27.1.11

Da vida entre os artistas - O pintor que não pintava

...disse-me que era pintor, mas da sua obra não conhecia mais que palavras.

As telas permanecem do mais alvo branco, enquanto pessoas e críticos, uma distinção que faço para não ferir susceptibilidades, se dividem na sua apreciação.

“É um natural inovador”, reclama Dordoni, famoso por nomear movimentos artísticos com a mesma fluidez com que despeja garrafas.

“Não passa de um moço de estrebaria glorificado, a quem damas sedentas de arte puseram na mão um pincel, de modo a justificar festas e visitas inoportunas”. A calorosa acidez de Azcher, contrastava com a sua reputação de ser alemão, se é que ser germânico, por si só, pode ser sinal de reputação.

Abordei-o um dia, imune às conversas de escada e jogos de bastidores, mais por curiosidade do que por proximidade. É preciso dizer antes que, embora partilhássemos alguns círculos de convivência, a nossa relação derivava apenas daquela linha invisível que une, de alguma maneira, todos os artistas, sejam eles escritores, pintores, músicos ou simplesmente “pessoas dadas às artes”, como é comum definir mandriões desgrenhados que acreditam que é possível viver de sonhos e que o trabalho mata a alma de qualquer artista.

Como já fiz questão de mencionar, nunca vi nada pintado da sua autoria, facto invulgar em quem se apresenta como pintor.

“Desculpa-me a presunção” comecei “Sendo pintor, não deverias passar boa parte dos teus dias travando longas batalhas com tintas, óleos, pincéis e gigantes brancos que se escondem dentro de telas?”. Por esta altura sorria, como se o seu sorriso já fizesse parte da resposta.

Concluí “Ou os caminhos do teu talento escapam à vista dos que, como eu, são meros observadores”.

A sua resposta foi breve, a memória da mesma perdura até hoje.

“Meu caro, uma tela, nada mais é que um túmulo onde vive parte da alma de quem a pintou. E um túmulo é um imortal da pior espécie, anseia por adoração, mas nada dá aos que o visitam ao longo dos tempos, para além da parca satisfação de o verem de perto.

Eu sou um pintor de palavras, de histórias, pois é este o tipo de imortalidade que desejo. Algo que cada um leve consigo e partilhe, se assim o desejar, sem preço nem moldura certa. Algo que agrade a reis e a indigentes, que os preencha de igual forma, apesar das suas vidas serem tão distantes como o topo da montanha mais alta e o fundo do mar mais profundo. Sou pintor porque a vida é algo que cada artista retrata na superfície para a qual é mais talhado. Para alguns é a tela, para mim é a imaginação de quem me ouve”. Não pude deixar de pensar se o sorriso que mantinha fazia parte das suas ferramentas.

Pus-lhe a mão no ombro e nenhuma outra palavra foi dita entre nós nesse mesmo dia. Afastei-me com um sorriso e uma certeza. Tinha agora na minha posse um quadro de tão inusitado pintor, quiçá de valor incalculável, sem que para isso ele tivesse sequer tirado as mãos dos bolsos...

Gennaro Pistoiese

Tipo italiano dado às palavras (séc. XVIIII ou coisa que o valha)

Não sei do que morreu, mas tenho a certeza que já não está vivo.

4 comentários:

  1. Pintar emoções, com palavras, histórias e frases cheias de força. Haverá pintura melhor?

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  2. Acima de tudo... um óptimo texto!

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  3. Hey, essa de despejar garrafas e´ uma indirecta?

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