22.8.11

As vinhas da pequena ira

Entrei hoje numa casa de vinhos. Nada de muito gourmet, nada de muito pós moderno, era uma casa de vinhos e era de vinho que a visita se tratava, por isso tudo parecia estar nos conformes. Estou longe de ser um entendido em vinhos e, se por um motivo qualquer entendo querer comprar uma garrafa diferente do comum, procuro um especialista.

Acontece que, nos últimos tempos, a história da “casa de vinhos” e do apreciador de vinho tomou outras perspectivas. A pseudo massificação de entendidos, de provas e de gente que prova vinho em restaurantes com ar de entendido e diz sempre que está bom levou a que, em vários locais surjam lojas com bom aspecto e bons vinhos, mas em que o empregado/a percebe tanto daquilo como eu percebo de curling.

O dono da loja deve de facto ser alguém que percebe mas, como nunca está lá, fica o Ray Charles vinícola ao balcão para apontar o caminho aos clientes. E mesmo quem perceba tanto como eu, rapidamente tem a noção que alguma coisa ali é martelada.

Por isso, se forem a uma loja e a pessoa que vos atende diz que são todos “muito bons”, “vão esplendidamente com este tempo” e não vai mais longe do que vos poupar o trabalho de ler os rótulos e distinguir anos por ordem cronológica, então é porque vos vai ajudar tanto como um vegetariano no Chimarrão.

Quem percebe realmente e tem gosto por aconselhar os outros sobre vinhos fala deles como se lhes quisesse saltar para cima. Está tão apaixonado por aquilo que também é o seu trabalho, que quase que gosta mais das garrafas do que de nós. Por um instante esquece-se que aquilo é uma loja e temos que lhe dar um toque no ombro, porque já se faz tarde.

E é entre o negócio e a paixão que se vai fazendo a diferença.

Digo eu, que percebo pouco de vinhos.

1 comentário:

  1. Eu já tive esse emprego, é fabuloso, um dos melhores da minha vida. Nao é só o vinho e a vontade de lhe saltar para cima, é o desafio de olhar para cada pessoa, ouvir o pouco que diz e perceber o tipo de vinho de que irá gostar. Ai, se pudesse demitir-me já e ir de novo vender vinho para o Chiado...

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