21.2.11

A menina saiu de casa para ir ao pão

Como em tantos outros dias, a menina saiu de casa para ir ao pão. Sorriu porque a vida lhe corria bem e sorriu também porque viu o Sol a brilhar, fechando os olhos para apreciar melhor o calor.

Deixou de sorrir ao cruzar-se com a vizinha e pensou “bruxa”, pois era isso que aquela velhota tenebrosa lhe fazia lembrar. Sem trocarem palavras, ficou com a clara ideia que a bruxa mentalmente lhe chamou “cabra”. Nada de novo, a não ser o ar particularmente escandalizado da velha, que devia andar a treinar o mesmo.

Não acenou ao senhor do talho, nem ao senhor da pastelaria, apesar dos dois terem vindo à porta dos seus estabelecimentos acenar-lhe. Não era por se ter mudado para um bairro tradicional que ia entrar em familiaridades precoces.

Atravessou na passadeira, perante um automobilista paciente. A filha do mesmo devia estar a fazer um qualquer jogo, pois tapava os olhos enquanto ela passava e o pai parecia assobiar.

Entrou na padaria. Cheirava a pão, bolos e a conversa de circunstância que parou logo quando ela entrou. Ia jurar que se invocou baixinho o nome de Nossa Senhora, embora a figura da mesma atrás do balcão se tenha mantido imóvel.

Se ninguém se acusava, se calhar era melhor fazer o seu pedido.

“Bom dia, são 4 bolas de centeio e dois croissants, se faz favor.”

“A menina não devia fazer isso...” detectou um espanto contido.

“O quê, os croissants não de hoje?” já uma vez ficara com dúvidas.

“São, mas a roupa...”

“Qual roupa?”

“Pois, qual roupa..”

Olhou à volta e todos, e por todos entendiam-se a senhora da padaria e duas beatas mal apagadas, estavam a olhar para si. Resolveu fazer o mesmo.

Gostava do que via, mas surpreendeu-se pelo que não viu. Roupa.

Sentiu-se aflita, durante sete segundos. Depois ficou mais descansada, quando viu que tinha o porta moedas na mão.

“Esqueça então os croissants. Um Euro chega para as quatro bolas?”

Chegava.

Voltou a casa. O Sol estava a saber-lhe bem.

Mas não era por causa disso que ia acenar ao senhor da pastelaria e ao outro do talho.

1 comentário:

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