31.1.11

O Panda que é segurança


Não é novidade mas, após anos e anos de convívio à distância com este produto, o spot de rádio que ouvi hoje foi a gota de água. Meus amigos, não é possível convencerem-me que “Panda” é um bom nome para um anti vírus – um panda será bom para enfeitar árvores de Natal, para peúgas fofinhas, para enviar em vídeos para impressionar amiguinhas cor de rosa, mas não me parece grande espiga para inspirar confiança na luta contra o império do mal das viroses informáticas.

Kaspersky? McAfee? SafeGuard? Norton? AVG? Com um nome de senhor estrangeiro ou um termo técnico, um gajo até pode ser enganado e levado a pensar “Sim senhor, certamente que o senhor Norton é gajo para perceber umas coisas sobre o mundo negro da internet e o Agente Kaspersky, vindo da Bielorrúsia de baixo, também não lhe fica atrás”.

Agora, o Panda? Ah, tenho o computador todo infectado, só consigo clicar no Enter e ver imagens da Madre Teresa em lingerie...vou já chamar o...Panda. Qualidade do produto à parte (com os anos que leva, alguma coisa deve fazer bem), a ideia do Panda a fazer o trabalho que um comum mortal não consegue, só por si é embaraçosa.

Então, já limpaste o computador?

Já...

Chamaste um técnico ou bastou algum programa?

Foi....(baixinho) o Panda...

Ah....(expressão desconfiada de quem vê o índice de fofinhice a aumentar)

Panda é Panda, seja em que país for. Não é Tiger, Snake nem Dragon, é meio caminho andado para um tipo perder a sua masculinidade e a seguir a usar esse anti-vírus ser visto em casa não só a usar pegas de cozinha, como também um avental Hello Kitty.

Ainda se fosse, Bloody Panda, Demon Panda, a coisa ficaria meio banda desenhada japonesa e aí já sabe que no meio do fofinho os gajos arranjam sempre maneira de meter cowboyada, regabofe e porrada pelo meio.

Agora assim...antes deixar o computador ser consumido até ao tutano pelo vírus “I Love Carrie Bradshaw” do que deixar um Panda fazer o trabalho por mim.

28.1.11

Passear um cão é coisa de filósofo

Com um toque de psicólogo e de adepto do surrealismo, acrescento. A verdade é que eu passeio um cão e, não sofresse eu de uma certa imaginação galopante, só dessa experiência retiraria matéria suficiente para alimentar um blog durante muito tempo. E, quando digo um blog, digo daqueles a sério, onde se falam de coisas sérias que, por o serem, eu não consigo identificar muito bem.

Assim sendo, coisa pouca que se passa quando se trata de passear um cão:

- Fazer de ventríloquo de quinta categoria, usando um saquinho de plástico na mão como fantoche, deixando o saco explicar a uma freira chata que ele servia para apanhar a trampa do cão e não para a aturar a ela.

- Explicar a um bêbado que aquilo não eram dois cães.

- Discutir filosofia das intenções com um cidadão quase fossilizado que insistia que eu só levava sacos na mão para as pessoas pensarem que ia apanhar a bosta do cão, mas que mal elas viravam costas eu não fazia.

- Ouvir compreensivamente cerca de 139 idosos diferentes contarem sempre a mesma história – gostam muito de animais, já tiveram um, esse um morreu e sofreram tanto como se fosse uma pessoa, valha-lhes Deus, mas fazem muita companhia, mas eu não era capaz de ter outro, ai o que eu tive era igual a este, só que era um gato.

- Debater raças. Eu sei que a cadela é rafeira, milhares de observadores experimentado vão buscar-lhe raízes em raças que remontam até à dinastia afonsina.

- Explicar a um bêbado que aquilo não é um São Bernardo, a não ser que os disponibilizem em edições de bolso.

- Elucidar o transeunte que se as leis da lógica e da física não permitem que um cão tão pequeno seja responsável por uma bosta que compete com o Titanic.

- Evitar que criancinhas que servem o Demo se envolvam em combates de wrestling ou test drives com a pobre criatura que passeio.

- Explicar a um bêbado que isto que trago hoje na mão é um saco do Bimbo Doce e não um cão.

E por aí em diante...

27.1.11

Da vida entre os artistas - O pintor que não pintava

...disse-me que era pintor, mas da sua obra não conhecia mais que palavras.

As telas permanecem do mais alvo branco, enquanto pessoas e críticos, uma distinção que faço para não ferir susceptibilidades, se dividem na sua apreciação.

“É um natural inovador”, reclama Dordoni, famoso por nomear movimentos artísticos com a mesma fluidez com que despeja garrafas.

“Não passa de um moço de estrebaria glorificado, a quem damas sedentas de arte puseram na mão um pincel, de modo a justificar festas e visitas inoportunas”. A calorosa acidez de Azcher, contrastava com a sua reputação de ser alemão, se é que ser germânico, por si só, pode ser sinal de reputação.

Abordei-o um dia, imune às conversas de escada e jogos de bastidores, mais por curiosidade do que por proximidade. É preciso dizer antes que, embora partilhássemos alguns círculos de convivência, a nossa relação derivava apenas daquela linha invisível que une, de alguma maneira, todos os artistas, sejam eles escritores, pintores, músicos ou simplesmente “pessoas dadas às artes”, como é comum definir mandriões desgrenhados que acreditam que é possível viver de sonhos e que o trabalho mata a alma de qualquer artista.

Como já fiz questão de mencionar, nunca vi nada pintado da sua autoria, facto invulgar em quem se apresenta como pintor.

“Desculpa-me a presunção” comecei “Sendo pintor, não deverias passar boa parte dos teus dias travando longas batalhas com tintas, óleos, pincéis e gigantes brancos que se escondem dentro de telas?”. Por esta altura sorria, como se o seu sorriso já fizesse parte da resposta.

Concluí “Ou os caminhos do teu talento escapam à vista dos que, como eu, são meros observadores”.

A sua resposta foi breve, a memória da mesma perdura até hoje.

“Meu caro, uma tela, nada mais é que um túmulo onde vive parte da alma de quem a pintou. E um túmulo é um imortal da pior espécie, anseia por adoração, mas nada dá aos que o visitam ao longo dos tempos, para além da parca satisfação de o verem de perto.

Eu sou um pintor de palavras, de histórias, pois é este o tipo de imortalidade que desejo. Algo que cada um leve consigo e partilhe, se assim o desejar, sem preço nem moldura certa. Algo que agrade a reis e a indigentes, que os preencha de igual forma, apesar das suas vidas serem tão distantes como o topo da montanha mais alta e o fundo do mar mais profundo. Sou pintor porque a vida é algo que cada artista retrata na superfície para a qual é mais talhado. Para alguns é a tela, para mim é a imaginação de quem me ouve”. Não pude deixar de pensar se o sorriso que mantinha fazia parte das suas ferramentas.

Pus-lhe a mão no ombro e nenhuma outra palavra foi dita entre nós nesse mesmo dia. Afastei-me com um sorriso e uma certeza. Tinha agora na minha posse um quadro de tão inusitado pintor, quiçá de valor incalculável, sem que para isso ele tivesse sequer tirado as mãos dos bolsos...

Gennaro Pistoiese

Tipo italiano dado às palavras (séc. XVIIII ou coisa que o valha)

Não sei do que morreu, mas tenho a certeza que já não está vivo.

26.1.11

A necessidade de se ter sido um mau rapaz

O passado de cada um é o passado de cada um e não há problema nenhum com isso, tenha ele sido um passado com malta da pesada ou um passado ligeiramente mais upscale. O problema é que quando se fala dos tempos de escola a imaginação, por vezes, não viaja à mesma velocidade que a coerência, especialmente quando depois de adultos esses passados convergem em caminhos comuns.

“Ah, lá na escola ninguém mandava em mim. Às vezes até entrava nas aulas com a gravata do uniforme na cabeça...”.

Som de buzina irritante, como que a detectar algo errado – Fooooooooon

Gravata e uniforme? Epá, nas escolas em que eu andei a única malta de uniforme que lá entrava por norma era da polícia.

“Bem, vocês nem imaginam o que se fazia ao cavalo do professor de equitação...”

Foooooooon

Não devia ser pior do que o que o irmão do Napoleão fazia ao cavalo que alegadamente vendia lá perto da escola.

“Quando estava no secundário fui à neve para as pistas mais difíceis e o forfait....

Fooooooon

Se não é uma história com sacos de plástico na Serra da Estrela, os manos não vão achar curtido.

“E aquele do filho do embaixador da Hungria que era da minha turma....”

Foooonnn

Se não era chungaria da Pedreira dos Húngaros não vás por aí...

“E aquelas férias no iate do pai do gajo da turma de....”

Fooooooon

Jovem, se é barco e não é cacilheiro a caminho da Trafaria, então a coisa nunca pode ter sido do mesmo calibre...

Os betos terão sido sempre betos, por muito que tentem dar um toque chunga às suas histórias e a malta do universo chunga terá sempre um sal especial para as suas histórias, por muito que hoje em dia desse registo já só lhes sobrem simples memórias. Desde que cada um arrume as suas histórias na prateleira devida, tudo soa melhor.

Da minha parte não me queixo, sempre tive a sorte de só me dar com as pessoas erradas à hora certa e a mioleira suficiente para não ir em outras cantigas que não as minhas. E, embora cante mal que me farte, lá descobri que há outra forma de dar música às pessoas.

De noite, todos os que escrevem são parvos

A melhor altura para escrever é quando já estás a dormir.
E estou a escrever baixinho, para não te acordar.
Escrevo os guiões dos teus sonhos, são as minhas obras mais brilhantes.
Mistério, horror, aventura, drama, amor e sexo.
Nem sempre por essa ordem.
Às vezes sou mais rápido que criativo, tenho medo do teu sono leve.
Às vezes as histórias não batem certo e de manhã queixas-te disso.
E eu olho-te com um sorriso, não sabes que o autor está por perto.
Quando dormes profundamente, aí tudo sai direito.
Não há falha a apontar, o argumento é perfeito.
Adormeces, sonhas e mal acordas tens que o contar.
O sonho que é teu e a história que é minha,
que por tanto gostar de te ver dormir,
não posso assinar.



Hadley Boorman, traduzido à pressão
Escritor Neozelandês (1908-1973)
(curiosamente, morreu durante o sono)

24.1.11

Amigos da Lionça

Malta jovem, ando ocupado mas continuo a pensar em vós boa parte do tempo.

Ok, alguma parte do tempo.
Pouco tempo.
Certo, lembro-me vagamente de vocês.

Bem, é melhor não irmos por aí.

O que interessa é que, enquanto eu não vos dou a atenção que precisam, podem entreter-se a ver como seria o vosso nome se fossem um rebento do casal Luciana e Yannick.

Para aí 2 segundos.

21.1.11

O maior pintor do Ribatejo


Muitos desconhecem, mas Paul Golegã era português.

19.1.11

Prato do dia: Bananas com coca

- Simão, pára quieto um instante.

Sentado num baloiço feito a partir de um velho pneu e uma corda, Romão via o seu companheiro andar de um lado para o outro nervosamente. Aproximou-se em corrida do baloiço e começou a gesticular furiosamente.

- Parar, parar? Como é que podes falar em parar, estou nervoso, muito nervoso, mais nervoso que uma gazela se a metessem na jaula dos leões. Leões, grandes vidas, ali de juba ao sol, carne o dia inteiro e eu, parado, quer dizer, não estou parado, mexo-me, mas sinto-me parado no tempo, tirando que o tempo não pára...

Romão coçou a cabeça e fechou os olhos. Quando os abriu, Simão já não estava ao pé de si.

- Simão....é por causa das bananas não é? Aquelas que não chegaram, que vinham da Colômbia ou do Equador ou lá o que era...

Um guincho vindo de cima fê-lo voltar o olhar. Simão trepara ao topo da jaula e, cobrindo a cabeça com os braços estava agora pendurado de cabeça para baixo.

- É pois, Equador igual a dor, falta de bananas, tinha tanta energia, agora não tenho mas falo depressa, imagino coisas. Falamos como pessoas, temos nomes, mas não temos nada. Quer dizer, temos tudo menos liberdade e bananas. Que se lixe, que lixe a liberdade, dêem-me a porra das bananas, daquelas, das boas, das que dão energia.

Romão fechou os olhos novamente. Quando fechava os olhos, tudo o que Simão dizia parecia ter um ritmo de reggae. E tudo parecia melhor quando Romão pensava que estava na Jamaica, aonde nunca tinha ido, tirando em sonhos.

- Simão...tem calma. Tudo se resolve e tudo gonna be alright. Relaxa meu, curte a vida e vais ver que stressas menos.

Abriu os olhos e Simão estava de novo à sua frente. Toda a sua euforia tinha desaparecido e parecia agora simplesmente triste, muito triste. Em tom de mágoa disse apenas.

- Para ti é tudo fácil Romão, todas as semaninhas continuam a chegar os teus belos amendoins com ganza não é verdade? Vais ter com os teus búfalo soldiers e é tudo peace and love. Mas aqui o Simão não, fica sem bananas e acabou. Acabou tudo, menos o sofrimento do Simão. Não é, não é, não é?

Correu novamente até à parede e trepou as grades da jaula. Romão sorria, de olhos fechados. Ah, Simão podia ser um bom macaco cantor de reggae, se não estivesse sempre em stress por causa das bananas com coca.

18.1.11

Queria mais do que um telemóvel

O outro morreu, não houve período de luto.

Tinha necessidades que não podiam esperar, o mundo desliga-se do que desligados estão.

Não bastava que lhe ligassem, queria mais que um telemóvel. Queria guardar sorrisos no bolso, levar momentos consigo. Queria dizer “eu kero” com escrita inteligente, fazendo desta função e não talento. O desespero de não ter rede era sinal de que a rede à sua volta se apertava cada vez mais.

Depois do primeiro minuto, as primeiras impressões são taxadas ao segundo dizia o seu tarifário. Por isso queria mais que um telemóvel. Queria um raio de sol com alguma autonomia, para brilhar sempre que fosse preciso, sem lhe queimar a mão. Queria bloquear chamadas de atenção e capacidade para dois SIM, embora utilizasse com mais frequência o Não. Queria wireless, happiness, o Lago Ness e tudo o que mais ou less desse estilo.

A verdade é que queria mais do que um telemóvel, queria tudo o que fosse preciso para não mostrar que não sabia o que queria.

A culpa não era sua. Era um problema de bateria.

De perfumis

Tenho um grande respeito por quem teve a brilhante ideia de comercializar perfume. Aliás, vejo essa figura até como um visionário que, prevendo a necessidade futura do uso racional da água, deu uma opção que emana estilo e requinte para aqueles que não pretendam desperdiçar tão precioso líquido em actividades triviais como banho.

Bem vistas as coisas, tomar banho qualquer um pode tomar e, ainda por cima, desde que não abuse demasiado da sorte no que toca aos odores corporais, pode dizer que toma sem na realidade o ter tomado, tomando assim os outros por parvos.

Já com o perfume, a história é bem diferente. Cada qual tem a sua marca e um banho na mesma requer investimento que ofusca qualquer duche de trazer por casa. Seja Marvin Klein, Giorgio Armandi, Carlinha Ferreira, Doce&Armanda ou o diabo a quatro, a sua presença é inconfundível e ninguém pode dizer, ao contrário do banho, “Ah, este tipo não usou perfume hoje, o Zé porcanas”.

É por isso que eu agradeço, no aconchego do transporte público ou no convívio mais íntimo de elevador pela vossa demonstração de perfumação. Posso nunca vir a saber com que regularidade tomam banho mas, em termos de “eau de toilette” ou “eau de parfum”, nunca porei o vosso afinco em causa.

Até porque palavras leva-as o vento, mas a memória do vosso cheiro é bem mais duradoura.

17.1.11

O dia em que as reuniões morreram

Se eu mandasse, tipo no mundo inteiro, as reuniões teriam as horas contadas. Primeiro que tudo, o sentido figurativo da frase seria o que mais agradaria ver concretizado, acabando comigo a olhar distraidamente para as páginas da Necrologia de um qualquer jornal, vendo um quadradinho rodeado a negro:

Reunião

(Tempos imemoriais – 2011)

Um bando de gajos com pouco que fazer anuncia, com alguma saudade, o seu desaparecimento após improdutividade prolongada.

Não podendo reunir para falar sobre este acontecimento, aproveita a ocasião para dizer que que as mesmas deixam um espaço vazio na agenda que dificilmente poderá ser preenchido com a mesma qualidade de catering

A sua família – conference calls, brainstormings da Silva, pequeno corporate get together, ligeiro work in progress catch up, debate ongoing e troca de impressões, entre outros, gostariam de estar presentes mas, infelizmente, estão a ser aquilo que são e por isso não têm tempo.

Não haverá câmara ardente, mas haverá um plenário da câmara em sua honra.

Este grupo de gajos com pouco que fazer, mas empenhados em demonstrar o muito que faziam em reuniões, gostaria de deixar algumas palavras sobre as decisões que foram tomadas e que ficam connosco, agora que as reuniões nos deixaram.

Infelizmente, entre gracejos de ocasião, comparação de novos telemóveis, intervenções sobre as últimas e as próximas férias e argumentos sobre semântica colateral, não se lembram de ter tomado uma qualquer decisão que não implicasse reunir novamente.

Sendo assim, fica agendada uma última homenagem à reunião, depois do cortejo fúnebre, em que esse mesmo bando de gajos irá juntar-se para tentar perceber o que vão fazer agora ou agendar um novo encontro, para depois decidir.

PS – Não sendo possível, já me contento em ter o sentido literal da frase, reuniões com horas contadas ou, se possível, minutos, tipo 23 no máximo.

14.1.11

A foto do tipo que pensa

Os anos passam, as culturas empresariais evoluem e as correntes de pensamento alteram-se. No entanto, uma coisa permanece quase imutável: o cliché da foto institucional do autor/empresário/gestor/conferencista/tocadordegaitadefoles numa pose que traduza a sua serenidade e capacidade de reflectir grandes reflexões.

Não coloquei aqui essa foto, para vos dar uns segundos para criarem uma imagem mental. Se a primeira imagem que surgiu não for a que vou descrever, então precisam de fazer esta pose durante algum tempo, a ver se começam a pensar como deve de ser.

Falo, é claro, da típica foto mística em que, com ar assertivo, alguém nos é representado com uma mão no queixo, segurando-o ou fazendo um L com o polegar e o indicador encostados ao rosto.

Bem sei que o “Pensador” do Rodin é um modelo fidedigno mas, se repararmos bem na obra, aquele gesto é aplicável tanto ao acto de pensar, como ao de estar sentado nos sanitários, em atitude contemplativa.

Por isso, porque raio é que colocar a mão no queixo há de passar a ideia de que “Este sim, é um tipo que transmite a ideia que sabe pensar e dizer coisas importantes”. Até porque alguns dos maiores imbecis que conheço também são perfeitamente capazes de levar as mãos ao queixo, embora revelem maior dificuldade em identificar um L para o conseguirem fazer com os dedos.

A verdade é que não tenho uma teoria completamente válida para justificar a padronização que perdura ao longos dos tempos, no que à foto do pensador de trazer por casa diz respeito. No entanto, interrogo-me se isso não terá que ver com o facto de não ter passado tempo suficiente com a mão no queixo, fazendo um L perfeito, antes de escrever este texto.

12.1.11

Modo Telegráfico

Escreves demasiado texto para ler na net Stop

Não escrevo assim tanto Stop

Existem listas telefónicas com menos páginas Stop

Isso deve ser por causa das chamadas de atenção Stop

Deixa-te de piadas de circunstância Stop

Só se deixares de conduzir e mandar msgs ao mesmo tempo Stop

Baaah Stop

Cuidado com o Stop

Com o quê Stop

Com o Stop

O QUÊ Stop

Stop o sinal de Stop

Onde Stop

À tua frente Stop

Como é que sabias do Stop

Porque estou ao teu lado Stop

Vais escrever sobre isto não vais Stop

Isto do Stop

Isso e o Stop do Stop

Sim, vai ser non Stop

Já disse, se é piada de circunstância Stop

Ok eu faço Stop

Piadas Stop

Não, textos longos Stop

Já não percebo nada Stop

Eu nem tentei Stop

11.1.11

Roma e Pavia, ontem e hoje

Antigamente diziam, Roma e Pavia, não se fizeram num dia. Agora dizem-me, faz Roma, orienta lá Pavia, se puderes acrescenta ainda a Brandoa mas com uns toques tipo Florença e, se ainda tiveres tempo faz também uma coisa tipo Pequim meets Londres ao jeito dos Bijagós. Depois, podes tirar o resto do dia, que amanhã é que vai ser complicado...

10.1.11

Terapia familiar a quente

O convite para almoçar tinha sido estranho. Não porque almoçar fosse para ele uma actividade estranha, já que o fazia desde pequeno, mas pela nota final ao telefone “a família toda vai lá estar”. Não só o conceito de família era pouco familiar para aquela troupe, como a indicação de “todos”, previa um apocalipse com cutelaria incluída.

Ainda assim, cá estava ele, de banhinho tomado e uma garrafa de vinho na mão, a 100 metros da porta da vivenda. Escondeu a garrafa de vinho num arbusto do jardim, não ia gastá-lo naquela gente e nunca se sabe quando teria que beber depressa para esquecer ainda mais rapidamente a tragédia em que aquele almoço se podia tornar.

Conforme se aproximou da porta, apenas 5 minutos depois da hora marcada, ouviu uma série de barulhos estranhos. Algures entre guinchos, gritos em surdina e pequenos lamentos abafados, parecia estar a decorrer algum ritual estranho. Será que lá em casa degolar cabras era agora aperitivo?

Pensou em usar a chave que tinha mas, dado aquele cenário, achou por bem tocar. A guincharia não parou.

“Entra, entra, só faltavas mesmo tu”, o sorriso da mãe não podia ter sido mais acolhedor o que, por sua vez, o fazia ficar ainda mais assustado. A última vez que a mãe sorrira num encontro de família tinha sido no funeral do tio-avô Maurício, quando a sua própria irmã e o cunhado tinham, inadvertidamente, caído no buraco de uma outra sepultura à espera de morador. O sorriso desapareceu quando se constatou que ninguém se aleijou.

Ao abrir a porta, que dava para um pequeno hall, os gritos abafados tornaram-se mais familiares. Um deles era claramente do seu primo, pois já tinha visto o primo Nélson gritar assim quando o tio Artur lhe derramara café em cima no Natal de 98. É certo que tinha pedido desculpa, mas uma cafeteira a escaldar despejada nas costas de alguém é um facto que se demora a perdoar.

Sem perder mais tempo, entrou na sala e, comparado com o que viu, o Inferno de Dante era um presente da “Vida é Bela”. A mesa tinha sido retirada e cerca de quinze parentes seus, de todas as idades, formavam um círculo. À entrada da ligação para a cozinha, um panelão em cima de um fogão de campismo fervilhava com água e algo lá dentro. A sua mãe voltou ao círculo e, gritando, tirou algo de lá e passou-o rapidamente à sua prima Lara que, por sua vez, deu um dos seus gritinhos histéricos e o passou novamente. Um a um, os seus parentes pegaram e passaram o objecto em causa, não sem gritar ao pegar nele. Quando o círculo se completou, a sua mãe voltou a pô-lo no panelão e, gritando, tirou de lá outro exemplar.

Era uma batata.

“Mas, mais do que é costume, está tudo maluco?” exclamou ele incrédulo, não sem antes morder o lábio até sentir dor, só para garantir que não estava a sonhar.

“Calma filho” era agora o seu pai que falava, o homem que ficara sem carta depois de ter tentado atropelar duas primas inconvenientes. Depois de as ter atirado do carro. Depois de as ter colocado na bagageira, para as levar a casa depois de um almoço que durou cerca de três minutos.

“Depois de anos de más relações familiares” continuou “achámos que bastava de passar a batata quente e havia que resolver o assunto, especialmente com o avô Constantino quase a bater a bota e uma herança que não é brincadeira”. O avô Constatino não apreciou muito a referência e o seu lamento ao pegar na batata, foi mais rosnado que outra coisa.

“Por isso, seguindo uma terapêutica que a tua prima Marisa recomenda, estamos literalmente a passar a batata quente, a ver se este sofrimento em comunhão, neste literalismo exagerado, nos ajuda à reaproximação familiar. No limite, se isto falhar, ai au ai au (era a sua vez de passar a batata), ficamos pelo menos com a satisfação de nos termos visto a sofrer olhos nos olhos”.

Fazendo um sinal de que não queria ouvir mais, voltou-lhes as costas. Ter trazido uma garrafa de vinho tinha sido um erro, devia ter vindo com um garrafão. Percorria os degraus do jardim, quando ouviu um vidro a partir-se e algo veio ter aos seus pés. Era uma batata quente.

A gritaria recomeçou lá dentro, mas agora era mais intensa. Se calhar iam começar a passar a cabeça de alguém.

5.1.11

Três palavrinhas sobre mim

Se estavam à espera que fosse eu a dá-las, estão muito enganados.


Chegou a hora de serem vocês a gastar o vosso latim, mais precisamente aqui.


Para além de ter copiado indecorosamente isto de um bibliotecário de referência, fiquem sabendo que caso não goste das palavras, este programa permite descodificar as vossas moradas e, feito isso, terei oportunidade de vos descrever em três marretadas.

4.1.11

A falar é que a gente se desentende

Dizem-me que é a falar que as pessoas se entendem e eu acredito que sim, apesar de também acreditar que às vezes falar, como quem diz falar sem saber ou falar demais, é caminho andado para as pessoas se desentenderem.

Querendo começar 2011 com um toque de rapaz viajado e conhecedor de coisas do mundo, uso como exemplo um episódio que presenciei no aeroporto de Nice no ano passado. Um vôo com destino a Lisboa, repleto de portugueses, esgotou sem que tal fosse previsto pelos responsáveis.

A porta de embarque estava apinhada e uma dupla de funcionários franceses da operadora terrestre tenta controlar as coisas com a companhia aérea. Ela, jovem e inexperiente, arranha um inglês mediano e vê-se que está stressada, ao passo que ele, já experiente, parece apenas aborrecido por trabalhar a um domingo.

Percebendo francês e estando na linha da frente, depois de metade dos passageiros já ter seguido no primeiro autocarro para o avião, apanho a jovem a dizer que faltava uma refeição para um passageiro, que não havia para todos. Ele torce o nariz e vai lá atrás fazer qualquer coisa. Malta em espera, que não apanhou a mensagem tão bem como eu, começa a derivar.

“Ela disse o quê?”

“Parece que não há lugar para todos...”

“O quê, há gente que não embarca?”

“É uma vergonha, depois Portugal é que não presta”

“Que mau serviço, não há lugares para todos, mas vendem os bilhetes!!”

Em dois tempos, passamos da ordeira fila de espera à sucursal da CGTP em Nice. A funcionária, sozinha e atrapalhada, tenta pacificar as coisas falando alto num inglês arranhado “Please be calm, We just need a voluntaire because....”

“Qual voluntário??? Eu já paguei e vou para Lisboa.”

“Eu não posso ficar mais um dia, vergonhoso!”

“Se fosse em Portugal não faltaria.”

“....we don’t have meal for one passenger.”

Como é óbvio, esta parte já ninguém ouviu, tirando para acrescentar:

“Não só não vamos todos, como parece que nem comida vai haver. Que miséria!”

Quando voltou, o funcionário experiente deve ter pensado que tinha rebentado a Revolução Portuguesa. Perguntou em surdina à colega o que se passou e depois pensou um segundo e pediu calma, antes de dizer:

“There is no problem. Everything is fine. We will now board the second half of the passengers.”

A colega pareceu espantada, porque continuava a faltar uma refeição, mas de repente todos ficaram mais calmos, tirando os habituais “sinceramente” que surgem. Como é que a coisa se resolveu?

Facilmente, ao chegar à última passageira, o funcionário com ar casual e sorriso na fronha, disse-lhe simplesmente: “A senhora foi a última a fazer check in. Infelizmente a sua refeição já não foi contabilizada”. Mentira ou não, a senhora acatou, um vôo de menos de duas horas também não mata ninguém de fome.

Ainda consegui também ouvir o conselho do funcionário experiente à jovem: “Quanto menos falamos, mais depressa resolvemos as coisas”.

Não funciona para tudo, mas ainda assim...

3.1.11

A última passa

Tinha um problema. Se calhar tinha vários, mas de momento só se lembrava de um – era dia 1 de Janeiro e não se lembrava de nada do ano anterior. Se calhar também era assim todos os anos, mas como não se lembrava, não sabia se assim era.

Sentou-se à porta com uma passa na mão, atirando-a ao ar, como se quando ela caísse se fosse começar a lembrar de tudo. Tal não aconteceu. Tinha acordado e, ao olhar em volta e, ao dar com essa passa na mesa de cabeceira, pensou que ela fizesse parte do problema e não da solução.

Não estava frio, para primeiro dia do ano, o ano passado se calhar tinha sido diferente, mas ele não se lembrava e a passa não estava para conversas.

Talvez devesse comê-la...

Já agora pedia um desejo e, quem sabe, tudo voltava ao normal. Quem sabe até não era essa a razão porque todos os anos guardava uma passa para o dia seguinte.

Atirou-a ao ar, fechou os olhos e abriu a boca, esperando sentir a passar a cair para expressar o seu desejo de se lembrar de tudo.

Não caiu nada. Decidiu abrir lentamente os olhos e olhar para cima, vendo primeiro uma mão aberta, que baixou até ao nível dos olhos, mostrando-lhe a passa que, por esta altura, ele já devia ter comido.

Fixou-se primeiro na mão, de mulher, com dedos finos, mas com um verniz demasiado berrante para o que os seus olhos aguentavam aquela hora da manhã. E depois a voz por detrás da mão começou:

“Então, já acordado? Que passagem de ano fantástica, quem me dera que todos os anos fosse assim. E o fogo de artifício? Brutaaalll, devo ter-te esmagado o braço, com a animação...Deixa ver se tens nódoas negras, o meu primo Berto diz que se deve esfregar salsa nas nódoas negras, mas ele também, desde que tirou um daqueles cursos modernos acha que ervas e temperos curam tudo. E esta passa, hein? Estás com fome? Espero que não estivesse no chão...”

Durante cinco minutos ela não se calou e ele começava a acreditar que não ia precisar da passa para saber o que tinha acontecido no ano anterior. Bastava ouvi-la durante uma hora e ela iria recordar tudo, a um ritmo incessante, que ia contra todas as regras da lógica e da respiração. E ele não iria aguentar muito mais...

Aproveitando uma micro pausa entre duas frases avançou, esticando a mão sem se levantar:

“Olha, dás-me a passa só um instantinho?”

Surpreendida, ela atirou-a para a mão dele, como se não percebesse o que tinha uma passa de tão interessante.

Agarrando-a rapidamente, ele devorou-a sem mastigar e cerrou os olhos com força, metendo a cabeça entre os braços, que estavam apoiados nos joelhos.

Que se lixasse a memória.

E assim que gastou o seu último desejo num pouco de paz e silêncio.