2.5.11

A triste sensação de ter um Peso Pesado na consciência

Quero escolher outro assunto mas, qual concorrente, tenho o olhar fixo numa travessa de cupcakes em forma de programa de televisão. Quero acreditar que pelo menos temos a habilidade de copiar um formato de sucesso e, à nossa maneira, garantir que a coisa é feita com a integridade necessária, quer para quem concorre, quer para quem vê.

Mas, a primeira impressão faz-me perceber que isto não tem nada a ver com o que eu quero. Tem a ver com a versão mais circense do conteúdo televisivo, em que a versão “serviço público contra a obesidade em formato reality show” perde sempre para “reality show de gordos a tentarem emagrecer disfarçado de interesse público”.

Bastou pouco mais de hora e meia para saber que vamos todos achar milhentas razões para rir com o casting escolhido a partir de 10 mil candidatos, cujo critério me parece ter sido muito semelhante ao do primeiro Big Brother. Rir de gente simples, na sua maioria, com as fragilidades próprias da obesidade e que, com o fim de emagrecer e ganhar o prémio, vai estar disposta a tudo. Rir de sotaques, do mau português de quem nunca “exerceu um desporto”, rir de casais improváveis, rir de gente a chafurdar na lama com as suas próprias roupas, rir do rabo à mostra que expõe mais a debilidade do programa do que da própria pessoa.

E vamos depois rir mais um bocado de uma Júlia Pinheiro intimista, em formato Prozac para não gritar, que vai colocar gente na balança e a consciência na prateleira, enquanto espreme pouco a pouco a parte penosa por detrás da obesidade que, devendo ser abordada, não tem que ser explorada até ao constrangimento de quem participa e quem observa.

E, quando pensarmos que já não podemos rir mais, vão dar-nos uma piada em formato de Comando que, não podendo ser o que aparentemente é, serve mais uma dose de humilhação em formato anedótico, cujos benefícios permanecem escondidos por detrás de algo tão impenetrável como aqueles óculos escuros. E vamos sorrir ao ver cópias imperfeitas do Bob e da Jillian, que tentam promover empatias imediatas e comportamentos mimetizados, enquanto deviam esperar e fazer por nos conquistar (a nós e a eles) pelo seu trabalho e pela sua capacidade de recuperar física e psicologicamente aqueles que mais precisam da sua ajuda.

E, finalmente, quando tudo acabar, vamos perceber que já não há nada para rir e que se passou ao lado uma boa oportunidade de copiar bem aquilo que já está feito, especialmente para o bem de quem participa. Porque o espectador pode sempre mudar de canal e ir rir com as peripécias de “famosos” a brincar às tribos, mas a vida daqueles participantes, até ver, está amarrada ao programa.

Queria que no fim fosse este texto o motivo para rir, de tão errado em relação à realidade do que se vai passar. Mas, como já comecei a perceber, temo bem que isto não tenha nada a ver com o que eu quero.

6 comentários:

  1. O tamanho da letra deste post e o programa a que apregoas é apenas e só mera coincidência, não é?

    40 minutos depois do programa ter começado percebi que estava tudo visto e mudei de canal.

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  2. Odiava o "Biggest Loser", 5 minutos de "Peso Pesado" ontem fez-me perceber (ainda mais) porquê...

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  3. @ Fausto - A desformatação do texto tinha mais que ver com o olho gordo do Blogger, coisa que muito desdenho.

    @ Blue - No Biggest Loser eu ainda vejo um equilíbrio entre a componente show (a parte lamechas, o drama da vida alheia, etc) e a componente vamos lá fazer alguma coisa pela saúde destas pessoas. O Peso Pesado e a palavra equilíbrio, até agora não casam.

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  4. Não tinha sido anunciada a tua morte hoje na TV?

    O facto de estar a escrever isto num post sobre gordos é mera coincidência.

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  5. Estás a confundir-te a rapazola. Já não tenho time-sharings no Paquistão há séculos...

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  6. Concorto de um modo geral com o que aqui foi dito. também escrevi sobre o mesmo tema no meu blog http://crazygirlsgocrazy.blogspot.com/2011/05/estreia-de-peso-pesado.html

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Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.