8.3.11

Um post vestido de mulher

É Carnaval, ninguém leva a mal. E dito isto, toca de atirar a garrafa de whisky para trás das costas, na direcção do corso e do ajuntamento da multidão. Ouviu gritos, vidros a partirem-se e crianças a chorar, mas não se deu ao trabalho de olhar para trás. O mundo já está cheio de merdas sem sentido, pensou enquanto se afastava, para quê ver mais...

Duas ruas mais à frente, dois homens vestidos ao estilo do filme Avatar bloqueavam-lhe o caminho. Então giraça, disse um deles, vens mascarada de quê?

Não respondeu.

Deve ser de vaca, disse o outro, mas daquelas que não mugem. Riram-se os dois.

Também se riu e acrescentou, de vaca não, senão ainda me confundia com a tua mãe.

Pararam de rir e o comediante agarrou-lhe num braço.

Tira as patas, senão....Senão o quê? Senão mostro-te porque me custa menos partir-te um braço do que mandar arranjar um vestido Chanel.

Recuaram e com isso ganhou espaço para agarrar numa pedra da calçada. Eles correram e a pedra correu com eles. Não viu quem ganhou, mas foram todos rápidos na mesma direcção.

O resto do percurso fez-se sem história, tirando a do costume, aquela em aqueles saltos lhe davam cabo das costas. À porta de casa, outra história repetida, a do olhar reprovador que não casa com o sorriso plástico do cumprimento forçado com as vizinhas, um momento que se dilui quase instantaneamente assim que o vestido lhes sai do horizonte visual. Elas que falem, pode ser que se engasguem com a placa.

Com a fome que trazia, por instantes esqueceu-se que alguém chegara primeiro a casa. Aquela voz pseudo-grave relembrou-lhe isso mesmo. Trazes jantar? É que se não trazes já devia estar feito, que isto não são horas. Aquele bigode não condizia com a voz pensou, enquanto voltava as costas e tentava relaxar dois segundos. Sentiu uma palmada valente no rabo. Não penses que te safas assim.

Voltou-se e arrancou aquele bigode num só gesto e, antes que ela protestasse, puxou-a pela gravata e beijou-a. Ela tirou-lhe a peruca e empurrou-o para trás, sorrindo ao vê-lo com o seu bigode na mão. Espero bem que não me tenhas lixado o vestido, disse, que me custa menos partir-te um braço do que arranjar um Chanel novo. Ele riu-se e chutou os sapatos para longe. O Carnaval está mesmo cheio de merdas sem sentido, pensou.

5 comentários:

  1. Com uma grande "pedrada" estavam os dois...
    O Carnaval serve para muitos de desculpa para cometerem uns quantos excessos... e a bebida faz de "santo casamenteiro"!

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  2. Se isto fosse ainda mais foleiro diria "What happens in Torres Vedras, stays in Torres Vedras"...

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  3. ahhh nao ha nada como o carnaval!

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