19.1.11

Prato do dia: Bananas com coca

- Simão, pára quieto um instante.

Sentado num baloiço feito a partir de um velho pneu e uma corda, Romão via o seu companheiro andar de um lado para o outro nervosamente. Aproximou-se em corrida do baloiço e começou a gesticular furiosamente.

- Parar, parar? Como é que podes falar em parar, estou nervoso, muito nervoso, mais nervoso que uma gazela se a metessem na jaula dos leões. Leões, grandes vidas, ali de juba ao sol, carne o dia inteiro e eu, parado, quer dizer, não estou parado, mexo-me, mas sinto-me parado no tempo, tirando que o tempo não pára...

Romão coçou a cabeça e fechou os olhos. Quando os abriu, Simão já não estava ao pé de si.

- Simão....é por causa das bananas não é? Aquelas que não chegaram, que vinham da Colômbia ou do Equador ou lá o que era...

Um guincho vindo de cima fê-lo voltar o olhar. Simão trepara ao topo da jaula e, cobrindo a cabeça com os braços estava agora pendurado de cabeça para baixo.

- É pois, Equador igual a dor, falta de bananas, tinha tanta energia, agora não tenho mas falo depressa, imagino coisas. Falamos como pessoas, temos nomes, mas não temos nada. Quer dizer, temos tudo menos liberdade e bananas. Que se lixe, que lixe a liberdade, dêem-me a porra das bananas, daquelas, das boas, das que dão energia.

Romão fechou os olhos novamente. Quando fechava os olhos, tudo o que Simão dizia parecia ter um ritmo de reggae. E tudo parecia melhor quando Romão pensava que estava na Jamaica, aonde nunca tinha ido, tirando em sonhos.

- Simão...tem calma. Tudo se resolve e tudo gonna be alright. Relaxa meu, curte a vida e vais ver que stressas menos.

Abriu os olhos e Simão estava de novo à sua frente. Toda a sua euforia tinha desaparecido e parecia agora simplesmente triste, muito triste. Em tom de mágoa disse apenas.

- Para ti é tudo fácil Romão, todas as semaninhas continuam a chegar os teus belos amendoins com ganza não é verdade? Vais ter com os teus búfalo soldiers e é tudo peace and love. Mas aqui o Simão não, fica sem bananas e acabou. Acabou tudo, menos o sofrimento do Simão. Não é, não é, não é?

Correu novamente até à parede e trepou as grades da jaula. Romão sorria, de olhos fechados. Ah, Simão podia ser um bom macaco cantor de reggae, se não estivesse sempre em stress por causa das bananas com coca.

1 comentário:

  1. É impossível não adorar isto. Saio daqui sempre com a cabeça noutra dimnesão. ;)

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