31.8.11

O monstro da minha rua

Ainda só se viam os primeiros raios da manhã e já o miúdo escolhia pedras no baldio ao fundo da rua com o mesmo afinco com que via a sua mãe a escolher a fruta. As que eram grandes demais para a sua mão não as levava, as pequenas também não, como se esperasse que estas ainda viessem a crescer até terem o tamanho certo. Com as mãos e os bolsos cheios, pôs-se ao caminho, com ar decidido de quem tinha uma missão a cumprir.

Ao pé do 23 chamou-o o Nélson da janela, amigo dos bancos da escola e das corridas de caricas que faziam em pistas desenhadas na terra, como se de carros se tratassem. “Onde vais?”. “Vou atirar pedras ao monstro, que ele ainda nos leva”. “Qual monstro?”. “Aquele das riscas azuis e dos olhos brilhantes...”. “A esse não conheço. É como aquele verde dos desenhos animados?”.

Olhou para Nélson e suspirou, pois eram da mesma idade mas parecia que ele é que lhe tinha que explicar tudo. Não se tratavam certamente de desenhos animados, um monstro daqueles era importante e era a sério, então se as pessoas tinham ido todas recebê-lo, até o presidente da junta, sempre com aquele ar de quem já está cansado antes de começar a fazer qualquer coisa e a camisa suada por cima daquela barriga enorme.

O monstro devia meter-lhes muito medo para o estarem a receber com a mesma pompa que ao S.Julião, o padroeiro lá da terra. Manteve-se ao longe nesse dia, apesar da insistência dos pais em que fosse com eles. Nos dias seguintes observou o monstro, ouvindo-o a arfar na subida mesmo antes de o conseguir ver, até ele surgir lá no alto, perto da igreja. Reluzente, olhos brilhantes, parecia olhá-lo antes de se lançar à descida da rua principal, que cruzava ao fundo com a sua.

Ele não devia ser o único a ter medo, mas não percebia a forma como os crescidos se entregavam sem dar luta. Junto à loja da Dona Glória, mesmo ao fundo da descida, todos os dias havia gente que ficava ali, hipnotizada, à espera que o monstro parasse e os engolisse um a um. 7.12 em ponto, todos os dias de manhã, lá estava ele, desaparecendo depois roncando alarvemente. E ao fim do dia, às 18.43 lá estava ele de novo, vomitando as pessoas que comera, porventura tirara-lhes só o que precisava, um bocadinho todos os dias, lançado-lhes um feitiço para que voltassem amanhã à mesma hora.

Era esperto o monstro, mas ele não lhe ficava atrás.

Quando ouviu a mãe no dia anterior dizer à noite que no dia seguinte tinha que estar em frente à Dona Glória às sete da manhã, percebeu que o monstro das riscas azuis e olhos brilhantes já a devia ter enfeitiçado. Não ia deixar que isso acontecesse, que a engolisse e cuspisse à sua vontade. O monstro ia ver que nem todos curvavam a cabeça naquela terra.

E era nisso que pensava quando subiu a rua, mãos e bolsos cheios de pedras. Ainda não eram sete da manhã e esperou, agachado atrás do muro onde punham sempre os cartazes da festa, mesmo depois do ponto mais alto. Passados alguns minutos, começou a ouvir um ronco distante, um burburinho que crescia ao mesmo ritmo que o seu coração acelerava e as suas mãos tremiam.

Em menos de um instante, o ronco do monstro tornou-se ensurdecedor e, conforme saía detrás do muro, apareceu ele, olhos sempre a brilhar, riscas azuis no focinho, parecia que sabia que ele ia estar ali. Hesitou um segundo, mas sabia que a sua mãe devia estar lá ao fundo e sabia o que ia acontecer se não fizesse nada. Antes do monstro arrancar para a descida, saltou-lhe ao caminho e atirou-lhe todas as pedras que tinha, algumas delas fê-lo com os olhos fechados mas, das que viu, uma delas deve ter cegado um dos olhos do monstro, que deixou de brilhar.

Correu.

Correu mais, rua abaixo e ouviu que o monstro arrancava no seu encalce, cada vez mais perto. Viu as pessoas junto à Dona Glória, a sua mãe de mãos na cabeça quando caiu no meio da rua, junto à paragem. O monstro deu um ronco, guinchou e parou mesmo atrás dele. Pelo meio de “Ai meu Deus” e outros santos da preferência dos presentes, toda a gente se calou quando a boca do monstro se abriu.

No meio do chão, joelho esfolado, sua mãe a agarrá-lo, sem uma pedra que fosse para a defender, engoliu em seco e engoliu novamente quando viu um homem sair de lá de dentro. Tinha um fato com riscas como as do monstro e os seus olhos pareciam brilhar tanto como aquele que ainda estava aberto na criatura. A sua voz não era um ronco, mas guinchava.

“Então o miúdo é maluco ou quê? A mandar pedras umas atrás das outras, parte-me o farol da camioneta e desata a correr rua abaixo???”

E foi assim que ele percebeu, com a ajuda de várias palmadas dos seus pais e um mês sem ir jogar à bola, que o monstro afinal trabalhava para a Rodoviária, que inaugurara carreira naquela semana na sua terra.

2 comentários:

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.