8.8.11

Carta à Feira Popular (que o mais provável é nem saber ler)

Então, onde tens andado que nunca mais soube de ti? É que já não te vejo há tanto tempo que começo a suspeitar que te aconteceu o mesmo que à Maddie. Deram cabo de ti, arranjaram-se mil e duzentos culpados e, no final de contas, o certo é que não voltas a aparecer, pelo menos tal como eras antigamente.

E a mim, que estou muito longe de conseguir uma audiência com o Papa, resta-me este meio para chegar até ti. A verdade é que não é tanto por nós, que já tivemos o nosso tempo e eu já estou crescidinho, bastando-me recorrer à memória para arranjar referências lúdico-decadentes.

O que me custa é ver os putos de Lisboa a crescerem sem ti.

Saudosismo à parte, onde é que eles vão aprender que brincar com veículos motorizados lhes pode proporcionar uma carreira no Poço da Morte. Onde é que os pais hoje em dia podem mostrar aos filhos que há um lugar em que é possível combinar salões de jogos, póneis tristonhos e karts manhosos sem recorrer ao efeito de drogas?

E sabes bem que o Comboio Fantasma e o Comboio da Selva, com o gorila a revirar os olhos, sempre tinham horários mais regulares que a CP. Não me obrigues sequer a referir-te a comodidade que era ter corredores seguidos de mestres da sardinha a convidarem-nos para jantar, só para vomitar tudo depois no Polvo, no Ranger, nos baloiços ou em qualquer outra diversão que desafiasse as regras da segurança e do bom senso.

Onde é que um puto pode, nos dias que correm, manusear uma pressão de ar, uns dardos ou até uma espécie de bolas de meia para ganhar prémios tão fantásticos como um baralho de cartas, um porta chaves ou um peluche quase na reforma.

Bem sei que, na tua fase final, deixavas um bocado a desejar, em termos de apresentação, mas se isso fosse motivo para liquidação, o trânsito ia melhorar bastante em Lisboa e os transportes iriam ficar bem menos apinhados. Nem sequer tiveste direito a aparecer num dos programas da manhã na TV, a contar a tua história de caída em desgraça, a ver se sacavas umas coroas a um patrono.

Podes não saber, mas a noção de diversão para os miúdos de hoje começa a ficar tão deformada como os reflexos na Casa dos Espelhos e tu a ajudar à festa, porque te foste embora e nunca mais deste cavaco.

Se puderes, diz qualquer coisa ou aparece um dia destes, mas livra-te de vir com toda retocada ao ponto de não te reconhecer. (tirando aquela montanha russa ridícula que tinhas, que essa nem num lar de idosos assustava).

E manda um abraço aos “Três irmãos das farturas”. Sim, aos dois.

Fica bem.

4 comentários:

  1. O combóio fantasma também pode ficar no ferro-velho, mas o resto que venha, pintadinho de fresco :)

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  2. Ó a Feirinha Popular, que saudades. Ainda a apanhei nos primeiros anos da universidade, depois fechou *chuif* Uma vez levei a J. para a casa do terror e ela tinha muito medo então pensei que se a protegesse ela ia apaixonar-se por mim só que o que aconteceu foi que ela tinha mesmo muito muito medo e às tantas rasgou-me a camisa e fincou-me as unhas que até fez sangue e depois não conseguia andar e teve de vir o senhor daquilo acender as luzes e empurrar-nos para fora.

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  3. Já não é mau Tolan. Os únicos danos que me foram causados nessa mesma diversão foram por um gordo da minha rua que, com o medo ia atrás de mim a puxar-me a camisola que chegou lá fora em formato lençol...

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  4. Eu confesso que tenho boas memórias até da montanha russa da lagarta :P foi a 1a em que andei! A da minha irmã, por exemplo, já foi a que havia no Colombo e acho uma memória bem mais triste...

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