3.4.11

Sobre bolas de queijo flamengo

Sou totalmente a favor do progresso. Aliás, se não fosse ele, que hipóteses teria eu de partilhar com desconhecidos todas as imbecilidades que me passam pela cabeça no conforto do meu lar. Longe vão os tempos em que tinha que ir gritá-las em plena Rua Augusta ou no meio da carruagem do metro.

Mas, para provar isso e ao mesmo tempo contradizer-me, nada melhor do que divagar sobre bolas de queijo flamengo enquanto prova de que estamos uns calões de primeira. Recordo-me de ter menos 50cm do que tenho agora e não haver semana em que não havia lá em casa meia bola ou um quarto de bola de queijo flamengo. Ocasionalmente, na antecipação de qualquer festa ou lanche especial, lá vinha uma bola inteira, envolvida naquela bonita e artificial capa vermelha, pronta a ser trinchada.

Havia uma ciência inerente à bola de queijo, especialmente no que toca à arte do corte – para uns a mestria de cortar uma fatia direita e fininha, para outros alarves (nos quais me incluo) a loucura de cortar uma fatia que mais parecia um bife. Depois, era só retirar a borda da casca e siga para bingo.

Uma bola de queijo flamengo dava ao queijo aquele ar de troféu e aquela forma fazia a diferença mesmo antes de se provar a dita cuja. Era um processo que agudizava o engenho (e a fome) mas que depois de concluído dava outro gosto.

Hoje em dia, é certo que a bola de queijo subsiste e teve até o Pauleta a puxar por ela uns quantos anos, mas a verdade é que é goleada todas as semanas em hipermercados, supermercados e mercearias de Portugal. Aqui e ali, irredutíveis fãs da bola (que não a outra) ainda a vão levando para casa, mas o domínio do queijo fatiado, do creme de barrar e afins é evidente. É cómodo, permite gerir stocks, variar com mais facilidade e mais uns quantos pontos racionais, mas pura e simplesmente não é uma bola de queijo flamengo e ponto final.

E isso minha gente, por mais queijo que se coma, não há forma de esquecer.


PS - Podia agora inventar umas histórias com avózinhas, que marcaram a infância, mas também estamos a falar de queijo, não é preciso tanto drama...

9 comentários:

  1. sem drama não é a mesma coisa, isto é Portugal, Mak!

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  2. De facto não é preciso tanto drama... (lol) mas é inevitável uma viagem até ao passado!

    Na casa de meus pais passava-se algo do género, nas sextas-feiras a minha mãe trazia ora 1/4 ora 1/2 de bola de queijo flamengo (convém especificar que era o "Limiano" ainda feito em Ponte de Lima com o leite das vacas turinas da região) para o fim de semana mas era ela que o cortava meticulosamente, todo em fatias de igual dimensão e espessura! Era mesmo uma arte aquele partir de queijo.

    Hoje, na minha casa, dia em que não haja queijo flamengo (de bola) sobre a mesa... não é bem a mesma coisa!

    Beijinho e fiva bem. :)

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  3. "mas também estamos a falar de queijo, não é preciso tanto drama..."

    ????

    Nunca mais leio este blogue.

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  4. @blue - o problema é que comemos muito queijo e amanhã já não nos lembramos dos dramas de hoje :)

    @orquídea - é por isso que a bola sobrevive ;)

    @wiwia - Já somos dois...

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  5. Mak, então não lembramos? Eu hoje lembro-me muito bem do drama que foi o Porto ganhar o campeonato na Luz ontem, ai não...

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  6. Damn! Agora ficou apetecer-me um fatia que queijo Limiano numa fatia de pão quentinho...

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  7. Gostei deste texto. Fez-me rir.

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  8. O queijo sempre foi mais engraçado do que eu ;)

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