10.1.11

Terapia familiar a quente

O convite para almoçar tinha sido estranho. Não porque almoçar fosse para ele uma actividade estranha, já que o fazia desde pequeno, mas pela nota final ao telefone “a família toda vai lá estar”. Não só o conceito de família era pouco familiar para aquela troupe, como a indicação de “todos”, previa um apocalipse com cutelaria incluída.

Ainda assim, cá estava ele, de banhinho tomado e uma garrafa de vinho na mão, a 100 metros da porta da vivenda. Escondeu a garrafa de vinho num arbusto do jardim, não ia gastá-lo naquela gente e nunca se sabe quando teria que beber depressa para esquecer ainda mais rapidamente a tragédia em que aquele almoço se podia tornar.

Conforme se aproximou da porta, apenas 5 minutos depois da hora marcada, ouviu uma série de barulhos estranhos. Algures entre guinchos, gritos em surdina e pequenos lamentos abafados, parecia estar a decorrer algum ritual estranho. Será que lá em casa degolar cabras era agora aperitivo?

Pensou em usar a chave que tinha mas, dado aquele cenário, achou por bem tocar. A guincharia não parou.

“Entra, entra, só faltavas mesmo tu”, o sorriso da mãe não podia ter sido mais acolhedor o que, por sua vez, o fazia ficar ainda mais assustado. A última vez que a mãe sorrira num encontro de família tinha sido no funeral do tio-avô Maurício, quando a sua própria irmã e o cunhado tinham, inadvertidamente, caído no buraco de uma outra sepultura à espera de morador. O sorriso desapareceu quando se constatou que ninguém se aleijou.

Ao abrir a porta, que dava para um pequeno hall, os gritos abafados tornaram-se mais familiares. Um deles era claramente do seu primo, pois já tinha visto o primo Nélson gritar assim quando o tio Artur lhe derramara café em cima no Natal de 98. É certo que tinha pedido desculpa, mas uma cafeteira a escaldar despejada nas costas de alguém é um facto que se demora a perdoar.

Sem perder mais tempo, entrou na sala e, comparado com o que viu, o Inferno de Dante era um presente da “Vida é Bela”. A mesa tinha sido retirada e cerca de quinze parentes seus, de todas as idades, formavam um círculo. À entrada da ligação para a cozinha, um panelão em cima de um fogão de campismo fervilhava com água e algo lá dentro. A sua mãe voltou ao círculo e, gritando, tirou algo de lá e passou-o rapidamente à sua prima Lara que, por sua vez, deu um dos seus gritinhos histéricos e o passou novamente. Um a um, os seus parentes pegaram e passaram o objecto em causa, não sem gritar ao pegar nele. Quando o círculo se completou, a sua mãe voltou a pô-lo no panelão e, gritando, tirou de lá outro exemplar.

Era uma batata.

“Mas, mais do que é costume, está tudo maluco?” exclamou ele incrédulo, não sem antes morder o lábio até sentir dor, só para garantir que não estava a sonhar.

“Calma filho” era agora o seu pai que falava, o homem que ficara sem carta depois de ter tentado atropelar duas primas inconvenientes. Depois de as ter atirado do carro. Depois de as ter colocado na bagageira, para as levar a casa depois de um almoço que durou cerca de três minutos.

“Depois de anos de más relações familiares” continuou “achámos que bastava de passar a batata quente e havia que resolver o assunto, especialmente com o avô Constantino quase a bater a bota e uma herança que não é brincadeira”. O avô Constatino não apreciou muito a referência e o seu lamento ao pegar na batata, foi mais rosnado que outra coisa.

“Por isso, seguindo uma terapêutica que a tua prima Marisa recomenda, estamos literalmente a passar a batata quente, a ver se este sofrimento em comunhão, neste literalismo exagerado, nos ajuda à reaproximação familiar. No limite, se isto falhar, ai au ai au (era a sua vez de passar a batata), ficamos pelo menos com a satisfação de nos termos visto a sofrer olhos nos olhos”.

Fazendo um sinal de que não queria ouvir mais, voltou-lhes as costas. Ter trazido uma garrafa de vinho tinha sido um erro, devia ter vindo com um garrafão. Percorria os degraus do jardim, quando ouviu um vidro a partir-se e algo veio ter aos seus pés. Era uma batata quente.

A gritaria recomeçou lá dentro, mas agora era mais intensa. Se calhar iam começar a passar a cabeça de alguém.

5 comentários:

  1. Tens aqui um ensaio digno de ser comentado... mas eu vou passar a "batata quente" ao próximo visitante.
    :)

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  2. Depois de alguns meses a visitar esta casa, fiquei sem palavras quando abri a porta hoje! E antes que me passem a batata, vou-me embora (ver se a garrafa está no arbusto)!
    EXCELENTE!

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  3. Isto está genial.
    Ainda bem que a minha alcunha é " O Girafa ", limito-me a ver do alto

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