7.10.11

A febre das teses num país de tesos

Antes de entrar para a faculdade tinha a ideia que, completada a licenciatura, um mestrado seria uma opção bem válida para complementar a minha educação uma vez que tinha chumbado nos treinos de captação para as juventudes partidárias e, como tal, teria que fazer pela vida antes dos 36 anos.

Quatro anos mais tarde tinha já bem presente que esse caminho afinal não fazia sentido para mim. Não fazia sentido quer pelo rumo que pretendia para a minha “carreira”, quer pelo interesse que me suscitavam as opções disponíveis, que me pareceram sempre muito mais um desdobramento académico ou um complemento formal para pessoas integradas em empregos que por vezes nem tinham tanto que ver com a sua formação inicial e exigiam esse tipo de competências.

Além disso, o facto de o mercado de trabalho já não andar famoso, a par da escolha de cursos também não muito famosos e desempenho académico também ele longe do brilhantismo, tornavam o caminho de muitos licenciados uma rota óbvia de fuga para a frente do mestrado.

Mas se, na minha perspectiva, o número de pessoas que tiravam o mestrado como vantagem profissional era muito inferior aos que procuravam nele a salvação, será que alguns anos mais tarde, com o uso de palavras como “conjuntura”, “awareness” ou “valdevinos” a história é outra?

Creio que houve um claro avanço, mas este veio principalmente da parte de quem oferece os mestrados. O mercado de trabalho não melhorou, mas o posicionamento da oferta explora não só isso, como a crescente especialização do conhecimento. Tudo o que são “trends” e correntes empresariais / modelos de negócio modernos acaba por ter cá o mestrado correspondente. Tal como na moda, o ensino segue as novas tendências e quem não pode ir à alta costura, remedeia-se com a aproximação para encher o olho.

E a malta paga, em tempo e dinheiro, e paga bem por isso. Se compensa ou não, cada um pode dizer de si, mas dado o investimento, a tendência não será para admitir que “não me deu gozo nenhum, mas achei um mal necessário” ou “olha, não valeu de muito, mas deixa ver a longo prazo”. Quando chegamos à fase das teses, por entre dramas e horrores, é a queixa contínua dos professores que não acompanham convenientemente, do chapar de modelos formatados que deixam apenas para a conclusão a margem de manobra de exploração do tema da dita cuja. Quando há algo para concluir que não seja sacado de outro sítio qualquer.

Com a entrega vem o alívio da mente, que a carteira já foi aliviada previamente. Muitas vezes, perante a pergunta “Valeu a pena, ficaste contente?”, a resposta é “Está feito e pronto”.

E o conhecimento adquirido, muitas vezes em doses concentradas de pós-laborais e trabalhos de grupo sui generis, é secundarizado em termos de resultados práticos com que se medem muitas vezes as coisas “O que é que ganhaste com isso?”. Às vezes uma promoção, noutras umas bases para um projecto e em mais umas quantas um sorriso e um encolher de ombros.

É assim a febre do mestrado vista por quem tem a sorte de lhe ser imune. Não desvalorizo quem investe na sua educação, critico os formatos que exploram esta espécie de “fast food de saber” e a fome que tolda por vezes o raciocínio.

PS – Esta dissertação não merece nota.

8 comentários:

  1. excelente tema de reflexão Mak! Mesmo... "fast food do saber" é genial.... mas aqui a macaca não podia concordar mais!
    Mas cada um sabe de si... E tb não podemos generalizar, haverá certamente áreas e pessoas a quem um mestrado ou pós-graduação traz incontestáveis mias-valias

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  2. Disso não tenho qualquer dúvida e isto será porventura um relato simplista da coisa. Em certas áreas faz todo o sentido, mas ainda assim é preciso ser criterioso quando se escolhe um mestrado/instituição. E contentares-te com algo que não é o ideal só porque é mais acessível....não é bem por aí.

    Na minha área específica, dificilmente essa vertente não é assim tão valorizada (o que não tem nada a ver com continuares a investir nos teus skills/competências), mas tenho à minha volta muita gente que frequenta e as impressões que recolho (não necessariamente via opinião directa) levaram-me a esta dissertação :)

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  3. "dificilmente" devia ter ido à vida :

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  4. Não há mal nenhum em não seres capaz.
    There, there...

    ^_^

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  5. não sei se é bom ou mau esse fast food, países há que para conseguires fazer mestrado tens de apresentar projectos do arco da velha, projecto pessoal objectivos de realização e etc ...e mesmo assim, sendo o mestrado na tua área e tendo tu os estc pedidos...não és aceite apenas porque o teu curso não foi tirado numa universidade mas sim num politécnico, ou seja tens um estágio (habilitações a + para um mestrado feito nessa universidade em questão)...acho que mesmo assim, ao menos portugal deixa avançar, independentemente do motivo que te leva a estudar...

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  6. Nada a opor nesse capítulo, obviamente o acesso é positivo, as razões que te levam a aceder é que podem ou não ser questionáveis.

    É certo que as pessoas, na grande maioria dos casos arrisco eu, procuram a educação/mestrado/etc como diferenciador profissional, algo que lhes dê mais competência, mas o meu problema é que o fazem como muitos já fizeram os cursos, a empinar e a emburrar conteúdos, mais do que propriamente à adquirir mais valias...

    Mas, opiniões divergentes são sempre bem vindas.

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  7. sim, acredito que uma boa parte o faz a empinar e a plagiar trabalhos...mas depende dos cursos e da capacidade de visão de quem o frequenta! Mas estariamos aqui até ao final do ano, é um assunto muito complexo e por outro lado muito "simplista" ...

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