23.5.11

O duelo das areias

O sol já vai alto e até a brisa que sopra parece queimar. Aproximam-se os envolvidos, caminhando pela areia com a determinação de quem não está disposto a dar um passo atrás. Aquela é a única clareira no espaço de um quilómetro e prevê-se um desenlace rápido.

De um lado, a família Silvestre, o orgulho de um estandarte na forma de um guarda sol, porventura o mais feio que já alguma vez calcorreou uma duna. O seu fogo contrasta com o azul gélido das insígnias Camping Gaz que transportam, mas é bem visível no suor que transborda do patriarca da família e dos dois terços de obesos que a compõem. A avó queixa-se da areia nos sapatos, os netos queixam-se porque não querem descalçar os sapatos e porque a prancha de bodyboard do Continente pesa muito. A mulher do patriarca queixa-se, porque é essa uma das suas funções principais.

Um ronco do patriarca e há um momento de silêncio. O mais novo ainda solta um “Tenho fome...”, a chapada que leva fala mais alto antes do embate.

Do outro lado, uma horda de discípulos do clã Morangos com Açúcar. Eles, cabelos perfeitamente desalinhados, uma toalha colorida e corpos tonificados. Trazem um gordo, mas só porque é obrigação do clã levar um gordo a esse tipo de eventos. O gordo ri-se ao ver os opositores, os restantes riem-se, mas é mais por causa da ganza. Elas, trapinhos modernos cuidadosamente escolhidos para parecerem que foram apanhados ao acaso. O corpo cuidado não esconde um à vontade que causa algum desconforto nas hostes femininas da oposição. Na realidade, não esconde muito de nada.

Tentam encarar silenciosamente a oposição. Os telemóveis a tocar não deixam e a batalha pela útlima clareira da praia ainda não começou e já estão três fotos da família Silvestre no Facebook e uma do gordo. A do gordo foi ele próprio que tirou.

Medem-se distâncias. Está muito calor para batalhas e tanto os penteados de uns como os rissóis de outros se podem estragar. Chegam-se a acordos, a família Silvestre não aquece comida e o clã Morangos não põe a música muito alta a não ser aquela da “Vaca Loca” da Shakira. O gordo pode ser enterrado na areia pelas crianças. O gordo protesta, mas só porque assim não pode ir para a baliza quando forem jogar à bola. O problema resolve-se e o gordo é enterrado no meio da baliza, ficando com os braços de fora.

Dali a umas horas já ninguém se lembra do acordo. Está um dia de praia do caraças e, ao fim da tarde, ambas as partes já provam a bôla de carne feita pela avó, até as miúdas do clã, que dividem uma fatia entre as seis. O gordo não, mas só porque ainda está enterrado na areia.

A batalha da última clareira, afinal de contas, não chegou a ser. Talvez o mundo acabe para a semana.

1 comentário:

  1. hahahahahahahahaha pobre gordo !!!! eheheh (não consigo parar de rir) Delicioso!

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