4.1.11

A falar é que a gente se desentende

Dizem-me que é a falar que as pessoas se entendem e eu acredito que sim, apesar de também acreditar que às vezes falar, como quem diz falar sem saber ou falar demais, é caminho andado para as pessoas se desentenderem.

Querendo começar 2011 com um toque de rapaz viajado e conhecedor de coisas do mundo, uso como exemplo um episódio que presenciei no aeroporto de Nice no ano passado. Um vôo com destino a Lisboa, repleto de portugueses, esgotou sem que tal fosse previsto pelos responsáveis.

A porta de embarque estava apinhada e uma dupla de funcionários franceses da operadora terrestre tenta controlar as coisas com a companhia aérea. Ela, jovem e inexperiente, arranha um inglês mediano e vê-se que está stressada, ao passo que ele, já experiente, parece apenas aborrecido por trabalhar a um domingo.

Percebendo francês e estando na linha da frente, depois de metade dos passageiros já ter seguido no primeiro autocarro para o avião, apanho a jovem a dizer que faltava uma refeição para um passageiro, que não havia para todos. Ele torce o nariz e vai lá atrás fazer qualquer coisa. Malta em espera, que não apanhou a mensagem tão bem como eu, começa a derivar.

“Ela disse o quê?”

“Parece que não há lugar para todos...”

“O quê, há gente que não embarca?”

“É uma vergonha, depois Portugal é que não presta”

“Que mau serviço, não há lugares para todos, mas vendem os bilhetes!!”

Em dois tempos, passamos da ordeira fila de espera à sucursal da CGTP em Nice. A funcionária, sozinha e atrapalhada, tenta pacificar as coisas falando alto num inglês arranhado “Please be calm, We just need a voluntaire because....”

“Qual voluntário??? Eu já paguei e vou para Lisboa.”

“Eu não posso ficar mais um dia, vergonhoso!”

“Se fosse em Portugal não faltaria.”

“....we don’t have meal for one passenger.”

Como é óbvio, esta parte já ninguém ouviu, tirando para acrescentar:

“Não só não vamos todos, como parece que nem comida vai haver. Que miséria!”

Quando voltou, o funcionário experiente deve ter pensado que tinha rebentado a Revolução Portuguesa. Perguntou em surdina à colega o que se passou e depois pensou um segundo e pediu calma, antes de dizer:

“There is no problem. Everything is fine. We will now board the second half of the passengers.”

A colega pareceu espantada, porque continuava a faltar uma refeição, mas de repente todos ficaram mais calmos, tirando os habituais “sinceramente” que surgem. Como é que a coisa se resolveu?

Facilmente, ao chegar à última passageira, o funcionário com ar casual e sorriso na fronha, disse-lhe simplesmente: “A senhora foi a última a fazer check in. Infelizmente a sua refeição já não foi contabilizada”. Mentira ou não, a senhora acatou, um vôo de menos de duas horas também não mata ninguém de fome.

Ainda consegui também ouvir o conselho do funcionário experiente à jovem: “Quanto menos falamos, mais depressa resolvemos as coisas”.

Não funciona para tudo, mas ainda assim...

5 comentários:

  1. Pessoas a reclamar sem terem bem noçao de quê é aos montes!
    Parece que estou mesmo a imaginar esta cena.

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  2. Acho que em certas situações a falar as pessoas desentendem-se, mas muitas vezes isto acontece porque os outros não querem ouvir, ou quando ouvem é na transversal.

    É como o "quem cala consente", comigo é mais " quem cala não se quer mesmo chatear".

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  3. Lá está, para alguns o "silêncio é de ouro", para outros mais kinky "o silêncio é de couro"... ;)

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  4. Não pude deixar de rir ao imaginar esse episódio XD Deve ter sido lindo!
    Foi tipo telefone estragado, começa por uma palavra numa ponta e quando chega ao outro lado já é outra coisa completamente diferente.

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  5. também já quis falar com uma pessoa para me entender com ela, e fi-lo três vezes mas não deu em nada. Fiquei ainda mais confusa na minha cabeça com atitudes dessa pessoa e não percebi em que pé tinhamos ficado.
    Por vezes, a falar é que a gente se desentende mesmo.

    vou seguir o teu blog ahah

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