no baldio ao fundo da rua com o mesmo afinco com que via a sua mãe a escolher a fruta. As que eram grandes demais para a sua mão não as levava, as pequenas também não, como se esperasse que estas ainda viessem a crescer até terem o tamanho certo. Com as mãos e os bolsos cheios, pôs-se ao caminho, com ar decidido de quem tinha uma missão a cumprir.

Ao pé do 23 chamou-o o Nélson da janela, amigo dos bancos da escola e das corridas de caricas que faziam em pistas desenhadas na terra, como se de carros se tratassem. “Onde vais?”. “Vou atirar pedras ao monstro, que ele ainda nos leva”. “Qual monstro?”. “Aquele das riscas azuis e dos olhos brilhantes...”. “A esse não conheço. É como aquele verde dos desenhos animados?”.

Olhou para Nélson e suspirou, pois eram da mesma idade mas parecia que ele é que lhe tinha que explicar tudo. Não se tratavam certamente de desenhos animados, um monstro daqueles era importante e era a sério, então se as pessoas tinham ido todas recebê-lo, até o presidente da junta, sempre com aquele ar de quem já está cansado antes de começar a fazer qualquer coisa e a camisa suada por cima daquela barriga enorme.

O monstro devia meter-lhes muito medo para o estarem a receber com a mesma pompa que ao S.Julião, o padroeiro lá da terra. Manteve-se ao longe nesse dia, apesar da insistência dos pais em que fosse com eles. Nos dias seguintes observou o monstro, ouvindo-o a arfar na subida mesmo antes de o conseguir ver, até ele surgir lá no alto, perto da igreja. Reluzente, olhos brilhantes, parecia olhá-lo antes de se lançar à descida da rua principal, que cruzava ao fundo com a sua.

Ele não devia ser o único a ter medo, mas não percebia a forma como os crescidos se entregavam sem dar luta. Junto à loja da Dona Glória, mesmo ao fundo da descida, todos os dias havia gente que ficava ali, hipnotizada, à espera que o monstro parasse e os engolisse um a um. 7.12 em ponto, todos os dias de manhã, lá estava ele, desaparecendo depois roncando alarvemente. E ao fim do dia, às 18.43 lá estava ele de novo, vomitando as pessoas que comera, porventura tirara-lhes só o que precisava, um bocadinho todos os dias, lançado-lhes um feitiço para que voltassem amanhã à mesma hora.

Era esperto o monstro, mas ele não lhe ficava atrás.

Quando ouviu a mãe no dia anterior dizer à noite que no dia seguinte tinha que estar em frente à Dona Glória às sete da manhã, percebeu que o monstro das riscas azuis e olhos brilhantes já a devia ter enfeitiçado. Não ia deixar que isso acontecesse, que a engolisse e cuspisse à sua vontade. O monstro ia ver que nem todos curvavam a cabeça naquela terra.

E era nisso que pensava quando subiu a rua, mãos e bolsos cheios de pedras. Ainda não eram sete da manhã e esperou, agachado atrás do muro onde punham sempre os cartazes da festa, mesmo depois do ponto mais alto. Passados alguns minutos, começou a ouvir um ronco distante, um burburinho que crescia ao mesmo ritmo que o seu coração acelerava e as suas mãos tremiam.

Em menos de um instante, o ronco do monstro tornou-se ensurdecedor e, conforme saía detrás do muro, apareceu ele, olhos sempre a brilhar, riscas azuis no focinho, parecia que sabia que ele ia estar ali. Hesitou um segundo, mas sabia que a sua mãe devia estar lá ao fundo e sabia o que ia acontecer se não fizesse nada. Antes do monstro arrancar para a descida, saltou-lhe ao caminho e atirou-lhe todas as pedras que tinha, algumas delas fê-lo com os olhos fechados mas, das que viu, uma delas deve ter cegado um dos olhos do monstro, que deixou de brilhar.

Correu.

Correu mais, rua abaixo e ouviu que o monstro arrancava no seu encalce, cada vez mais perto. Viu as pessoas junto à Dona Glória, a sua mãe de mãos na cabeça quando caiu no meio da rua, junto à paragem. O monstro deu um ronco, guinchou e parou mesmo atrás dele. Pelo meio de “Ai meu Deus” e outros santos da preferência dos presentes, toda a gente se calou quando a boca do monstro se abriu.

No meio do chão, joelho esfolado, sua mãe a agarrá-lo, sem uma pedra que fosse para a defender, engoliu em seco e engoliu novamente quando viu um homem sair de lá de dentro. Tinha um fato com riscas como as do monstro e os seus olhos pareciam brilhar tanto como aquele que ainda estava aberto na criatura. A sua voz não era um ronco, mas guinchava.

“Então o miúdo é maluco ou quê? A mandar pedras umas atrás das outras, parte-me o farol da camioneta e desata a correr rua abaixo???”

E foi assim que ele percebeu, com a ajuda de várias palmadas dos seus pais e um mês sem ir jogar à bola, que o monstro afinal trabalhava para a Rodoviária, que inaugurara carreira naquela semana na sua terra.

29.8.11

Devem pensar que andei com o Justino Bibe na escola


Sim senhor, está aí o regresso às aulas. E dizendo isto, está na hora de varrer os putos para a escola e esperar que, com alguma sorte e umas velinhas a N.Sra. dos Espera Lá A Ver Se Não Ando a Criar um Deliquente, um dia sai dali um puto que sabe escrever o nome sem ajuda e até vai fazer alguma coisa da vida.

Antes de mais, vou já meter a viola do moralista no saco, que eu sei perfeitamente que, em idade de escola, vale tudo (até arrancar dentes) para quem sinta a necessidade de se sentir integrado, especialmente agora que ainda me arrisco a ver o blog acusado bullying.

Mas, francamente, a grande cena do momento, a vedeta do material escolar é o Justin Bieber escarrapachado nas cenas todas? Mochila, caderno e o diabo a quatro?

Tudo bem, os putos são calões e dá trabalho cortar posters para colar nos cadernos e o Pato Donald e a Pequena Sereia são para um target mais jovem. Mas é uma espécie de penteado com um tonhó lá pegado por baixo que vai ser a referência? Um artista que, se é que ainda vai às aulas, dá lições às miúdas sobre amaciadores para o cabelo e responde à professora com rimas a falar no amor?

“Eu dou espectáculo com o material escolar Continente / Justin Bieber” é bonito. Tão bonito que já oiço crianças a chorarem de emoção quando lhes enfiarem a mochila do Justino pela cabeça abaixo.

Não façam isto às crianças pá. Já temos poucas em Portugal para arriscarmos desta maneira a que cresçam assim...

28.8.11

Secção de congelados

Decidi ir passar o fim do meu domingo ao Continente, porque assim o início da semana tem sempre outro estilo. Encontrei o Justin Bieber na secção de congelados e pareceu-me indeciso entre panadinhos de atum ou calamares congelados. Reparei que levava Champomy no cestinho.

Chocado, decidi que amanhã vou falar sobre isto.

27.8.11

Amigo, não se envolva com celofane

Eu sei amigo, há uma química misteriosa entre seres humanos e derivados do plástico, que os levam por vezes a envolverem-se perigosamente.


Sei também que, se estivéssemos em 1989, o amigo estaria no pico da sua forma, pleno de pujança e a dar cartas no que toca a proezas de índole física.


No entanto, o amigo perdoe-me a franqueza e estar a indicar-lhe isto mas o amigo está assim para o balofo. E, apesar da sua bicicleta ter um ar muito racing, parece que tem acelerado mais no garfo e na faca do que na pedaleira.


Por isso amigo, quando quiser mostrar ao seu filho que no seu tempo também era um grande maluco, certifique-se que está em condições para o fazer. Não desate a acelerar na bicicleta ao fim de um dia de trabalho, só para se picar com o miúdo. O facto de ter tempo para ir andar com ele já é um bom indicador que está no caminho certo e ele de certeza que lhe dá valor por isso.

Mas amigo, acima de tudo, não caia na tentação do celofane. Não olhe para o seu corpo e pense que vai recuperar 20 anos e 20 kgs em 2 horas. Não deixe que o celofane lhe conte histórias da carochinha enquanto o aperta por debaixo da camisola e o faz aquecer mais que um leitão em forno de lenha.

O celofane é, meu amigo, aquela miúda para a qual você já não tem pedalada. Vai desgastá-lo em dois tempos e deixá-lo a sentir-se mal, muito mal. Tão mal ao ponto de você quase desmaiar e deixar o seu miúdo com medo que seja a última vez que vai andar de bicicleta com ele. Ao ponto de ele ir procurar ajuda para si, porque está ali estendido na pista.

E amigo, todo o gosto que eu possa ter em ajudá-lo a recuperar vai reduzir-se consideravelmente quando eu vir o celofane e o seu ar comprometido. E tão depressa como parei de correr para o ajudar e lhe levantei as pernas, enquanto procurava algo para lhe dar energia, ficarei com vontade de lhe dar com um sapato na cabeça por vê-lo com esse malvado celofane.


Ganhe juízo amigo e vai ver que ganha anos de vida.



PS - Quem diz celofane, diz sacos do Pingo Doce ou do Continente.

25.8.11

O posto fronteiriço da parvoíce

Rara é a fronteira em que um lado da fronteira não conhece o que está do outro. Não é esse o caso da parvoíce e quando aqui falo em parvoíce, não é daquela parvoíce mais parva típica dos parvos que não sabem ser outra coisa. O que esta fronteira divide é a terra dos que abraçam o que a parvoíce da boa pode trazer à sua vida, da terra dos que acham a parvoíce pura e simplesmente uma perca de tempo. Uma coisa parva, digamos.

E nas terras da parvoíce os que lá estão riem-se sem saberem bem porquê, simplesmente pelo gozo de o poderem fazer enquanto para lá da fronteira, há quem oiça o riso sem perceber onde está a piada. E se o comportamento dos não parvos pode dar vontade de rir aos que estão do outro lado, por não perceberem porque é que as coisas têm de ser sempre assim para os outros, os que vêem os parvos não percebem como é que eles podem ser assim e isso dá-lhes tudo menos vontade de rir.

Nunca há a certeza se a razão assiste a qualquer um dos lados da fronteira. Existe apenas a certeza que a razão não conhece fronteiras, por mais parvas que elas possam parecer.

De malas na mão, pouso-as para olhar para o meu passaporte. A fronteira já ficou lá atrás e eu, que investi na viagem sem saber bem onde vou, vejo nisso uma vontade de rir.


24.8.11

As últimas horas de um bolo de aniversário

Naquele intervalo em que ainda não é bem dia, mas também já não é noite, o bolo de aniversário pensava sobre o seu destino. Feito de véspera para ficar prontinho logo pela manhã, pensava também na diferença entre si e um qualquer bolo comum, como aqueles que iam agora sendo depositados na vitrine que podia observar calmamente a partir da prateleira refrigerada em que se encontrava.

Ele tinha um destino, alguém esperava por ele. Já os outros, podiam esperar apenas que alguém os viesse a desejar e ele, mero bolo de aniversário, não sabia se isso era ou não melhor que a sua própria sorte. E se ele não fosse tudo o que o que esperavam dele? E se ele fosse o ponto mais baixo de um grande dia? E se ficasse para ali esquecido no prato, depois das chamadas fatias de cortesia terem seguido o seu caminho?

Não podia admiti-lo, não queria sequer pensar nisso. Só podia pensar num cenário de chegar, ser visto e desaparecer, no auge da festa, no culminar da comemoração. Ele não era um bolo normal, não dependia da sorte, das vontades, do prazer do momento. Era um profissional, um bolo criado para um fim e que não podia sequer dar-se ao luxo de duvidar de si mesmo, porque o que as pessoas perdoam ao comum dos bolos, cobram em demasia ao bolo que lhes ilumina o aniversário.

Só haverá outro para o ano, assim como houve outro no ano passado. Sentiu as mãos que pegavam nele, era manhã e o sol já raiava. Suspirou, o tempo passa a voar em dia de aniversário. Também era o seu dia. Viu a caixa em que iria ser transportado e olhou uma vez mais para a vitrine onde estavam os bolos comuns e pensou…

Mas ele era um bolo de aniversário e não havia tempo para pensar. Pensar era para bolos que passariam o dia a olhar através de uma montra. A esses o destino não exigia mais do que isso, enquanto a ele exigia tudo o resto. A caixa fechou-se e ele esperou que tudo fosse como ele esperava: um canto bonito, um sorriso aberto, uma faca que desce e ver a sua existência tornar-se rapidamente um momento na vida dos outros.

Afinal de contas, não sabia ser outra coisa que não um bolo de aniversário.

22.8.11

As vinhas da pequena ira

Entrei hoje numa casa de vinhos. Nada de muito gourmet, nada de muito pós moderno, era uma casa de vinhos e era de vinho que a visita se tratava, por isso tudo parecia estar nos conformes. Estou longe de ser um entendido em vinhos e, se por um motivo qualquer entendo querer comprar uma garrafa diferente do comum, procuro um especialista.

Acontece que, nos últimos tempos, a história da “casa de vinhos” e do apreciador de vinho tomou outras perspectivas. A pseudo massificação de entendidos, de provas e de gente que prova vinho em restaurantes com ar de entendido e diz sempre que está bom levou a que, em vários locais surjam lojas com bom aspecto e bons vinhos, mas em que o empregado/a percebe tanto daquilo como eu percebo de curling.

O dono da loja deve de facto ser alguém que percebe mas, como nunca está lá, fica o Ray Charles vinícola ao balcão para apontar o caminho aos clientes. E mesmo quem perceba tanto como eu, rapidamente tem a noção que alguma coisa ali é martelada.

Por isso, se forem a uma loja e a pessoa que vos atende diz que são todos “muito bons”, “vão esplendidamente com este tempo” e não vai mais longe do que vos poupar o trabalho de ler os rótulos e distinguir anos por ordem cronológica, então é porque vos vai ajudar tanto como um vegetariano no Chimarrão.

Quem percebe realmente e tem gosto por aconselhar os outros sobre vinhos fala deles como se lhes quisesse saltar para cima. Está tão apaixonado por aquilo que também é o seu trabalho, que quase que gosta mais das garrafas do que de nós. Por um instante esquece-se que aquilo é uma loja e temos que lhe dar um toque no ombro, porque já se faz tarde.

E é entre o negócio e a paixão que se vai fazendo a diferença.

Digo eu, que percebo pouco de vinhos.

As regras para responder ao clássico “Então, o que é que tens feito?”

A dada altura, já toda a gente ouviu esta pergunta milenar, até Jesus quando estava na cruz com os dois ladrões. Tirando um ou dois personagens que insistem em responder “Nada, compro tudo já feito”, a resposta depende sempre do trio de factores: conteúdo, tempo e interlocutor.

Se os três são positivos, então podemos ter ali conversa para uma hora.

Se há conteúdo e tempo, mas não há interlocutor de jeito, então qualquer coisa como “Ah, sabes como é” e duas ou três generalidades costumam servir.

Se há conteúdo e um interlocutor de jeito, mas não há tempo, a opção mais corriqueira é “Epá, nem imaginas. Depois conto-te tudo”. Normalmente, este depois transforma-se numa combinação em que existam os três factores positivos.

Se há tempo e um interlocutor decentes, mas não há conteúdo pode dar-se a grande inversão “Não se passa muito e tu, que tens feito?”.

Se só há tempo, mas não há conteúdo nem interlocutor à altura, normalmente desliga-se e uma dose de “Hum Hum, Han, Han” costumam dar para os gastos, enquanto o interlocutor faz as despesas.

Se só há conteúdo, mas não há tempo nem interlocutor de jeito, o normal é “Epá, nem imaginas. Depois conto-te tudo”. Normalmente, este depois transforma-se obviamente num nunca.

Se só há um interlocutor amistoso, mas não há sequer tempo ou conteúdo, é comum o uso de interjeições, caretas, semi-expressões e coisas que não querem dizer coisa nenhuma, mas permitem deixar os outros na dúvida.

Se os três são negativos então, a não ser que se trate da vossa apresentação periódica numa qualquer esquadra, não há motivo para haver conversa.

E quando vocês me perguntam a mim o que tenho feito, podem tentar adivinhar em qual das categorias se encaixa a minha resposta.

Olhem, vai-se andando e tenho andado a fazer isto.

17.8.11

É possível fazer um post sobre uma unha encravada?

É.

A unha entrou no consultório com as garras de fora.

“Sôr Dótor, não imagina o que me aconteceu...”

“Então não imagino. Tem um gajo encravado nas costas.”

“Nota-se assim tanto?”

“Sim, o gajo ainda é grandito...”

“Este tipo faz-me sofrer horrores. Não é pela estética sabe, é que é incomodativo ter um matacão destes sempre colado às costas.”

“Imagino...”

“Porquê, já lhe aconteceu o mesmo? Um gajo colado às costas?”

“Eeeeehrrr...não, não, isso não.”

“Ah, bem me parecia. Então e agora, o que é que eu faço? É que, de quando em vez o tipo dá-lhe para correr e eu tenho que ir atrás. E dá-me ideia que outro dia, quando me enfiou uma meia na cabeça foi para me arrastar para o concerto do Michael Bolton...”

“Bem, tem dores?”

“Não propriamente, mas é desconfortável, sinto-me observada e o tipo trata-me com os pés.”

“Só lhe resta esperar, é o meu conselho.”

“Esperar até quando? Até cair de podre?”

“Não, há-de ser uma separação amigável.”

“Tem a certeza? Olhe que o tipo já me ameaçou com um corta unhas...”

“Isso são fases, é como a lua. Vá lá descansada...

“Descansada e com um gajo às costas. Obrigadinho, sim.”

16.8.11

A cultura do “grande fim de semana”

Vivemos numa era da imagem e do imediato o que, só por si, comprova que não sou muito inteligente, pois insisto em lençóis de texto na net. No entanto, neste imediatismo de impacto qualquer cidadão que se preze tem de preparar, no domingo à noite, um report fantástico sobre o fim de semana de três dias que deverá ter gozado, se não quer ficar para trás no rating de coolness.

Ora eu, que nos últimos tempos não fui dotado de disponibilidade para regabofe de nomeada, sobra-me na arte do engodo eufemístico para criar uma espécie de realidade paralela. Mas, ao melhor estilo dos “making of” que estão tão na moda, eu vou dar-vos umas dicas sobre como fazer passar a imagem que, apesar não fazerem nada de especial, são pós-modernos quanto baste.

A realidade: Sexta à noite fui o último cliente a sair do Leroy Merlin.

O relato: Bem, na sexta que grande programa. Dei por mim num spot muito artesanal, aquilo estava de tal maneira que fui dos últimos a sair.

A realidade: Ainda não eram oito da manhã no sábado e já estava a correr 19kms Algés-Terreiro do Paço-Algés.

O relato: Sinto que as pessoas às vezes não têm contacto com a cidade que as envolve, nem sequer consigo mesmas. Por isso, às vezes gosto de deixar tudo para trás e ver o nascer do sol junto ao rio, enquanto procuro alcançar os meus pensamentos.

A realidade: Depois de dois dias a pintar uma casa inteira e ainda ter muito que fazer, dou por mim no feriado a almoçar no chão da sala e a conversar com um homem das obras.

O relato: Quantas vezes temos a oportunidade de irmos ter com pessoas com um trabalho real, no ambiente delas e sentir uma vivência tão diferente da nossa e com a qual podemos aprender? Não são tantas que não possamos dedicar um feriado a isso com um sorriso nos lábios e uma perna de frango nas mãos.

Isto são só exemplos, porque a vida é como é. Contudo, que seja a nossa imaginação (ou delírio) a ditar como ela parece ser.

12.8.11

Esta mulher sussurra-me ao ouvido todos os dias


E todos os dias eu tenho vontade de ir para cima dela com uma ceifeira debulhadora...

11.8.11

Neutral não é uma marca de supositórios

Existem muita teorias sobre neutralidade, mas tenho para mim que a minha é a mais interessante. A minha teoria divide em dois tipos, os chamados neutrais, segundo um criterioso método científico:

Tipo A – Os nhonhós do cocó – Nunca têm opinião, nunca têm preferência, nunca manifestam desacordo, evitam concordâncias evidentes, estão sempre com pézinhos de lã e por vezes é necessário pôr-lhes um espelho à frente para perceber se ainda respiram. Gostam muito da Suíça.

Tipo B – Kamikazes opinativos – São um espectáculo, apenas porque eu também sou assim às vezes. Não têm uma posição própria para poderem bater em todas as opiniões sobre qualquer assunto. Apartidários para malharem nos partidos todos, supra clubísticos para enfardarem na malta do futebol e por aí em diante. São uma espécie de Rambo, que não quer saber quem tem razão, quer apenas uma opinião à frente para lhe dar um enxerto à moda antiga. Não têm muitos amigos, porque ter amigos implica partilhar gostos e opiniões e isso estraga-lhes um bocado os treinos específicos. Se forem muito bons podem ser contratados para eventos e serões em família. Se forem muito maus, podem acabar como comentadores televisivos.

A verdade é que, ao contrário do Tipo A, que prefere tomar uma caixa de supositórios a ficar preso a uma opinão, o Tipo B tem opinião, mas é um bocado como os anarquistas cuja única regra é não ter regras, sendo que isso é uma regra que contraria a sua única regra. Mas, quem sou eu para opinar sobre isso.

10.8.11

Secção de Menagerie

Marcelino era insistente e cismava com a sua senhora para fazerem uma ménage à trois, uma “malange atrás” como ele dizia à sua maneira. Dona Felismina, mais conservadora, pouco entusiasta da maluqueira e que não tinha assim tão boas recordações de África, lá o ia fintando e mantendo a festarola em banho maria.

Mas Marcelino insistia.

E insistia.

E depois voltava a insistir.

E Felismina um dia acedeu.

À sua maneira.

Partiu-lhe uma perna com um malho e assim o juntou com duas canadianas.

É “Uma aventura” é, meus calões

Quando eu era miúdo lia os livros da colecção “Uma Aventura”. Já conhecia “Os cinco”, “Os sete” e outros derivados, mas é fácil gostarmos de algo que é feito em Portugal, com miúdos portugueses que vão a uma porrada de sítios e têm as aventuras que todos nós gostávamos de ter com essa idade.

Depois fui crescendo e, a dada altura, fui-me desinteressando um pouco da colecção. Ainda via “As aventuras” na prateleira das lojas, folheava uma ou outra, mas os nossos caminhos foram divergindo graças aos estudos, ao regabofe, ao típico “fazer porcaria” e a outro tipo de conteúdo literário, onde se incluíam até outros tipos de aventuras, protagonizadas por senhoras de pouca roupa em posições que exigiam muita ginástica.

Sempre soube que a colecção continuava e confesso que a dada altura comecei a ficar ligeiramente ressentido. Então eu, que tive de crescer, estudar e agora às vezes até tenho de fingir que trabalho não me posso dar ao luxo de viajar para destinos tipo Índia, Amazónia, Pólo Sul e o diabo a quatro e estes cinco pategos continuam por aí a laurear a pevide como se nada fosse?

Esta semana fui satisfazer a minha curiosidade mórbida e saber em que ponto estava a vidinha desta juventude. São quase 30 anos de aventuras, mais de 50 destinos e emprego, meios de subsistência e formação que se veja, nada. Os pais continuam a bancar, os madraços continuam a “estudar” e a coisa é tão boa que não se vê grande disposição para fazerem alguma coisa da vidinha.

É isto que queremos ensinar às crianças de hoje? Ah e tal, podes andar 30 anos a coçar a micose, que as coisas boas vão todas parar-te às mãozinhas? Se fingires que andas na escola podes andar mais tempo sem fazer nada de produtivo?

Não sei, só sei que o próximo título da colecção é “Uma aventura no sítio errado”. Cheira-me que é no mercado de trabalho...

9.8.11

Eu hoje não posso, ok? / Today i can´t, ok?

Anteriormente, costumava ir aos saldos de violência ali para os lados da Falagueira ou, se estivesse tudo já muito partido, para a Apelação, Cova da Moura ou Galinheiras. No entanto, este ano resolvi mimar-me a sério, vou só ali comprar um bastão de basebol e estou pronto para tirar a tarde nos saldos em Londres

8.8.11

Gente que anda pela rua a dar-nos música

Pessoas a andar na rua sempre deram azo a muita criatividade musical. E a verdade é que eu apareço disfarçado em cada um dos videoclips deste sortido com que vos presenteio, mostrando que há já muito que puxo os cordelinhos na indústria discográfica.

Ok, o último vídeo não é só na rua, mas possui uma qualidade e uma elegância intemporais.





Carta à Feira Popular (que o mais provável é nem saber ler)

Então, onde tens andado que nunca mais soube de ti? É que já não te vejo há tanto tempo que começo a suspeitar que te aconteceu o mesmo que à Maddie. Deram cabo de ti, arranjaram-se mil e duzentos culpados e, no final de contas, o certo é que não voltas a aparecer, pelo menos tal como eras antigamente.

E a mim, que estou muito longe de conseguir uma audiência com o Papa, resta-me este meio para chegar até ti. A verdade é que não é tanto por nós, que já tivemos o nosso tempo e eu já estou crescidinho, bastando-me recorrer à memória para arranjar referências lúdico-decadentes.

O que me custa é ver os putos de Lisboa a crescerem sem ti.

Saudosismo à parte, onde é que eles vão aprender que brincar com veículos motorizados lhes pode proporcionar uma carreira no Poço da Morte. Onde é que os pais hoje em dia podem mostrar aos filhos que há um lugar em que é possível combinar salões de jogos, póneis tristonhos e karts manhosos sem recorrer ao efeito de drogas?

E sabes bem que o Comboio Fantasma e o Comboio da Selva, com o gorila a revirar os olhos, sempre tinham horários mais regulares que a CP. Não me obrigues sequer a referir-te a comodidade que era ter corredores seguidos de mestres da sardinha a convidarem-nos para jantar, só para vomitar tudo depois no Polvo, no Ranger, nos baloiços ou em qualquer outra diversão que desafiasse as regras da segurança e do bom senso.

Onde é que um puto pode, nos dias que correm, manusear uma pressão de ar, uns dardos ou até uma espécie de bolas de meia para ganhar prémios tão fantásticos como um baralho de cartas, um porta chaves ou um peluche quase na reforma.

Bem sei que, na tua fase final, deixavas um bocado a desejar, em termos de apresentação, mas se isso fosse motivo para liquidação, o trânsito ia melhorar bastante em Lisboa e os transportes iriam ficar bem menos apinhados. Nem sequer tiveste direito a aparecer num dos programas da manhã na TV, a contar a tua história de caída em desgraça, a ver se sacavas umas coroas a um patrono.

Podes não saber, mas a noção de diversão para os miúdos de hoje começa a ficar tão deformada como os reflexos na Casa dos Espelhos e tu a ajudar à festa, porque te foste embora e nunca mais deste cavaco.

Se puderes, diz qualquer coisa ou aparece um dia destes, mas livra-te de vir com toda retocada ao ponto de não te reconhecer. (tirando aquela montanha russa ridícula que tinhas, que essa nem num lar de idosos assustava).

E manda um abraço aos “Três irmãos das farturas”. Sim, aos dois.

Fica bem.

7.8.11

Coisas que já não vou fazer no próximo fim de semana

Já houve quem um dia me chamasse visionário e, mesmo que todas as outras pessoas presentes nesse dia digam que o que me chamaram foi “otário”, eu ouvi visionário e ponto final. Prova dessa minha característica está um sem número de eventos que decidi que tivessem lugar já este fim de semana para não perturbarem os três dias de regabofe da próxima semana.

Incluem-se no lote dos referidos eventos:

Estampar parcialmente o carro na 6ª ao fim do dia, só para poder pôr em prática um truque que uma vez vi no MacGyver em que ele atou um pára choques a uma corda e segurou-o com os dentes só para impressionar um terrorista amblíope. Como não confio na minha dentição, optei por fazer o mesmo no limpa-vidros.

Ir jantar fora para me refazer do acidente e acabar por me juntar um grupo que gastou para cima de duas centenas de “aéreos” só em álcool. Lamentavelmente, a grande maioria foi numa deveras abichanada sangria.

Dormir 5 horas para depois ir fazer figura de urso em duas ou três avenidas movimentadas em Lisboa. Como se trata de um projecto secreto, teria que me matar a mim mesmo se revelasse o segredo e na terça já tenho pedicure marcada, por isso não me dá jeito. Pequena nota adicional: Uma senhora perguntou “É para a televisão?” e não apreciou devidamente a resposta “Não, é para a droga”.

Decidir deixar de fazer figura de parvo, pelo menos de forma tão evidente e mostrar que o pequeno trolha que vive dentro de mim também merece liberdade. Vai daí, toca de mostrar que na arte da pintura de tectos e sancas, este menino era capaz de pôr a Cristina a pensar duas vezes antes de entregar o trabalho da sua capela ao outro badameco italiano.

Bónus desta actividade toda: aprender termos como “selante aquoso”, “acabamento em meia esquadria” ou “betume acrílico”.

Ónus da mesma actividade: dois dias disto = ficar meio feito num molho de brócolos, tirando os dedos que continuam a teclar mais rápido do que o ritmo cerebral alcança.

5.8.11

Está uma pessoa escondida atrás de mim


Não há dúvida que sou um bocado parvo e este “um bocado” é fruto do optimismo de quem está agarrado por uma mão à beira do abismo da parvoíce e crê que é mais fácil subir do que cair. No entanto, quem por aqui já passou mais do que uma vez e teve a falta de bom senso necessária para voltar também já percebeu que não o escondo.

Há quem possa pensar, fruto da desconfiança natural da Internet, “Ah, isto é tudo um boneco, uma persona blogosférica onde o gajo extravasa tudo o que não lhe é permitido na vida como contabilista em Cernache do Bonjardim, membro do grupo coral e chefe de uma família onde 50% tende para a obesidade e os outros 50% têm problemas com o álcool, sendo que possivelmente estamos a falar de uma família composta por um só gajo”.

É uma desconfiança natural, já que durante alguns anos ponderei seriamente pegar nas malas e ir ser um contabilista anafado e amante da pinga nessa bela localidade de Cernache do Bonjardim. Mas depois, finalmente tive alta clínica e essa ideia passou-me.

Ficou-me, no entanto, o gosto por ser palavroso e ter uma mente pródiga para o disparate. O que não é necessariamente mau, se o soubermos enquadrar dentro do formato de vida normal o suficiente para não irmos ao Pingo Doce com umas cuecas na cabeça ou, se o fizermos, pelo menos termos a inteligência de não ir ao do nosso bairro. Mas também avanço já, quem me conhece sabe que não sou de começar logo a fazer palhaçadas. Pelo menos nos primeiros cinco minutos. Tirando aos sábados, quando faço animação em festas de crianças e lares de idosos. Gosto mais dos idosos, que as crianças tentam morder-me e a velhas ao menos só me tentam apalpar.

Resumindo, não disse nada de jeito. Mas isso também não é novidade, é o Ritual de lo Habitual. Tal como esta música, que era a única coisa que eu devia ter posto.


4.8.11

Escrever com erros é como os fritos

Alerta: isto é uma opinião. E parece que é pessoal.

Alerta 2: Banhos de sangue fazem mal no Verão.

Quis o destino, com umas quantas cacetadas da minha parte, que trabalhe numa área sem certezas absolutas, em que andar para a frente é obrigatório, mas em que o erro também faz parte do processo, nem sempre na típica vertente de “Eishh és tão burro” ou ainda “Eishh, já fizeste merda, estás lixado”.

Onde estou ninguém me dá bónus pelo simples facto de errar, mas aprendi a perspectivar este aspecto sem cair no extremismo do só há preto e branco e não há nada entre isso.

O facto é que, em muitos sítios, oiço e leio a condenação gravosa do erro na área da escrita, em especial do ortográfico, como sendo quase um factor de exclusão “Epá, coitado, é muito boa pessoa, mas parece que descobriram que dá erros a escrever...”. E a mim melindram-me determinismos absolutos.

Antes de mais, esclareça-se: se a tua profissão é escrever ou boa parte dela passa pela escrita, a tua margem para errar reduz-se brutalmente. Os olhos sobre o que escreves serão muitos mais e terás que ser particularmente brilhante para te desculparem o erro e esforçar-te mais para os evitar. No entanto, perante um poema arrebatador, uma história que nos agarra, um relato que nos envolve e por aí em diante, menosprezar o valor do total pela mesquinhez do erro ocasional é não saber onde está o que realmente interessa.

Errar não implica complacência com o erro. Não há nada que custe mais a alguém que tenha verdadeiro gosto por escrever do que descobrir que erra, mas pior é pensar que se é imune ao erro ou que se está acima de quem erra só porque “se escreve” (bem ou mal, isso é relativo).

Já conheci gente brilhante em termos de escrita, mas que dava alguns erros. Tinham, no entanto, a humildade (ou, pelo menos, a preocupação) de até pedir a outros para reverem o que tinha escrito, essencialmente porque sabiam que aquilo que escreviam não era apenas deles. Conheci também quem escrevesse sem mácula do ponto de vista ortográfico, mas não fosse capaz de passar nada mais do que palavras aos outros.

Se saímos do campo profissional, a história do erro ortográfico ganha para mim outra perspectiva. Um bom músico que dê erros nas letras que escreve não passa a ser piroso, um grande mestre de xadrez que escreva “chadrez” não deixa de poder ser um indivíduo brilhante e se o Cristiano Ronaldo escreve como um calhau, isso não o torna pior jogador. Se escrevessem melhor não lhes ficaria mal, mas fico-me pelo reparo.

Sei bem que escrever é algo que se ensina na escola e o português (independentemente do acordo ortográfico) é algo que devemos prezar. Mas também a matemática nos acompanha ao longo da vida e vejo muito poucas pedras a serem atiradas a quem não sabe sequer o básico da tabuada.

É óbvio que se juntamos conteúdos pouco interessantes (ex: posts chatos e longos como este) a uma pipa de erros ou se caímos no erro de tentar brilhar em palcos a que estamos pouco habituados, nos sujeitamos. Mas, se a coisa é lúdica e/ou pública, depende do ego de cada um saber como aceita críticas e o mesmo se aplica à consciência de quem assume o papel de crítico.

Já no comum da vida, admita-se o erro de escrita como se admitem os fritos. Não fazem bem, é cortar nisso o mais que possível mas aqui e ali, se a coisa souber bem, não é preciso abrir os portões do Inferno por causa disso.

Ursos que bebem


Há um determinado número de pessoas que vive segundo o princípio “Não preciso de álcool para me divertir”. Se não entrarmos no fanatismo, na intransigência ou na falta de amplitude mental que permita o convívio com pessoas que tenham uma posição diferente, esta é uma opção tão legítima como outra qualquer.

Agora, o que a mim me chateia é que muitos ursos na Ucrânia não têm sequer a possibilidade de escolher com quem vão para os copos.

3.8.11

Sopa de meia noite

No reino das coisas inventadas por mim, vive um cozinheiro que toda a gente inveja. No entanto, não possui um restaurante da moda, não é alvo das melhores críticas gastronómicas ou de recomendações da especialidade e nem sequer aparece muito na televisão.

Invejam-no porque faz receitas que ninguém mais sabe como fazer.

Uma dessas receitas é a sopa de meia noite, a qual na verdade é a sopa da meia noite e meia, dado o tempo de preparação. No entanto, descontando o preciosismo a verdade é que ele a faz como ninguém, nem que seja pelo facto de ninguém mais a fazer.

Tendo eu a clara vantagem de poder usufruir dos talentos dos personagens que crio, tomei a liberdade de lhe aparecer à porta ontem pelas onze e tal da noite. E ele abriu.

“Deixa-me adivinhar, vens pela sopa?”

“Sou assim tão óbvio?”

“Um bocadinho e o título do texto também ajuda...”

Entrei na cozinha e já cheirava ao que é suposto cheirar, quando entramos num espaço de alguém que sabe verdadeiramente cozinhar. “Diz-me lá, afinal de contas o que é que faz verdadeiramente a diferença na sopa de meia noite?”

Suspirou, enquanto vestia o casaco. “Vem comigo, já falta pouco para a meia noite e tenho de ir lá abaixo ao estacionamento”. Descemos e perguntei-lhe no elevador “Então, esqueceste-te de alguma coisa no carro?”. “Não, mas vou-te mostrar a resposta ao que me perguntaste”.

Chegados ao parque, sentia-se uma aragem própria daquelas noites de Verão que ainda são tímidas demais para se assumirem como tal. Alguns carros estacionados, muitos deles de alta cilindrada, mas o cozinheiro não se dirigiu a nenhum, ficou apenas a olhar para o relógio.

“Então, o que esperamos?”

“Shhhiu, falta pouco...”

“....sim, para a meia noite e depois?”

“Depois à meia noite vou buscar a abóbora. É ela que faz a diferença...”

“Abóbora? Mas tu estás doido?”

“Não e se estivesse era sinal que tu estarias, já que sou fruto da tua imaginação. Refiro-me à abóbora da sopa, que vem de um sítio muito especial - as carruagens das Cinderelas. É isso que faz a diferença”

Não disse nada, com medo que ele e por consequência eu, estivéssemos realmente apanhados do clima. Ele prosseguiu com a sua explicação.

“Cinderelas, na realidade, existem muitas e a história não é bem como a contam. Em vez de carruagens têm carros potentes e contentam-se com bem menos que um príncipe, mas o facto principal não muda. Se não voltam antes da meia noite, as aparências em que vivem esfumam-se e revela-se como são na realidade”.

“E como é que tens a certeza que não voltaram todas e cumpriram o horário?”

Sorriu-me com a paciência que um avô atura o neto que lhe pergunta se não podem levar o Sol para casa. “Há sempre quem se deslumbre e não cumpra. É da natureza humana deixar-se levar pelas aparências e pensar que as regras a nós não se aplicam. Queres ver…”

Conforme falava, comecei a ouvir um barulho estranho e quando voltei a olhar para o parque, vi ainda um jipe a encolher e transformar-se em abóbora e em dois ou três lugares já só se viam abóboras estacionadas. O cozinheiro levantou-se, enquanto eu tentava apanhar o meu queixo do chão e escolheu cuidosamente uma das abóboras.

Subimos, ele acabou a preparação e comemos uma magnífica sopa de meia noite, como só ele sabe fazer. Mais tarde quando desci, ouvi alguém chorar no parque de estacionamento, mas fiz de conta e fui para casa. Não se pode dar atenção a todos os personagens que criamos, senão ainda acabamos por nos tornar um deles.

2.8.11

500

Assusta-me a enormidade dos números grandes. De quem se escuda nas quantidades para impor respeito e assustar gente que, como eu, cai na normalidade de lidar com números normais no seu quotidiano.

Não é uma questão que vive unicamente do gigantismo de muitos dígitos, é o peso que se lhe dá o contexto.

“Foi um casamento com oitocentas pessoas”

“A tua prima pesa para ai 128kgs”

“Cheguei à praia e estavam lá para cima dez mil pessoas.”

“Vão ser despedidas cinco pessoas no mês que vem.”

“Discursou durante duas horas”

“Este sofá custou 3000€”

“Partiu-lhe sete dentes com uma marrada”

Educadamente, digiro os números que me servem, nas quantidades em que me desejam servir. Afinal de contas, o prazer é deles, a elegância é minha.

Assusto-me sem no entanto fazer dos números papões, porque os pobres do números não têm a culpa, há até quem os defina como simpáticos. Assusta sim quem os usa à bruta.

E hoje foi a minha vez de ser bruto, ao ver que cheguei às 500 páginas no documento Word em que guardo 99% das coisas que aqui publico.

“500” disse eu.

“Que animal” respondi-me.

E ao tentar voltar-me as costas a mim mesmo e não ligar muito ao que digo dei um jeito nas costas.

1.8.11

A matrioshka de rabo na boca

Na Internet existe muita coisa escondida.

Dentro dessa muita coisa existem os blogs.

Dentro dos blogs existem bloggers.

Dentro dos bloggers existe muita coisa que quer vir cá para fora.

Dentro do que quer vir cá para fora, existe de tudo.

Dentro do tudo, existem palavras.

Dentro dessas palavras existe a internet.

Dentro da internet existe muita coisa escondida...

Poupem-se horas de diversão e refira-se que, dentro das inúmeras palavras que compõem este blog, há uma combinação que parece constante para quem o procura nos últimos tempos: “buffet livre”.

Sirvam-se à vontade, é só o que posso dizer.