12.7.11

Jantar romântico para 2...zombies

O ambiente estava um bocado morto, mas isso não era propriamente surpreendente num jantar romântico entre zombies, já que era o momento em si que surpreendia. Afinal de contas, essa história dos apocalipses zombies, que remete apenas para sangue, horror e a devastação da raça humana, esquece que apesar de tecnicamente morto um zombie ainda tem, salvo acidente, um coração lá dentro.

E onde há coração, mesmo que falte vida, há espaço para o amor.

E era isso que ele sentia quando a olhava no olho bom, ou melhor, o que restava depois daquele incidente com aquele grupo de chineses que se tinha escondido no bazar. No entanto, ela não estava pelos ajustes.

“Eu bem te disse que não me apetecia chinês...que linda figura a minha...”

Ele sorriu, tentando que o maxilar não descaísse ainda mais. Pegou no braço que tinha pousado sobre a mesa e passou-lho carinhosamente pelos fiapos de cabelo.

“Desculpa, não me lembrei que nestas lojas do chinês, até enxadas e picaretas eles têm. Mas, continuas linda e sabes como é, em terra de zombies, até só com um olho podes ser raínha.”

“Posso ser lenta mas não sou parva” , quando estava assim ela provava que a teimosia nunca morre, “Às vezes parece que queres mesmo que perca a cabeça e sabes bem que, se isso acontecer, não há volta atrás”.

Claro que sabia, afinal de contas foi preciso ver boa parte dos amigos decapitados por aqueles arrogantezinhos que pensam que só porque têm sangue a correr nas veias são mais que os outros, para percer que um zombie pode perder tudo, menos a cabeça.

E era por isso que levava a vida com muita calma, passo a passo, evitando o máximo contacto com “os vivos”, tirando à hora das refeições. Mas, quando a conheceu, naquele dia em que os zombies finalmente entraram no Colombo, deu por si a ser menos cauteloso. Pelo meio dos gritos, dos disparos e das chamas, só tinha olhos para aquela morena ligeiramente carbonizada, uma musa com a perna de um funcionário das bilheteiras na boca.

Tinha-se arrastado com ligeireza na sua direcção quando percebeu que ela olhava para si. Ao chegar mais perto, percebeu que não era bem para si que ela olhava, mas para um ponto ligeiramente atrás do sítio onde ele se encontrava. Voltou-se, com cuidado para não interromper uma família de zombies que almoçava uma refeição light de meninas da Parfois e percebeu o que lhe chamava a atenção, um grupo de teenagers balofos que fugia do McDonalds, tentando chegar às escadas rolantes.

Num impulso, deixou-se cair para o patamar inferior e, ao cair, percebeu que aquele barulho de costelas e ossos a partir lhe iam dar um andar novo. No entanto, isso permitiu-lhe chegar primeiro que os gordos ao fundo das escadas. Dois deles estavam muito ofegantes, tentando recuperar a respiração e, aproveitando a sua desatenção, aproximou-se por trás das escadas e, numa lentidão que quase parecia rápida, puxou o mais anafado pelos cabelos. O outro gritou, mas pôs-se em fuga, para desespero do que esbracejava e lhe pedia ajuda. Duas dentadas na carótida mais tarde a coisa acalmou e foi aí que ele a procurou, apenas para a encontrar a rastejar já no patamar inferior, depois de se ter deixado cair também – de facto, as miúdas zombies ficam muito sexy quando rastejam com apetite.

Apesar das refeições entre zombies nem sempre serem civilizadas, a atracção faz milagres. Convidou-a a provar o gordo, deixou-a servir-se primeiro dos orgãos internos e ainda, em jeito de brincadeirinha, foi à Paco Martinez buscar uma mala para pôr o coração do jantar lá dentro para ela levar.

Foi aí que se conheceram e, seis meses mais tarde, ainda estavam juntos. Mas, era cada vez mais difícil encontrar uma refeição decente e, quando não estavam à procura de comida, sobrava tempo para discussões e tempos mortos.

No entanto, hoje era diferente e nem a história do chinês o ia desanimar. Tinha descoberto aquele sítio por acaso e se ainda tivesse capacidade para isso, teria chorado de alegria, mas aguentou para lhe fazer a surpresa. Agora, sentados numa mesa improvisada, ao lado de uma janela interior com uma cortina a tapá-la tinha chegado o momento.

“Mas então, porque me trouxeste aqui se isto está vazio. Não disseste que era um jantar romântico? Para além da parte do romance, costuma haver comida...” Ela suspirou.

Ele fez-lhe sinal de silêncio com a parte que ainda tinha do dedo indicador e levantou-se em direcção à cortina. Ao puxá-la, revelou uma sala envidraçada onde, assustados a um canto, estavam oito “vivos” do mais redondo que ele já tinha visto, mesmo antes da alimentação ter começado a escassear.

Sentiu algo a tocar-lhe na mão, era ela que lhe dava a sua e juntos avançaram em direcção à janela, que certamente não demoraria a quebrar. Ia ser um jantar que não esqueceriam enquanto não perdessem a cabeça, coisa que os gordos aos gritos na sala já tinham feito há algum tempo.

Ao fundo da sala, uma faixa em tempos festiva, em breve salpicada de sangue e de uma prova de amor diferente dizia “Bem vindos ao casting de mais uma edição do Peso Pesado”.

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