7.4.11

O fabuloso destino de Amélie, de Sofia Coppola e de um jarro de vinho à pressão

Vamos começar por apresentar os gangs rivais – de um lado, malta que se deslumbra com tudo o que é “alternativo”, que se molda a partir da plasticina dos gurus da religião cool e confunde opiniões contrárias com falta de gosto. Do outro lado, a facção anti-alternativa que, não sendo burgessa, adora mandar abaixo tudo o que tem um rótulo demasiado alternativo e criticar os seus defensores, que consideram ser uma espécie de maria-vai-com-todas-as-tendências.

Finalmente, temos um terceiro grupo – eu. Esse grupo, se bem que individualista, define-se como um colectivo perspicaz, sensível e modesto que tenta apenas aproveitar o melhor que a vida tem para oferecer, sem julgamentos de carácter, mas com doses “grates” de sarcasmo.

E este último grupo, sendo entusiasta de cinema, viu na última semana dois filmes que, à sua maneira, dariam pano para mangas junto dos outros dois grupos– Somewhere, de Sofia Coppola e Micmacs de Jean Pierre Jeunet.

Não pretendo gastar o meu latim, por isso usarei apenas 60 palavras para definir cada um.

Somewhere – Cairá que nem ginjas em mentes que divagam na procura de um rumo para as incertezas da sua própria vida, projectadas através dos olhos de uma coqueluche do cinema. Lento, ao contrário do Ferrari que teima em aparecer, mostra ainda uma fixação com loiras exuberantes e comprova que a dupla pai solteiro-filha menor faz furor junto de muito bom coração.

MicMacs – Depois de Amelie, o Jean Pierre apaixonou-se pelo rendilhado barroco e fantasista dos fantásticos universos estéticos que cria. Amélie teve de facto um fabuloso destino, mas o resto tem-se perdido um pouco nas brumas dessa mesma estética. Há música, há fantasia, mas a história fica como a bala na cabeça, alojada em parte incerta e com um papel muito escondido.

Sabendo que esta ementa chega para entreter as pessoas com algumas aspirações culturais que por ainda aqui passem, vamos ao que interessa aos outros 98% que cá vêm.

Não há melhor um bom vinho branco/verde à pressão bem fresquinho, servido numa tasca a rigor, para garantir que a conversa ao almoço se mantenha num alegre chavascal longe de temas pós-modernos. E, se porventura o tema resvala para Coppola ou Jeunet, o empregado da tasca rapidamente põe as coisas no lugar – se não são jogadores de selecção, não têm lugar no Benfica.

1 comentário:

  1. Não entendo como há pessoas que não entendem que o vinho melhora tudo.

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