29.10.10

Histórias por acidente

Ela perguntou-lhe:

"Hoje vou a uma praia de nudistas, queres vir?"

Ele respondeu-lhe, falando mais baixo:

"Não, não tenho tomates para isso..."

Compreensiva, ela perguntou:

"Então mas porquê, é por causa da timidez?"

Suspirando, ele respondeu:

"Não, é por causa de um acidente de guerra."

Não há almoços virtuais grátis

Eu e este senhor não nos conhecemos. O que não nos impediu de, corria já longo o mês de Outubro, almoçarmos juntos. O ponto de encontro foi uma farmácia, talvez por eu pensar que não tenho remédio e ele acreditar que pensos rápidos não salvam o mundo.

O local físico do almoço deu lugar a uma pergunta metafísica - faz mais falta alimento para a alma ou comida para o estômago? Um pequeno impasse e decidimos que, visto o estômago ter roncado primeiro que a alma, o melhor seria ir por aí.

Chegados ao local escolhido, arrisquei ao empregado “Meu bom homem, trazei-nos das vossas melhores vitualhas e regai a nossa refeição com o néctar dos deuses” e a resposta não se fez tarde “Então, brincamos ou quê? Não há cá nada dessas merdas pipi, vejam lá se se orientam”. Pronto, distraí-me, não vi o sinal para deixar lirismos ridículos à entrada da tasca.

Superado o percalço e preenchidos os pratos e os copos, desanuviou-se o ambiente com uma conversa light – o futuro da Humanidade, a falibilidade do ser humano quando dividido entre razão e emoção e o preço da bandeirada nos táxis serviram de entrada.
Depois de abordada a fissão nuclear e a decoração do Espaço Schengen, por um momento pareceu querer aflorar à mesa, naquele instante em que surge a indecisão sobremesa, café ou só a conta, o tema blogs, o meu, o dele, o dos outros...

Sorrimos, ao reparar que certas coisas têm tendência para vir à tona, mesmo quando não são para ali chamadas. Toda a gente sabe que isso da blogosfera não existe, é um mito criado por pessoas com pouco que fazer...

Pagámos rapidamente, despedimo-nos com a alegria e satisfação de continuarmos a não nos conhecermos de lado nenhum e cada um seguiu o seu caminho. Ele, perdido pela cidade e eu, a pensar que vitualhas é uma palavra que não lembra ao demo...

28.10.10

Amigos para todas as horas

Existem muitas formas de classificar amigos, como por exemplo: do peito, da perna, chegados, do amigo, de infância, coloridos, virtuais, da onça e de tudo e mais alguma coisa. No entanto, temos algumas falhas no que à divisão dos amigos em termos de horário diário diz respeito e é algo que se devia aproveitar mais, na minha pouco modesta opinião.

Aqui e ali, lá vou encontrando quem me diga que tem amigos da noite, gente que só materializa a sua amizade quando o Sol se esconde depois de ser despejada alguma bebida alcoólica num copo para os convocar. Mas, e quando a noite acaba e esses amigos têm de voltar para o seu abrigo nuclear, faltam ainda muitas horas por preencher.

Talvez faça sentido ter o amigo do pequeno almoço, gente com quem possamos contar sempre que queiramos começar o dia com uma chamuça e um Sumol de ananás e só precisemos de ouvir “Bom dia campeão”. Depois, ficarão caladinhos e seguirão o seu caminho, que não há pachorra para amigos do pequeno almoço que não se calam e ficam a fazer tempo para o almoço.

Depois, o amigo do meio da manhã, que nos vem dar uma palmadinha nas costas e nos diz “como vai isso campeão?”, para depois nos dar uma peça de fruta e sair a cantar êxitos de Tom Jones, enquanto gaba às pessoas as nossas capacidades de confeccionar risotto e beber Martinis de olhos fechados.

Talvez depois do almoço venha o amigo para lavar os dentes, alguém que nos empresta pasta e fica apenas o tempo suficiente para que duas pessoas partilhem momentos com a boca coberta de espuma, sem haver epilepsia à mistura.

Ao voltarmos a casa, porventura podemos considerar o amigo do fim de tarde, que aparece para nos dar um abraço no elevador e sair um andar antes de nós, para as pessoas não pensarem que a música “You’re my heart, you’re my soul” que toca no elevador implica que sigamos juntos para casa de mão dada.

E, porque para nos aconchegar na caminha é preciso algo mais que amizade, deixemos ser o amigo das 22.45 a fechar o dia. E porquê esta hora? Porque o camião do lixo passa às 23 na minha rua e dava-me jeito um amigo que me bata à porta com um sorriso e me diga “Tens lixo para mim, campeão?” e eu responda:

“Tenho”, passando-lhe um saco, fechando-lhe a porta com um sorriso e pondo um fim a esta história.

O dilema do disco rígido

Sou um tipo que gosta de diversificar as suas manhãs, antes de ir para o trabalho. Por isso, hoje quando saí achei interessante enrolar-me num edredão e passear um pouco. No entanto, isso não pareceu agradar aos malucos oficiais do bairro, que vieram ter comigo numa acção de sensibilização, dizendo-me:

“Amigo, você está a tirar prestígio ali ao Andrade, que só ao fim de 5 anos é que arranjou uma boa carpete para poder andar por aí enrolado a falar com os caixotes do lixo. Se quer virar o boneco, experimente andar com uns carapaus frescos na boca ou mascarar-se de ecoponto, que esse nicho ainda está por preencher...”

Como a peixaria ainda não estava aberta, resolvi que era melhor ir pôr o edredão a lavar na loja da especialidade do mini-centro comercial, deixando para amanhã outra maluqueira. Ao chegar lá, as três senhoras que lá trabalham estavam em animada cavaqueira, o que me levou ao pensamento “Será novela tradicional, novela do Orçamento de Estado ou novela das presidenciais?”

Surpreendi-me, enquanto uma delas me recebia o edredão, por ver que estava longe da verdade. Perguntava uma “Ouve lá, mas afinal o que é isso do disco rígido?”, respondia-lhe a outra, com ar assertivo mas pouca substância “Então...então...um disco rígido é o que está cá dentro”. E dá umas palmadinhas numa torre de um computador que tinha ar de já estar extinto há cerca de 20 anos.

Afastei-me, questionando o meu próprio disco rígido - aquelas mulheres teriam no máximo 40 anos e lidavam ainda com a informática como eu lido com a física nuclear. Daqui a 20 ou 30 anos, quando é que serei eu apanhado por um jovem moderno de bom porte atlético a dizer “Mas, afinal o que é isso do implante neo-submolecular para projecção de sonhos em módulos planificadores de realidade?”.

E, tal como eu, também ele se afastará com uma sensação de superioridade e o pensamento “Epá, há gente que congelou como os mamutes...”

27.10.10

Como saber quando recusar um convite

Quando tudo o que nos descrevem para nos tentar levar a marcar presença num dado evento nos faz pensar algo muito parecido com isto:



É altura de recusar simpaticamente e dizer que nesse dia já temos o ensaio do coro de pessoas que cantam pelo nariz.

O mistério do autocarro sisudo

Não se deu conta do que estava a fazer quando se preparou para entrar no autocarro logo de manhãzinha. Aliás, só se apercebeu que algo se passava quando motorista carrancudo lhe rosnou que tinha que validar o passe na máquina, o que até poderia ser normal, não fosse o caso dele ainda estar do lado de fora do autocarro.

Entrou, validou e avançou, ao som de um “Hummm” desagradado do motorista. Sentou-se num lugar individual, em frente de uma velhota cujo suspirar anunciava uma certa vontade de conversar. Mas, mal começou “Não queira saber...”, ao fixar-lhe o rosto, a velhota calou-se, cerrando os seus finos lábios com um impulso rancoroso. De seguida fez algo que ele nunca tinha visto uma velhota fazer, levantou-se do lugar e ofereceu-o a uma jovem estudante, acabada de entrar.

Passou as mãos pelo rosto, para ver se tinha alguma migalha do pequeno almoço, pasta dos dentes, ramelas ou qualquer outra coisa que fosse estrana. Não encontrou nada. Olhou a sua nova companheira de viagem, possivelmente uma jovem universitária, ensonada, agarrada ao telemóvel como a única tábua de salvação, teclando furiosamente. Ela levantou os olhos, encontrando os seus a meio caminho e fez uma careta dissimulada, como quem prova algo demasiado ácido. Voltou a teclar furiosamente, afundando a cara no meio dos cabelos compridos.

Não sabendo se deveria rir ou começar a ficar preocupado, levantou-se para dar lugar a uma senhora que se aproximava com um ar cansado na cara e um filho pequeno pela mão. “Obrig...” a mãe interrompeu o agradecimento ao fitá-lo e terminou-o com um aceno rápido, enquanto virava o miudo para a janela, de maneira a que este não o visse “Vá, não fiques a olhar para o senhor, nem toda a gente é assim” ouviu ele enquanto se encaminhava para a porta de trás.

Entre ele e a porta de saída estavam dois homens engravatados de pé, um deles submerso na música do seu mp3, o outro nas notícias financeiras do jornal. Ao seu “Com licença” reagiram como se tivessem ouvido “Tenho Peste Negra, posso dar-vos um abraço?”. O dos headphones olhou-o e desviou-se com um desprezo agravado, que ele pensou dever-se ao facto de não estar a usar gravata. O outro atrapalhou-se, deixou cair o jornal e fez um golpe de contorcionismo para, no mesmo movimento, o apanhar e voltar-se de costas de forma a não estarem face a face novamente.

Finalmente, estava frente à porta de saída do autocarro e foi aí que reparou no seu reflexo – Estava a sorrir. Era o mesmo sorriso que tinha no elevador quando saiu de casa e que viu na porta do autocarro, segundos antes de entrar. Tinha-se esquecido completamente de o tirar.
Conforme as portas da saída se abriram, voltou-se para trás como que para pedir desculpa. Percebeu que era tarde demais, já todos lhe tinham voltado costas ou desviado o olhar, não fosse a coisa ser contagiosa.

Saiu e parou uns segundos na paragem para colocar o sorriso matinal no bolso. Era melhor guardá-lo até chegar ao trabalho, não fosse alguém estragá-lo de propósito.

26.10.10

Cartas abertas, quem as não tem

Antes de mais, devo dizer que nunca recebi uma carta aberta, embora tenha tido uma outra encomenda que já chegou meio rebentada. No entanto, sempre achei o conceito da chamada “carta aberta” interessante. A ideia de uma carta em que se põe determinado assunto em pratos limpos ou em que nos dirigimos a um grupo interessado no que temos a dizer, só por si justifica que esta carta seja aberta. Até porque se ficasse fechada nunca saberíamos o que essa pessoa teria para não dizer e, não tendo endereço, seria rude abri-la só para a tornar aberta. Por outro lado, se a carta é aberta e não o foi por nós, dá ideia que alguém já andou a espiolhar correspondência alheia. Como podemos depois confiar no que quer que seja que é dito na carta?

Fará também sentido começar a falar num email aberto, num post aberto ou num status de Facebook aberto?

Como vêem, é fácil criar uma qualquer problemática idiota a partir de um assunto que até podia ser interessante. Basta ser abordado por gente dada a abusar da aguardente de medronho.

S de mais ou menos Seriedade e um par de botas

Este blog não tem uma linha editorial, tem um risco. E esse risco sou eu que o traço, o que é outro risco visto que o Desenho e a Geometria, até nas suas formas mais elementares, nunca quiseram nada comigo.

Nunca faço um grande planeamento do que cá venho despejar, nem sequer sei muitas vezes o que cá ando a fazer, a coisa flui e pronto, depois dá nisto. É como colocar, numa metáfora reles para um público pós-moderno como o meu, uma garrafa à frente de um bêbado. Isto não é a materialização de uma projecção da minha alma, um vislumbre da minha essência, nem outras lamechices poéticas que poderia aqui passar para dar um toque de sensível. Não me dá jeito e, ainda por cima, tinha de ir a correr arranjar uma alma e em tempo de Outono elas costumam migrar para climas menos frescos.

Apesar de escrever com aquele prazer egoísta típico de pessoas que escrevem por defeito (mas a pensar que não os têm), também gosto de ter audiência, é certo. Seja 1, 10, 100 ou mil, há uma certa satisfação que deriva do facto saber que umas linhas saídas desta mente tortuosa preencheram o dia de outra pessoa, nem que fosse por breves instantes. Causou impacto positivo? Boa. A coisa deu para o torto? Melhor ainda. Não aqueceu, nem arrefeceu? Ainda bem, que é para não se constiparem.

Por isso, sem grandes rodriguinhos, peço-vos que levem a sério o que aqui vão encontrando. Como? Começando exactamente por descontextualizar o que é “sério”. Levar uma brincadeira a sério não implica cara feia (tirando se não houver outra) nem comportamento austero, mas sim entrar na mesma, tal como esta nos é proposta.

Os filósofos da vida, as pessoas que passam mensagens realmente interessantes ou os diários das vidas reais e aspiricionais que gostávamos de ter não moram aqui, são apenas vizinhos deste prédio. É descer um lance de escadas e tocar, que devem estar em casa.

Quem vem aqui, não sabe bem ao que vem. É isso que temos em comum. Mas, se houver quem saiba, que não me diga. Ninguém gosta de chico-espertos.

25.10.10

R de Recordações Suadas

Não me recordo de já ter feito um título tão reles para o Makcedário. Por outro lado, também não me recordo do que comi sábado ao almoço, por isso o critério é fraco. Mas, o que à partida pode parecer a promoção de um qualquer argumento para um filme porno de craveira duvidosa, não passa de uma inocente viagem ao passado.

Esqueçam os vossos 10 minutos de terror com o campeão do suor num qualquer autocarro ou cubículo sem janelas ou até mesmo o último domingo, em que na Corrida do Tejo a diversão só começa na viagem de comboio após a corrida, de Oeiras a Algés no meu caso, em que só aqueles com maior capacidade pulmonar sobrevivem em carruagens pejadas de gente suada.

Esta viagem vai mais longe, no meu caso até à escola primária e à Sra. Professora Maria Albertina, pois é daí que é oriunda a minha primeira recordação de “suores frios”. A senhora não era propriamente uma reencarnação do demo ou uma voraz defensora de instrumentos de tortura medievais. No entanto, quando a ocasião se predispunha (e eu predispunha-me a umas quantas) era capaz de fazer suar do buço qualquer criancinha.

Relembro-me do dia em que pensei que usar o leite com chocolate para beber era limitativo. Que era possível gerar entretenimento com ele e que eu iria tornar-me ainda mais popular no recreio. Lembro-me de ter tirado três pacotes que sobraram e de os ter levado às escondidas para o pátio no recreio. Lembro-me ainda de os ter descascado o mais que possível, até boa parte do revestimento interior estar à vista.

Com o cenário montado, lembro-me depois de os ter disposto num molho, numa zona muito frequentada pela criançada no recreio. Lembro-me de ter corrido na direcção do molho, de ter saltado e ter visto a mais linda chuva de leite com chocolate de que há memória.

Não me lembro de ter visto a Sra. Professora Maria Albertina e mais duas colegas a passarem por trás de mim e a serem regadas com leite com chocolate.

No entanto, recordo-me nitidamente do efeito do suor frio à medida que uma senhora de cabelo com laca e leite com chocolate se aproximou de mim para “falarmos” sobre o assunto. Creio que as minhas orelhas e a sua mão terão até discutido, já que as orelhas não se mostravam na disposição de se separar da cabeça, como as mãos dela pareciam pretender.

Hoje em dia não bebo leite com chocolate. Mas continuo a ter muitas ideias de merda.

24.10.10

Para acordar, dou-vos uma pista

Algés-Praia da Torre, só 10km para abrir a pestana, pode ser?

E isto tudo, enquanto vocês estão a dormir que nem lontras depois de uma noite regada a sabe-se lá o quê. Vá, ronquem mais um pouco, que eu já ando por aí a mostrar que existem vários tipos de acidentes na Marginal.

Alguns deles com um par de ténis, esgar sofredor e um certo estilo slow motion.

Gosto de despachar a parte do sofrimento logo pela manhã. Sobra-me mais tempo para o macramé e para a confecção de pastéis de massa tenra.

23.10.10

Buenos dias, may i buy um postal, s’il vous plait

Na sequência do 2010 Odisseia no Postal, quero aqui descansar aqueles que confiaram cegamente as suas moradas virtuais e físicas na minha pessoa. Estão tão seguros como a minha encomenda de facas e instrumentos de corte estava, quando chegou às minhas mãos esta semana,

No entanto, arranjar os postais certos foi complicado, essencialmente porque sou português, de Lisboa e me decidi a comprar vários postais. “How many?” – “São 7, amigo” – “Ah, portuguese”. E chega de conversa.

A cada quiosque e lojinha duvidosa que visitei, olharam-me de lado por falar português e estar a comprar postais de embarda. E eu quero pensar que a barba de duas semanas e o pijama do Noddy não tiveram nada a ver com a situação.

Depois de muitos “Son 2 euros señor”, “Quieres postales?”, “One more, it’s an offerta”, “Very nice day for you”, lá consegui juntar aquilo que precisava, superando a clara desilusão nos olhos dos vendedores, por verem tão belos espécimes sairem nas mãos de tão reles cidadão nacional.

E estamos a falar de postais de categoria suprema, que nos dão vontade de arrancar os olhos de alegria. Ou coisa muito parecida.

Não se preocupem, que eu vou dando notícias.

22.10.10

Possui-me a caixa do correio à bruta

A minha caixa de correio não tem grande critério na escolha de quem recebe. Tão depressa a vejo com envelopes aprumados, de boa gramagem, como com sóbrios envelopes institucionais ou até com as mais reles contas e avisos. Mas, acima de tudo, irrita-me a sua falta de decoro com a panfletagem da pior espécie.

Ainda ontem, chegado a casa, encontrei-a enrolada com mais de seis. Por norma tento não olhar, suspiro e ponho-os a reciclar, sem querer saber do que têm para me dizer, só que ontem foi diferente. Olhei para eles e podem crer que depois de os observar, posso dizer que já pouca coisa me surpreende na promiscuidade da caixa do correio, onde o sinal “Publicidade aqui não” serve apenas para decorar.

Eram 6 e eram assim:

Pequeno flyer de Jardim de Infância – Sem entrar em detalhes técnicos, gostei do “Nova Gerência”, assim ao estilo tasca de grelhados. No entanto, foi a sua disponibilidade para receber crianças que me cativou. Rezava assim “Não sabe onde deixar a sua criança por um dia? Por uma semana? Nos meses de férias?” Foi a medo que li a linha seguinte, temendo ver “Até ela ter 18 anos e poder conduzir máquinas agrícolas?”. Não foram tão longe...ainda.

Folheto de viagens de 2 dias à Serra da Estrela, de 1 dia a Évora, de 2 dias a Arcos de Valdevez e a mais 38 destinos, sempre com a oferta de algo surpreendente, pelo meio de muitas cores, muito granel e um atentado visual a pessoas que não se deixem cativar por letras onduladas, tons berrantes e muito tempo livre. No entanto, a generosidade é evidente, através da “Oferta de uma prenda totalmente grátis para cada participante”. Não há cá infâmias de oferecer prendas que sejam só 50% grátis, nem nada que se pareça.

Monofolha de Alumínios que marcam a diferença – Ano após ano, a malta dos alumínios não desiste. De vários pontos do país e com vários orçamentos, técnicos competentes e resultados deslumbrantes nos tentam convencer que há espaço para o alumínio no nosso lar e que as marquises nesse material não têm de pertencer apenas ao imaginário urbano.

Grande Mestre Turé – Não é novidade, 98% dos licenciados, mestres e doutores guineenses está em Portugal, possivelmente trabalhando fora do seu curso, fazendo biscates como feiticeiros e afins. O rectângulozinho de Mestre Turé não difere em muito dos outros. Mas, há um exame que não me deixa muito seguro “Exame do sexo para ter força no amor”. Vai com calma Turé, ainda mal nos conhecemos...

Mega desdobrável de prevenção e alerta sísmico – Cheira-me a coisa do Governo. Para distrair as massas, a coisa já só vai lá com um sismo. Gosto do facto de ter ilustrações meio infantis, pois qualquer desgraça fica mais fofinha e menos aterrorizadora quando ilustrada dessa forma.

Finalmente, a grande peça – Um rectângulo de papel branco mal recortado e uma mensagem simples e concisa “Aceitam-se idosos. Preços espeÇiais desde 600€.” E apenas um número de telefone. Corri para casa, na esperança de ter um idoso para ir negociar. Procurei nos armários e nada. Mas ainda não desisti.


Vendo isto, não condenem a promiscuidade da vossa caixa do correio. Quem sabe não vos proporciona alguns minutos de reflexão sobre o destino, alumínios e o exame do vosso sexo, entre outros.

21.10.10

A suave maquilhagem da vida

A verdade é esta, nós maquilhamos a vida, sempre que isso nos dá jeito.
Se a coisa é má ou não recomendável, mas nós gostamos dela, realçamos tudo o que tem de bom e puxamos pelos seus pontos fortes.
Se não gostamos de algo que não é necessariamente mau, tendemos a carregar no que de pior tem, para justificar a nossa escolha.

Olha que bonito, um filósofo de pacotilha, dirão vocês enquanto lambem um frasco do rimel e preparam uma piña colada.

Nada disso, a seguir vou vender-vos o meu peixe, servindo-me de quem o vende como ninguém.

Correr.

Muita gente gosta, outros tantos odeiam. Uns fazem-no por gosto, outros por obrigação e outros apenas para apanhar o autocarro. Outros ainda são apenas corridos.

Para quem não goste, eis como maquilhar algo de forma pseudo-poético-urbana, dando-lhe um toque de atitude, um toque de way of life e um toque de preto e branco épico.



Correr deixa de ser correr.
Passa a ser voar, libertar, soltar-se, deixar tudo para trás, abraçar o desconhecido, desafiar o conhecido dentro de nós.
Passa a ser sobretudo, sobre nada. Mas, simplesmente sobre ti.



E, é claro, como ter estilo ao fazê-lo.
Porque tanto nas pessoas como nas marcas, pouco ou nada é maquilhado por acaso.

Acordar assim, acordar a não

Existem inúmeras formas de acordar. Vão por mim, que já o faço há alguns anos. Mas, para além das mais prazenteiras e das mais assustadoras (como por exemplo acordar numa discoteca quando já é de manhã e já entrou o pessoal da limpeza), interessa-me aqui abordar as que são algo dúbias.

Mais precisamente – acordar com uma música na cabeça. Mas não é uma música qualquer, tipo da vossa banda favorita, de um grande concerto a que foram ou um tema que vos toca ao coração, como deverá ser o caso do “Goodbye my love Goodbye” do Demis Roussos.

É uma porra que se alojou num qualquer recanto da vossa mente, não se sabe bem quando, nem se sabe bem porquê e que vos faz temer ao pensar no passado.

E um dia acordam a cantar “Ecstasy, esta no”.



E, a partir daí, isto só pode anunciar um dia complicado.

Complicómetro

Tal como um táxi tem uma bandeirada, gente demasiado complicada tem o complicómetro. Ainda só lhes dissemos “Olá, tudo bem?” e já aquilo disparou. “Olá, porquê? Tasse bem, também está na moda, mas se calhar podias ter dito assim um Oi, tipo novela ou um Halo, tipo Heidi nas montanhas. E isso do tudo bem é relativo não. Estou melhor do que se estivesse na Sibéria, mas isto também não é Bora Bora e já se sabe, com a história do colesterol e da crise, posso estar bem agora e estar na merda daqui a dez minutos”.

Eis o prelúdio das “4 Estações” de Complicaldi.

O resto é a vida. Sais da zona 1 de conversa / relação básica e o complicómetro dispara. Tentas ser tu a guiar e o despiste é evidente, mesmo o complicómetro continua a contar. Revelas insatisfação com o caminho que a coisa leva e o complicómetro volta-se contra ti.

Falar-lhes em descomplicar só funcionaria se eles em vez disso não ouvissem “Dez a complicar”.

Haverá um solução sábia para lidar com a malta do complicómetro que não passe pela medicação, pela violência ou passar por narcoléptico?

Sem certezas, não há um método científico, só uma regra básica – não compliquem.
Para isso já lá estão os outros.

“Quem são os outros? É uma coisa tipo 6º Sentido? Ou é daquele pessoal estranho com quem te costumas dar, sim aqueles que bebem demais e falam alto? E lá onde? Em casa? Se for aí, bem podias ter dado um jeitinho à sala. E o termo outros incomoda-me um bocado, não têm nome?”

Têm. E rima com cactos do carvalho.

19.10.10

A porra do enredo dos phones

Admitamos que o bluetooth e o wireless ainda não dominam o mundo e tornam difícil distinguir os maluquinhos dos que falam ao telemóvel como eles, olhando fixamente em frente e ouvindo respostas que só a eles fazem sentido.

Admitamos também que os fios dos phones fazem parte de uma conspiração maligna, inventada por quem os criou, para que as pessoas que os usam tenham sempre de andar a brincar aos labirintos só para os livrar dos nós, entrelaçamentos e conjugações virtualmente impossíveis, tudo isto em apenas 5 minutos dentro de um bolso, mala, mochila ou pochette à solta.

Posto isto, admitamos que dentro do meu own private chaos eu seja um gajo que se irrita com isso. E que, para o evitar, enrolo sabiamente os fiozinhos à volta do objectro audiofónico desde o tempo em que ter um Sony Walkman Sport não tinha uma conotação idêntica a ter um Fiat Punto Amarelo.

Sendo assim, custa-me a perceber como é que, do Estádio Universitário ao Saldanha com percurso a pé de 10 minutos, viagem de metro de outros 10 e mais uns instantes de viagem de elevador, passei a o fi”!#!%$!$”!% dda #$”#%”% do c!”#$!%&& do tempo todo a tentar libertar os fios, sem conseguir ouvir música, sem ter a mínima noção do que se passa à minha volta e tudo isto porque me distraí 2 minutos e o meu dispositivo musical me fugiu para o bolso.

Resta o pensamento filosófico – Pura e simplesmente existem coisas que nasceram para se enrolarem ao mínimo descuido, tal como a Elsa Raposo.

Q de Quiz e de Geeks

Enquanto estou a ver se tenho o crédito aprovado para orçamentar postais, envios e sacos de plástico para embalar corpos (nada relacionado com a obtenção da morada de diversas pessoas), quero partilhar mais um pouco de mim.

Às vezes, as pessoas viram-se para este que vos escreve e dizem “Epá, tu és um bocado geek, não és?”. E eu, ajeitando os óculos a meio com o dedo indicador e desapertando o botão da camisa que me está a magoar o pescoço respondo “Mau, não vamos ter que resolver isto num duelo de Pokemons pois não?”.

Mas, na realidade, o que é isso de ser geek? É um tipo gostar do que a maioria não gosta? Ou saber mais sobre temas que muita gente não liga ou que define padrões “normais” e acima disso, toma lá o rótulo de geek e uma despedida usando a linguagem gestual do Star Trek.

Como em tudo, há um nível normal para gostar das coisas, a partir de um certo ponto, não é saudável. Mas isso é válido para o Senhor dos Anéis, para o coleccionar de sapatos ou para o surf. Não é por ser uma área cool que deixas de ser geek se revelas um entusiasmo/conhecimento desmesurado pelo tema.

Por isso, sem merdices, deixem-me aqui dizer que, por exemplo, sou meio geek de quizes, de basket, de filmes e, porque não, de pelota basca. Têm problemas com isso? Vão lá buscar os vossos Pokemons e tratamos do assunto...

18.10.10

O último postal



Olá Mãezinha,

Desculpa não ter ido almoçar mas, acima de tudo, desculpa não ter ido almoçar há quinze dias, não ter levado o pão e só agora dar notícias. Parte de mim está bem, a outra parte está a tentar perceber como vim parar à Malásia.
Não sei como isto aconteceu, mas nunca viajes num contentor. Cheiram mal e não têm lugares à janela.
Gosto dos malaicos, mas eles não gostam que eu os trate assim. A capital daqui é Kuala Lumpur, mas ainda não vi koalas por aí. Devem estar de férias.

Beijos Mãezinha, não esperes por mim para o jantar. Refiro-me ao de Natal, claro está.

Mak










PS - Querem mais? Façam por isso até às 13h (vide post abaixo).

17.10.10

E ao Domingo o senhor disse "P de Palavras"


Temos uma relação conturbada com as palavras. Por um lado, deixamo-nos seduzir por elas, usamo-las a nosso bel prazer, com a melhor das intenções ou com o pior dos propósitos. Num dia escolhemos as mais valiosas, com cuidado e carinho, com orgulho e entusiasmo, pintando cenários de fazer inveja aos mestres renascentistas, caso este usassem palavras em vez pincéis.

No dia seguinte, passamos do Renascentismo à época da tortura medieval, usando armas de arremesso em formas de palavras, pensando ou não nas que podem causar maior dano e, se possível, ficarem cravadas para sempre nos nossos alvos.

Em termos de palavras e do seu uso, não existe a perfeição à prova de bala. Eu pelo menos não consigo encontrá-la. No guia das instruções das palavras não diz como torná-las
à prova da nossa instabilidade e haverá sempre quem diga “Essas foram as palavras mais bonitas que alguma vez ouvi”, para na semana a seguir desabafar “Palavras não bastam”.

Já usei palavras caras por motivos bem rascas e já usei palavrões carregados de encanto lírico. É possível ser uma pessoa de poucas palavras e dizer muito, podem usar-se palavras como se de uma metralhadora se tratasse sem dizer uma que se aproveite.

Como é Domingo, não quero exigir muito dessas cabecinhas. Continuem a usar as palavras a vosso bel-prazer, seja como for não há perigo de as esgotarem e nunca ninguém foi processado por usar palavras indevidamente (ops, o meu advogado diz-me que afinal as coisas não são bem assim. Tentem apenas reduzir nos “hades”, que disso já está o Inferno grego cheio.

Posto isto, no fim de tanto palavreado, será que pode uma imagem valer mais que mil palavras?

Pode.

Mas algo me diz que o contrário também é possível.


Caso contrário, vão haver umas quantas pessoas que receberão apenas postais com bonecos....

15.10.10

Vou continuar a mandar-vos Postais


De vez em quando tenho pachorra para coisas estranhas. Para mim próprio, por exemplo. Nesse sentido, honrando também a próxima entrada do Makcedário, a publicar brevemente, vou lançar-vos um desafio.

Postais.

Antigamente mandavam-se mais, pelo menos daqueles gordurosos, pseudo-cómicos, foleiros que até faz doer ou de paisagens e vistas mete nojo dos lugares que visitamos. Depois, metiam-se no correio e já não precisávamos de pensar numa chusma de gente até ao Natal.

Ora, os tempos mudaram e hoje em dia os Correios já não são o que eram antigamente e as relações interpessoais muito menos. Não direi se mudaram para melhor ou pior, porque o Fernando Mendes ainda tem um programa de televisão.

Mas eis o que vos proponho. Podendo ou não conhecer-vos de algum lado, estou disposto a enviar-vos um postal, seja ele virtual ou físico. Por questões técnicas, vou limitar os postais físicos a 10 candidatos. Os virtuais não têm limite.

Enviarei um máximo de um por pessoa e garanto que todos serão diferentes. Para receberem um postal, precisam apenas de expressar esse desejo nesta caixa de comentários ou em mak.omau@gmail.com até à próxima segunda feira, pelas 13 horas.
Terão obviamente que dizer se querem um postal físico ou virtual e deixar um email válido. As 10 pessoas (se as houver) que queiram um postal físico receberão um mail meu, para confirmarem a morada em que pretendem receber o dito cujo.


Qual o objectivo disto?
Intelectualmente nenhum, socialmente vagamente algum e patologicamente certamente que alguém descobrirá alguma coisa.

Sou apenas eu, que continuo a mandar postais, desta vez personalizados, em vez de para o éter. Se isto se tornar alguma coisa divertida, o próximo passo é organizar uma troca de empadas de galinha.


PS - Não esperem obras literárias, para isso já existe o Círculo de Leitores.

Ecstasy de Sexta

Sim, eu percebo, vêm aí dois dias de regabofe, fuga ao marasmo, escape da rotina, subversão da tirania do quotidiano, etc. É normal um toque de boa disposição e, porque não, um sorriso sem coisas verdes nos dentes.

Mas, gente que todas as sextas salta e urra, saliva, que está a dois passos de ser epiléptica e a um de levar uma boa galheta, para mim tem alguma falha grave nos circuitos ou na maneira como lhe corre a vida.

Do lado oposto do espectro, igualmente em desequilíbrio, está a malta que abomina e amaldiçoa eternamente as segundas feiras.
Viver a vida satisfeito apenas dois/três dias por semana, dá menos de 50% de satisfação semanal. E muita alegria a psicólogos pelo país inteiro.

E quem quiser esgrimir argumentos em florete, estou disponível. Vistas as coisas, é SEXTTTAAAAA IUPIIIIIII.

14.10.10

O de Otário

Toda a gente conhece um.
Toda a gente já foi um, nem que seja por uns segundos, por um dia, todas as terças, como hobbie ou como religião. Se achas que não és um, nem nunca foste, provavelmente se-lo-às mais do que alguma vez pensaste ser possível seres.
São raros os OTNIS (Otários Não Identificados) na nossa vida. O nosso instinto natural é reconhecê-los a milhas de distância, a não que estejamos a desempenhar nós mesmos o papel.

Aliás, desconfiem das pessoas que dizem com alguma raiva “Não suporto otários”, pois por norma são as mesmas pessoas que começam histórias rocambolescas com “Conheço um otário que...”. Nada é com elas, mas tudo é sobre elas. Da minha parte, existe um enorme respeito pelos otários, respeito e distância, sempre que possível, para evitar um contágio irrevogável. Sejamos otários com parcimónia.

Para se fazer história, muitas vezes é preciso um otário no enredo. Para se ir parar ao bairro da Apelação, quando se quer ir para o Colombo, dá jeito um otário ao volante.

Os otários podem viver sem nós. Nós podemos viver sem Zon, mas sem otários não era a mesma coisa.

Por tudo o que já fizeram por mim, por tudo o que já passámos juntos e por tudo o que acredito que ainda temos para partilhar, gostaria de agradecer a todos os otários à minha volta.

Mesmo aqueles que não leiam este blog.

N de Nega, nega-me mucho...

Ao longo da fase da vida em que se frequenta escolas, faculdades, aulas em estabelecimentos prisionais, etc, apresentam-nos a nega:

em testes,
nas notas,
nas traseiras da escola (normalmente em proporção inversa às negas obtidas dentro da sala de aula)
a pedir para ir a festas.
Já nas festas,
a pedir outro tipo de festas.


E por aí em diante.

Mas, fora casos mais traumatizantes, a nega nessa fase da vida é vista mais tarde como uma cena engraçada para contar em histórias, como aquela cicatriz na testa que nos faz lembrar o dia em que tentámos atirar 10 pratos ao ar e apanhá-los com a cabeça. Sem grande sucesso, deduz-se.

Quando se chega a adulto, a nega fica mais séria e há até quem lhe chame nomes feios e não lide bem com a coisa. Creio que há dois caminhos para resolver isso: o da esquerda e o da direita.

Como pelo da direita não costumo ir, falo-vos do que conheço. Para mim, lidar com uma nega, seja ela de que marca for, devia ser como ter aulas de natação numa piscina de rejeição com uma sunga de bom porte. Ou aprendes a nadar através dela e chegas ao outro lado a sentir-te com mais força ou deixas-te ir ao fundo.
Caso não veja uma piscina, mas um oceano de rejeição, consulte o seu médico de família ou dirija-se à farmácia mais próxima.

Mas isto sou eu, que lido bem com a coisa e acredito no copo meio cheio, mesmo que seja meio cheio de trampa.

Ou então estou em negação.

13.10.10

M de Marcelona

Não podia desperdiçar esta oportunidade de recorrer ao meu espólio saudosista de piadas refundidas da Amiga Olga, esse concurso que tantas lembranças e cofres-mistério deixou espalhados na nossa memória.
Assoberbado pelo trabalho no regresso de Marcelona e, porque não, pelo uso da palavra “assoberbado” logo no segundo parágrafo depois de um interregno, deixo-vos apenas com ligeiras notas desta simpática localidade catalã.

- Do silêncio no aeroporto de El Prat. Por oposição ao que é comum, o aeroporto de Barcelona parece silencioso, pelo meio da luz da sua estrutura largamente envidraçada, tornando a experiência diferente. Muito parecido com o nosso em que, à chegada, partilhada com um vôo proveniente de África, não faltava animação, reencontros ruidosos, gritaria e até um insistente apelo a um tal de “Osvaldo”, que depois se veio a verificar que não era ele, para desapontamento geral dos 15 familiares, três namoradas e 18 curiosos que gostam apenas do convívio.

- Da vida nas ruas de Barcelona. E não me refiro às Ramblas ou ao Bairro Gótico. Refiro-me a muitos outros “carrers” no centro da cidade onde, seja qual for o dia da semana, nos cruzamos com gente normal que não parece saída de filmes de terror ou que pretende usar-nos para enriquecer o seu currículo criminal.

- Do sentir-se em casa. Nem todas as cidades e países que visitamos, por muito deslumbrantes que sejam, têm a capacidade de nos fazer sentir em casa. Podemos até ver-nos a viver nelas por um período determinado de tempo ou ver o nosso amor por elas crescer com o tempo. Em Marcelona, essa sensação é quase imediata, como se fosse a cidade que se adapta a nós e não ao contrário.

- Da próxima moda para os quefrôs – Esqueçam as flores, as tiaras luminosas, o anel sonoro, as chamuças no tupperware e até os óculos com iluminação artificial. Observei as novas tendências nas vendas nocturnas em zona de diversão e o caminho está traçado. Modificadores rústicos de voz que nos fazem soar a algo entre o Pato Donald e o Marques Mendes e pequenos bonecos fluorescentes, que são disparados para o ar com um elástico e descem pouco a pouco, tal como as expectativas de muitos portugueses. As crianças e os adultos com menos de 20 anos mentais continuam a ser os alvos mais fáceis.

- Do look catalão-manfi-friendly – Gosto de cultivar a barba nas férias. Faz-me compensar o pouco jeito para a horto-floricultura. No entanto, isso torna-me alvo fácil, quer para o simpático vendedor de drogas locais que vê neste meu ar descontraído uma apetência para as substância ilícitas, quer para o turista incauto, que vê neste desmazelo a impossibilidade de eu ser um seu semelhante, decidindo que sou eu que lhe vou dizer qual o melhor caminho o cruzamento entre a Roger de Lluria e o Carrer d’Aragó ou se o Mare Nostrum é já ali ao pé da marina. Simpático e afável para todos, não lhes nego um sorriso e a simpática frase “My name is not Manuel, and i’m not from Barcelona”.
- Das tapas – Já dizia a outra “Só um tapinha não dói”. Mas enche....

- Dos sumos no mercado – Fãs de sumos naturais, recomendo uma visita ao Mercado junto às Ramblas, para torrarem 1€ e picos de cada vez em sumos de fruta dos mais diversos sabores. Refresca, sabe bem e ajuda a treinar sprints até ao hotel mais próximo (não necessariamente o vosso), caso tenham estômagos mais sensíveis.

E pronto, vamos parar por aqui, que não tarda nada pareço uma daquelas gajas que, não sabe bem porquê ou por quem, estão de repente a apresentar programas de viagens a destinos muito trendy, sempre a tentar passar um look turista acidental mental.
Querem mais? Vão lá ou comprem-me um audio-guia.

5.10.10

O abono da Sagrada Família



Já passaram muitos anos, anos demais não é exagero dizer. Se fosse em Portugal, talvez escapasse como "está a queimar ligeiramente o prazo", mas em Barcelona as coisas não se passam assim. Vai daí, sem mais delongas, disseram-me "Epá, dá cá um saltinho e vê lá o que podes fazer pela Sagrada Família, que não há maneira de acabarmos aquilo". E eu, que tenho um primo que faz orçamentos baratinhos para obras e nunca desisto sem o móvel do IKEA ficar quase ligeiramente parecido com o que está na loja, acedi.

Até Domingo, a coisa não acaba enquanto a Montserrat Caballé não cantar, que o tio Mercury já não está nos conformes.

Enquanto eu opero ligeiros milagres de arquitectura, podem usar esta caixa de comentários para me pedirem coisas que vos pareçam virtualmente impossíveis. Prometo ler tudo com muita atenção e começar a tratar disso mal regresse, garantindo pelo menos metade do prazo que a Sagrada Família esperou até me conhecer.

4.10.10

Como passar incólume por um assalto - Guia básico



Todos os dias sou abordado por pessoas que se queixam de serem vítimas de assaltos e não me refiro apenas aos que se queixam do Governo. Talvez venham ter comigo por verem em mim uma espécie de messias da mitrice, buscando uma solução para um mundo que se tornou vil e insensível, onde o crime e as novelas de qualidade duvidosa impõem o seu jugo sobre o comum cidadão.

Perante essa ingenuidade e, porque não dizê-lo, um pouco de menino-da-mamãzice, aceno a cabeça e digo “Mas vocês pensam que eu ando a vender enciclopédias para o Círculo de Leitores ou quê?”.

Desenrasquem-se ou comecem a correr. Isso tem feito maravilhas por mim.

No entanto, deixo-vos três conselhos sobre o que NÃO devem fazer, perante um assalto comum. Experiências de vida é o que vos dou...

1 – O assaltante diz “Isto é um assalto!”. Vocês NÃO devem responder “Ah sim, não me digas....E eu a pensar que era uma adaptação de uma peça de Ibsen”. Os assaltantes tendem a ser bastante críticos em relação a adaptações teatrais de certos autores.

2 – O bandido pede com alguma veemência e de modo pouco cortês “Passa para cá a guita, ó c”#”#lh@”. Deve, neste caso, ser evitada a tendência para responder “Para que queres tu tanta guita, és algum papagaio? Nem sequer está vento...”. Por norma, os bandidos tiveram infâncias difíceis e recordar-lhes brincadeiras de menino pode causar-lhes traumas e a vocês traumatismos.

3 – O biltre aborda-vos de rompante “Dinheiro e telemóvel, já!”. Reprimam sempre o responsável de Rec.Humanos que tende a surgir neste tipo de situações “Então e seguro de saúde, carro da empresa e isenção de horário, não?”. O biltre tende a viver no imediato e referências a carreirismo podem inluenciar negativamente o seu espírito sindicalista e levar-vos a fazer horas extraordinárias em unidades de saúde.

Caso seja necessário, estou aberto a recomendar o que não devem fazer perante outro tipo de situações comuns em que o perigo e um vilão com maus cuidados dentários nos sorriem de frente.

3.10.10

L de Lirismo

O noticiário está a dar,
Mas não se vê nada,
Foi a luz que se apagou,
No interruptor da consciência.
Futebol é remédio,
Santo não será de certeza,
Não é preciso um cartão vermelho,
Para a vida ficar suspensa.
Acorda,
Desperta,
Abre os olhos,
Areja-te, que já é tempo
O Outono está lá fora
Ou já está na tua mente?
Nem tudo é uma piada,
Nem tudo é uma constante,
Se já te riste sem razão,
É porque nem tudo é sim,
nem tudo é não.
Ser dá trabalho,
Muito mais do que deixar de ser,
É sina do lirismo,
Deixar a tragédia espairecer.
Palavras idiotas,
Sublimes se tornam,
Com a companhia certa,
Fazem lembrar pessoas,
Ou então é coisa inversa.
Ponto final
Ou talvez não,
Fica bem causar suspense,
O inglês aperalta,
Até a conclusão mais travessa.
Olhar para a frente.
É olhar para cima.
É aí que o texto acaba.
E o lirismo começa.

1.10.10

K de Kéke é isso?

Podia inventar muito neste capítulo, com Kisses, Kills, Karaté Kid, Ku Klux Klan, Kremlin, Kapital, Kilimanjaro, K4 Quadrado Azul, K-cém Krew, K2o3 a poderem fazer parte da ementa.

Mas é sexta à tarde e toda a gente já está a sonhar com coisas que não dêem trabalho e outras manias das grandezas. E é por isso que, muito sucintamente, utilizo uma expressão pós moderna, com todos os K's a que tenho direito para uma notícia já com alguns meses que não me canso de reler.


Snoop Dogg tenta alugar o Liechtenstein para gravar o seu próximo vídeo.


Pobre Snoop, não teve sorte nem paciência. Esperava mais uns mesitos para alugar Portugal e ainda recebia troco, factura e oferta de bilhetes de TGV.

J de Jolhos, Jouvidos e Jomoplatas

Se bem que não sejam um exclusivo nacional, confesso que sou um entusiasta dos sotaques, expressões regionais, tiques de fala e defeitos na fala que povoam o nosso Portugal. Embora muitas vezes vítimas de escárnio, maldizer e gozação regular, os seus portadores ajudaram a fazer a diferença.

Se todos falássemos da mesma maneira, com os mesmos termos e com a mesma pronúncia não teríamos tido o prazer de passar tantas horas a debater se se diz “Ver-mei-lho” ou “Ver-mê-lho” ou se não é melhor dizer “Encarnado”. Não havia cá marafados, cimbalinos vs bicas, o Diácono Remédios possivelmente teria ficado em casa sem saber que era engraçado pedir um “Gauão e um bouo”.

Horas de entretenimento auditivo sibilante, cortesia do pessoal beirão, nunca teriam encontrado o caminho até aos nossos ouvidos e uma sopinha de massa seria apenassss uma sssssimpática e ssssssaaudável ssssopinha massa.
Ai Lelloooo, não nos faria lembrar o Quaresma e as tias pseudo-chiques não teriam lugar no nosso código linguístico-aparvalhado. E quando vissemos um compadre de Beja falando assim de manêra arrastada, não ficaríamos judiando com ele só porque si.
Sem estes pequenos pormenores deliciosos, não teria sabido que um napoleão pode ser um mil folhas e muita gente não conseguiria distinguir um cimbalino de uma bica.

Quantos personagens, reais e fictícios, não teriam ficado pelo patamar entediante, se não fosse a sua peculiar forma de falar? Aposto até que alguns de vocês, incluindo fanhosos, ciciosos, ilhéus, mitras, saloios, bairristas, emigrantes e outros que tais, teriam menos para partilhar, no que a este capítulo diz respeito.

E, tal como eu, não poderiam acabar posts relatando um dia em que conheceram uma rapariga e, depois de a ouvir ler uma coisa lhe disseram genuinamente e pensando ajudar, “Se calhar, lias melhor se tirasses a pastilha da boca” e escapassem por um triz de levar uma chapada por alguém menos tolerante a piadas sobre diferenças na fala.