5.5.11

A arte paciente de observar uma passadeira

A primeira pessoa aproximou-se da passadeira. Era um homem de meia idade, fato de bom corte e atitude de quem está sempre atrasado para alguma coisa, mesmo antes de saber para onde vai. Não olhou para qualquer um dos lados antes de atravessar. Fê-lo em oito passos e deu um ligeiro salto para o passeio do outro lado.

A segunda e a terceira pessoa chegaram juntas. Duas miúdas, mas já com postura de adultas ou tentar demonstrá-lo, pela forma como se vestem e no modo como cada uma agarra no seu cigarro. A conversa está animada, uma deles mexe várias vezes no cabelo, o corte é recente. A primeira avança sem olhar, a segunda segura-a por um braço, quase ao mesmo tempo que o taxista buzina, travando ligeiramente e sacode a cabeça, em tom crítico. “Parvo da merda”, diz a que não o viu, com o carro já a afastar-se. A meio da passadeira já vão outra vez a rir e a conversar, demorando dez passos e fazendo um ligeiro compasso de espera a meio do oitavo. Uma delas atira um papel de pastilha elástica para o chão, que cai na última barra branca. Já está a mascar pastilha quando chega ao outro lado.

A quarta pessoa vem curvada, é um velhote. É o primeiro que olha para o semáforo que está junto à passadeira, mas não lhe liga particularmente. Vermelho, para ele, é para avançar e isso que faz, vagarosamente, parece que é o fato coçado a única coisa que mantém aquela estruturam humana unida. Um carro abranda para o deixar passar, o outro cruza-o pela frente a uma velocidade acima da permitida por lei. No meio, entre o seu décimo e décimo segundo passo, o velhote continua imperturbável, como se tivesse a certeza que vai chegar ao outro lado em vinte e três passos. Engana-se, chega em 22, possivelmente ganhando balanço com a descida.

A quinta pessoa sou eu, antecipando-me a um casal que prefere ficar a dar um beijo a avançar para a passadeira. Compreendo a preferência, mas resisto a beijar a idosa que me pisca o olho ao contemplar a cena. Olho para o semáforo, está verde, dou o primeiro passo, pensando ao mesmo tempo como vou mais tarde descrever-me. Opto por uma descrição discreta – look casual, ténis ligeiramente pós-modernos e barba de três dias, sem estar demasiado apressado. Avanço decidido, não vejo a mota do tipo das castanhas.

Ninguém vende castanhas nesta altura.

Ninguém deveria por isso ser atropelado por um vendedor de castanhas nesta altura.

Recusando dar um fim ridículo a esta história, desvio-me com ligeireza, entre o quarto e o quinto passo. Digo bom dia ao vendedor de castanhas (Falso: na verdade digo “Man, Fosgassse” ou coisa sem estilo parecida).

Ao quinto passo piso pastilha elástica.

Ao sexto passo penso em escrever isto.

Já do outro lado, volto-me para trás. O casal ainda está na marmelada. A velha pisca-me o olho novamente.

2 comentários:

  1. Não há moral. Para ser franco, nem sequer há história, eu é que tento disfarçar bem ;)

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