3.1.11

A última passa

Tinha um problema. Se calhar tinha vários, mas de momento só se lembrava de um – era dia 1 de Janeiro e não se lembrava de nada do ano anterior. Se calhar também era assim todos os anos, mas como não se lembrava, não sabia se assim era.

Sentou-se à porta com uma passa na mão, atirando-a ao ar, como se quando ela caísse se fosse começar a lembrar de tudo. Tal não aconteceu. Tinha acordado e, ao olhar em volta e, ao dar com essa passa na mesa de cabeceira, pensou que ela fizesse parte do problema e não da solução.

Não estava frio, para primeiro dia do ano, o ano passado se calhar tinha sido diferente, mas ele não se lembrava e a passa não estava para conversas.

Talvez devesse comê-la...

Já agora pedia um desejo e, quem sabe, tudo voltava ao normal. Quem sabe até não era essa a razão porque todos os anos guardava uma passa para o dia seguinte.

Atirou-a ao ar, fechou os olhos e abriu a boca, esperando sentir a passar a cair para expressar o seu desejo de se lembrar de tudo.

Não caiu nada. Decidiu abrir lentamente os olhos e olhar para cima, vendo primeiro uma mão aberta, que baixou até ao nível dos olhos, mostrando-lhe a passa que, por esta altura, ele já devia ter comido.

Fixou-se primeiro na mão, de mulher, com dedos finos, mas com um verniz demasiado berrante para o que os seus olhos aguentavam aquela hora da manhã. E depois a voz por detrás da mão começou:

“Então, já acordado? Que passagem de ano fantástica, quem me dera que todos os anos fosse assim. E o fogo de artifício? Brutaaalll, devo ter-te esmagado o braço, com a animação...Deixa ver se tens nódoas negras, o meu primo Berto diz que se deve esfregar salsa nas nódoas negras, mas ele também, desde que tirou um daqueles cursos modernos acha que ervas e temperos curam tudo. E esta passa, hein? Estás com fome? Espero que não estivesse no chão...”

Durante cinco minutos ela não se calou e ele começava a acreditar que não ia precisar da passa para saber o que tinha acontecido no ano anterior. Bastava ouvi-la durante uma hora e ela iria recordar tudo, a um ritmo incessante, que ia contra todas as regras da lógica e da respiração. E ele não iria aguentar muito mais...

Aproveitando uma micro pausa entre duas frases avançou, esticando a mão sem se levantar:

“Olha, dás-me a passa só um instantinho?”

Surpreendida, ela atirou-a para a mão dele, como se não percebesse o que tinha uma passa de tão interessante.

Agarrando-a rapidamente, ele devorou-a sem mastigar e cerrou os olhos com força, metendo a cabeça entre os braços, que estavam apoiados nos joelhos.

Que se lixasse a memória.

E assim que gastou o seu último desejo num pouco de paz e silêncio.

6 comentários:

  1. Este teu pequeno conto, a propósito da amnésia e da passa que serviria para o último desejo (recordar-se do seu passado) fez-me lembrar um filme que vi há uns anos atrás sobre uma rapariga que sempre que acordava no dia seguinte não se lembrava de nada do seu passado nem do que tinha vivido na véspera... os protagonistas do filme são a Drew Barrimore e o Adam Sandler e o título... errr... olha que engraçado... não me lembro! :)

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  2. A minha namorada tem amnésia.

    Isto não é um desabafo, é mesmo o título do filme. Que não me passou pela cabeça, quando escrevi isto :)

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  3. LOL
    eu disse que não me lembrava só por brincadeira... era a "punch line" para tentar fazer uma graçola :)

    Há pouco esqueci-me de te dizer que gostei do teu conto (principalmente do final!).

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  4. Calculei.

    Daí ter feito a piada sobre a piada da piada.

    Coisa que não lembra a ninguém...

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  5. ... a ninguém... correcção! Lembrou-te a ti...
    E eu sabia que tu irias perceber a piada! :)

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  6. A propósito dos comentários anteriores: gostei mais do post do que do filme (o que nem é elogio por aí além, que o filme era uma bela tanga). Não que me tenha identificado, mas o mariducho veio à memória!

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