4.11.11

O fim do homem das mudanças

Nasci em Lisboa, cresci em Lisboa, estudei em Lisboa e vivo em Lisboa. E se, para alguns, isso pode ser uma espécie de comodismo de menino da cidade, para mim isso é uma espécie de comodismo de menino de cidade.

No entanto, que não se entenda que à semelhança de gente que conduz carros como se de moto cultivadoras se tratassem, tenho algum problema com mudanças. Ao longo do meu percurso tenho sido adepto de mudanças aos mais diversos níveis, incluindo de roupa interior. Mas para mim, falar de mudanças não é uma coisa que se restrinja ao paleio do filósofo de trazer por casa, com muita emoção e sentimento à mistura. Falar de mudanças tem que passar necessariamente por falar nos homens das mudanças.

Gosto de pensar nessa malta como tipos que nos transportam a vida de um lado para o outro, estando-se completamente a cagar para o facto de ter sido naquele sofá que habitualmente nos deitávamos todos nus a ver televisão ou se naquela caixa estão os dois únicos livros que lemos a vida inteira. O que para nós tem um apego pessoal, para eles é um factor dentro de uma equação em que tempo e volumes = dinheiro.

E, se não fosse o facto de ter aqui uma pontada nas costas e mãos de pianista viril, gostaria de ser homem das mudanças durante algum tempo, para ter essa sensação de desapego e proximidade com a vida de alguém que, por motivo A ou B, está em mudanças. Seria interessante pensar, ao carregar um cão de loiça, na maneira como este afecta a vida de outra pessoa ao ponto de o estar a levar de um lado para o outro. E, se estivesse em dia não, deixá-lo cair para ver a reacção.

No entanto, quiseram os deuses que os comuns mortais fossem poupadas a ter um homem de mudanças como eu. Foi um fim prematuramente promissor para uma carreira que nunca o seria, até porque as pessoas quando pensam em homens de mudanças não querem propriamente seres pensantes que os questionem sobre aspectos da sua mudança. Preferem seres de braços firmes que carreguem os móveis suecos de durabilidade duvidosa com cuidadosa bravura e que possuam a profundidade intelectual do contraplacado.

Não indo por aí, tive de vir por aqui.

3 comentários:

  1. Neste momento (que é como quem diz, porque neste momento estou no trabalho) estou na 3ª casa, só neste ano.
    E também nunca poderei dizer que sou um homem de mudanças.
    Talvez por razões diferentes.

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  2. Falta de apreço pela utilização de manga cava, mesmo no Inverno?

    ;)

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  3. Jamais, mas confesso preferir a pêra-rocha.

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