24.8.11

As últimas horas de um bolo de aniversário

Naquele intervalo em que ainda não é bem dia, mas também já não é noite, o bolo de aniversário pensava sobre o seu destino. Feito de véspera para ficar prontinho logo pela manhã, pensava também na diferença entre si e um qualquer bolo comum, como aqueles que iam agora sendo depositados na vitrine que podia observar calmamente a partir da prateleira refrigerada em que se encontrava.

Ele tinha um destino, alguém esperava por ele. Já os outros, podiam esperar apenas que alguém os viesse a desejar e ele, mero bolo de aniversário, não sabia se isso era ou não melhor que a sua própria sorte. E se ele não fosse tudo o que o que esperavam dele? E se ele fosse o ponto mais baixo de um grande dia? E se ficasse para ali esquecido no prato, depois das chamadas fatias de cortesia terem seguido o seu caminho?

Não podia admiti-lo, não queria sequer pensar nisso. Só podia pensar num cenário de chegar, ser visto e desaparecer, no auge da festa, no culminar da comemoração. Ele não era um bolo normal, não dependia da sorte, das vontades, do prazer do momento. Era um profissional, um bolo criado para um fim e que não podia sequer dar-se ao luxo de duvidar de si mesmo, porque o que as pessoas perdoam ao comum dos bolos, cobram em demasia ao bolo que lhes ilumina o aniversário.

Só haverá outro para o ano, assim como houve outro no ano passado. Sentiu as mãos que pegavam nele, era manhã e o sol já raiava. Suspirou, o tempo passa a voar em dia de aniversário. Também era o seu dia. Viu a caixa em que iria ser transportado e olhou uma vez mais para a vitrine onde estavam os bolos comuns e pensou…

Mas ele era um bolo de aniversário e não havia tempo para pensar. Pensar era para bolos que passariam o dia a olhar através de uma montra. A esses o destino não exigia mais do que isso, enquanto a ele exigia tudo o resto. A caixa fechou-se e ele esperou que tudo fosse como ele esperava: um canto bonito, um sorriso aberto, uma faca que desce e ver a sua existência tornar-se rapidamente um momento na vida dos outros.

Afinal de contas, não sabia ser outra coisa que não um bolo de aniversário.

5 comentários:

  1. A caixa fica sempre com a melhor parte...

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  2. Depois de ler este texto nunca mais vou conseguir devorar um bolo de aniversário como uma hiena esfomeada… vou certamente choooorarrrrr (e não será pelas calorias), snif snif! Esquece o “O Bom”… fica-te pelo “o Mau e o Vilão” :)

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  3. @ Cuca - A caixa é sempre uma oportunista que faz um papelão...

    @ Miss - Nem todos os bolos são tão profundos como este. Alguns nascem só para serem comidos ;) Por isso, que não passes fome por causa disto :)

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  4. Restauraste a minha fé(gula) :) Grata

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