29.6.11

Os ninjas e o que eu nunca quis ser quando fosse grande

Tendo pouco que fazer, boa parte das crianças entretém-se a pensar no que querem ser quando forem grandes. Como qualquer criança, tive inúmeros amigos que queriam ser os clássicos – médicos, jogadores de futebol, astronautas, princesas, bailarinas, Samanthas Foxes (sim, isto é verídico) e outros que tais. Uns deles conseguiram os seus sonhos, outros foram por caminhos diferentes e há sempre um ou dois casos de ironia do destino aguda, como a que queria ser modelo acabar a trabalhar como caixa no Modelo ou o tipo que queria ser piloto de Fórmula 1 e agora arruma carros.

Da minha parte, não me queixo, pois nunca soube bem o que queria ser, sabendo no entanto e muito bem, o que não queria ser. E, desse modo, fui sempre orientando o meu percurso pelo que tinha mais a ver comigo, conjungando vontade e necessidade na medida possível. Esse mesmo percurso é feito de várias paragens, umas mais relevantes do que outras, mas sempre no espírito de insatisfação que me leva a poder dizer que hoje faço o que gosto, mas que não me contento em ficar por aqui. E por isso, continuo a olhar para a frente e a pensar no que quero ser daqui a uns anos.

Mas, porque cada qual escreve a sua história ao seu estilo, encontrei outro dia um artista que conheço desde puto e que me lembro que dizia sempre que queria ser ninja. No meio daquela palheta de trazer por casa do “como estás / que é feito”, não resisti à provocação:

“Então e o que é fazes, sempre és ninja?”

“Epá, sabes como é, as coisas não são assim tão simples.” Riu-se e eu ri-me também, mas logo de seguida baixou a voz.

“Durante a semana não pode ser, mas à sexta....”

A pausa deixou-me na expectativa, mas o olhar dele deixou-me preocupado e o que veio a seguir não melhorou.

“Isto não é para divulgar, mas à sexta à noite há uma camioneta de ninjas que me apanha em Alcântara...”

Fiquei a meio caminho entre o riso e o choro “Desculpa, uma camioneta de ninjas em Alcântara....???”

“Sim” voltou a sorrir “Mas não é uma camioneta de gajos vestidos de trapos pretos, isso é só nos filmes. O pessoal só se equipa quando chega ao destino”.

“Mas onde é que vocês vão?” Resolvi alinhar no esquema “A uma discoteca de ninjas?”

Pela reacção, pensei que me fosse aplicar um golpe ninja “Que parvoíce...vamos treinar, sempre em locais secretos. Assim, que entramos na camioneta, vendamos os olhos e só tiramos à chegada”

Ri-me novamente e dei-lhe uma palmada nas costas “Epá, isso é muito bom, quase que me apanhavas com esse acampamento secreto de ninjas”. O facto de ele não estar a sorrir, voltou a preocupar-me.

“Não te devia ter contado, mas pronto vou confiar que és discreto e não falas nisto. O código ninja é severo com este tipo de coisas. Manda cumprimentos ao pessoal”. E assim de repente, lá foi ele.

E fiquei eu a pensar que descobri que há ninjas que se encontram em Alcântara e que há pessoal que não cresce só para poder continuar a ser o queria ser quando era pequeno.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.