18.5.11

Branca de Neve e as sete prestações

“E viveram felizes para sempre...” – Quando pensava nisso, Branca de Neve não sabia se havia de rir ou de chorar. É certo que se as coisas não tivessem corrido bem, ainda estava num caixão de vidro, com uma maçã entalada na garganta, a servir de bibelot na Kidzania lá do sítio.

Mas isto também não era o conto de fadas que lhe tinham vendido. E o que era afinal isto?

O seu príncipe veio ela a saber mais tarde, mais do que títulos, tinha dívidas. Além disso, aquele entusiasmo todo em andar sempre de armadura tinha mais que ver com disfarçar uma certa calvície precoce e uma alimentação pouco saudável, do que propriamente um entusiasmo de galante cavalaria.

Mas, que não se pensasse que ela, Branca de Neve, era fútil. O que tinha à vista aceitava e amava tal como era. O que não tolerava eram as mentiras e, com a crise económica medieval, elas começaram a brotar como cogumelos.

Só tinham conseguido dar entrada para uma mini torre fortificada nos arredores, porque ele lhe disse que tinha bens congelados pelas Finanças, devido a disputas territoriais. Nem sequer a deixou ir ver aquele castelinho com um fosso amoroso à volta, mesmo à entrada da Praça das Execuções, na zona nobre da cidade.

Agora, descobrira que não só não existiam bens congelados, como o pouco que havia tinha sido desbaratado em jogo e copos na Távola Redonda. A Igreja aumentara o dízimo e o colectores do Reino até o bobo coxo que animava os serões já tinham ameaçado confiscar. A somar a isto tudo, o tempo que o marido passava com o bardo e a forma como insistia em que concorressem ao “Por quem sois donzela, redecorai a casa”, começava a levantar-lhe algumas dúvidas sobre se o título Príncipe do Castelo Branco não teria um segundo sentido.

Muitas vezes pensava em pedir auxílio aos 7 anões. Ou melhor, aos 5, que dois estavam presos nos calabouços, acusados de passar diamantes por debaixo da mesa. A defesa de que não chegavam ao topo da mesa não serviu de atenuante.

Mas, tinha receio, especialmente por causa de Zangado, que sabia ter um fraquinho por si e não lhe queria dar falsas esperanças. Aliás, se tinha a alcunha de Zangado, foi só depois de Branca de Neve o ter apanhado duas ou três vezes a espreitá-la enquanto ela se banhava e ter passado a fechar a porta.

E, sendo assim, continuava na mesma. Numa torre mal situada, com vista para uma pilha de estrume mesmo ao lado e isto era verdade, literal e metaforicamente falando.

Às vezes pensava na maçã. Não fosse a porra da fruta e a história seria outra.

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