29.4.11

A sustentável leveza de quem sobe escadas

Passam por mim sem se mexerem. Altivos, vejo-lhes um certo desdém nos olhos, mesmo quando estão escondidos por detrás de óculos escuros modernos ou feitos para o parecerem.

Vão cada vez mais alto, sempre sem se mexerem, mas há algo que os intriga na pessoa estranha e obtusa que não fica para trás, que os olha lado a lado, apesar de pertencerem a realidades diferentes.

E por isso olham, com aquele olhar desinteressadamente interessado que dura apenas os segundos suficientes para que, no meio do turbilhão de ideias que faz parte da sua vida, ponham a si mesmos a seguinte questão – Como é possível que haja gente que sobe escadas, quando existem umas escadas rolantes mesmo ao lado?

Não respondo pelos outros, respondo por mim, degrau a degrau – Porque posso.

Posso subir um a um, de dois em dois, ao pé coxinho, citando Camões, falando sobre o tempo. E faço-o 80% das vezes, deixando os restantes 20% para momentos de confraternização, cansaço efectivo ou quando o acordeão me pesa demasiado aos ombros.

Não é nada do outro mundo, não é um fundamentalismo, não é sequer terapia ou luta contra o progresso. É mesmo porque posso.

Como eu, há mais, isto não é coisa pedante anti-rolante. A diferença é que não fazem posts em que conjugam as palavras obtusa e acordeão no mesmo texto.

28.4.11

Detergente Ajax, uma história de apoio ao lesbianismo


(Grandes, fufas e resistentes. Não dá para enrolar mais que isto)

Exemplo 3 - As estatísticas


O mundo divide-se entre os que dividem o mundo e os que não são grande espiga a matemática.



(Não é preciso que se tirem grandes conclusões da estatística em si. Se as pessoas quisessem tirar grandes conclusões para a vida não ligavam a estatísticas, ligavam ao Professor Bambo)



27.4.11

Exemplo 2 - As reticências



Não sei se é este o caminho que quero percorrer...

(O leitor é intuitivo, gosta de intuir, nasceu com intuição para dar e vender. Como tal, poupa-se tempo e trabalho e deixa-se no ar a sensação de que se quer ir a algum lugar, físico ou psicológico. As reticências são essenciais, mas a foto é aquela pitada de sal que dá gosto à coisa. Com apenas 10 palavras, deixámos aqui pano para mangas, isto para não falar nos engarrafamentos)

Exemplo 1 - A metáfora estética


Acompanhar com frase que pareça desprendida emocionalmente, mas que reforce o cariz trendy e up-to-date que se pretende passar:

"Coelhinho...se eu fosse como tu..." (ok, isto é exagerar um bocado)

"Com a minha sorte, já me contentava com uma pata de coelho" (irónico qb, dá a ideia de algo, mas não se percebe porra nenhuma para onde vou com esta conversa. Cool)

Posts Take Away

Para aqueles dias em que não te apetece fazer posts, em que procuras a inspiração mas só encontras transpiração, em que aquilo que pensas e aquilo que queres dizer se entrelaçam tipo molho de brócolos sem que consigas dizer nada de jeito (mais do que é costume) ou até quando a tua vida corre mais depressa do que as tuas mãos no teclado, agora há uma solução.

Nada mais, nada menos do que uma forma simples de fazer com que a tua legião de seguidores na blogosfera (mesmo que unitária) não se desiluda e comece a pensar que vais deixar de os alimentar com a tua verve.

Enrola.

Não sabes como? Eu explico-te durante o dia. Ou então não e isto é só uma forma de te arrastar até cá. O que também resulta.

26.4.11

Ri-te, ri-te nos tempos que correm

Primeiro as luzes, depois a sirene e o sinal para encostar.


O senhor sabe a que velocidade ia a rir?

Ahah...ah, eehr, não está a brincar pois não?

Não. Rir é um assunto sério, especialmente nos tempos que correm.

Se quer que lhe diga, não sei.

Não sabe que rir é um assunto sério nos tempos que correm?

Não. Não sei a que velocidade ia a rir.

Isso é grave.

Porquê?

Porque o riso afecta os outros e eles não têm que levar com a sua boa disposição.

Nos tempos que correm isso é grave?

Nos tempos que correm tudo é grave.

Isso dá vontade de rir.

Não devia. O riso é um assunto sério.

A piada é essa, especialmente nos tempos que correm.

Eu devia autuá-lo.

Por rir demasiado?

Demasiado e depressa, inclusive.

Está a ver, isso é engraçado.

Isso é uma contra-ordenação grave, ser engraçado é apenas ligeira, nos...

...Nos tempos que correm?

Exactamente.

Mas, não me vai autuar?

Por esta passa...

Pensei que isto era um assunto sério.

E é. Mas você é engraçado e isso não...

Não é grave?

Não. Mas faz falta nos tempos que correm.

Você também tem piada.

Não comece.

A sério.

Nem a brincar. Vá, siga lá e, se tiver que rir, ria com moderação.

Não sei se consigo.

Isso são maus hábitos.

Não. São os tempos que correm.

24.4.11

Proposta nas horizontais

Depois de já ter cumprido mais um objectivo de vida, que era fazer um título de um post que se assemelhasse ligeiramente a uma anedota do Fernando Rocha, eis do que se vai falar nas próximas linhas.

Nos EUA, um homem pediu a namorada em casamento através das palavras cruzadas.

Primeiro que tudo, isto é extraordinário, não tanto pelo acto em si, mas simplesmente porque me prova que ainda existem pessoas com menos de 50 anos que ainda fazem palavras cruzadas. Mas, porque já vi isto divulgado em sites portugueses, sei que vai despertar uma onda criativa em muito Romeu nacional.

Assim, para além do sempre clássico “rodapé” em programas canastrões do género “Albertina, seu coração me aquece, mas se não me ligas fico com a Vanesse”, antevejo lampejos de romance em palavras cruzadas nacionais, com frases para decifrar e derreter o coração como:

“Traz mais cerveja”

“Depois da bola, tu e eu vamos aos penalties”

“Inscrevi-te no Biggest Loser”

No entanto, apesar da sensibilidade que desponta em cada esquina, prevejo ainda que este tipo de criatividade, cá por estas bandas, só vá surgir do lado masculino. Bem vistas as coisas, muitas mulheres possivelmente não acreditam sequer que o seu companheiro saiba ler...


PS - Quero é ver truques destes com Sudoku.

18.4.11

Pessoas político-cupcakiano correctas

Uma pessoa política não é um político, até porque há sérias dúvidas que grande parte dos políticos sejam pessoas. Uma pessoa política é uma espécie de cupcake humano, ou seja, aquilo que ela verdadeiramente é está debaixo de uma camada artificial que não traz nada de bom, mas que está lá para dar uma espécie de bom aspecto.

Uma pessoa política não tem uma opinião própria, tem a opinião que é suposto ter numa dada ocasião. Não vibra, estremece apenas ligeiramente para dar a impressão que está viva. Não se compromete, mas promete que se vai comprometer com aquilo que for mais prometedor. Não sai do meio porque, para além de ser ali que está a virtude, é bem sabido que quase sempre é nas pontas que está o desconforto.

E uma pessoa política, para além de ser um cupcake humano é, acima de tudo, uma pessoa que tenta ser o mais confortável possível perante tudo, o que me causa um certo desconforto.

Sendo assim, tenho em relação às pessoas políticas a mesma atitude que tenho em relação aos cupcakes. Vejo-os na montra, penso que deve haver gente que gosta daquilo sem perceber bem como e depois passo ao lado e vou procurar algo que me pareça mais genuíno.

15.4.11

O taxista das 3 e 20

Já apanhei taxistas que me disseram que Jesus era a salvação.

Já apanhei taxistas que me disseram que Jesus era o culpado dos maus resultados.

Já apanhei taxistas que me disseram que no tempo de Salazar é que era.

Já apanhei taxistas que morreram no tempo de Salazar, mas ainda não sabiam.

Já apanhei taxistas que levavam o termo “corrida” a sério.

Já apanhei taxistas que levavam o termo “papa-açorda” a sério.

Já apanhei taxistas que por pouco não apanhavam.

Já apanhei taxistas e por pouco não era eu que apanhava.

Já apanhei taxistas que falavam da vida como se ela fosse uma droga.

Já apanhei taxistas que não falavam da vida, porque estavam a pensar em droga.

Já apanhei taxistas que sabiam todos os segredos da sedução.

Já apanhei taxistas que não sabiam todos os segredos da higiene diária.

Já apanhei taxistas que eram um verdaedeiro ponto.

Já apanhei taxistas que não sabiam qual a distância mais curta entre dois pontos.

Não sendo um ávido frequentador de táxis, posso no entanto dizer que já apanhei muita coisa. Mas não como o taxista de ontem, às três e vinte da manhã. Foram 15 minutos num táxi que podiam ter sido 15 minutos na palheta com um amigo. Sem fretes, sem conversa forçada, nem episódios que não lembram ao demónio.

Uma chapada na cara para quem, como eu, tende a fazer do sarcasmo e da pouca fé na humanidade um cocktail de referência. Pelo menos foi daquelas chapadas que sabem bem.

E, quando o surreal é a realidade de ter um taxista no fim da viagem a agradecer a simpatia e retribuirmos na mesma moeda porque não podia ser doutra maneira, então é porque é uma história que vale a pena ser contada.

Para que tudo volte a fazer sentido na minha cabeça, quero acreditar que isto só se passou assim, porque o gajo levava um corpo escondido no porta bagagens.

13.4.11

O rating deste blog


A prova de que sempre fui vanguardista é que há muito que este blog se antecipou ao país, ostentando um rating de lixo. Chique, refinado e dotado de uma modéstia criativa ao alcance de poucos mas, ainda assim lixo.

12.4.11

Quando a realidade ultrapassa a ficção

Depois, gajos como eu ficam lixados por nem ser preciso inventar histórias assim.



Actriz portuguesa arguida por ter simulado sequestro

A actriz portuguesa Sandra Cardinali, que diz ter faltado à gala dos Óscares por ter sido sequestrada na Malveira da Serra, foi constituída arguida e está com termo de identidade e residência por ter simulado o rapto, segundo o Correio da Manhã.

A actriz, de 36 anos, simulou o crime para chamar a atenção do actor António Pedro Cerdeira e por não ter sido convidada para a cerimónia de entrega dos Óscares.

Desde a madrugada do alegado rapto que a PJ investiga o caso, tendo chegado à conclusão de que toda a história foi inventada devido a uma obsessão pelo actor António Pedro Cerdeira, com quem Sandra Cardinalli diz ter tido uma relação, ter engravidado e perdido o bebé uns meses depois, explica o CM.

O actor, por sua vez, garante que nem sequer conhece a actriz.

Sandra Cardinalli garante que contracenou com Angelina Jolie e Johnny Depp no filme «O Turista» e que foi convidada para os Óscares. Agora arrisca até um ano de prisão.



Não era uma bomba, miúda


Sei bem que com esta barba por fazer, tez morena e ar de pseudo-duro posso causar alguma suspeita. No entanto, também não se pode dizer que fosse mal arranjadinho, de banho tomado e uma roupinha que quase que deixaria a minha mãe orgulhosa.

Como não uso a viagem matinal de Metro, que agora é habitual, para divulgar a palavra do Senhor (ou de outras figuras de nomeada) nem fiz beicinho ou olhos de carneiro mal morto na tua direcção, o teu interesse insistente e persistente em tentar descortinar o que levava nas mãos, só pode ter a ver com isto:



Não te quero estragar a história, mas já me tinham dito que a coisa era boa e pelas 200 páginas que já li não me mentiram. E se as 800 e tal páginas que tem podem desmotivar pessoas e desviar vértebras, o entrelaçar de diversas histórias de um quotidiano americano que se espalha ao longo de várias décadas vale muito mais que o peso.

O resto vais ter que descobrir por ti ou perguntar-me directamente, que eu não gosto de usar a Internet para estas coisas.

Ah e tapar os livros com folhas de papel ou capas mal amanhadas só se justifica se não forem nossos e os quisermos devolver no estado em que chegaram às nossas mãos. Da minha parte, não gosto de livros que parecem “intocados” e trato-os um bocado como tratava os meus joelhos quando era miúdo. Andam sempre um bocado esfolados, mas aguentam firmes.

11.4.11

FMI entra a pés juntos

Já se sabia que ia ser complicado, que vinham aí os mauzões e que não vinham para brincar. Que nos iam ensinar com quantos paus se faz uma canoa e ainda nos iam cobrar cada um dos paus pelo caminho.

Mas, não esperava que começassem com uma política de terror, com a ajuda de dois dos piores penteados da história da “música”. Eis a primeira medida anunciada:

Dia 10, no Pavilhão Atlântico, Michael Bolton & Kenny G actuam em Portugal.

Fechemos já a loja, antes que isto piore.

10.4.11

Nascer do Sol e o requinte das cinco e tal da manhã

Muito já se escreveu sobre o nascer do Sol, incluindo belas pândegas literárias com vampiros, lobisomens e meninas sonsas. É uma bela altura do dia para gastar adjectivos, tirar ramelas e inspirar pessoas a escreverem poesia lírica ou a irem a correr fazer um xixizinho e voltar para a cama.

Para mim, amanhã, o nascer do Sol é trabalho. Mas deixo as queixinhas sobre madrugar e segundas feiras é para quem tem tempo e poucos recursos estilísticos.

Tenho encontro marcado com uma magic hour lá para os lados de Palmela. E, quando assim é, resta esperar que a cabra valha a pena.

Senão sou gajo para arranjar confusão a sério.

8.4.11

O menino da cidade

O menino da cidade andou numa escola primária a cinco minutos da sua casa. Ocasionalmente, no regresso da escola, o menino punha pedras na linha do eléctrico, não para o descarrilar, mas sim para as ver reduzidas a pó.

O menino da cidade andou numa escola preparatória a 15 minutos a pé da sua casa. Ocasionalmente, no regresso da escola, o menino e uns amigos gostavam de tocar às campaínhas dos prédios.

O menino da cidade andou numa escola secundária a menos de 10 minutos a pé de sua casa. Ocasionalmente, o menino tomava a opção saudável de reduzir no almoço para investir o dinheiro num salão de jogos.

O menino da cidade andou numa universidade a 15 minutos a pé de sua casa. Ocasionalmente, não ia dormir a casa depois de festas, justificando-se com o facto de ter “amigos” que moravam a cinco minutos minutos a pé da faculdade e ser mais fácil assim ir às aulas no dia a seguir.

O menino da cidade, quando saiu da casa parental, alugou uma casa....na cidade. O destino favoreceu conjungando o seu novo local de trabalho a vinte minutos a pé de sua casa.

O menino da cidade tornou-se recentemente proprietário de uma casa na...cidade. Para além de todas as outras vantagens, isso permite-lhe continuar a ir a pé para o trabalho quando lhe apetece e trocar saudáveis galhardetes com os meninos da periferia e arredores.

No entanto, o menino da cidade viu-se na contingência de fazer obras na sua casa...da cidade. Pela primeira vez na sua vida, durante três meses, o menino da cidade anda mascarado de menino dos subúrbios. Encara isso como uma experiência interessante, se bem que temporária, encaixando bem os galhardetes saudáveis que os meninos dos subúrbios lhe têm mandado.

O menino da cidade entitula-se assim figurativamente e, fruto da musculatura que desenvolveu nas pernas de tanto caminhar para escolas e afins, pontapeará no traseiro com alguma veemência as pessoas que lhe chamarem menino e não tiverem mais de 60 anos.

7.4.11

Isto é o que se chama um mento urbano


E isto é o que se chama um post desprovido de qualquer disponibilidade mental.

O fabuloso destino de Amélie, de Sofia Coppola e de um jarro de vinho à pressão

Vamos começar por apresentar os gangs rivais – de um lado, malta que se deslumbra com tudo o que é “alternativo”, que se molda a partir da plasticina dos gurus da religião cool e confunde opiniões contrárias com falta de gosto. Do outro lado, a facção anti-alternativa que, não sendo burgessa, adora mandar abaixo tudo o que tem um rótulo demasiado alternativo e criticar os seus defensores, que consideram ser uma espécie de maria-vai-com-todas-as-tendências.

Finalmente, temos um terceiro grupo – eu. Esse grupo, se bem que individualista, define-se como um colectivo perspicaz, sensível e modesto que tenta apenas aproveitar o melhor que a vida tem para oferecer, sem julgamentos de carácter, mas com doses “grates” de sarcasmo.

E este último grupo, sendo entusiasta de cinema, viu na última semana dois filmes que, à sua maneira, dariam pano para mangas junto dos outros dois grupos– Somewhere, de Sofia Coppola e Micmacs de Jean Pierre Jeunet.

Não pretendo gastar o meu latim, por isso usarei apenas 60 palavras para definir cada um.

Somewhere – Cairá que nem ginjas em mentes que divagam na procura de um rumo para as incertezas da sua própria vida, projectadas através dos olhos de uma coqueluche do cinema. Lento, ao contrário do Ferrari que teima em aparecer, mostra ainda uma fixação com loiras exuberantes e comprova que a dupla pai solteiro-filha menor faz furor junto de muito bom coração.

MicMacs – Depois de Amelie, o Jean Pierre apaixonou-se pelo rendilhado barroco e fantasista dos fantásticos universos estéticos que cria. Amélie teve de facto um fabuloso destino, mas o resto tem-se perdido um pouco nas brumas dessa mesma estética. Há música, há fantasia, mas a história fica como a bala na cabeça, alojada em parte incerta e com um papel muito escondido.

Sabendo que esta ementa chega para entreter as pessoas com algumas aspirações culturais que por ainda aqui passem, vamos ao que interessa aos outros 98% que cá vêm.

Não há melhor um bom vinho branco/verde à pressão bem fresquinho, servido numa tasca a rigor, para garantir que a conversa ao almoço se mantenha num alegre chavascal longe de temas pós-modernos. E, se porventura o tema resvala para Coppola ou Jeunet, o empregado da tasca rapidamente põe as coisas no lugar – se não são jogadores de selecção, não têm lugar no Benfica.

4.4.11

Ontem à noite faltou-me a luz em casa

Tinha um post brilhante preparado sobre isto. Capaz de fazer chorar, de fazer rir e até quase de fazer acontecer.


No entanto, a realidade tem uma forma macabra de imitar a minha vida com acontecimentos muito semelhantes, se bem que de uma forma altamente distorcida.

E quando é assim, eu não brinco.

3.4.11

Sobre bolas de queijo flamengo

Sou totalmente a favor do progresso. Aliás, se não fosse ele, que hipóteses teria eu de partilhar com desconhecidos todas as imbecilidades que me passam pela cabeça no conforto do meu lar. Longe vão os tempos em que tinha que ir gritá-las em plena Rua Augusta ou no meio da carruagem do metro.

Mas, para provar isso e ao mesmo tempo contradizer-me, nada melhor do que divagar sobre bolas de queijo flamengo enquanto prova de que estamos uns calões de primeira. Recordo-me de ter menos 50cm do que tenho agora e não haver semana em que não havia lá em casa meia bola ou um quarto de bola de queijo flamengo. Ocasionalmente, na antecipação de qualquer festa ou lanche especial, lá vinha uma bola inteira, envolvida naquela bonita e artificial capa vermelha, pronta a ser trinchada.

Havia uma ciência inerente à bola de queijo, especialmente no que toca à arte do corte – para uns a mestria de cortar uma fatia direita e fininha, para outros alarves (nos quais me incluo) a loucura de cortar uma fatia que mais parecia um bife. Depois, era só retirar a borda da casca e siga para bingo.

Uma bola de queijo flamengo dava ao queijo aquele ar de troféu e aquela forma fazia a diferença mesmo antes de se provar a dita cuja. Era um processo que agudizava o engenho (e a fome) mas que depois de concluído dava outro gosto.

Hoje em dia, é certo que a bola de queijo subsiste e teve até o Pauleta a puxar por ela uns quantos anos, mas a verdade é que é goleada todas as semanas em hipermercados, supermercados e mercearias de Portugal. Aqui e ali, irredutíveis fãs da bola (que não a outra) ainda a vão levando para casa, mas o domínio do queijo fatiado, do creme de barrar e afins é evidente. É cómodo, permite gerir stocks, variar com mais facilidade e mais uns quantos pontos racionais, mas pura e simplesmente não é uma bola de queijo flamengo e ponto final.

E isso minha gente, por mais queijo que se coma, não há forma de esquecer.


PS - Podia agora inventar umas histórias com avózinhas, que marcaram a infância, mas também estamos a falar de queijo, não é preciso tanto drama...