30.6.11

Espírito do Natal Futuro, versão 2011



E, de repente, há um conjunto de artigos com defeito que passam a fazer sentido, depois de saber que este Natal vai ser assim.

Beware of the projectos de merda

Nesta vida existem teorias que ganham coerência e sobriedade se forem apresentadas por uma frase que começa com “Nesta vida”. E, assim sendo, para reforçar isto mesmo, deixem que vos diga:

Nesta vida, pelo menos uma vez (se tiverem muita sorte), alguém vos vai tentar arrastar para um projecto de merda.

Antes de mais, a abordagem pode ter três estilos básicos:

a) A pessoa vem falar convosco e, sem perceberem bem como, de repente a conversa vai parar a uma ideia que ela andou a desenvolver e para a qual nós seríamos a pessoa certa para entrar com: o vosso skill profissional (sejam padeiros, arquitectos, designers, strippers ou tudo e um par de botas), o vosso dinheiro, a vossa relação com x, y ou z ou todas as anteriores. É a chamada alma gémea da ideia de merda.

b) A pessoa vem falar convosco, vende o seu projecto como se fosse algo que vai revolucionar o mundo ou, em alternativa, o vosso bairro. Mostrando-se ao mesmo tempo condescendente e ansiosa, essa pessoa dá então a entender que, com alguma sorte, vai ver se nos pode incluir no projecto. É a chamada ideia de merda com capa dourada.

c) A pessoa não vem logo falar convosco. Prepara uma teia de informação e lazer, manda uns mails, sugere a uma ou duas pessoas que conheces, diz-te que têm que ir beber um copo, cria todo um ambiente de good mood social e reforça os laços que vos unem. Só depois, especialmente se já estiverem ambos bêbados ou nus, é que vos vende a ideia de merda. É a chamada ideia de merda you and me forever.

Sendo totalmente honesto, em 10-15% dos casos, um pouco mais se o vosso círculo de amizades tiver um baixo teor de mentecaptos, o projecto pode valer a pena. E digo pode, porque existem n variantes e imponderáveis que os deuses criaram só para lixar projectos fixes que podiam ter sido, mas nunca chegaram a ser.

O problema é que há uma gigantesca maioria que são, pura e simplesmente, projectos de merda. Seja porque já existem, seja porque existem razões muito válidas para não existirem, seja porque uma colónia de férias para nudistas com workshop de apicultura não vinga, que um café de speed dating para gagos não rende, que uma loja com estampados de lycra para homem é capaz de não dar e que um rally paper com prova de vinhos antes já é um desastre antes de acontecer, há todo um tipo de projectos para os quais basta um passo em frente para cairem no abismo.

O meu conselho: oiçam tudo com calma, tirem apontamentos para mais tarde recordarem e para que nunca vos faltem histórias em jantares e convívios e depois.... FUJAM, DIGAM NÃO ENQUANTO FOGEM E, SE CORREREM ATRÁS DE VOCÊS, PAREM, DÊEM UMA BIQUEIRADA ONDE DOA MAIS AO VOSSO INTERLOCUTOR, ANTES DE VOLTAREM A CORRER.

É meio caminho andado não para a felicidade, mas sim para não serem uns infelizes que se arriscam a, uns tempos mais tarde, a estarem no programa da Fátima Lopes ou da Júlia Pinheiro, a falar do projecto que vos levou à ruína e que agora estão a leiloar um rim porque o miúdo quer ter dentes de leite como os amigos e vocês não têm dinheiro para isso.

29.6.11

Os ninjas e o que eu nunca quis ser quando fosse grande

Tendo pouco que fazer, boa parte das crianças entretém-se a pensar no que querem ser quando forem grandes. Como qualquer criança, tive inúmeros amigos que queriam ser os clássicos – médicos, jogadores de futebol, astronautas, princesas, bailarinas, Samanthas Foxes (sim, isto é verídico) e outros que tais. Uns deles conseguiram os seus sonhos, outros foram por caminhos diferentes e há sempre um ou dois casos de ironia do destino aguda, como a que queria ser modelo acabar a trabalhar como caixa no Modelo ou o tipo que queria ser piloto de Fórmula 1 e agora arruma carros.

Da minha parte, não me queixo, pois nunca soube bem o que queria ser, sabendo no entanto e muito bem, o que não queria ser. E, desse modo, fui sempre orientando o meu percurso pelo que tinha mais a ver comigo, conjungando vontade e necessidade na medida possível. Esse mesmo percurso é feito de várias paragens, umas mais relevantes do que outras, mas sempre no espírito de insatisfação que me leva a poder dizer que hoje faço o que gosto, mas que não me contento em ficar por aqui. E por isso, continuo a olhar para a frente e a pensar no que quero ser daqui a uns anos.

Mas, porque cada qual escreve a sua história ao seu estilo, encontrei outro dia um artista que conheço desde puto e que me lembro que dizia sempre que queria ser ninja. No meio daquela palheta de trazer por casa do “como estás / que é feito”, não resisti à provocação:

“Então e o que é fazes, sempre és ninja?”

“Epá, sabes como é, as coisas não são assim tão simples.” Riu-se e eu ri-me também, mas logo de seguida baixou a voz.

“Durante a semana não pode ser, mas à sexta....”

A pausa deixou-me na expectativa, mas o olhar dele deixou-me preocupado e o que veio a seguir não melhorou.

“Isto não é para divulgar, mas à sexta à noite há uma camioneta de ninjas que me apanha em Alcântara...”

Fiquei a meio caminho entre o riso e o choro “Desculpa, uma camioneta de ninjas em Alcântara....???”

“Sim” voltou a sorrir “Mas não é uma camioneta de gajos vestidos de trapos pretos, isso é só nos filmes. O pessoal só se equipa quando chega ao destino”.

“Mas onde é que vocês vão?” Resolvi alinhar no esquema “A uma discoteca de ninjas?”

Pela reacção, pensei que me fosse aplicar um golpe ninja “Que parvoíce...vamos treinar, sempre em locais secretos. Assim, que entramos na camioneta, vendamos os olhos e só tiramos à chegada”

Ri-me novamente e dei-lhe uma palmada nas costas “Epá, isso é muito bom, quase que me apanhavas com esse acampamento secreto de ninjas”. O facto de ele não estar a sorrir, voltou a preocupar-me.

“Não te devia ter contado, mas pronto vou confiar que és discreto e não falas nisto. O código ninja é severo com este tipo de coisas. Manda cumprimentos ao pessoal”. E assim de repente, lá foi ele.

E fiquei eu a pensar que descobri que há ninjas que se encontram em Alcântara e que há pessoal que não cresce só para poder continuar a ser o queria ser quando era pequeno.

28.6.11

Cinto, muito

Não preciso de citar nomes, porque as más notícias viajam sempre mais rapidamente que as boas. E se é verdade que as tragédias ganham outras proporções quando falamos de figuras públicas, não é menos verdade que as razões na base das situações são muitas vezes iguais e repetidas vezes sem conta, com tudo menos um final feliz.

Nesses momentos, quando para muitos as emoções estão à flor da pele, é aí que faz sentido passar a mensagem certa. Não por falta de respeito, não por aproveitamento, nem sequer por falta de tacto – simplesmente porque a nossa memória tende a ser curta de mais para o que a nossa vida vale.



27.6.11

Teoria do ar condicionado

Tenho em mim uma certa suspeita que a maior parte dos ares condicionados em locais públicos e espaços profissionais são controlados remotamente por uma organização secreta de mulheres na menopausa que visa espalhar a seguinte mensagem:


"Agora vão perceber o que é andar por aí com o termostato todo f#"$%".

26.6.11

Conselhos de praia com toque de mioleira derretida

Depois de vários dias de observação participante cumpre-me, qual nadador-salvador não demasiado ocupado a controlar ondulação de bikini, lançar um apurado relatório com cinco factos de teor imbecil.

Facto: A capacidade respiratória de muitos homens aumenta na praia. Só isso lhes permite, de forma garbosa, encolher a barriga o mais que podem enquanto não regressam ao conforto da sua toalha.

Facto: A definição de escaldão varia de pessoa para pessoa. Ouvi eu da boca de jovens garbosas coisas como “Pois, tenho sorte com a minha pele, nunca na vida apanhei um escaldão”. Ao virarem-se, constatei que boa parte das costas, pernas e rabo num cor-de-rosa mais vivo que o da pantera.

Facto: Cabem dez pessoas debaixo de um chapéu de sol de tamanho normal. Não sei se é recorde, não sei se é tortura, não sei se era promessa, mas que eu vi, 2 avós, 2 pais, 1 tia, 3 crianças pequenas e um par de adolescentes tipo rissóis amontoados na geleira Camping Gaz, vi. E não me pareceu uma promoção de circo.

Facto: O avanço da cirurgia estética e do desemprego permitem o lançamento de jogos que fazem concorrência às tradicionais raquetas, bolas de vólei ou o mais rústico “Pontapeia o castelo da criança”. Refiro-me ao “Jogo do Adivinha”, nas versões “Onde está o Silicone?” e “Quem é quem – Desempregado ou de Férias?”. A diversão a sério, só começa quando se vai confirmar os factos.

Facto: Mostrando que é inato o meu talento para meter água, a minha habilidade a “apanhar ondas” sem o recurso à prancha continua de louvar. Menos louvável são alguns gestos menos próprios dirigidos a crianças que tentaram competir comigo.

Para a semana, falaremos do regresso ao ambiente de trabalho, esse poço sem fundo de clichés pós-férias.

22.6.11

Conselhos às senhoras desinibidas dos classificados

Nunca percebi bem a lógica de marketing dos classificados marotos nos jornais comuns. Não porque seja difícil perceber que há alguém que “oferece” algo e que esse algo tem uma procura, mas mais pelos critérios de posicionamento e também de escolha, segundo o que nos é apresentado.

Primeiro, do ponto de vista estratégico, em vez de uma secção específica onde cus, mamas e poses arrojadas fazem fila para nos entrar pelos olhos adentro, creio que um bom posicionamento pode fazer a diferença. Por exemplo, se por um lado alguém que ande à procura de emprego é capaz de ter menos capital disponível para investir numa “Senhora desinibida, bumbum XXL, atende ao Saldanha”, por outro lado o indivíduo que procura casa, indicia mais capital e talvez até possa conhecer melhor a vizinhança dessa forma. Só por isso se vê que há mais vantagem em anunciar na secção de imobiliário do que na secção de emprego.

A secção automóvel também pode ser uma solução – vender-se a si mesma como uma bomba pode apelar ao lado mais tuning da clientela. Além disso, se não o for, a profissional do amor pode contar com o mesmo desconto que um gajo já está habituado a dar ao aldrabão do stand. Não é topo de gama? Venda-se como “topo de cama”, que é meio caminho andado para o cliente não reclamar de algumas mossas no chassis.

A necrologia é uma área complicada. Se, para além de dar mortais de costas, também tem entre os seus skills uma vertente de psicóloga ou até de Madre Teresa, então pode arriscar. O mais certo é passar o tempo com um cliente proveniente dessa zona a preencher um vazio emocional. Não desgasta tanto, mas é capaz de perder mais tempo. É fazer as contas, como dizia o outro.

A área da formação, essa sim, é de explorar. Muito curso, muita ferramenta, muita formação profissional. Esta é a sua oportunidade de dar formação sexual ou, vá lá, centrar-se apenas aperfeiçoamento de técnicas. Não só está a destacar-se da concorrência pelo tipo de mercado que está a atacar, como também está a cotar-se logo de entrada como uma pessoa que sabe o que anda a fazer com o seu corpinho e não tem medo de cobrar pelo que sabe.

Vá pensando nisto que lhe digo que, se for preciso, ainda venho aqui mais tarde para lhe dar umas dicas sobre como diferenciar o seu próprio anúncio.

21.6.11

Fui com o meu bigode à praia

Não sei bem como mas, de há uma semana para cá, tenho à minha beira um bigode que não me larga. Olho para mim e lá está ele com um sorriso por baixo e, é preciso admitir, o sacana tem pêlo na venta. Enquanto não percebo bem o que é que ele quer com a minha pessoa, resolvi ontem ir à praia com ele, até porque bem vistas as coisas, nunca tinha ido à praia com um bigode.

Pelo caminho, constatei que um bigode pode fazer a diferença na obtenção de um lugar no parque da praia. Confrontadas com uma espécie de lutador mexicano de óculos escuros e sorriso amarelo, as duas cidadãs, já com alguma idade, rapidamente decidiram ir estacionar para outra zona mais distante.

Ao caminhar sobre as areias das dunas, o bigode sentiu-se uma espécie de Clint Eastwood capilar, pronto a entrar numa cidade hostil mas rapidamente lhe fiz ver que essa história do western-moustache não era necessária e dar pontapés nos castelos de areia das crianças não nos torna mais machos. E assim chegámos ao nosso destino.

Não levei Camping Gaz para não pensarem que tinha vindo directo do Piquenicão, mas levei chapéu de sol porque não sei qual o comportamento do bigode no que toca à exposição solar. Revelou-se tranquilo e também na água se mostrou à vontade, garantindo-me ainda uma reserva de sal adicional, óptima para ajudar a grelhar peixe mais tarde. Acrecento ainda que, após alguma timidez inicial, não faltaram crianças e moças quase com a dentição toda a quererem interagir com ele.

No fim do dia, reservava-se uma surpresa para o bigode e para mim - uma bateria descarregada no carro, que o deixou algo impaciente enquanto eu lidava com a seguradora. Chegado o reboque, o bigode foi uma vantagem já que o rebocador também trazia o dele e assim houve uma familiarização imediata. Resolvido o problema, seguimos para casa, ele sem a certeza de chegar a amanhã e eu com a ideia que um bigode às vezes pode ser como um triângulo do carro. Achamos sempre que não serve para nada, mas às vezes dá jeito tê-lo à mão.

14.6.11

A filosofia do assaltante

Vejam lá que ainda no outro dia fui assaltado. Não naquele sentido musgueirense de alguém me apontar uma arma ou, pior, um convite para o Piquenicão com o Tony Carreira, mas mais no sentido em que fui surpreendido por um roubo que estou habituado a fazer aos outros

Simplificando, estava eu a expor uma conjectura qualquer junto de umas quantas pessoas, quando uma delas resolve aproveitar o que eu estou a dizer para criar algo efectivamente interessante. Ou seja, de repente, aquilo que era apenas palavreado de trazer por casa na minha boca, foi-me roubado para ganhar valor numa ideia interessante que se materializou à minha frente.

Por breves segundos, fiquei chocado. Não sendo um cão de fila, estou no entanto “treinado” para ser eu a fazer isso, quer profissionalmente, que por pura observação social, já que é nos pequenos pormenores, nos detalhes do quotidiano que se vão buscar os diamantes em bruto para polir e dar forma a nosso gosto e, quem sabe, descobrir quem se identifique com aquilo que transmitimos.

Imaginem as coisas que fazem todos os dias, mesmo o acto mais trivial que possível, e depois vejam como existem sempre particularidades e pormenores que são explorados na literatura, na publicidade, nas artes e no humor e que adquirem aí uma componente "aspiracional".

E é esse tipo de “assalto” que a nossa realidade sofre que me faz valorizar a arte dos que realmente sabem assaltar. Porque todos estudamos, todos trabalhamos, todos sonhamos, todos temos encontros e desencontros, todos fazemos piadas más e todos, a dada altura nos questionamos – afinal de contas o que andamos aqui a fazer?

Se não tiverem uma resposta, relaxem, mesmo que não saibam podem estar a servir de inspiração a outra pessoa. Um assaltante que, mesmo que não vos conheça, acabou de roubar um bocadinho de vocês e dar-lhe o valor que às vezes nós próprios não somos capazes de dar ou simplesmente perceber.

7.6.11

O dia a seguir

Um dia depois de eleições, toda a gente foi sábia e quase todos foram pós-videntes.

Não há mesa de café, vão de escada, canto no corredor ou orador de elevador que não tenha a sentença estudada. Se não votou, é porque já sabia que ia dar nisto, é tudo uma corja. Se votou e ganhou foi apenas a confirmação do óbvio e sinal de que estamos a caminhar para onde é preciso. Se votou e perdeu é porque se estava mesmo a ver que as pessoas não sabem o que querem e agora vamos dar x passos atrás. Se votou em branco, isso é apenas o sinal dos tempos em que hoje, ontem e amanhã é sempre a mesma coisa.

Troquem eleições por separações, seduções, Liga dos Campeões, reuniões e Euromilhões e vão encontrar o mesmo tipo de especialistas na matéria – A malta que já sabia, especialmente depois de já saber.

3.6.11

A dinâmica do momento


Por agora, estamos assim.