30.5.11

O gang e o brunch

Cuspi para o chão para aí três vezes. Não, cuspi cinco, para assim não ter que recorrer ao velho truque de ajeitar ostensivamente os tomates. Pensava eu que assim eles não iam dar por isso mas, com aquela malta do gang, todos os cuidados eram poucos. Afinal de contas, havia ali malta que até já tinha maltratado um escuteiro ou dois.

“Ouve lá” disse alguém e eu, mal ouvi, sabia que me queriam lixar – “Passas-me aí o porta-chaves? É que estou com uma comichão nos ouvidos que não se pode”.

Sabem muito, aqueles gajos, a rodear, a rodear até eu não ter saído. Tudo pessoal lixado naquele gang, gente que chegou a tirar de surra uma peça de fruta na mercearia.

“Olha lá” disse outro e eu, ao olhar, já sabia que estava na hora – “Tens aí uma raspadinha?” Epá, não me lixem, com essa da raspadinha já não dava para aguentar. Estava ali pessoal do gang que chegou a ir para casa depois da meia noite, quando ainda só tinham vinte e três anos.

“Ok malta. Eu sei bem porque estamos aqui...” falei bem, só me babei um bocado, mas pronto, acontece. Olharam todos. “É a história do brunch, não é?” e o silêncio só não era sepulcral, porque eles não sabiam o que queria dizer sepulcral. “Epá, já sei que me devem ter visto, e pronto não há razão para ter medos e eu assumo – gosto de ir a sítios modernos tomar um bom brunch ao fim de semana. Há problema?”.

Nesse momento, poderia até dizer que não se ouvia sequer um passarinho sepulcral a cantar, mas eu não gosto de abusar de palavras que só eu é que percebo o que querem dizer. Mas, naquele gang lixado, havia pessoal tão lixado que havia ali quem tivesse comido frango sem talheres.

“E nesses brunches, tu pões açúcar no chá?

Enchi o peito de ar “Não admito que questionem as minhas....desculpa?” Não queria acreditar no que ouvia.

“No chá, pões açúcar man?”

“Olhaaa m’este. Brunchessss simmm, mas açúcarrrr no cháaaaaa, fónixxxx mas eu sou o quêee?” Quando um gajo tem o peito cheio de ar, ao fim de um minuto quando fala parece sempre um balão a esvaziar.

O pessoal avançou para mim, mas apenas para me dar um abraço. Naquele gang sempre tinha havido tolerância, dentro de certos limites. Era pessoal duro, que até aceitava comer frango com as mãos, mas usando talheres para as batatas fritas.

Aceitavam paneleirices como brunches. Mas que nunca se pusesse açúcar no chá.

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