31.3.11

Tempo de mudanças

Depois de demorar cerca de duas semanas a ler a Internet toda, descobri que já há demasiado texto inspiracional a falar de mudanças. Mudanças pessoais, mudanças profissionais, mudanças automáticas vs mudanças manuais e por aí em diante, parece que mais do que mudar, as pessoas gostam é de falar sobre mudanças.

Ora eu, que estou sempre um passo atrás em relação à maior parte das coisas, não por medo, mas pelo gosto de ver os outros a tropeças primeiro, resolvi avançar à campeão com um texto muito desinspiracional sobre mudanças.

E atenção, quando falo de mudanças não falo daquele conceito sentimentalóide da palavra, são mesmo mudanças à bruta, daquelas de caixotes às costas, tipos com palitos na boca a carregarem sofás e a perfeita noção de que acumulamos mais tralha do que aquela que alguma vez vamos precisar na vida.

28 mil palavras depois, chegamos à questão central – mudei-me. E digo mais, daqui a três meses mudo-me outra vez, tal foi o gozo que me deu a experiência.

Não questionando o meu poder de síntese e parte da mentira grosseira que encerra a parte anterior, deixem que vos diga uma coisa – sou um calhau insensível no que toca à mudança de casa. Já quando deixei a casa onde cresci e saí já jovem adulto, pensei que ia ser sofrido, muita mágoa e saudade no coração. Tirando uma lasca de madeira, não sofri quase nada e o processo foi calmo e tranquilo. Aquilo que lá deixei, veio comigo na minha memória e aquilo que não pôde vir, vou eu ter com ele quando é preciso.

Agora foi a vez da primeira casa alugada em nome próprio. As emoções e as memórias foram o que menos difícil houve para empacotar. Agora a porra das 20 mil caixas e sacos, mais uma camioneta de mudanças cheia até ao tecto, isso sim custou até quase às lágrimas. Lágrimas dos tipos das mudanças claro está, quando viram a cama gigante e o frigorífico monstro com que iam ter que alombar nas escadas.

Já eu, não choro por qualquer mudança. Prefiro poupar as lágrimas para o fim de filmes fofos como o Titanic.

24.3.11

A inconsequência da sequência

Antigo provérbio malaio, inventado por mim agora – Quando no autocarro a leitura não te prender, deixa nas conversas dos outros a tua imaginação crescer.

Chamada 1, ouvida por acaso - ...Pois é, e com essa história toda, não sei o que te diga, vejo-me sempre a ter que ouvir que sou mal educada, que expludo e que sou arrogante, quando sei perfeitamente que não sou nada assim e que isso é fruto de cabeças doentes que só tiram prazer em deixar os outros tristes.

Chamada 2, minutos depois, ouvida muito pouco por acaso – Então querida, sempre podes vir beber um café comigo antes de jantar? (silêncio breve, que deduz resposta negativa) Não podes porquê cabra de merda, duvido que tenhas algo melhor para fazer.

Senti-me de imediato uma cabeça doente.

22.3.11

Crises entre pessoas e blogs – Tu já não te ligas

Quando eu era mais novo, e é preciso não esquecer que ontem eu era mais novo do que sou hoje, visitava blogs com mais frequência. Uns por acaso, outros por regularidade e até alguns por afinidade, deixando aqui e ali comentários idiotas que são genuinamente típicos da minha idiotice itinerante.

Entretanto, parte da minha escrita casou-se com outros projectos que não os blogs e este tasco foi o primeiro a ressentir-se disso. A ausência que primeiro se estranha e depois não se transforma em cliché de Pessoa (embrulha lá esta Nando), deu origens a crises de choro do Blogger, a temas intermitentes que nunca chegam a lado nenhum e a um contentamento sofrido em visitas regulares, apesar de mais espaçadas, que não chegam para matar a ansiedade do blog expectante.

O problema não és tu, sou eu, repetia eu a um blog altivo, que se recusava a ver a verdade das coisas. Eu era o mesmo, as circunstâncias é que eram outras mas, o que era apenas uma verdade mundana, rapidamente se transforma em suspiros magoados de “quando perguntarem por ti, vou ficar calado sem dizer nada”.

Essa amargura recalcada passa depois ao azedume mordaz “As pessoas já não comentam...Também já não vamos a lado nenhum juntos, é o que é”. Aqui e ali, bloggers preocupados e outros interessados vão perguntando: “Mas, está tudo bem entre vocês? Passa-se alguma coisa? Precisam de ajuda?”.

A verdade é que eles não podem ajudar porque um blog tem que aprender o seu papel na vida do deu autor e a pressão exterior nada resolve. Terapia de blogs é um bom passo, para o entendimento ideal do espaço de cada um, mas também pode indicar que estão pura e simplesmente a bater mal da pinha, se ainda levam isto a sério.

Da minha parte, asseguro-vos – eu e o meu blog entrámos numa nova fase da nossa relação. Ele vai deixando que outras pessoas o conheçam e o tempo que estamos juntos é suficiente para as coisas funcionarem bem. Se bem que às vezes ele ainda reclama que eu escrevo coisas como esta só para o envergonhar à frente dos outros.

19.3.11

Este gajo é parvo

Spoiler - A resposta à pergunta é, de modo extremamente redundante, o título do post.

O que é que diz a um tipo que há mais de duas semanas não faz a barba por causa de uma estúpida aposta, que fez consigo mesmo, a propósito de uma corrida de 21kms que vai este domingo de manhã estragar os planos a todos os que queriam ir estrear os fatos de treino à margem sul e vice versa, e se arrisca a ficar um sósia do Barbas mas que consegue escrever o próprio nome sem ajuda ou, na melhor das hipóteses, obrigar-se a usar bigode durante uma semana?

18.3.11

Tendências 2011: O falso altruísmo está on

Muitas pessoas perdem boa parte da sua vida a tentar perceber o que vai na cabeça dos outros. Não negando alguma curiosidade na matéria, falta-me no entanto a paciência para dispender muito tempo com isso e, sendo assim, resolvi atalhar caminho e arrombar as instalações de um gabinete dedicado a estudos/testes psicotécnicos. E embora não saiba muito bem o que isso diz de mim, tal permitiu-me saber o que diziam sobre muita gente.

Porque ainda tenho de ir acabar um post onde tento sintetizar em cem linhas as razões que me tornam um ser humano fantástico, apenas um pouco mais alto que o tio Mahatma, não vou aqui abordar um aspecto que apareceu por diversas vezes – o elevado número de pessoas que têm uma imagem de si bem melhor do que aquilo que são na realidade.

Resta por isso focar-me noutra característica bastante comum entre malta jovem (e por jovens entende-se aqui gente que ainda possui mais dentição própria que artificial) – o falso atruísmo. É moderno, é fresco, tem um je ne sais quois de rede social com travo superficial mas, ao mesmo tempo, é clássico e leva-nos para todo um universo de tradição.

Agrada-me saber que existe muito mais gente a dizer que se preocupa, que vai ajudar, para contarem com eles quando for preciso e a perguntar vezes sem conta se temos o seu número de telefone, do que aqueles que depois efectivamente fazem alguma coisa.

Porquê essa satisfação? Porque não faltando por aí falsos altruístas, é mais fácil descobrir e aprender em quem se deve verdadeiramente confiar, através da prática e da desilusão ligeira. Porque se as pessoas boazinhas e preocupadas fossem efectivamente os 97% que dizem ser, os outros 3% como eu seriam realmente considerados maus e desprezíveis. E, acima de tudo, porque o falso altruísmo é fast food emocional, tornando acessível o conforto emocional fraquinho e fácil de reforçar em pequenas doses, face aos balúrdios de despesas emocionais em que uma pessoa se mete quando se começa a preocupar a sério.

E como me preocupo convosco quero que saibam que, por muito ausente que pareça estar, se precisarem de desabafar sobre qualquer coisa, podem contar comigo. Pelo menos para continuar ausente.

15.3.11

Os aliens saíram à rua num dia assim

Aviso prévio: Este texto não é sobre manifestações, nem se manifesta sobre manifestantes. Para isso, existe o Facebook e o resto da Internet.

Tendo um par de pernas e uma disposição atlética, a par da vantagem de demorar apenas vinte minutos de casa à firma, faço esse percurso a pé várias vezes. No entanto, aquilo que vejo em dias normais, difere do que vi hoje.

Quem vê filmes e séries de ficção científica que metem extraterrestres a circularem na Terra disfarçados de humanos sabe do que estou a falar. Gente que caminha sem ter bem a noção do espaço que ocupa nos passeios, passo incerto que finge alguma determinação e óculos escuros a estranharem a claridade que se entranha à sua volta.

Tentam integrar-se, mas ao mesmo tempo sabem que o seu lugar não é ali. A sua expressão é estranha, como se não acreditasse que a cidade pudesse ser assim. Carregam pastas, portáteis, mochilas e bolsas, mas não é o seu destino que as preocupa, é o constrangimento causado por um espaço aberto que não dominam.

São os caminhantes eventuais, os filhos da greve do Metro, que enchem as ruas e as paragens com o seu ar deslocado, a sua impaciência para voltar à nave mãe que hoje os deixou apeados e o desejo de deixar para trás aquelas ruas estranhas e a obrigação de caminhar.

Da minha parte, concordo plenamente, porque as ruas não são para aliens de trazer por casa. São para Et’s de barba rija, tipo eu.

14.3.11

Manifesta in acção

Tenho três minutos para escrever sobre a manifestação.

Tenho dois minutos e trinta segundos para escrever sobre os prazeres de encaixotar coisas.

Tenho dois minutos e doze segundos para escrever sobre gostar de correr e depois queixar-me de há demasiada coisa a passar-se a correr.

Tenho um minuto e vinte e sete segundos para escrever como uma barba pode ser um misto de estilo e preguiça.

Tenho um minuto e seis segundos para escrever sobre trabalho, guiões, notícias e contos, não necessariamente por essa ordem.

Tenho vinte e oito segundos para escrever sobre redes sociais, mas se calhar é melhor dizer lá directamente, porque as pessoas gostam mais de posts do que de links de posts.

Tenho sete segundos para escrever que já não tenho tempo, mas que vou dormir sobre o assunto.

8.3.11

Um post vestido de mulher

É Carnaval, ninguém leva a mal. E dito isto, toca de atirar a garrafa de whisky para trás das costas, na direcção do corso e do ajuntamento da multidão. Ouviu gritos, vidros a partirem-se e crianças a chorar, mas não se deu ao trabalho de olhar para trás. O mundo já está cheio de merdas sem sentido, pensou enquanto se afastava, para quê ver mais...

Duas ruas mais à frente, dois homens vestidos ao estilo do filme Avatar bloqueavam-lhe o caminho. Então giraça, disse um deles, vens mascarada de quê?

Não respondeu.

Deve ser de vaca, disse o outro, mas daquelas que não mugem. Riram-se os dois.

Também se riu e acrescentou, de vaca não, senão ainda me confundia com a tua mãe.

Pararam de rir e o comediante agarrou-lhe num braço.

Tira as patas, senão....Senão o quê? Senão mostro-te porque me custa menos partir-te um braço do que mandar arranjar um vestido Chanel.

Recuaram e com isso ganhou espaço para agarrar numa pedra da calçada. Eles correram e a pedra correu com eles. Não viu quem ganhou, mas foram todos rápidos na mesma direcção.

O resto do percurso fez-se sem história, tirando a do costume, aquela em aqueles saltos lhe davam cabo das costas. À porta de casa, outra história repetida, a do olhar reprovador que não casa com o sorriso plástico do cumprimento forçado com as vizinhas, um momento que se dilui quase instantaneamente assim que o vestido lhes sai do horizonte visual. Elas que falem, pode ser que se engasguem com a placa.

Com a fome que trazia, por instantes esqueceu-se que alguém chegara primeiro a casa. Aquela voz pseudo-grave relembrou-lhe isso mesmo. Trazes jantar? É que se não trazes já devia estar feito, que isto não são horas. Aquele bigode não condizia com a voz pensou, enquanto voltava as costas e tentava relaxar dois segundos. Sentiu uma palmada valente no rabo. Não penses que te safas assim.

Voltou-se e arrancou aquele bigode num só gesto e, antes que ela protestasse, puxou-a pela gravata e beijou-a. Ela tirou-lhe a peruca e empurrou-o para trás, sorrindo ao vê-lo com o seu bigode na mão. Espero bem que não me tenhas lixado o vestido, disse, que me custa menos partir-te um braço do que arranjar um Chanel novo. Ele riu-se e chutou os sapatos para longe. O Carnaval está mesmo cheio de merdas sem sentido, pensou.

4.3.11

As pessoas querem sonhos, eu dou-lhes sonhos

Sonhei que estava na hora de ter um sonho, não um sonho vulgar daqueles que, mal abrimos os olhos, já nem nos lembramos deles mas sim um sonho daqueles que, no dia a seguir, quase merecem tanta atenção como o golo da vitória que está a dominar a conversa na zona do café.

E se bem sonhei, nesse sonho tinha que haver alguém a morrer logo para começar, pois as pessoas gostam de um bom choque para lhes cativar a atenção. Não havia tempo a perder, matei rapidamente um primo, mas tive o cuidado de escolher um dos que gosto menos, não fosse a coisa ser premonitória.

Morto o primo, faltava a razão. Mas, num sonho, as razões não são evidentes, tirando que andava metido com um dragão e um anão, que me tinham sobrado do sonho de terça-feira. Simplifquemos, era um dragão-anão e não se fala mais nisso.

Pela reacção, quer do meu primo, quer do dragão-anão, o sonho pareceu-me estar a ser bem sonhado. Olhei para o relógio sem abrir os olhos, coisa que dá outro gozo quando se está a sonhar e vi que ainda tinha horas de sono pela frente e um unicórnio montado por uma voluptuosa modelo de leste à minha direita. Sorriu para mim, o unicórnio, a modelo nem por isso.

Avancei e comi algodão doce, porque nos sonhos ou se come ou nos arriscamos a ser comidos. Aí a coisa não difere muito da realidade. Um senhor de alguma idade pegava-me no braço e deu-me vários conselhos, que começavam sempre com um carinhoso “filho”. Não conhecendo o senhor, não tive coragem de dizer que se tinha enganado no sonho, mas tomei a liberdade de não seguir os seus conselhos.

A modelo de leste, envergando uma lingerie provocante, debruçou-se vagarosamente com intenções de dizer algo ao ouvido. Não percebo porque resolveu fazê-lo ao idoso, quando eu estava mesmo ali ao lado, envergando um bonito fato de licra amarelo elástico. É o que dá ouvir dicas de moda de um unicórnio.

O meu primo, chato como sempre, insistia em que eu o ressuscitasse no sonho, porque já tinha bilhetes para a ópera e era para as competições europeias.

Preferi acordar a dar razão ao meu primo. Se ele sonhasse que eu fiz isso de propósito, a coisa iria tornar-se um pesadelo. Não percebo porque é que as malta na zona do café ficam a olhar para mim de forma estranha. Especialmente o dragão-anão.

1.3.11

Como encaixar uma porta em cara alheia

Que se lixe o IKEA, pois isto não trata daqueles manuais em que um boneco careca se entretém durante umas boas horas a fazer pouco de nós, enquanto fazemos figuras tristes a tentar montar um armário.

Isto tem que ver com uma regra básica de boa educação que se define, numa só palavra, como “segurar uma porta para a pessoa que vem a seguir ter tempo de a segurar para não levar com ela na tromba”. É um acto simples, não exige grande disponibilidade mental e, caso não estejamos desprovidos de pelo menos um bracinho, facilmente executável.

Tanto é assim, que já a aplico há alguns anos, depois de aprender que não era boa ideia abrir portas com os dentes. No entanto, há uma situação em que me apetece mandar a boa educação às malvas e que certamente alguns dos leitores com braços e boa educação já testemunharam na primeira pessoa – aquela situação em que passamos de facilitador a mordomo Jarbas.

Eu explico: abrimos uma porta, por exemplo num centro comercial, e vemos que vem alguém atrás de nós. Resistimos um segundo à pura maldade de lhe dar com ela nas ventas e ficamos a segurá-la mais um instante, esperando que a pessoa tenha tempo de segurar a porta já aberta e, com sorte (tirando se for no Colombo) tenha a educação necessária para nos agradecer o gesto. Contudo, o que essa pessoa faz é entrar sem segurar a porta, obrigando-nos a ficar especados a segurar-lhe a porta, já que largá-la nessa altura implica dar-lhe com ela ostensivamente.

Neste caso, se o Jarbas automático for eu e tentarem fazer o mesmo, brincam com a vossa sorte. É totalmente aleatória a minha disponibilidade para fazer de mordomo e, jovens ou idosos, boazonas ou grotescas, malta cool ou quadradões de primeira, todos se arriscam a decorar o vosso rosto em tons de porta, se não a segurarem dentro do tempo que eu considerar válido.

Hoje já fiz isso e não é por causa do “Oh, francamente” da senhora afectada, que deixei de me sentir bem acerca disso.