31.7.11

Nunca digas a esta conclusão não chegarei

Quis a vida que há lá fora que esta história que há cá dentro se prolongasse até ao fim da semana. Ainda assim, obrigadinho a todos os que contribuíram para a alucinação. E Jibóia, não desanimes, pode ser que recebas notícias no correio brevemente.

Del Xiesca disse... Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

E eu explico (relembrando que no falar e no andar, pelo meio pode estar o tropeçar):

A zebra não sabia o que queria e, não sabendo, ia querendo muita coisa. Queria por vezes ser ágil e mudar de ramo como ninguém e por isso fazia questão de ser vista a andar com macacos. Mas, rapidamente mudava de ideias e queria ser alta e elegante e, para esse efeito, nada melhor do que andar uns tempos com girafas. E como na selva não há nada que não se diga nem não se saiba, as coisas iam correndo conforme a zebra ia andando.

Quando queria que dissessem que nadava bem, andava com hipopótamos, se se sentia em mood pink, andava com flamingos e por uns ia trocando os outros, sem respeitar mais do que a sua vontade e o desejo de que falassem nela. Mas, fartava-se rapidamente e sabendo também que os outros se fartavam de estar sempre a falar de si, resolveu que estava na hora de andar com alguém realmente fora do comum, alguém que fizesse falarem da zebra como nunca tinham falado.

Confidenciou com uma preguiça, uma das poucas que ainda tinha pachorra para as suas andanças. “Estou a pensar andar com leão”. A outra nem queria acreditar, “Um leão?? Mas tu endoidaste de vez?”. A zebra tentou convencê-la que não, que era uma coisa bem pensada e que só assim, sendo vista com o rei da selva, falariam dela como a princesa que achava ser.

“Ó mulher, tu não te metas nisso, olha que bicharada como nós não anda com leões, anda à frente deles para as coisas não correrem mal....”

Não desejando ser vista a andar com a preguiça e muito menos estar para ali a ouvir conselhos que não lhe serviam, a zebra pôs o seu plano em marcha. E, num belo dia, qual não foi o espanto do leão quando, em passeio pela savana, deu por si a andar com uma zebra ao seu lado. Primeiro, pensou que fosse do calor ou que tivesse comido um bife estragado e tivesse com visões, mas depois olhou melhor e viu que a zebra lhe sorria e que, a uma distância segura, não faltavam animais de boca aberta.

“Olha...” começou ele em tom mansinho “...podes dizer-me a que devo o prazer da tua companhia?”

E a zebra sorriu, satisfeita por ver um leão tão educado “Ora, não és tu o rei da selva? Então está na hora de teres uma princesa ao teu lado”.

O leão deitou-se à sombra de uma árvore e a zebra sentou-se por perto. As coisas estavam a correr melhor do que ela pensava. O leão voltou a falar em tom mansinho “Uma princesa pois então...bem, suponho que a ocasião mereça um banquete a anunciar...” A zebra, toda ela inchada, pensava já no que diriam as manchetes das revistas sociais da selva.

“Parece-me muito be.....”

A zebra não teve tempo de acabar a frase, pois já vinda do nada surgira uma leoa que, sem hesitar, se lhe atirou ao pescoço e a trucidou em dois tempos. Foi a vez do leão esboçar um sorriso, que a leoa não retribuiu “Que queria esta cabra?”.

“Cabra? Não vês que é uma zebra?”, o tom era puro mel. “Não te faças de parvo, pelo menos já me adiantou o nosso jantar”. O leão levantou-se “Eu sei querida, já fazes tanto, senti que estava na altura de te dar um jantar de princesa”. E assim se serviram à vez da zebra, que passou de andar nas bocas do mundo, para andar na boca de um casal de felinos, sendo notícia pela última vez.

29.7.11

Como ficar pobre depois de ficar rico

Acaba hoje, mas começou antes de hoje.

‪Julie D´aiglemont disse...Mais vale rico e com saúde do que pobre e doente.

E eu explico (tendo em conta que a carreira de rico nem sempre tem boas saídas):

Manel nunca tinha sido muito esperto e, desde pequeno, nunca soube escolher as companhias. Por isso, rapidamente enveredou por uma carreira de pobreza e doença, para grande desgosto de sua mãezinha que não raras vezes lhe dizia. “Ah, Manelito, tu tens tanto potencial dentro de ti para ser rico e teres saúde e simplesmente não o queres aproveitar.”

Manel não ligava muito à sua mãe, porque sendo pobre não tinha dinheiro para carregar o telemóvel e, sendo doente, custava-lhe muito a falar. Mas, a verdade é que achava que pobre e doente era o que precisava para uma vida sem complicações, já que assim não tinha que se dar ao trabalho de trabalhar e fazer coisas tão chatas como comer ou até viver em vez de sobreviver.

Não percebendo porque é que tanta gente tentava não ser pobre e doente, Manel decidiu falar com outras pessoas nessa condição, para ver se compreendia. E foi aí que conheceu Maria, extremamente pobre, acentuadamente doente mas, ainda assim, bonita. E depois de a conhecer percebeu que, se não fosse pobre e doente Maria poderia ser ainda mais bonita e ele, sendo como era não a podia ajudar.

Nesse mesmo dia, despiu o seu fato de pobre e começou a fazer por ser rico e os resultados viram-se logo, pelo menos em termos de análises clínicas. Em pouco tempo já tinha uma situação estável e uma saúde equilibrada e não tardou até meter os papéis para novo rico. Respirava saúde e não se esqueceu de Maria, indo visitá-la num dos seus dias de folga de rico. Quando chegou aos cartões onde ela vivia, deteve-se a alguns metros, pensando em quem seria aquela criatura deslavada que tossia e fungava em roupas andrajosas no sítio onde devia estar Maria. Só depois percebeu que essa figura frágil e patética era a rapariga que outrora ele considerara bonita e pela qual mudara a sua vida. De facto, ele devia estar muito doente na altura para pensar isso.

E sem que ela notasse deu a volta e foi-se embora aliviado. O que não faltava por aí eram mulheres bonitas, ricas e saudáveis, tal como ele.

28.7.11

Ligeiro interlúdio musical

Porque às vezes sinto que não vos dou música de acordo com as vossas necessidades...

Fernando Mendes também é Natal

Por este andar, isto também acaba em Dezembro, mas começou há coisa de pouco tempo aqui.

Bem Visto disse...Chovendo em Novembro, Natal em Dezembro.

E eu explico (relembrando que existem diferenças entre juliano e gregoriano, mas também entre Celsius e Fahrenheit):

Sem que o consultassem, o velho das barbas e dos presentes tinha visto fixarem-lhe o domicílio na Finlândia. E, se no que diz respeito à vodka e ao salmão fumado não tinha queixas, o mesmo não se podia dizer em relação ao clima, que basicamente o deixava todo feito num molho de brócolos. Se o seu maior dia de trabalho era sempre o mesmo, bem o podiam ter colocado num sítio de temperatura mais amena que a Parvónia ou lá como se chamava aquilo.

Dirigindo-se à DGAN (Direcção Geral de Actividades Natalícias), lançou um ultimato: “Meus amigos, este ano é assim, eu que apanhe um pingo de chuva ou neve em Novembro e vão ver que para mim é Natal em Dezembro e vocês que se desenrasquem.” Mal ele saiu os responsáveis da DGAN encolheram os ombros, não era a primeira vez que quando serviam meia desfeita na cantina o velho lhes aparecia ali com filosofias e cheiro a pomada das antigas. O Natal em Dezembro, mas que grande novidade e chuva em Novembro, que outra coisa seria de esperar... E nada fizeram.

Chegados a 18 de Dezembro, no meio da azáfama tradicional, deram por falta do velho das barbas e dos presentes. Fez-se uma busca, não estava em casa, nem no bar, nem sequer na casa de duendas de Madame Lili. O pânico instalou-se e foram lançadas buscas mais exaustivas, que não resultaram em nada, até dia 23, altura em que foi recebido um postal com uma linda praia de areias brancas e uma imagem de Roberto Carlos sobreposta ao céu.

“Eu avisei, os meus bicos de papagaio fizeram o resto e agora vocês e as crianças e a porra do cheiro a bosta de rena que se lixem. Não volto tão cedo e se voltar, é só para a Claudomira obter nacionalidade da Latónia ou lá como é que isso se chama. Fiquem.”

O carimbo era de Natal e no Brasil não havia acordo de extradição para velhos de barbas que distribuem diferenças.


E lá tiveram que pôr uma barba falsa a um tipo que estava sempre pronto para um trabalho temporário, desde que houvesse catering ilimitado. E nesse ano muitas crianças ouviram gritar, na noite de 24 para 25, “Espectáculo”.

O génio brasileiro da lâmpada

Já faltou mais, mas ainda não acabou o que começou aqui

Viciante disse..."Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão"

E eu explico (sabendo que nem tudo o que é ladrão tem ouro):

“Conheces a história do Génio brasileiro?” Quem perguntava isto era um velho curvado, de pernas arqueadas e ar muito cansado que, ainda assim tinha aquele ar de quem não podia morrer enquanto não contasse mais uma história. E, dado que eu não conhecia tal personagem, pus-me a jeito.

Segurando numa lâmpada antiga, o velho sentou-se e contou que em tempos tinha sido o capitão de uma embarcação que percorria o Amazonas, levando encomendas e pessoas ao longo do rio. Certo dia, acolheu um indivíduo que carregava consigo um grande saco e não só era pouco falador, como tinha cara de quem não queria fazer amigos. Pagou em dinheiro e passava boa parte do tempo junto à parte traseira do barco, sempre de saco na mão , como se esperasse a chegada de alguém.

A curiosidade não mata apenas os gatos e a junção de saco e personagem intrigava o capitão. Numa noite de lua cheia, quando a hora já era avançada e só se ouvia o roncar dos passageiros, o capitão decidiu fazer algo que mais tarde se viria a arrepender. Aproximou-se do viajante, que ressonava alto e bom som e qual não foi o seu espanto ao encontrar o saco semi aberto. Com toda a cautela abriu-o mais um pouco e viu que estava cheio de peças valiosas, das mais diversas espécies, algumas delas ainda manchadas de sangue. No entanto, a que mais lhe chamou a atenção era uma lâmpada, que reluzia à luz do luar. Pensou e disse baixinho “Ladrão que rouba a ladrão, tem cem anos de perdão…” e levou-a consigo, deixando tudo o resto.

No dia seguinte, em que chegavam ao destino final, surpreendeu-o a mudança de atitude no viajante, que era agora afável e ria por tudo e por nada, mas ligou isso ao fim da viagem. Largados passageiros e carga, foi ver a sua lâmpada e quando entrou na cabine, surpreendeu-se ao ouvir o som de forró e uma figura misto de Carmen Miranda e Hércules.

“É isso aí capitão, ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de Pedrão. E gatinho, eu sou Pedrão, o génio a quem você vai satisfazer todos os desejos. Todjinhos ouviu…”. Era um génio brasileiro e a novela ia começar para nunca mais acabar…

Em tempo de guerra, não se limpam conclusões

Partindo daqui, logo percebem como isto chegou a este estado de sítio.

‪Sónia H. disse...Em tempo de guerra, qualquer buraco é trincheira.

E eu expiico (tomando por base que, em tempo de guerra, nem todo o buraco dá paz):

Tinha rebentado a guerra e, para além do inconveniente que isso se torna para quem não quer morrer antes de tempo, há a acrescer que as coisas ainda se complicam mais para um casalinho de soldados em início de vida. Já se sabe que a guerra encarece tudo e as pessoas levantam imensas questões por tudo e por nada, como se quisessem arranjar inimigos em todas as esquinas.

Mas, determinados a fazer as coisas resultar, este casal de soldados não estava pelos ajustes e não ia ser um conflito armado de larga escala que os iria deter na procura do seu ninho de amor. Assim, com a ajuda de um oficial imobiliário, começaram à procura da trincheira dos seus sonhos. No entanto, como tudo o que é feito entre casais, nem sempre é fácil achar uma concordância absoluta e, se um adorava uma trincheira nas colinas, já o outro queria uma com vista para o mar, mesmo que fosse só debruçado de lado e ao alcance da artilharia inimiga.

Juntando a isso, em tempo de guerra, o financiamento de uma trincheira, mesmo longe de zona central de batalha, agrava tudo em termos de câmbio. Não só não há cigarros, bebidas e posters de mulheres nuas em quantidades suficientes, como os proprietários de trincheiras querem fazer o máximo lucro possível sem sequer terem uma água da valeta disponível nos seus imóveis.

Já desesperados, o casal de soldados pediu ao oficial imobiliário para lhes arranjar algo que soubesse que se enquadrava nas suas possiblidades, pois dificilmente conseguiriam a perfeição que desejavam em termos de trincheira T Abaixo de Zero. E eis que, numa tarde em que a artilharia folgou foram ver um spot giríssimo ao pé de um bosque mas, lá chegados, detectaram um cheiro estranho à medida que se aproximavam.

O sacana tinha-os levado até uma vala comum. Mas, segundo ele, era uma vala comum com cachet. “Oiçam, fica a poucos minutos do vosso local de trabalho, a vizinhança é calmíssima e há gente mortinha por vir para aqui. E, vendo bem as coisas, vocês têm a vantagem de estar vivos”.

Olharam um para o outro, deram as mãos, sorriram e um deles disse antes de saltarem: “Olha, em tempo de guerra, todo o buraco é trincheira”.

27.7.11

Em casa de Mak, espeto de conclusões

Tudo começou aqui e sabe-se lá onde vai acabar.

‪Secretária de S. Jerónimo disse...

"Em casa de ferreiro, espeto de pau"

E eu explico (relembrando para não brincarem com fósforos em provérbios alheios):

Na casa daquele ferreiro, o único metal que havia era no som que saía dos headphones do seu filho. Não era um ferreiro qualquer e, sendo responsável entre outras coisas por artilhar todos os ninjas do país em termos de arsenal bélico, evitava ao máximo ter peças do seu trabalho a circular em sua casa. No entanto a sua esposa que, por diversas vezes, era também sua mulher e, menos frequentemente, desempenhava o papel de seu amor reclamava incessantemente por causa dos utensílios de cozinha e da falta que lhe faziam um bom conjunto de facas para amanhar o peixe e, quem sabe, poder tornar-se viúva.

Homem previdente, o nosso ferreiro tinha outros planos e contactou um marceneiro que, apesar de cantar no banho, não era Alfredo. Deu lhe instruções precisas para que replicasse toda a cutelaria normal de uma casa, mas em madeira e, assim que tivesse a primeira peça pronta, deveria dar-lha para ele ver como corriam as coisas lá em casa.

E assim chegou um conjunto de espetos de pau a casa do ferreiro. A mulher não reclamou, mas também não adorou e nessa noite, antes de adormecer, o ferreiro pensava em pôr o assunto para trás das costas e a mulher pensava se aquele assunto daria para espetar nas costas do ferreiro.

Acordaram ambos sobressaltados com o cheiro a queimado na casa. Desceram e viram que o incêndio já ia lesto na cozinha e o som a metal era intenso. Vinha do quarto do filho, onde este ouvia o último álbum dos HellFireDeathSorrow, entitulado “Burn your parents down”. Só lhes restava chamar os bombeiros e esperar o melhor, porque o pior já estava ali.

Sem casa, uniram-se na desgraça e todos os fins de semana, quando iam visitar o filho à Casa de N.Senhora dos Pirómanos com Salvação, pensavam suspirando “Foi preciso que os espetos de pau ardessem, para que o amor voltasse a casa do ferreiro”.

Cegos, olhos, reis e conclusões

Na sequência deste post, blá, blá, blá, etc e já sabem a história.

TLD disse...

"Em terra de cegos quem tem olho é rei"

E eu explico (e a questão territorial é sempre importante):

Terra de Cegos estava em festa, a vila estava toda enfeitada e naquela noite, o fogo de artifício organizado pelo rei tinha sido simplesmente fenomenal. Bem, pelos menos supunha-se que os enfeites eram bonitos e o barulho do fogo de artifício tinha sido de arromba, já que numa aldeia cujo nome derivava do facto de todos os habitantes menos um serem cegos, não havia forma de ver do que se tratavam efectivamente as festas da aldeia.

O presidente da junta, conhecido carinhosamente entre os habitantes como “Rei”, era o único que via de uma vista, mas disso não sabiam os restantes que o viam tão cego como eles. Quando tinha chegado à aldeia, pensara em aproveitar-se da situação e, ao início, assim fez, manipulado o sentido que tinha a mais que o fez chegar até ao seu cargo e poder decidir e beneficiar de várias coisas. Mas, com o tempo, afeiçoou-se às pessoas e, entre outras coisas, tentou dar-lhes algo mais que os fizesse sentir as alegrias de uma localidade comum.

Daí a festa, que nos primeiros anos, foi efectivamente tudo aquilo que os habitantes cegos pensavam que estava a ser. Só que, vendo a realidade e não havendo, o Rei não podia sonhar como os cegos e sabia que as latas e fitas que pendurava estavam longe dos cenários faustosos que lhes descrevia e que o fogo de artifício mais não era do que três colunas de som postas no topo da torre da igreja, que passavam sons de bombardeamentos a fingir de fogo de artifício. Mas, na sua infelicidade, sobrava a alegria de ver que em Terra de Cegos toda a gente parecia mais feliz com isso. Tirando ele.

Em Terra de Cegos ele tinha efectivamente olho e era o “Rei”. Mas, trocaria de bom grado o posto, por pelo simples prazer de fechar os olhos e poder sonhar como aqueles que viam o mundo com outros olhos.

Quem se mete em conclusões, mete-se em trabalhões.

Na sequência deste post, Mak serve cultura mas sem talheres, que é para ninguém fazer confusão.

‪Orquídea Selvagem disse... Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!


E eu explico (a ausência de letras capitais pode ser lastimosa, apesar do valter hugo mãe discordar):

Há já algum que o dono da loja tinha tido aquela que ele considerava ser uma ideia brilhante. Se o centro comercial tinha uma cascata na rotunda onde afluía a maior parte das pessoas, porque não mudar a sua loja para esse spot e aumentar assim a clientela. Ninguém o apoiava nessa ideia e muitos eram até os que lhe tentavam demonstrar que aquilo tinha pouco de brilhante e podia dar mau resultado se fosse em frente.

Mas, como todos os donos de qualquer coisa, há uma vozinha no seu cérebro, por mais diminuto que seja, que lhes diz “Tu és o dono, tu podes fazer o que quiseres, tu és empreendedor, dinâmico e as tuas ideias têm tudo para bater certo”. E foi assim que, numa espécie de quase-maravilha do design aquitectónico (sem “r”), que mesmo debaixo da cascata, nasceu a primeira loja Pedra Dura debaixo de água.

No entanto, apesar do empreendedorismo, o dono da loja era forreta e poupou no investimento, optando por materiais mais baratos e subvertendo algumas regras de segurança. Não demorou muito até que toda aquela água causasse estragos, ainda que mínimos mas o dono da loja cego pelo ego inchado que elogios de trazer por casa e mais clientes conferiam, nada fez. Até que, no primeiro aniversário da loja, se deu a tragédia e o site do Correio da Manhã foi o primeiro a noticiá-la.

“Água mole em loja Pedra Dura, tanto lhe deu até que furou.”

E, a partir daí, em todos os negócios que o dono da loja se meteu, os mesmos meteram água.

Blog onde não há conclusão, todos comentam e ninguém tem razão

Na sequência deste post, Mak serve cultura, mas sem talheres que assim ninguém faz confusão.

‪Kepp calm and carry on disse...cadelas apressadas parem os cães cegos

E eu explico (a duplicidade do verbo parar é, por vezes, enganadora):

Naquela cidade, era difícil apanhar uma cadela. E, sendo uma cidade onde se valorizavam muito as cadelas, a vida não era fácil especialmente para quem era cão. Fartos de as verem de um lado para o outro sem nunca as apanharem, os cães, que tinham tanto de empenhados como de desequilibrados emocionalmente tomaram uma decisão dramática – decidiram cegar-se para pôr fim ao seu tormento.

Não resultou, porque só se aperceberam depois que era do olfacto que dependiam mais e, sendo assim, correram também eles, mas em direcção ao precipício mais próximo para pôr fim à sua miséria. Estavam quase a chegar lá, quando alguém (posso ser eu) gritou para as cadelas que iam a correr ali perto “Suas cadelas apressadas, parem os cães cegos”. E, pela primeira vez na vida elas ouviram alguém para além de si próprias, e correram a salvar os cães.

Certamente que esta história tem uma moral algures, mas de certeza que tem estupidez em maior quantidade.


(processando mais)

26.7.11

Dou-vos histórias doces em troca de provérbios salgados

Na realidade este título não faz sentido, mas não queria que alguma vez se dissesse que este blog nunca homenageou a Lena D’Água. O que se passa é muito simples, a silly season já está lançada e eu confesso que só me tenho sentido silly a meio gás, enquanto o mundo caminha a passos largos para o silly absoluto.

Assim, para me redimir a ideia não é complicada: podem deixar nesta caixa de comentários, provérbios da vossa escolha pelos quais sempre tenham nutrido um carinho especial e que sejam conhecidos por mais do que duas pessoas da vossa rua.

A partir deles, eu explico como é que esse provérbio surgiu, numa pequena história plena de cultura popular e veracidade, sendo que o prazo de saída das histórias depende da participação/disponibilidade. Para evitar que eu escreva os Lusíadas, limita-se a 1 provérbio por pessoa e os anónimos ficam dependentes da minha boa vontade.

Exemplo do Mak: Quem o alheio veste, na praça o despe.

José Manuel Alheio era um costureiro de renome. As suas peças deslumbravam em qualquer passerelle e, de vedetas internacionais a figuras proeminentes, não havia quem não quisesse ter algo do Alheio. Mas, José Manuel ocultava um segredo, era filho de uma peixeira e tinha tanta vergonha disso que quase ninguém sabia desse facto. No entanto, inseria sempre nas suas peças um apontamento de peixe, fossem escamas reais ou espinhas de peixe para, mesmo que de modo oculto, honrar as suas origens.

Consumido pelo remors, disfarçou-se e, um dia, visitou a praça onde a sua mãe trabalhava e, entre choro e cheiro a corvina fresca, revelou-lhe esse facto.

Mal sabia o pobre Alheio que também era alvo das escutas do News of the World e, no dia a seguir, o mundo sabia da peixeira por detrás de José Manuel e da história das escamas de peixe. Muito depressa caiu o Alheio em desgraça e, quem antes vestia as suas peças, rapidamente as despiu, havendo quem se desse ao requinte de malvadez de enviar os vestidos para a praça onde a sua mãe trabalhava.

O Alheio sobrevive hoje à conta dos amigos.

25.7.11

O cavalheiro importa-se que lhe parta a boca toda

Num mundo a sério, a porrada não teria que ser sinónimo de má educação. Sangue sim, custos dentários agravados também, mas palavreado grosseirão é que não, já que a imaginação tende a ser escassa em momentos de maior tensão e acabamos por testemunhar o desfiar do mesmo lote de insultos rotineiros do costume.

A - “O senhor permita-me o comentário, mas tendo na sua progenitora uma meretriz, não podia esperar de si outra atitude.”

B - “Mas por quem é meu caro acrescento-lhe até, antes de agraciar o seu nariz com uma dedicada cabeçada, que a sua cara metade não tem comigo essa atitude quando a vou deixar a casa.”

A – “Correndo o risco de agrupar todos os seus familiares no mesmo grupo suíno, posso dizer que o seu comentário não me ofende, porque sei que do chiqueiro só emana um tipo de fragrância. Mas tal consideração não me vai impedir de dar aos seus testículos outra perspectiva do interior do seu corpo”.

B – “Compreendo perfeitamente a sua ansiedade por entrar em contacto com zonas do corpo que porventura desconhece em si mesmo mas permita-me sugerir, meu caro portador de toda e qualquer doença venérea conhecida da Humanidade que vá gratificar cavalos com muito carinho.”

A – “Permita-me encurtar a nossa argumentação, pois tenho apenas mais 15 minutos para chegar ao trabalho. Posso começar-lhe a partir-lhe a boca toda sem mais demoras?”

B – “Pode certamente tentar, mas terei todo o gostro em retribuir-lhe com um enxerto de porrada da melhor colheita, que guardo sempre para momentos especiais.”

A – Ora essa, vamos a isso.

24.7.11

A universidade da opinião vs A universalidade da opinião

Passando à frente de bonitos floreados verbais que acabam em “cada um tem a sua”, “cada um usa a sua como quer” ou “todos têm uma”, no que às trocas de opinião diz respeito a minha qualidade de esgrimista retórico leva-me a ter três regras básicas para entrar em qualquer tipo de contenda do género:

Nunca discuto com mega entendidos em música, gurus da política, mestres do assunto sentimental, fanáticos da bola e por aí em diante, sobre assuntos que tenham que ver com a área da sua teórica sapiência. Poupa-se tempo e paciência, pois raramente uma troca de opiniões com alguém que se julga num plano superior ao nosso resulta em mais do que lições de um lado e bocejos do outro. No entanto, cruzar áreas e, por exemplo, discutir assuntos sentimentais com fanáticos da bola pode levar a um universo metafórico muito interessante.

Utilizo o sarcasmo, a ironia, o toque acutilantemente viperino e ainda assim elegante, o gracejo de circunstância, o aparte amenizador com a devida ponderação, em função do grau a que quero que me levem a sério. O que, para quem tem pequenos palhaços a viver dentro de si, pode parecer difícil mas é essencial para que as pessoas se dignem a debater connosco o que quer que seja e levar-nos (ou não) a sério. A linha de fronteira é tenue, mas audazes e bem sucedidos são os que caminham sobre ela com destreza. (não sei o que isto quer dizer, mas aposto que se metesse aqui à frente o nome de um sábio chinês fazia logo sentido).

Finalmente, não prolongo trocas de opiniões com pessoas que usam o tom de voz como barítono da sua razão. Gente que eleva a voz e fala alto para passar certeza e sapiência nas suas palavras, têm para mim uma semelhança evidente com um cãozinho que levanta a pata e mija numa parede. Sei perfeitamente o que é o entusiasmo e o calor numa troca de opiniões, mas sei também o que é a histeria latente de quem se preocupa a dar mais força à sua voz do que aos seus argumentos e grita para tentar vencer a própria surdez. Já terminei debates com pessoas assim, simulando ter um comando na mão e estar a baixar o som, dizendo “Está avariado, o som não baixa”.

O argumento foi parvo, a reacção foi engraçada e o debate acabou ali.

22.7.11

A ciência de jogar raquetas na praia.

Lembrava-se ao pormenor do seu sonho do ténis, talvez também porque o tinha sonhado tantas vezes acordado. O barulho da multidão, o sol tímido que se espalhava pelas bancadas repletas de Wimbledon. O ponto decisivo que, sozinho, silenciava tudo de um momento para o outro e deixava milhares de rostos focado neles na antecipação do que se iria passar.

Bateu a bola no chão, uma, duas, três vezes e preparou-se para servir. A bola que subiu tinha lá dentro tudo aquilo que ele deixara para trás para chegar ali e, no milésimo de segundo em que olhou para ela lá no alto, concentraram-se anos de treino, horas de glória, momentos de tristeza e decisões que não se repetiam.

Com a rapidez de um disparo de bala, lá vai a bola, projectada com toda a força rumo ao futuro e ao ponto decisivo.

O cheiro da relva não era novidade, havia até quem já não desse por ele, mas não deixava sempre de o seduzir. Mas, o facto é que nunca pensava nisso durante os pontos, pensava unicamente no jogo, por isso naquele dia havia algo de diferente.

Meio segundo de distracção, foi só o que foi preciso. Quando se apercebeu, já a bola estava do seu lado, colocada em jeito de amortie. Lançou-se em corrida, vendo-a bater suavemente na relva junto à rede. Mergulhou, de braços esticados, e fez o último esforço para a conseguir devolver a tempo.

Sentiu o impacto do seu corpo no solo e a relva junto ao seu rosto e foi aí que a gaivota....

A gaivota?

Sentiu areia na boca e uma onde veio bater-lhe suavemente nos pés.

Suspirou.

Wimbledon voltou a ser o Costa da Caparica.

A bola voltou a ser cor de rosa choque e a raquete de madeira.

Sacudindo a areia, sorriu e disse “É na próxima que chegamos aos 400”.

Pensou no cheiro a relva e bateu a bola. Afinal de contas, ainda tinha tudo para ser um dos melhores do mundo a jogar raquetas na praia.

21.7.11

Petição para a proibição de mulheres italianas em paragens de autocarro nacionais.

Não sendo propriamente um gigantone, a minha altura deve, no entanto, servir como farol de referência para estrangeiros que visitam Lisboa. Não é rara a vez em que me detenha em zona turística ou, pelo menos, central sem que não seja abordado para me pedirem indicações.

Ora eu tenho um problema (para além dos outros que vocês já detectaram por aqui) e que passa pela combinação entre ser um jovem solícito e prestável e conhecer bastante bem a cidade e a rede de transportes. Não sendo esse o problema, este surge da minha incapacidade de dizer “Não sei” ao turista que me pergunta onde é X ou Y, mesmo quando efectivamente não faço puto de ideia do que ele está a falar.

Como tal, quando desconheço o destino concreto ou o transporte exacto não deixo de aconselhar irem por ali ou passarem por acolá. Na maior parte dos casos, tenho a noção de que pelo menos os deixei na direcção correcta, nos outros seria preciso muito azar para os voltar a ver e me dar ao trabalho de me sentir envergonhado pelas indicações de trampa.

Contudo, não foi isso que se passou neste caso em que, estando eu já ligeiramente atrasado, resolvo apanhar um autocarro para o meu destino. Espero uns minutos, naquela paragem só parava um que me servia e eis que me aparece uma turista italiana, com pinta daquelas que são escolhidas para apresentar programas na RAI.

Dirige-se a mim, quase que sou acotovelado por um cidadão sénior que me tenta desviar do caminho a ver se ela altera a rota mas ela, simpatiquíssima, num italiano meio inglês, meio espanhol, diz que já tinho ido ali e vindo de acolá e agora queria “Campo Pequeno, per favore”. Com igual simpatia, falo-lhe da Praça de Touros e na possiblidade de a seguir ir ao Parque Eduardo VII e que de facto está com sorte, visto que o autocarro que lá passa está a chegar.

Grazie mille, és o maior, entra, acena, manda um ciao e uma beijoca e lá fico eu na paragem a acenar e a ver o autocarro ir embora. Autocarro esse que também era o único que me servia, coisa que só me acorreu quando a sensação de bom samaritano passou e se instalou a ligeira noção que um gajo às vezes pode ser um bocado patego.

O tempo a mim...é uma cena que não me assiste

Há já alguns dias que este vídeo me acompanha na falta de tempo para quase tudo, tirando para aquilo que me rouba o tempo todo. E eu, que sou dado a estas coisas do humor de trazer por casa não me posso deixar de maravilhar com um fenómeno que lida com a simplicidade universal do humor na forma básica. E ainda estamos só no início.


Uma pessoa que cai.

Melhor ainda, um gordo que cai.

Melhor ainda, não é um gordo qualquer, tem bigode, pinta de personagem e uma selecção de expressões a condizer.

A antecipação da desgraça prolonga-se por uns instantes e de repente “eeeeeaharrharr” e lá vai ele rumo ao estrelato dos nossos dias.

Esqueçam as fórmulas fabricadas para social media, vídeos virais e o camandro. Junte-se um Hélio Imaginário no skate, um Guedes, um ciclista e um carro em sentido contrário e coisa rula em Caldas power.

O medo pode ser uma cena que não lhe assiste, mas felizmente, para bem dos meus pecados, eu já assisti umas quantas vezes.


18.7.11

A low cost das viagens no tempo

Toda a gente sabe que viagens no tempo é coisa de ficção científica, pelo menos na versão, “Ah, vamos só enfiar aqui um fatinho de lycra especial, entrar numa máquina, voltar a 1977 e perceber se afinal o Elvis morreu mesmo ou não”. Mas, no entanto, no nosso dia-a-dia a maior parte de nós tem ao seu dispor a versão low cost da viagem no tempo: a memória pessoal.

Seja ela espontânea ou auxiliada (uma foto, uma pessoa que se encontra, um filho que até ao momento desconhecíamos), a viagem no tempo via memória por norma está disponível nas versões básicas: conforto (uma pessoa sabe ao que vai), aventura (não te lembras bem, vais te lembrando aos poucos, sem noção exacta do que a memória te reservou) ou surpresa (não fazes a mínima ideia onde foste parar até começares a escavar).

Os mais snobes, a este nível, poderão queixar-se da impossibilidade, via memória, de viajar no tempo para além da vivência pessoal. Mas, num mercado concorrencial, é preciso ver que essa opção está disponível através do sector de sonhos e fantasias e misturar estes universos só contribui para sairmos do universo da balela escrita para o da insanidade comprovada.

Já a impossibilidade de mudar o passado é, para mim, uma vantagem da low cost das viagens no tempo. É certo que não nos orgulhamos de alguns penteados e aquela vez em que apedrejámos o nosso melhor amigo continuar a manter um misto de diversão e vergonha. No entanto, são experiências assim que redobram o gozo deste tipo de viagens, para além das óbvias memórias de fins de tarde à beira mar e a aquela história do primeiro beijo (ou mini-mercado) roubado.

E caso algo corra mal, como sempre no caso das low costs, a culpa não é da memória mas sim da bagagem dos utentes, que nem sempre chega lá nas condições devidas.

17.7.11

Encontrei o Harry Potter na praia

Estava eu na praia mesmo quase a sair para voltar a Lisboa e lá chegou mais um gajo montado numa vassoura. Apesar de não seguir a saga, fiquei surpreendido ao reconhecer o Harry Potter mas, acima de tudo, surpreendeu-me a forma como, segundo ele, tudo acaba.

Deve ser uma cena de magia moderna...




16.7.11

Actividades de fim de semana intelectualmente recompensantes


É bem provável que, por esta altura, eu esteja a fazer isto pela 63ª vez, do total de 127 repetições previstas para o fim de semana.

Não sendo ballet, nem sequer uma comédia de sonho numa noite de Verão, questionar-se-à o leitor: o que há de intelectualmente recompensante nesta imagem?

Pela primeira vez, desde há algum tempo, está a ver um gordo sem ver a Júlia Pinheiro atrelada.

E pronto, se isso ajudar, farei uma bomba em honra de Don DeLillo e outra ao estilo de Kierkegaard.

15.7.11

Chamem-me turista à paisana ou chamem-me parvo

Há quem se queixe de que nunca vai a lado nenhum, eu queixo-me de o lado nenhum nunca vem ter comigo. Tirando o facto óbvio que este tipo de frases faz de mim um bocado parvo, há uma lógica nesta afirmação.

Apesar de já ter viajado por alguns lugares exóticos não começados pela palavra Brandoa, de quando em vez, gosto de ser turista na minha própria cidade, Lisboa. Não quer isto dizer que isso implique andar por aí com uma meia marota debaixo da sandália matreira ou ser gamado no eléctrico 28, mas sim beneficiar do que um turista beneficia, tirando de cima aquela capa de normalidade que tende a fazer parte da rotina do quotidiano.

Pelo menos 2 dias por ano Mak, o local dá lugar a Mak, o turista. Não se trata apenas da ida ao museu ou ir ao jardim, trata-se do tratamento completo que inclui ficar alojado fora de casa sem ser no esquema regabofe-moteliano ou “vá para fora cá dentro da casa do amigo/familiar que o acolheu bêbado”.

Nesses dias, sem também cair no exagero do Sheraton, Mak consulta sites estrangeiros que falam sobre Lisboa, fala de si na terceira pessoa e descobre muitas vezes coisas que gente que vive a vida inteira na cidade nem desconfia. Ainda há menos de uma semana, quando comemorei parte da efeméride “Mak turista na sua própria terra” ouvi de um recepcionista espantado – “Caramba, é a primeira vez que por cá me aparece um português de férias, ainda por cima de Lisboa”. Fiquei na dúvida sobre a qualidade do “ainda por cima”. Mas, entrar num autocarro sem grande preocupação onde vais sair (evitando no entanto destinos como “Galinheiras” ou “Musgueira”), descobrindo que há museus que servem refeições em esplanadas voltadas para o rio e por aí em diante.

Em tempos de crise pode não ser fácil, mas recomendo vivamente, nem que seja pela fuga da rotina e pelas novas perspectivas a ver as mesmas coisas de sempre. Se as pessoas são capazes de fazer isso na Internet, com personagens bloguísticas de nível duvidoso, não custa nada fazê-lo na rua.

E, quando acabarem, tiram a fatiota de turista e, mal acordam no dia seguinte, podem começar a dizer mal daquilo que no dia anterior nem deram por isso.


Ah e se não me quiserem chamar parvo, chamem-me Arlindo. Não é bonito, mas acaba bem.

14.7.11

Porque é que tens uns textos tão grandes?

É para me ver melhor. (versão egocêntrica)

É para vos ver melhor (versão altruísta ligeiramente de Lobo Mau)

É para ver o mundo melhor (versão panorâmica a la Isaac Newton)

É T (versão Spielberg-idiótica)

É por isso mesmo (versão determinista)

É pura sorte (versão Match Point)


É tarde, mas é sempre cedo demais avançar com explicações que só farão sentido quando se puder dá-las fumando cachimbo e com uma vasta obra em seu nome na prateleira atrás de nós.

13.7.11

Menos de 50 comentários de gajas é derrota

E, com este vídeo, o tráfego deste blog aumentará em 5000%, através do poderoso insight “gatinho fofinho e irresistível”. Como tinha a sensibilidade penhorada, comprei o gato no AC Santos que, seja como for, já ia fechar de qualquer maneira no final desta semana.


Ah, cavalheiros sensíveis também contam para estatística...

Aquela história de um gajo ser aquilo que come...

Comigo não é bem assim.

Creio que sou mais aquilo que escrevo, por mais estranho que isso pareça de engolir.

Deve ser por me rever mais no conteúdo da minha escrita do que no do meu estômago.

12.7.11

Jantar romântico para 2...zombies

O ambiente estava um bocado morto, mas isso não era propriamente surpreendente num jantar romântico entre zombies, já que era o momento em si que surpreendia. Afinal de contas, essa história dos apocalipses zombies, que remete apenas para sangue, horror e a devastação da raça humana, esquece que apesar de tecnicamente morto um zombie ainda tem, salvo acidente, um coração lá dentro.

E onde há coração, mesmo que falte vida, há espaço para o amor.

E era isso que ele sentia quando a olhava no olho bom, ou melhor, o que restava depois daquele incidente com aquele grupo de chineses que se tinha escondido no bazar. No entanto, ela não estava pelos ajustes.

“Eu bem te disse que não me apetecia chinês...que linda figura a minha...”

Ele sorriu, tentando que o maxilar não descaísse ainda mais. Pegou no braço que tinha pousado sobre a mesa e passou-lho carinhosamente pelos fiapos de cabelo.

“Desculpa, não me lembrei que nestas lojas do chinês, até enxadas e picaretas eles têm. Mas, continuas linda e sabes como é, em terra de zombies, até só com um olho podes ser raínha.”

“Posso ser lenta mas não sou parva” , quando estava assim ela provava que a teimosia nunca morre, “Às vezes parece que queres mesmo que perca a cabeça e sabes bem que, se isso acontecer, não há volta atrás”.

Claro que sabia, afinal de contas foi preciso ver boa parte dos amigos decapitados por aqueles arrogantezinhos que pensam que só porque têm sangue a correr nas veias são mais que os outros, para percer que um zombie pode perder tudo, menos a cabeça.

E era por isso que levava a vida com muita calma, passo a passo, evitando o máximo contacto com “os vivos”, tirando à hora das refeições. Mas, quando a conheceu, naquele dia em que os zombies finalmente entraram no Colombo, deu por si a ser menos cauteloso. Pelo meio dos gritos, dos disparos e das chamas, só tinha olhos para aquela morena ligeiramente carbonizada, uma musa com a perna de um funcionário das bilheteiras na boca.

Tinha-se arrastado com ligeireza na sua direcção quando percebeu que ela olhava para si. Ao chegar mais perto, percebeu que não era bem para si que ela olhava, mas para um ponto ligeiramente atrás do sítio onde ele se encontrava. Voltou-se, com cuidado para não interromper uma família de zombies que almoçava uma refeição light de meninas da Parfois e percebeu o que lhe chamava a atenção, um grupo de teenagers balofos que fugia do McDonalds, tentando chegar às escadas rolantes.

Num impulso, deixou-se cair para o patamar inferior e, ao cair, percebeu que aquele barulho de costelas e ossos a partir lhe iam dar um andar novo. No entanto, isso permitiu-lhe chegar primeiro que os gordos ao fundo das escadas. Dois deles estavam muito ofegantes, tentando recuperar a respiração e, aproveitando a sua desatenção, aproximou-se por trás das escadas e, numa lentidão que quase parecia rápida, puxou o mais anafado pelos cabelos. O outro gritou, mas pôs-se em fuga, para desespero do que esbracejava e lhe pedia ajuda. Duas dentadas na carótida mais tarde a coisa acalmou e foi aí que ele a procurou, apenas para a encontrar a rastejar já no patamar inferior, depois de se ter deixado cair também – de facto, as miúdas zombies ficam muito sexy quando rastejam com apetite.

Apesar das refeições entre zombies nem sempre serem civilizadas, a atracção faz milagres. Convidou-a a provar o gordo, deixou-a servir-se primeiro dos orgãos internos e ainda, em jeito de brincadeirinha, foi à Paco Martinez buscar uma mala para pôr o coração do jantar lá dentro para ela levar.

Foi aí que se conheceram e, seis meses mais tarde, ainda estavam juntos. Mas, era cada vez mais difícil encontrar uma refeição decente e, quando não estavam à procura de comida, sobrava tempo para discussões e tempos mortos.

No entanto, hoje era diferente e nem a história do chinês o ia desanimar. Tinha descoberto aquele sítio por acaso e se ainda tivesse capacidade para isso, teria chorado de alegria, mas aguentou para lhe fazer a surpresa. Agora, sentados numa mesa improvisada, ao lado de uma janela interior com uma cortina a tapá-la tinha chegado o momento.

“Mas então, porque me trouxeste aqui se isto está vazio. Não disseste que era um jantar romântico? Para além da parte do romance, costuma haver comida...” Ela suspirou.

Ele fez-lhe sinal de silêncio com a parte que ainda tinha do dedo indicador e levantou-se em direcção à cortina. Ao puxá-la, revelou uma sala envidraçada onde, assustados a um canto, estavam oito “vivos” do mais redondo que ele já tinha visto, mesmo antes da alimentação ter começado a escassear.

Sentiu algo a tocar-lhe na mão, era ela que lhe dava a sua e juntos avançaram em direcção à janela, que certamente não demoraria a quebrar. Ia ser um jantar que não esqueceriam enquanto não perdessem a cabeça, coisa que os gordos aos gritos na sala já tinham feito há algum tempo.

Ao fundo da sala, uma faixa em tempos festiva, em breve salpicada de sangue e de uma prova de amor diferente dizia “Bem vindos ao casting de mais uma edição do Peso Pesado”.

11.7.11

Quando um urso se pica a roubar mel, a culpa é das abelhas

Depois dos últimos dias, já sei tudo sobre ratings e inclusive já dei ratings de lixo a alguns parentes meus. Mas pronto, no caso deles não foi especulação, é a pura das verdades.

O que eu gosto, no meio destas confusões é que, 75% pressão social, um gajo que dois dias antes se estava a cagar para agências internacionais de cotação e o seu parlapié técnico, hoje corre a encher um caixote de lixo para enviar para os States e junta-se a causas para mandar empresas à merda. O efeito arrastamento é uma coisa muito bonita e a culpa exterior não só é bonita como é podre de boa.

No meio do excerto do José Gomes Ferreira, que é de facto um gajo que sabe explicar as coisas como elas são, quase ninguém liga à parte em que ele diz: “Todos nós somos culpados”.

Os especuladores são umas bestas, os Governos uma corja de oportunistas e há jogos de interesses para lixar os mais pequenos a cada esquina. Mas isso não é de agora e nós estamos longe de ser anjinhos inocentes.

Seja porque acreditámos cegamente, seja por nos termos esquecido todas as facilidades têm uma factura ou o diabo a quatro, um dos nossos maiores problemas é que, enquanto país, somos a metáfora viva do provérbio “casa roubada, trancas à porta”.

Mas, infelizmente, muitas vezes a nossa versão é mais “casa roubada ontem, trancas à porta, mas só nas próximas duas semanas”. Revoltamo-nos com razão, manifestamo-nos com propriedade, mas é só naquela altura, depois começa o campeonato, já não dá jeito e afinal o que era essa história do rating?

O estado do país dá uma óptima conversa de café, saber de Moody’s e Fitch dá jeito para aqueles dez minutos antes do jantar ser servido, é porreiro pertencer a grupos de protesto no Facebook e “vamos brincar à troika?” ainda não é coisa de conversa de engate, mas já faltou mais.

Seja como for, a culpa não é nossa. Nós só damos de comer ao papão que vive debaixo da nossa cama.