12.9.11

À bulha por causa do Sol

A tarde caía rapidamente, como se torna mais comum nas tardes de final de Setembro. O dia na praia tinha sido simplesmente fabuloso e quem lá tinha estado tinha saído com um sorriso nos lábios e a sensação de que o Verão não é quando o calendário diz, mas sim quando o sol, o vento e o mar querem.

No entanto, nem toda a gente tinha saído e três figuras pareciam não querer arredar pé sem levar consigo o último raio de sol. Cada uma delas se tentava posicionar o melhor possível de maneira a assegurar que aquele raio, que era de facto o último, não saía dali com outra pessoa. Mas, entre o velho, o surfista e a beldade não parecia haver ponta de acordo e quando se viu que a coisa não ia ser pacífica, cada um tentou expor os seus argumentos aos restantes. Começou o velho.

“Vocês são jovens, têm muitos dias perfeitos à frente e bem podiam esperar. Vem aí o Outono, o frio não é amigo dos velhos como eu e este raio de sol bem podia ser a companhia que já me vai faltando para dar calor ao coração. Além disso é certo e sabido que jovens educados como deve ser o vosso caso sabem honrar e dar lugar aos velhos. Portanto, se não se importam…”

Conforme deu um passo em frente para apanhar o último raio, o surfista bloqueou-lhe o caminho com a prancha.

“Calma avôzinho, percebo bem a sua onda, mas a coisa não ficou decidida. A idade não tem nada a ver com isto, este raio de sol devia ficar com quem tem uma ligação mais próxima ao mar, com quem fica cá a guardar isto mesmo nos dias em que ele aparece. É certo que o dia perfeito tem que ser sol, mas quem cá passa mais dias devia ser recompensado com a última lembrança de um dia assim…”

Antes que concluísse, a beldade riu-se com um riso que lhe ficava a matar, certamente escolhido para combinar consigo.

“Falam de idade, falam de dedicação, mas o facto é que qualquer um de vocês pode seguir caminho sem este raio e ficar exactamente na mesma. Já eu, que preciso do tom exacto de bronze, da quantidade precisa do reflexo da luz no meu rosto e de todo um conjunto de circunstâncias que vocês desconhecem para que os outros me vejam no esplendor da minha beleza, sem este raio de sol saio daqui mais pobre. E isso só por si…”

Esticou o braço para apanhar o raio, mas o velho logo lhe tocou no ombro, gesticulando e gritando. Passados mais dez minutos a discutir, deram finalmente pelo facto de que o raio de sol tinha desaparecido. Ainda tentaram culpar um miúdo que corria pelas dunas acima, mas rapidamente perceberam que a culpa era de outros. Foi o velho o primeiro a falar.

“Perdemos tanto tempo a discutir por causa do último raio de sol, que perdemos também a noção do que é realmente importante…”

O surfista acenou com a cabeça. “Exacto, já devíamos ter percebido que há outras coisas que merecem a nossa atenção…”

“…como saber de quem é o primeiro raio de luar” foi a beldade que completou a frase, antes de se lançarem numa nova e longa discussão.

Tudo é mais fácil, quando as prioridades ficam bem definidas e o bom senso tira férias.

1 comentário:

  1. Nessas situações de conflito eu prefiro tapar o sol com a peneira e seguir em frente. Desde que não tentem atirar-me areia para os olhos, claro.

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