3.8.11

Sopa de meia noite

No reino das coisas inventadas por mim, vive um cozinheiro que toda a gente inveja. No entanto, não possui um restaurante da moda, não é alvo das melhores críticas gastronómicas ou de recomendações da especialidade e nem sequer aparece muito na televisão.

Invejam-no porque faz receitas que ninguém mais sabe como fazer.

Uma dessas receitas é a sopa de meia noite, a qual na verdade é a sopa da meia noite e meia, dado o tempo de preparação. No entanto, descontando o preciosismo a verdade é que ele a faz como ninguém, nem que seja pelo facto de ninguém mais a fazer.

Tendo eu a clara vantagem de poder usufruir dos talentos dos personagens que crio, tomei a liberdade de lhe aparecer à porta ontem pelas onze e tal da noite. E ele abriu.

“Deixa-me adivinhar, vens pela sopa?”

“Sou assim tão óbvio?”

“Um bocadinho e o título do texto também ajuda...”

Entrei na cozinha e já cheirava ao que é suposto cheirar, quando entramos num espaço de alguém que sabe verdadeiramente cozinhar. “Diz-me lá, afinal de contas o que é que faz verdadeiramente a diferença na sopa de meia noite?”

Suspirou, enquanto vestia o casaco. “Vem comigo, já falta pouco para a meia noite e tenho de ir lá abaixo ao estacionamento”. Descemos e perguntei-lhe no elevador “Então, esqueceste-te de alguma coisa no carro?”. “Não, mas vou-te mostrar a resposta ao que me perguntaste”.

Chegados ao parque, sentia-se uma aragem própria daquelas noites de Verão que ainda são tímidas demais para se assumirem como tal. Alguns carros estacionados, muitos deles de alta cilindrada, mas o cozinheiro não se dirigiu a nenhum, ficou apenas a olhar para o relógio.

“Então, o que esperamos?”

“Shhhiu, falta pouco...”

“....sim, para a meia noite e depois?”

“Depois à meia noite vou buscar a abóbora. É ela que faz a diferença...”

“Abóbora? Mas tu estás doido?”

“Não e se estivesse era sinal que tu estarias, já que sou fruto da tua imaginação. Refiro-me à abóbora da sopa, que vem de um sítio muito especial - as carruagens das Cinderelas. É isso que faz a diferença”

Não disse nada, com medo que ele e por consequência eu, estivéssemos realmente apanhados do clima. Ele prosseguiu com a sua explicação.

“Cinderelas, na realidade, existem muitas e a história não é bem como a contam. Em vez de carruagens têm carros potentes e contentam-se com bem menos que um príncipe, mas o facto principal não muda. Se não voltam antes da meia noite, as aparências em que vivem esfumam-se e revela-se como são na realidade”.

“E como é que tens a certeza que não voltaram todas e cumpriram o horário?”

Sorriu-me com a paciência que um avô atura o neto que lhe pergunta se não podem levar o Sol para casa. “Há sempre quem se deslumbre e não cumpra. É da natureza humana deixar-se levar pelas aparências e pensar que as regras a nós não se aplicam. Queres ver…”

Conforme falava, comecei a ouvir um barulho estranho e quando voltei a olhar para o parque, vi ainda um jipe a encolher e transformar-se em abóbora e em dois ou três lugares já só se viam abóboras estacionadas. O cozinheiro levantou-se, enquanto eu tentava apanhar o meu queixo do chão e escolheu cuidosamente uma das abóboras.

Subimos, ele acabou a preparação e comemos uma magnífica sopa de meia noite, como só ele sabe fazer. Mais tarde quando desci, ouvi alguém chorar no parque de estacionamento, mas fiz de conta e fui para casa. Não se pode dar atenção a todos os personagens que criamos, senão ainda acabamos por nos tornar um deles.

8 comentários:

  1. Notável...
    Não sei como ainda me consegues surpreender!
    Já te apercebeste que tens um "walt Disney" dentro de ti? Só não faço ideia se sabes desenhar tão bem quanto escreves...

    Beijos cor de abóbora :)

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  2. Só desenho com palavras, porque em termos gráficos tenho os skills de uma criança de seis anos a desenhar com a mão partida, uma pala num dos olhos e que bebeu o restinho do copo de vinho que o pai deixou ao almoço.

    ;)

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  3. Desenhas com palavras sim... e que bem que tu desenhas...
    :)

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  4. E aposto que era sopa de cogumelos ...

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  5. No fundo, é uma sopa de essência de Cinderela... com pezinho descalço e tudo.

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  6. Ou até mesmo a essência do crava, que cria personagens para depois lhes filar uma sopinha ;)

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  7. Brutal! Este texto fez o meu dia... Já há muito que não lia algo tão bom. Obrigada

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