29.12.10

Cedo as minhas 12 passas de fim de ano


Não sou um entusiasta declarado da passagem de ano. Como tal, muitas vezes até à última hora, não é raro ter uma tabuleta ao pescoço a dizer “Não fiz planos”, para me poupar a responder dez mil vezes a mesma coisa, perante gente que já tem o seu reveillon programado para aí desde Setembro e até já sabe a que horas vais estar bêbado que nem um cacho.

Mas, não me nego a um festejo quando a coisa se proporciona e, chegada a meia noite, lá estou eu de passinhas na mão a deitá-las cá para dentro e a expedir desejos cá para fora.

Este ano, não vai ser assim no que a passas e desejos diz respeito.

Por norma, sinto-me bem urso a usar uvas secas para pedir coisas em meu nome, sabendo de antemão que sou o tipo de gajo que preferia bater nas passas do que ficar a dever-lhes alguma coisa. Por isso, este ano, coloco as minhas passas à disposição para desejar algo pelos outros.

Não posso garantir a realização dos desejos, a não ser que sejam coisas do género “Desejo que o Mak me dê o desejo de uma das suas passas de fim de ano”, mas pelo menos posso garantir que a passa é vossa. Assim, pelo menos tenho a noção de estar a fazer algo útil, para além de engolir passas pelo nariz.

Fosse eu uma empresa ou entidade pós-moderna, e poderia estar usar isto para uma campanha de marketing xpto. Não sendo, posso apenas dizer que estão 12 passas à esperar para tentar ajudar outras pessoas a realizar os seus desejos.

Basta que me enviem por mail (caso queiram manter o desejo privado, colocando eu aqui só o nome) ou na caixa aqui em baixo.

Se receber mais de 12 pedidos, usarei um critério de utilidade e bom senso (ou seja, ver o vizinho de cima a explodir perderá sempre face a conseguir ir estudar para o “estrangeiro). Se receber menos de 12, redobro os desejos existentes.

1ª Passa – Um bom emprego para o marido de R

2ª Passa – A Gata Escaldada quer o Euromilhões

3ª Passa – A Maria quer mais estabilidade dinheiro e um outro desejo que não há passa que realize.

4ª Passa – A Maria Flausina quer acabar com os clichés de ódio de época e mais escrita demagoga.

5ª Passa – Que as pessoas sejam um bocadinho melhores - via Viciante

6ª Passa – Mais trabalho para mim via Estica (espera lá que não perdes pela demora)

7ª Passa – Uma passa fumada pelo Ganzas (queimei os pelos do nariz, as passas não acendem bem)

8ª Passa – Que as passas passem de moda via Manuela Sá Carneiro.

9ª Passa – Desejada, mas reservado o anonimato a pedido do desejante.

10ª Passa – Mais vitória para o seu clube ou um órgão da sua escolha via mail

11ª Passa – Desejada, mas reservado o anonimato a pedido do desejante.

12ª Passa – Atribuída a jovem donzela que pretende um aumento no seu salário e um almoço especial de corrida em 2011.

Adenda – E assim foi, por volta da meia noite.


PS – A data limite é dia 31, pelas 20h, data em que esta lista se torna definitiva

PSS – Qual a utilidade disto? (isto também eu queria saber)

28.12.10

As não prendas

Findo o regabofe do fim de semana de Natal e enquanto há já quem só roa as unhas à espera do rei velhão, há sempre um balanço para fazer. No entanto, muitas vezes é preciso ter cuidado com esse tipo de actividade, já que o enfardamento natalício torna-o algo perigoso.

“Ohhh, este é daqueles posts bonitos dado a reflexões sobre o ano que passou?” suspirará o leitor, enquanto conta as suas 12 passinhas e as envolve cuidadosamente em película aderente, não vá o diabo tecê-las.

Não, este é um post parco em beleza sobre uma certa tipologia de prendas do Natal que passou. E parem com essa história de passas e película aderente. O facto é que, para além dos postais com música, se há coisa que me melindra são as não prendas, uma categoria muito especial dentro das coisas que dão mau cheiro ao sapatinho.

As não prendas parecem prendas, mas não o são. Distinguem-se das que realmente são pelo facto de serem dadas mecanicamente, sem outro valor, intenção ou gosto, que não o de dar uma prenda por obrigação. E, quando assim é, invertem-se as escalas de valor e um lápis pode valer muito mais que um relógio daqueles bons, com nome de marca estrangeira e ponteiros que fazem habilidades.

Isto é apenas um exemplo, mas não faltam outros, surgindo de vários pontos à nossa volta e vocês sabem do que eu estou a falar. E, se não sabem, bem podem agradecer ao Pai Natal.

PS – Isto não é uma reclamação disfarçada. Eu sempre gostei de pijamas com o Noddy.

22.12.10

Só um sambinha não vai...

Se fizessem uma fila, ordenando as pessoas a partir das que gostam mais de ritmos brasileiros até aquelas que lhe têm um ódio visceral, eu não estaria bem colocado. Mas, sendo um entusiasta de música dos mais diversos géneros, não me dou ao luxo de odiar esta secção, apesar de não estar no top das minhas preferências.


No entanto, sofrendo da condição típica de ser mais ou menos humano, a facilidade com que me contradigo é impressionante. E é por isso que, nos últimos dias, me vejo a ouvir com alguma insistência o já clássico álbum "Soul Bossa Nova" do Quincy Jones.
Pode não ser a mais pura música brasileira, mas é um bom princípio. Muito bom, por sinal.


PS - Não confundir não gostar de alguns tipos, com não reconhecer a qualidade de diversos artistas ou não ouvir nada e dizer mal só por dizer. Até porque quando é só dizer mal só por dizer, eu aviso.

20.12.10

O tilt do Sim-Não

Há gente que não tem papas na língua. Bem vistas as coisas, em países onde a tortura não se limita à programação televisiva, há até quem não tenha a própria da língua. Mas, o que a mim me baralha o sistema é gente que tem dois nós na cabeça e três na língua.

“Então caro Mak, que azedume é esse” pensará o leitor que, devido à época, tem um ligeiro excesso de açúcar no sangue que lhe dá para misturar períodos de euforia momentânea no seu quotidiano. É simples, trata-se apenas um azedume de grau moderado, em relação a gente que começa invariavelmente as suas frases a contradizer-se.

“Olha, vais passar lá daqui a bocado”.

“Sim...Não, vou primeiro a casa e depois vejo como me sinto. Não é como me sinto em casa, é como me sinto em relação a sair dela”.

“Isso que estás a comer, não tem uma espécie de laxante?”

“Sim...Não, quer dizer, ainda não sinto, mas se calhar não sei”.

“Já pensaste em atirar-te para debaixo de uma ceifeira debulhadora?”

“Sim...Não, respeito imenso máquinas agrícolas, mas não me meto debaixo de qualquer uma...”

As questões são indiferentes, pois o tique é sempre igual “Sim...Não”, “Não...Sim”, “Sim...Não”. É como se fosse uma finta de corpo involuntária, que a pessoa tem para se defender de qualquer compromisso inicial em relações tão importantes como “Essa caneta é tua?”.

O problema é quando se confronta essas pessoas, tentando saber se têm a noção que essa contradição se pode tornar irritante numa conversa/convivência continuada. “Epá, mas tu tens a noção que começas a frases todas a contradizer-te?”

“Sim...

Não...”

19.12.10

Chefs, mas pouco

Já ouvi muita história sobre feitos culinários de chefs de ocasião, homens pouco dados à cozinha que, por necessidade ou motivação inspiracional, se superaram na confecção de iguarias excepcionais que, no limite, não conduziram ninguém aos cuidados intensivos.

No entanto, não raras vezes, ouvi desdenhar de proclamados chefs que, gabando-se previamente dos seus feitos, não passaram depois do douradinho, do chamado bife da sola e do arroz tapa buracos. Nesses aspectos, recordo sempre uma história que me mostrou que a magia da cozinha às vezes reside apenas na forma como contamos as coisas.

Em tempos de universidade, um amigo convidou-me para ir jantar a sua casa. Apesar de não conhecer os seus talentos culinários, pensei que no limite iria safar-me com uma pizza ou não comprometedor. No entanto, não resisti a perguntar-lhe qual seria o prato principal.

“Ah, meu caro, é uma especialidade minha – salsichas recheadas artesanalmente”.

Desconfiado, perguntei “Define lá artesanalmente...”

“Então, é tudo preparado à mão, não há cá coisas de fast food. Depois logo vês”.

No dia combinado, lá fui eu, com um sorriso nos lábios, pastilhas digestivas no bolso e o INEM preparado em pré-marcação no telemóvel. Poucos minutos depois, descobriria o segredo das “salsichas recheadas artesanalmente”.

“Chegaste mais cedo. Estava agora a rechear as salsichas...”

“Posso ver essa iguaria em preparação?”

“Claro, entra.”

Lá o segui até à cozinha. Procurei salsichas frescas, um tabuleiro de carne e encontrei algo nobre – uma lata. O seu conteúdo, espalhado na bancada era agora rachado ao meio, pelo meu “chef” amigo, que a seu lato tinha o seu recheio “artesanal” - nada mais, nada menos, que fatias de queijo, daquele que tem a distinção de vir dentro de saquetas de plástico.

Aberta a salsicha ao meio, a fatia de queijo era aí inserida, para depois ir ao forno uns segundos. Tudo artesanal.

Do sucesso do prato principal não reza a história. No entanto, a entrada artesanal “barrigada de riso” permanece memorável até hoje. E, se até essa altura eu já tinha alguma desenvoltura na confecção gastronómica, a partir daí melhorei imenso numa especialidade culinária – temperar os pratos com os nomes mais absurdos que consiga criar. A partir daí, o céu da boca é o limite...

16.12.10

Entrada a pés juntos no Facebook

Bandalho dado à interactividade virtual, decidi aqui há uns tempos criar um perfil facebookiano para poder dar largas ao dichote artístico que tantas vezes pulula no meu ser. Não crendo eu estar à altura de um patamar de figura pública, criei um perfil pessoal para a minha persona bloguística, sem pretender por algo mais do que aquilo que ela é. O meu número de amigos foi crescendo, nada do outro mundo, mas quase sempre por adição dos outros e muito mais raramente pela minha própria acção.

Até que descobri esta semana que o Facebook tem as suas regras e, pelos vistos, eu estava em incumprimento grave das mesmas. Apesar de nunca ter tido um comportamento incorrecto (para além de um idiotismo itinerante), de não ter usado perfil para qualquer spamming, flamming ou outro tipo de actividading suspeiting, o perfil foi desactivado sem qualquer pré-aviso. Posteriormente, recebi na minha caixa de email, um email standar do Facebook, explicando-me as regras e em que é que eu estava em incumprimento das mesmas, assim como o que teria que fazer para rectificar.

Apesar de constatar que diversos perfis semelhantes ao meu continuam activos e com uma clientela bastante superior, não posso contestar a legitimidade da acção do Facebook no meu caso. Contesto sim o cariz aleatório da acção punitiva e a relatividade de haver ou não pré-aviso, dada a falta de antecedentes ou uma acção deliberada da minha parte, isto não sabendo sequer se a suspensão se deveu a denúncia de alguém ainda mais retorcido do que eu.

Não vou ficar a chorar sobre Mak derramado e posso dizer que estou até já em conversações com o Facebook para comprar a plataforma ou, em alternativa, desbloquear as coisas de forma a poder redireccionar as pessoas para o local certo.

E, por local certo, pode entender-se esta nova página - Mak, o autor e renomada figura pública, que depende apenas da vossa boa vontade, para ser likado e divulgado convenientemente.

E assim a vida, tal como a morte, acontece


Obrigado Carlos, por durante tantos anos teres ajudado tanta coisa a acontecer.

14.12.10

O WikiLeaks lá da minha rua

Vejo o assombro com que o fenómeno WikiLeaks chegou aos tops noticiosos e é ingrediente essencial em qualquer conversa de café em que se queira passar a impressão que nela participam pessoas muito focadas na actualidade.

Apesar de já conhecer o site há algum tempo (frase ideal para projectar a minha imagem de camafeu muito up to date), compreender que a nuance digital torna tudo mais trendy e que política e cowboyada diplomática sempre foram um mimo em termos mediatismo, chateia-me que isto do wikileakismo já não seja coisa nova.

Relembro com alguma saudade o tempo que a Dona Suzete, porteira do meu prédio, fazia de WikiLeaks lá da rua, uma espécie de Julian Assange do seu tempo mas de bata às flores e excesso de peso. Como quem não quer a coisa, mas querendo sempre, lá ia partilhando dossiers confidenciais diversos: sobre a senhora do 4º andar que, apesar de divorciada, ainda recebia o ex-marido à noite em casa, sobre a maneira como aqueles do prédio amarelo tinham conseguido comprar carro novo, apesar de estarem atolados em dívidas ou de como as drogas e não o trabalho nocturno eram responsáveis pelo ar desmazelado do filho da senhora da mercearia.

Indiferente a protestos e acusações, infundadas na sua opinião, de que era puramente uma quadrilheira, Dona Suzete continuou a fazer serviço público, sem colocar filtros na comunicação acessível ao público disposto a dar-lhe ouvidos.

A comunidade internacional passou ao lado do papel desta mulher na liberdade do acesso à informação. É natural, a minha rua não ficava em caminho para a comunidade internacional. E assim Julian Assange colhe agora os benefícios daquilo que, à sua maneira retorcida, Dona Suzete já tinha começado a fazer muitos anos antes, sem ajuda da Internet.

13.12.10

Os filmes de terror e os mariquinhas pé de salsa


Vou aproveitar que tenho aqui dois minutos e vinte sete segundos livres para dizer uma coisa – gosto de filmes de terror, de filmes de zombies (Manoel de Oliveira not included) e filmes que têm que ver com o sobrenatural (tirando banhadas de vampiros e monstros fofos que só precisam de alguém para amar).

Como me sobrou um minuto e quarenta e nove segundos, aproveito ainda para uma palavrinha sobre os mariquinhas pé de salsa que não gostam do género porque mete medo, faz impressão ou não gostam de ver coisas esquisitas.

Eu que vos apanhe a ver noticiários onde o estropiado e o mutilado convivem com as batatas assadas do jantar, onde as explosões, os atentados e os acidentes com tudo calcinado ficam algures entre o “passa o sal” e o conforto do sofá do lar.

É que o terror ficcionado deixa-me o conforto de ser aquilo que é e nada de mais. Já os horrores reais que passam na televisão metem-me medo, não só por serem aquilo que são, como por mostrarem um bocado daquilo que podemos ser.

É por isso que evito noticiários em que o sangue e a miséria escorrem da televisão. Para tomar um banho de realidade prefiro sair à rua.

6.12.10

Três homens e um (gajo a ouvir conversa de) bebé

Prevenindo que certos almoços se convertam em martírios de início de semana, reservo sempre a segunda feira para almoços com gajos de barba rija. Assim, por norma, animadas conversas sobre futebol, calendários Pirelli e o método mais hardcore para beber 10 imperiais de seguida permitem-me, se assim enteder, manter um estatuto de observador pouco participante.

No entanto, eis que ao fim de duas garfadas vejo três marmanjões, que fariam o comum transeunte mudar de passeio ao avistá-los, a falar entusiasticamente sobre os seus rebentos. Sendo eu portanto a única criança à mesa, eis que me vejo de repente num limbo “O que é isto? Durante anos, sempre ouvi histórias de mulheres que dissecam a vida dos seus bebés, partilhando histórias de alegria, choro e necessídades básicas à hora da refeição. Aliás, eu já fugi desses épicos mascarados de refeições. Mas isto...”

Indiferentes aos meus balões de pensamento, este trio de machos virados em cordeiros paternalistas debatia qual o melhor filme para putos, qual a melhor maneira de adormecer a criança (a piada: “com whisky”, não foi bem recebida), o prazer de o ver a fazer xixi sozinho e até as agruras dos subornos infantis em tempo de Natal.

Creio que estivemos a segundos de sacar fotos da carteira e trocar contactos de pediatras e só a minha rapidez de movimentos, levantando-me e olhando para o relógio, poderá ter evitado uma ou outra lágrima de emoção.

Regressei do almoço com a sensação de que já não se pode confiar em ninguém para manter a ordem estabelecida das coisas.

Para provar isso, fui meter conversa com duas miúdas, para ver se sabiam o resultado do Real Madrid. “Ganhou o Real” disse uma “Dois golos do Ronaldo”, acrescentou a outra.

Afastei-me, com alguma consternação no olhar. O fim do mundo aproxima-se....

3.12.10

Os factos da vida

Desta vez, não são precisas palavras minha para ilustrar esta questão. Basta um senhor chamado Michael Gambon, com um bonito english accent, a explicar sumariamente como é que, por vezes, as coisas se passam na vida.

E um senhor, que alguns conhecem agora como 007, a ouvir com a cara ligeiramente esmurrada.

2.12.10

O cacilheiro dos segundos contados

Todos os dias era sempre a mesma coisa e tudo se decidia numa questão de segundos. Bastavam uns segundos a mais na cama, uns segundos a mais no banho, uns segundos a mais a decidir a roupa ou uns segundos a mais ao pequeno almoço e tudo estava perdido.

O cacilheiro das 8.38 não esperava por ninguém. Bem, no caso dela talvez abrisse uma excepção, mas uma excepção de breves segundos.

Tal como se fosse uma repetição gravada, todos os dias chegava à estação com o aviso final a soar nos altifalantes. Ofegante, passava a correr pelos torniquetes, esgueirava-se pelas cancelas, intstantes antes destas se encerrarem e ouvia o barulho dos seus saltos a ecoarem ao longo da rampa, chegando primeiro que ela ao velho cacilheiro.

As amarras já estavam soltas quando entrava na ponta final do cais, a pequena plataforma de madeira já tinha sido retirada e apenas aquele velho marinheiro de barba e casaco coçado, com aquela expressão seca típica de quem já passou muito tempo embarcado, passia dar conta da existência dela.

Todos os dias ele lhe estendia o braço, desafiando-a para um salto curto que a ela lhe parecia olímpico. E todos os dias ela hesitava um segundo, antes de saltar e sentir o braço dele a prendê-la com a mesma segurança com que amarrava e desamarrava cordas.
Trocavam sempre um sorriso “Foi à continha, menina. Amanhã se calhar não faz outra igual.” dizia ele, trancando a portinhola de ferro e seguindo o seu caminho ao longo do convés. E ela agradecia, com um “Obrigada” sumido, que ele correspondia apenas com um acenar de cabeça.

E foi na manhã em que se apercebeu deste facto cíclico, que se apercebeu também que acabava de perder os segundos que nos outros dias lutava para conservar. E correu o dobro, o triplo para tentar recuperar o tempo.
Entrou na estação apenas uns segundos depois do aviso final. Passou nos torniquetes e quase que ficava presa na cancela que se fechava. Descalçou os sapatos de saltos para correr ainda mais depressa.

Não se ouviram passos a ecoar rumo ao cais.

Talvez por isso, Alberto, o velho marinheiro de barba e casaco coçado tenha pensado uns segundos antes “Olha, não há concerto de sapatinho finório, foi hoje que não se safou”, voltado as costas embrenhado nesse pensamento, esquecendo-se por um instante de trancar a portinhola de ferro.
E ela, vendo a portinhola aberta e a distância entre o cais e o barco apenas uns segundos maior, terá pensado “É hoje que salto a sério”. Não sentiu o braço forte do costume a segurá-la. Sentiu apenas o vazio e uma sensação de choque ao entrar na água fria e suja do rio.

“Amanhã não faz outra igual” ouvia ela na sua cabeça, enquanto via o cacilheiro das 8.38 afastar-se, sem a passageira dos segundos contados a bordo.

A vida é como uma maratona

Do ponto de vista pseudo-filosófico-suado

1km – Não fazes a mínima ideia no que estás a meter
5km – Ainda te sentes bem e achas que estás na maior.
10km – Começas a sentir pela primeira vez a dimensão das coisas. No entanto, és maioritariamente optimista.
20 km – Começam as queixas. Sentes-te ligeiramente injustiçado, mas esforças-te por cumprir.
30km – Que se f%&a o optimismo. É uma vergonha não haver forma de chegar à meta. Arranjas forma de culpar o Governo por parte das coisas.
40km – Muita gente te deixou para trás e provavelmente sentes-te sozinho. Resignado continuas, dizendo que aos 10km é que era bom e que só não desistes, porque não és de te queixar.
42km – Chegas à meta a morrer.

Aceito encomendas de analogias para o Natal.