31.5.11

O governo do despertador

Creio que está na hora do Governo assumir responsabilidades pelo desgoverno do meu sono.

Se o despertador toca cedo, é porque o Governo me rouba horas de sono.

Se o despertador não toca, é porque o Governo me sabota.

Se me deito tarde, é porque o Governo me agrava as insónias.

Se gosto de sonhar, é porque o Governo me tributa a realidade.

Se tenho pesadelos, é porque o Governo me vasculha os sonhos.

Se tenho frio na cama, é porque o Governo anda a meter lençóis ao bolso.

Se tenho calor na cama, é porque no Governo tudo é abafado.

Se me deito sozinho, tenho medo que o Governo me caia em cima.

Se me deito acompanhado, tenho medo o Governo lhe caia em cima.

Se acordo despenteado, suspeito que o Governo me anda f***r o juízo.

Se acordo nu, suspeito que não é apenas o juízo que o Governo me anda a f***r.

30.5.11

O gang e o brunch

Cuspi para o chão para aí três vezes. Não, cuspi cinco, para assim não ter que recorrer ao velho truque de ajeitar ostensivamente os tomates. Pensava eu que assim eles não iam dar por isso mas, com aquela malta do gang, todos os cuidados eram poucos. Afinal de contas, havia ali malta que até já tinha maltratado um escuteiro ou dois.

“Ouve lá” disse alguém e eu, mal ouvi, sabia que me queriam lixar – “Passas-me aí o porta-chaves? É que estou com uma comichão nos ouvidos que não se pode”.

Sabem muito, aqueles gajos, a rodear, a rodear até eu não ter saído. Tudo pessoal lixado naquele gang, gente que chegou a tirar de surra uma peça de fruta na mercearia.

“Olha lá” disse outro e eu, ao olhar, já sabia que estava na hora – “Tens aí uma raspadinha?” Epá, não me lixem, com essa da raspadinha já não dava para aguentar. Estava ali pessoal do gang que chegou a ir para casa depois da meia noite, quando ainda só tinham vinte e três anos.

“Ok malta. Eu sei bem porque estamos aqui...” falei bem, só me babei um bocado, mas pronto, acontece. Olharam todos. “É a história do brunch, não é?” e o silêncio só não era sepulcral, porque eles não sabiam o que queria dizer sepulcral. “Epá, já sei que me devem ter visto, e pronto não há razão para ter medos e eu assumo – gosto de ir a sítios modernos tomar um bom brunch ao fim de semana. Há problema?”.

Nesse momento, poderia até dizer que não se ouvia sequer um passarinho sepulcral a cantar, mas eu não gosto de abusar de palavras que só eu é que percebo o que querem dizer. Mas, naquele gang lixado, havia pessoal tão lixado que havia ali quem tivesse comido frango sem talheres.

“E nesses brunches, tu pões açúcar no chá?

Enchi o peito de ar “Não admito que questionem as minhas....desculpa?” Não queria acreditar no que ouvia.

“No chá, pões açúcar man?”

“Olhaaa m’este. Brunchessss simmm, mas açúcarrrr no cháaaaaa, fónixxxx mas eu sou o quêee?” Quando um gajo tem o peito cheio de ar, ao fim de um minuto quando fala parece sempre um balão a esvaziar.

O pessoal avançou para mim, mas apenas para me dar um abraço. Naquele gang sempre tinha havido tolerância, dentro de certos limites. Era pessoal duro, que até aceitava comer frango com as mãos, mas usando talheres para as batatas fritas.

Aceitavam paneleirices como brunches. Mas que nunca se pusesse açúcar no chá.

29.5.11

Como foi o vosso fim de semana?

Gosto de partilhar, gosto de saber, gosto de conhecer o que me rodeia.




Mas gosto, acima de tudo, de deixar espaço à vossa opinião.

27.5.11

Dados que podem dar outra relevância ao vosso fim de tarde

Algumas coisas que fiz hoje e que vão certamente contribuir para cerca de nada nas vossas vidas.


- Comi 2 empadas.

- Cheguei à página 797 do livro que estou a ler.

- Dissertei sobre saborear a vida.

- Tive que explicar o que é dissertar sobre saborear a vida.

- Fiz uma piada grosseirona enquanto bebia chá.

- Tentei vender uma ideia.

- Cravei pastilhas elásticas.

- Tentei voltar a vender uma ideia.

- Combinei uma corrida ao fim da tarde.

- Fiz um post idiota.

- Agendei o consumo de bebidas alcoólicas.

- Apaguei o post idiota e troquei por outro ainda mais idiota.

- Fiz um sorriso parvo quando da observação do mesmo.

- Vim cá referir isso mesmo.

25.5.11

A perfeição da inutilidade


Podes passar a vida toda como inútil e ficar satisfeito com isso. No dia em que resolveres fazer alguma coisa, ficas satisfeito por ter um mundo inteiro por descobrir à tua frente.

23.5.11

O duelo das areias

O sol já vai alto e até a brisa que sopra parece queimar. Aproximam-se os envolvidos, caminhando pela areia com a determinação de quem não está disposto a dar um passo atrás. Aquela é a única clareira no espaço de um quilómetro e prevê-se um desenlace rápido.

De um lado, a família Silvestre, o orgulho de um estandarte na forma de um guarda sol, porventura o mais feio que já alguma vez calcorreou uma duna. O seu fogo contrasta com o azul gélido das insígnias Camping Gaz que transportam, mas é bem visível no suor que transborda do patriarca da família e dos dois terços de obesos que a compõem. A avó queixa-se da areia nos sapatos, os netos queixam-se porque não querem descalçar os sapatos e porque a prancha de bodyboard do Continente pesa muito. A mulher do patriarca queixa-se, porque é essa uma das suas funções principais.

Um ronco do patriarca e há um momento de silêncio. O mais novo ainda solta um “Tenho fome...”, a chapada que leva fala mais alto antes do embate.

Do outro lado, uma horda de discípulos do clã Morangos com Açúcar. Eles, cabelos perfeitamente desalinhados, uma toalha colorida e corpos tonificados. Trazem um gordo, mas só porque é obrigação do clã levar um gordo a esse tipo de eventos. O gordo ri-se ao ver os opositores, os restantes riem-se, mas é mais por causa da ganza. Elas, trapinhos modernos cuidadosamente escolhidos para parecerem que foram apanhados ao acaso. O corpo cuidado não esconde um à vontade que causa algum desconforto nas hostes femininas da oposição. Na realidade, não esconde muito de nada.

Tentam encarar silenciosamente a oposição. Os telemóveis a tocar não deixam e a batalha pela útlima clareira da praia ainda não começou e já estão três fotos da família Silvestre no Facebook e uma do gordo. A do gordo foi ele próprio que tirou.

Medem-se distâncias. Está muito calor para batalhas e tanto os penteados de uns como os rissóis de outros se podem estragar. Chegam-se a acordos, a família Silvestre não aquece comida e o clã Morangos não põe a música muito alta a não ser aquela da “Vaca Loca” da Shakira. O gordo pode ser enterrado na areia pelas crianças. O gordo protesta, mas só porque assim não pode ir para a baliza quando forem jogar à bola. O problema resolve-se e o gordo é enterrado no meio da baliza, ficando com os braços de fora.

Dali a umas horas já ninguém se lembra do acordo. Está um dia de praia do caraças e, ao fim da tarde, ambas as partes já provam a bôla de carne feita pela avó, até as miúdas do clã, que dividem uma fatia entre as seis. O gordo não, mas só porque ainda está enterrado na areia.

A batalha da última clareira, afinal de contas, não chegou a ser. Talvez o mundo acabe para a semana.

20.5.11

O drama de um Portugal aflito

Até à última, estive indeciso sobre qual das problemáticas abordar – por um lado, a situação social e económica em Portugal, as eleições, as expectativas e desilusões que envolvem a população portuguesa, por outro lado, um drama que me aflige nos urinóis.

Resolvi ir por aquele que acho menos asqueroso.

Um urinol não é um segredo da NASA. Não é uma Bimby, a precisar de um manual de instruções e uma demonstração de manuseamento. É uma loiça sanitária que tira partido da anatomia masculina, promovendo a execução rápida e concisa (ou longa e aliviada, consoante o estilo e a bexiga) da chamada mijinha.

Acrescento, ir ao urinol não é uma prova de estlio.

Mas, trabalhando eu num edifício pós-moderno, com várias casas de banho em cada piso, destinadas a serem partilhadas pelas empresas lá sediadas, não consigo compreender uma coisa – Como é que, invariavelmente, um gajo entra no WC masculino e a cinco passos do urinol já consegue ver um autêntico sistema de rega espalhado pelo chão, num cenário épico-medonho.

Juro que já fiz testes, não é a descarga de água que salpica, não é o lavatório que projecta, não é sequer a canalização rota ou uma empregada da limpeza tresloucada. Trata-se de uma intensa falta de pontaria, combinada com miopia agravada e uma percepção muito enganosa de volumes e dimensões. Ir ao urinol não deveria ser um número de circo, um arrojado malabrismo do género “Olha, mãezinha, estou a fazer xixi a 1 metro do urinol e não cai nem uma gotinha para fora”. O problema, minha gente, é que não são gotas, são réplicas do Lago Baikal e da cascata do Iguaçu.

E, na minha escala de violência de WC, isto está quase ao nível dos artistas que se fecham a fumar na casa de banho dos deficientes só para não irem à rua. Mesmo tendo em conta que, pela atitude, estão no sítio certo.

18.5.11

Branca de Neve e as sete prestações

“E viveram felizes para sempre...” – Quando pensava nisso, Branca de Neve não sabia se havia de rir ou de chorar. É certo que se as coisas não tivessem corrido bem, ainda estava num caixão de vidro, com uma maçã entalada na garganta, a servir de bibelot na Kidzania lá do sítio.

Mas isto também não era o conto de fadas que lhe tinham vendido. E o que era afinal isto?

O seu príncipe veio ela a saber mais tarde, mais do que títulos, tinha dívidas. Além disso, aquele entusiasmo todo em andar sempre de armadura tinha mais que ver com disfarçar uma certa calvície precoce e uma alimentação pouco saudável, do que propriamente um entusiasmo de galante cavalaria.

Mas, que não se pensasse que ela, Branca de Neve, era fútil. O que tinha à vista aceitava e amava tal como era. O que não tolerava eram as mentiras e, com a crise económica medieval, elas começaram a brotar como cogumelos.

Só tinham conseguido dar entrada para uma mini torre fortificada nos arredores, porque ele lhe disse que tinha bens congelados pelas Finanças, devido a disputas territoriais. Nem sequer a deixou ir ver aquele castelinho com um fosso amoroso à volta, mesmo à entrada da Praça das Execuções, na zona nobre da cidade.

Agora, descobrira que não só não existiam bens congelados, como o pouco que havia tinha sido desbaratado em jogo e copos na Távola Redonda. A Igreja aumentara o dízimo e o colectores do Reino até o bobo coxo que animava os serões já tinham ameaçado confiscar. A somar a isto tudo, o tempo que o marido passava com o bardo e a forma como insistia em que concorressem ao “Por quem sois donzela, redecorai a casa”, começava a levantar-lhe algumas dúvidas sobre se o título Príncipe do Castelo Branco não teria um segundo sentido.

Muitas vezes pensava em pedir auxílio aos 7 anões. Ou melhor, aos 5, que dois estavam presos nos calabouços, acusados de passar diamantes por debaixo da mesa. A defesa de que não chegavam ao topo da mesa não serviu de atenuante.

Mas, tinha receio, especialmente por causa de Zangado, que sabia ter um fraquinho por si e não lhe queria dar falsas esperanças. Aliás, se tinha a alcunha de Zangado, foi só depois de Branca de Neve o ter apanhado duas ou três vezes a espreitá-la enquanto ela se banhava e ter passado a fechar a porta.

E, sendo assim, continuava na mesma. Numa torre mal situada, com vista para uma pilha de estrume mesmo ao lado e isto era verdade, literal e metaforicamente falando.

Às vezes pensava na maçã. Não fosse a porra da fruta e a história seria outra.

17.5.11

Ontem choveu e era chuva


Choveu ontem, foi a loucura.

Trovejou ontem, foi o delírio.

Estava calor, foi tropical.

Choveu, trovejou e estava calor, há motivo de conversa.


Houve quem conseguisse correr por entre gotas de água.

Houve quem jurasse ter visto relâmpagos a menos de 1 metro.

Houve quem achasse essa história de 1 metro um bocado exagerada.

Houve quem corrigisse para 100 metros, e não mais do que isso.


Há quem diga que chegou a casa ensopado.

Há quem diga que chegou a casa e comeu ensopado.

Há quem diga que esta última frase não pertence a este texto.

Há quem diga ter feito o amor apaixonado ao som da chuva lá fora.

Há quem simplesmente tenha ficado fodido com a chuva.


Fizeram queixinhas porque chovia muito e não sei quê.

Fizeram queixinhas porque o trânsito é mau e as sarjetas não escoam.

Fizeram queixinhas, porque choveu a potes e não gostam de artesanato.

Iam a fazer mais queixinhas, mas mandei-os calar.


Olhei para cima e perguntei porquê.

Não me responderam.

Era só chuva. O resto era conversa.

16.5.11

Desligas tu ou desligo-me eu?

Deste lado - Vá, desliga lá.

Do outro lado - Não, desliga tu primeiro.

Deste lado - Desligamos os dois, pode ser?

Do outro lado - Sim, vá, desligamos ao mesmo tempo.

Deste lado - Vá, vamos desligar.

Do outro lado - Ok.

....

Do outro lado – Cucu.....

Deste lado – Não ias desligar?

Do outro lado – Tu também não desligaste.

Deste lado – Só porque tu não desligas.

Do outro lado – Sou sempre eu que tenho que desligar.

Deste lado – Tem que ser assim.

Do outro lado – Porquê?

Deste lado – É melhor seres tu a desligar.

Do outro lado – Oh, é sempre assim.

Deste lado – Vá, desliga lá, que vou dormir.

Do outro lado – Ok, já desligo.

...

Deste lado – Ainda estás aí, não estás?

Do outro lado – Estou, mas parecia mesmo que tinha desligado não foi?

Deste lado – Fónix, eu sabia. Não desligas tu, desligo-me eu.

Do outro lado - Mas....

Isto anda tão mal que até os meus amigos imaginários já trabalham em call centers.

15.5.11

Vocalista sem conserto

Gosto de arriscar e por isso ao estar a conviver com gente que me atura em horário pós-laboral, calhou que, no local do encontro, fosse tocar uma banda cuja prestação, constituição e orientação musical desconhecia completamente. Curioso, fui espreitar, tendo havido até quem me confidenciasse “ Parece que o vocalista já tem muita rodagem no meio”.

Não mentiram.

A secção instrumental não era má, constituída por jovens empenhados em mostrar que a música é um bom refúgio, desde que mantenhamos um ar torturado, mas a rodagem do vocalista já era de facto muita, tanta que possível incluía um ou dois atropelamentos de células cerebrais. Não negando o seu passado musical, são o presente e o futuro que me preocupam.

Pelo meio de alguns tremores, algumas paragens e a necessidade de uivar entre temas, eis (segundo as suas palavras) aquilo que foi o alinhamento do concerto.

1 – My saiealkinahh ohhnaaman

2 – The uhliamaer iasasjad

3 – Go paaahhonhh my apooalah

4 – Uhhh to ahhhnwain loohss

5 – For luhh in hooaanah

E por aí em diante.

No somatórios, claro e audível só mesmo o uivo com que terminava as canções. Não consegui detectar se era uma espécie de cena tribal ou o resultado de pontadas nas costas. Também não procurei explicação.

Reforcei contudo a minha opinião – o espíritos dos músicos a sério, daqueles hardcore à antiga, nunca envelhece. O problema é que o corpo não segue o mesmo caminho.

10.5.11

Quem está Mahler, muda-se


Que nunca se diga que, do alto da minha sobranceria, não tenho sequer tempo para vos dar música.


E sim, eu ouvi o clip todo.

6.5.11

Fantasmas na prateleira


Há coisas que têm um lugar próprio na nossa história. Enquadram-se num certo tempo, fazem sentido numa dada altura e depois, se tiverem a relevância necessária para não cairem no fosso do esquecimento eterno, vão para a prateleira.

E na prateleira certas coisas têm o condão de irem aparecendo, para olharmos para elas e termos pensamentos profundos como: “Eish, pois era, já nem me lembrava disto”.

Não serve a presente narrativa para dizer que estive a colocar a minha vida em perspectiva ontem, mas apenas para descrever a minha experiência de ontem, a rever parcialmente o Ghostbusters II.

O chamado humor fantasmagórico.



PS – Só me assusta isto, se bem que a coisa já está em banho maria há séculos.

5.5.11

A arte paciente de observar uma passadeira

A primeira pessoa aproximou-se da passadeira. Era um homem de meia idade, fato de bom corte e atitude de quem está sempre atrasado para alguma coisa, mesmo antes de saber para onde vai. Não olhou para qualquer um dos lados antes de atravessar. Fê-lo em oito passos e deu um ligeiro salto para o passeio do outro lado.

A segunda e a terceira pessoa chegaram juntas. Duas miúdas, mas já com postura de adultas ou tentar demonstrá-lo, pela forma como se vestem e no modo como cada uma agarra no seu cigarro. A conversa está animada, uma deles mexe várias vezes no cabelo, o corte é recente. A primeira avança sem olhar, a segunda segura-a por um braço, quase ao mesmo tempo que o taxista buzina, travando ligeiramente e sacode a cabeça, em tom crítico. “Parvo da merda”, diz a que não o viu, com o carro já a afastar-se. A meio da passadeira já vão outra vez a rir e a conversar, demorando dez passos e fazendo um ligeiro compasso de espera a meio do oitavo. Uma delas atira um papel de pastilha elástica para o chão, que cai na última barra branca. Já está a mascar pastilha quando chega ao outro lado.

A quarta pessoa vem curvada, é um velhote. É o primeiro que olha para o semáforo que está junto à passadeira, mas não lhe liga particularmente. Vermelho, para ele, é para avançar e isso que faz, vagarosamente, parece que é o fato coçado a única coisa que mantém aquela estruturam humana unida. Um carro abranda para o deixar passar, o outro cruza-o pela frente a uma velocidade acima da permitida por lei. No meio, entre o seu décimo e décimo segundo passo, o velhote continua imperturbável, como se tivesse a certeza que vai chegar ao outro lado em vinte e três passos. Engana-se, chega em 22, possivelmente ganhando balanço com a descida.

A quinta pessoa sou eu, antecipando-me a um casal que prefere ficar a dar um beijo a avançar para a passadeira. Compreendo a preferência, mas resisto a beijar a idosa que me pisca o olho ao contemplar a cena. Olho para o semáforo, está verde, dou o primeiro passo, pensando ao mesmo tempo como vou mais tarde descrever-me. Opto por uma descrição discreta – look casual, ténis ligeiramente pós-modernos e barba de três dias, sem estar demasiado apressado. Avanço decidido, não vejo a mota do tipo das castanhas.

Ninguém vende castanhas nesta altura.

Ninguém deveria por isso ser atropelado por um vendedor de castanhas nesta altura.

Recusando dar um fim ridículo a esta história, desvio-me com ligeireza, entre o quarto e o quinto passo. Digo bom dia ao vendedor de castanhas (Falso: na verdade digo “Man, Fosgassse” ou coisa sem estilo parecida).

Ao quinto passo piso pastilha elástica.

Ao sexto passo penso em escrever isto.

Já do outro lado, volto-me para trás. O casal ainda está na marmelada. A velha pisca-me o olho novamente.

4.5.11

Todos temos um psycho à espreita




Nalguns casos vive na porta ao lado noutros, dentro de nós.

3.5.11

O que se pode aprender numa ida ao teatro

Que as crianças e os frangos podem ser bons amigos, mesmo que estes últimos estejam mortos e não assados.

Que se pode beber cerveja de forma acrobática e arrotar a preceito no decurso da proeza.

Que o ketchup é fixe para fazer frases em tshirts.

Que o Michael Jackson está mais vivo agora depois de morto, do que no fim da época em que estava vivo.

Que comer uma “hamburga” em palco tem o seu quê.

Que gritar provoca desconforto no espectador, mas algumas cadeiras valem por muitos gritos.

Que criticar o consumismo desenfreado e a industrialização selvagem de forma diferente não garante necessariamente que a mensagem chegue ao público da melhor maneira.

Que existe uma linha muito ténue entre a crítica subjacente que nos faz pensar e o exercício gratuito de exageros que pretendem chocar e permanecer estéticos dentro da abordagem artística, sem chegarem a ser carne ou peixe.

Que se calhar eu não consigo distinguir bem essa linha.

Que, feitas bem as contas, é bom ter um local por perto que sirva álcool depois da peça.

Que isto não é um desabafo alarve de quem não gosta de teatro. É apenas um alarve a desabafar.

2.5.11

Como sobreviver um dia sem telemóvel

Passo nº1

Esqueça-se dele em casa

Passo nº2

Tire essa expressão enjoadinha de quem acha que isso é pior que a morte. A não ser que seja menor de idade, a dada altura já foi capaz de viver sem ele.

Passo nº3

Se é menor de idade, não devia andar nestes blogs. Se é maior também não, mas em princípio já não leva tautau dos pais se for apanhado.

Passo nº4

Resista à tentação de voltar para trás para buscar o telemóvel. Pontapeie um ceguinho, se for preciso, para desviar essa noção de culpa.

Passo nº5

Não ligue durante o dia para o seu telemóvel, a ver se alguém atende

Passo nº6

Esqueça-se que o telemóvel exista, nem esteja a pensar quantas chamadas já recebeu ou SMS e mails em espera.

Passo nº7

Resista à tentação de fazer da ausência do telemóvel um feito de sobrevivência fantástico, pois não só não o é, como faz da sua noção de sobrevivência algo ridículo. Se não conseguir, utilize um blog idiota para o efeito, em vez de chatear as pessoas com ar de cachorro abandonado, relatando tudo sobre esta separação difícil.

A triste sensação de ter um Peso Pesado na consciência

Quero escolher outro assunto mas, qual concorrente, tenho o olhar fixo numa travessa de cupcakes em forma de programa de televisão. Quero acreditar que pelo menos temos a habilidade de copiar um formato de sucesso e, à nossa maneira, garantir que a coisa é feita com a integridade necessária, quer para quem concorre, quer para quem vê.

Mas, a primeira impressão faz-me perceber que isto não tem nada a ver com o que eu quero. Tem a ver com a versão mais circense do conteúdo televisivo, em que a versão “serviço público contra a obesidade em formato reality show” perde sempre para “reality show de gordos a tentarem emagrecer disfarçado de interesse público”.

Bastou pouco mais de hora e meia para saber que vamos todos achar milhentas razões para rir com o casting escolhido a partir de 10 mil candidatos, cujo critério me parece ter sido muito semelhante ao do primeiro Big Brother. Rir de gente simples, na sua maioria, com as fragilidades próprias da obesidade e que, com o fim de emagrecer e ganhar o prémio, vai estar disposta a tudo. Rir de sotaques, do mau português de quem nunca “exerceu um desporto”, rir de casais improváveis, rir de gente a chafurdar na lama com as suas próprias roupas, rir do rabo à mostra que expõe mais a debilidade do programa do que da própria pessoa.

E vamos depois rir mais um bocado de uma Júlia Pinheiro intimista, em formato Prozac para não gritar, que vai colocar gente na balança e a consciência na prateleira, enquanto espreme pouco a pouco a parte penosa por detrás da obesidade que, devendo ser abordada, não tem que ser explorada até ao constrangimento de quem participa e quem observa.

E, quando pensarmos que já não podemos rir mais, vão dar-nos uma piada em formato de Comando que, não podendo ser o que aparentemente é, serve mais uma dose de humilhação em formato anedótico, cujos benefícios permanecem escondidos por detrás de algo tão impenetrável como aqueles óculos escuros. E vamos sorrir ao ver cópias imperfeitas do Bob e da Jillian, que tentam promover empatias imediatas e comportamentos mimetizados, enquanto deviam esperar e fazer por nos conquistar (a nós e a eles) pelo seu trabalho e pela sua capacidade de recuperar física e psicologicamente aqueles que mais precisam da sua ajuda.

E, finalmente, quando tudo acabar, vamos perceber que já não há nada para rir e que se passou ao lado uma boa oportunidade de copiar bem aquilo que já está feito, especialmente para o bem de quem participa. Porque o espectador pode sempre mudar de canal e ir rir com as peripécias de “famosos” a brincar às tribos, mas a vida daqueles participantes, até ver, está amarrada ao programa.

Queria que no fim fosse este texto o motivo para rir, de tão errado em relação à realidade do que se vai passar. Mas, como já comecei a perceber, temo bem que isto não tenha nada a ver com o que eu quero.