30.9.10

I de Ironia Invisivelmente visível

A ironia






















como deve de ser é assim, invisível, pisca-se os olhos e não se vê nada. Muito se queixam-se da sua parvoíce, não a compreendem, confundem-na com má educação e com os outros primos, como o desdém e a sobranceria. Não lhes liguem, vêm da parte bruta da família.

Gosto da ironia como quem gosta de um bom tempero, equilibrada sem avinagrar no azedume, sem azeitar o discurso tornando-o gorduroso ou dando-lhe mais do que aquilo que precisa.

A ironia não é propriedade dos ricos, playground dos cultos ou refém de modas. É um factor transversal que ajuda a diferenciar os que percebem, dos que fazem que percebem. A vida é irónica, mas a ironia da vida é haver quem a passe sem perceber.

Não é coisa de parvos, antes pelo contrário. O que torna irónico o facto de falar sobre isto aqui.

Um trio que se volta a reunir

Há quem não goste de filmes antigos. Há quem não ache piada à Marilyn Monroe. Há quem ache que a comédia é um género menor. Há quem se esteja a borrifar para isso tudo e aprecie uma história divertida em que dois homens vestidos de mulher chamam tanto ou mais a atenção que uma mulher que muitos homens gostavam de ter despido.

E assim, com a morte de Tony Curtis ontem, o trio de "Some like it hot" volta a reunir-se noutras paragens.

29.9.10

Uma História pseudo-histriónica com H

Chegou à porta do seu prédio decidida e, nos últimos tempos, era raro isso acontecer. Cada vez que metia a chave à porta o desânimo multiplicava-se por mil e um factores diferentes e as noites iam ficando mais iguais o que muito lhe custava, mas estoicamente ia suportando.

Mas hoje, hoje ele ia ouvi-la e a noite ia ser diferente. De uma maneira ou de outra.

Segundos antes, cada degrau subido serviu para repetir para si mesma conselhos sobre como resistir às manhas dele. Mordeu os lábios, abriu a mala, à procura das chaves e pensou “E que bela peça tenho eu à espera”.

Abriu a porta e foi até à sala. Que novidade, lá estava ele estendido no sofá, como se na sua vida isso lhe bastasse para se sentir feliz. Para ela, não chegava.

“Alfredo, temos de falar”.

Silêncio.

“Estou a ver...EU é que vou ter que falar, porque para ti, entrar mudo e sair calado, desde que haja comida na mesa chega perfeitamente não é?”

Alfredo levantou um pouco a cabeça, como se só reagisse à palavra comida. Compôs-se um pouco no sofá.

“Avisaram-me, olha que ele é difícil, egocêntrico, primeiro vai seduzir-te e depois de te ter nas palminhas, vai tratar-te como uma criada. Mas não, eu não quis acreditas e nós nem sempre fomos assim Alfredo. Tu não eras assim.”

Alfredo fechou os olhos, como se buscasse paciência, abrindo-os logo, não fosse ela pensar que era sono.

“Eras cortês e disponível, tinhas sempre um gesto para mim, apoiavas-me quando precisava e...nessa altura, eu tinha a certeza que tinha lugar no teu coração. Agora, às vezes nem tenho a certeza que tenhas coração...”

Alfredo levantou-se, com uma expressão estranha. Abriu a boca e ela olhou expectante. Não lhe saiu nada.

Ela esperou mais uns segundos, com uma lágrima a correr-lhe pela face. Alfredo olhou-a intensamente e voltou a esboçar um gesto, abrindo a boca, mas ficando mudo.

“Tudo bem Alfredo, eu esforcei-me, mas sabes, já percebi que contigo não vale mesmo a pena. O mais triste é que tu, pura e simplesmente, não percebes que sem mim não consegues sobreviver”.

Alfredo pareceu perturbado e, por instantes, ela viu-o tremer. Desta vez ele não ia ficar de boca fechada a olhar para a janela. E, de facto, tinha razão. Alfredo abriu e fechou a boca várias vezes, com barulhos estranhos, mas não disse nada de jeito.

O único resultado dessa conversa foi a bola de pêlo que ele projectou para o chão da sala.

Limpando as lágrimas, voltou-lhe as costas enraivecida “Gato velho e estúpido, já não tenho idade para estas merdas”. E, tirando a dentadura, lá foi ela até à casa de banho para a colocar num copo de água. Dois ou três dias sem ração e aquele insensível até ao cinema a ia levar.

28.9.10

G de Gerúndio (com alínea de Gold Strike)

A língua portuguesa está pejada de tempos verbais e se há coisa que gostamos de fazer é fazer queixinhas do tempo. Seja do nosso próprio tempo, aquele que não temos ou aquele que nos faz falta, ou do tempo que faz lá fora (seja frio, calor, nublado ou uma coisa que não é carne nem peixe).

No entanto, poucos se queixam do Gerúndio, esse tempo que eu confundia um grande chefe índio nos meus tempos de petiz meio alucinado. Hoje, já não sou petiz.

E não nos queixamos, porque o Gerúndio, esse tempo que não cola nem descola, vai colando e vai baixando sobre a vida de muita gente, sem que se dê por isso. As coisas vão-se fazendo, os patrões vão-se aturando, adiando decisões, contemplando futuros onde nada se passa, mas onde tudo se vai passando.

O Gerúndio é a rotina, rotinando aqueles que não o mandam para o Pretérito Imperfeito da mãe dele. Mas para quê tanto queixume? Lá vamos andando, obrigado, parando um bocadinho aqui e ali para que tudo se vá cozinhando em lume brando.

E por isso é imperativo dar férias ao Gerúndio. O gajo precisa e, se não precisar, que vá à mesma, que lá há de encontrar quem o vá aturando.
Porque, até lá, arranjará sempre maneira de nos ir f@&€ndo o juízo.


PS – G era também uma forte hipótese para Gold Strike, essa mistela demoníaco que tanta marmeleira fritou na minha juventude. Não que eu alguma vez tenha abusado disso, cof cof, eu gostava era de cheirar os copos com aquele aroma a canela.

F de Farafantão, com ajuda do tio Tarzan


Na realidade, não sei se esta palavra existe. Mas, também não sei se vocês existem e isso não me impede de continuar a escrever, por isso vamos colocar estes dilemas metafísicos de parte e seguir com o Makcedário.

A primeira vez que ouvi a palavra “farafantão” foi num momento mágico que marcará para sempre a minha existência. E não, não havia pôr do sol idílico, juras de amor, nem sequer uma PlayStation à mistura – Foi a meio de uma entrevista com Tarzan Taborda.

Andava eu noutra fase da minha carreira, quando pensaram que eu seria o indivíduo indicado para entrevistar personagens de lucidez questionável ou, no mínimo, estranhas. E foi assim que me dirigi à clínica de Albano Taborda, vulgo Tarzan, onde me aguardava um senhor de bata branca e mãos que pareciam troncos.

Foram perto de 2 horas de conversa épica, com muita dupla patada, muito combate de vale tudo e desafios, muita façanha que incluia gente a atirar-se de coqueiros e segundos balcões de anfiteatros à passagem de Tarzan, muita estrela de Hollywood e outras histórias de um indivíudo que, acima de tudo, era genuíno. E, pelo meio, muito farafantão.

Percebi logo que Tarzan utilizava farafantão como uma espécie superlativo de fanfarrão, palavra que também usava com regularidade. Ainda assim, questionei-o “Tarzan, o que é para si um farafantão? É um tipo armado em vilão?”. Riu-se e respondeu com um ligeiro sotaque beirão que ainda se notava “Nada disso, o vilão a sério é aquele que não parece, que até parece um amigo. Já o farafantão não passa de um fanfarrão da pior espécie, daqueles que nem merecem uma dupla patada, só mesmo à chapada”.

E a conversa continuou, comigo maravilhado e o Tarzan sensibilizado por haver um rapazote com tempo para o ouvir. Infelizmente, não sei o que é feito das mini-cassetes onde gravei a coisa, restam-me as impressões da transcrição. Mas, o melhor de tudo é que, cada vez que me cruzo com gente lorpa, que pensa que sabe tudo e fala sempre à boca cheia, há sempre uma palavra que vem à tona.

Pobrezito, mais um farafantão até à quinta casa, digo eu e já dizia o Tarzan Taborda.

27.9.10

A correr, a vida pode passar-nos em frente dos olhos.


Desconheço a veracidade do mito que diz que a vida inteira nos passa diante dos olhos em situações de risco/morte eminente. Também não me parece que tenha grande interesse em comprová-la nos próximos 50 anos, até porque já tenho planos para ir ver os Jogos Olímpicos de 2060.

Mas, ao correr, fui presenteado com um desses filmes e não quero com isto dar a entender que quase foi preciso um reboque do INEM depois de percurso de Domingo. Talvez tenha sido do facto de ter ido sozinho, com uns pozinhos de banda sonora maravilha à mistura e um início de dia de Outono em que o Sol faz companhia aos que se despediram mais cedo das suas almofadas. Na realidade não sei bem o que foi, estava lá para correr e não para filosofar. Mas, dados os primeiros passos, já a Torre de Belém ficava para trás e resmas de episódios do passado se revelavam à minha frente.

Cresci nesta zona de Lisboa e quis o destino que boa parte do meu percurso (Torre Belém – Cais do Sodré – Torre de Belém) coincidisse com um outro percurso que tão bem conheço - o da minha vida. E foi, em pouco mais de hora e meia, que desfilaram memórias de anos.

Não faltaram recordações dos primeiros pontapés na bola, na Torre de Belém, das voltas de bicicleta no jardim em que hoje está o CCB e passando também pelas visitas ao Planetário e ao Jardim Ultramarino com a escola. Do salão de jogos das escapadinhas no Secundário, aos diálogos pseudo-romântico-juvenis junto à Estação Fluvial de Belém até ao palácio cor-de-rosa feito Universidade. Da pesca feita diversão na zona de Alcântara, às primeiras visitas nocturnas às então recém-estreadas Docas, para outro tipo de diversão (e, para alguns, outro tipo de pesca).

Mais uns quilómetros, mais uma música, um sorriso que não condiz com o suor e Santos ali ao lado. Ainda se ouve, na minha cabeça, todo um conjunto de sessões transcendentais na Barraca / CineArte com os Irmãos Catita no palco, levadas tradicionalmente até ao raiar do dia. Aceno de cabeça ao Cacau da Ribeira, obrigado por todas as vezes que me recebeste, nem sempre estando eu na plenitude das minhas capacidades, mas sempre com uma fome que me ultrapassava.

Já no Cais do Sodré, junto aos barcos, é hora de voltar para trás. Ordens para os pés, já que a cabeça vai mais à frente e até já se despediu de tantas combinações feitas ao pé da estação dos comboios. A música não pára, o ritmo vai-se aguentando e há um historial de concertos vividos na zona ribeirinha que ajuda à festa. Olha, ali nas Janelas Verdes, lembras-te daquele almoço épico? Lembro pois, mas agora tenho de ir, ali à direita naquela direcção fica o Largo do Calvário e ali perto ficava o cinema Las Vegas, com um nome mais memorável do que os filmes que lá vi.

A Rua da Junqueira anuncia Belém e é uma via rápida de memórias, mais rápida do que a minha sombra que, ainda assim, não desanima na marcha. Pisco o olho à Calçada da Ajuda, tantas vezes subida e descida por motivos, companhis e horas completamente diferentes. O tempo passa a voar, mas davam jeito umas asinhas para aligeirar o percurso, já que uns pastéis de cerveja ou de Belém não são recomendados para uma ponta final que se quer lesta.

Tão lesta como era preciso ser para “andar na penda” do eléctrico, especialmente evitando a esquadra da polícia em Belém que, felizmente, nunca soube das pedras atiradas ao edifício abandonado que agora virou hotel junto ao Padrão dos Descobrimentos. Pronto, já passou, já chegaste à Torre de Belém, que está agora plena de turistas, porque há coisas que nunca mudam.

Vai lá até à Docapesca, só para teres tempo de fazer uma conclusão e acertares os 16km. E lá fui, pensando que eu também mudei, já não vou tanto a esta zona como antigamente, o que é pena, mas não é muito grave. Especialmente, se continuar a bastar uma corrida assim para a voltar a sentir como minha.

Felizmente, também há razões para sorrir quando a vida nos passa em frente dos olhos.

E de Enredo – Porque não se livram do Makcedário assim

Com um tempo outonal tão interessante, seria de esperar que bonitos temas arranjassem forma de serem publicados aqui. Mas, isto é um antro onde o cheiro a mofo não sai com facilidade e, como tal, a persistência temática nesta invenção do Makcedário continua.

E porquê a construção de semelhante cenário, se era mais fácil começar o texto e não maçar os vossos olhinhos papudos com introduções e afins?
Fácil, porque é de enredos que se trata neste início de semana.

Antes de mais, não estamos a falar de novelas da TV porque aí os enredos, por mais complexos que tentem ser, tendem para o mais básico que pode haver. Parece que escolhem sempre de três ou quatro moldes disponíveis e mudam os nomes às personagens ou trocam-nas de cenário.

Para mim, os enredos que interessam são os da vida real. Sim, porque as pessoas por norma dizem que não gostam de rodriguinhos e apreciam a frontalidade, etc e tal, mas também é certo que as pessoas, não raras vezes, não fazem o que dizem. Por isso quem, como eu, aprecia observar a realidade à sua volta e, porque não, construir histórias a partir da mesma, não há melhor do que os enredos do quotidiano.

Não que um bom livro ou um bom filme não façam o truque e, não raras vezes, nos encham as medidas, mas o enredo que se desenrola ao nosso lado e no qual podemos ser protagonistas ou meros observadores, para mim tem outro gosto.

Discussões, seduções, aberrações, confusões, explicações, omissões, diversões ou até aparições são apenas exemplos de mini e macro enredos que nos envolvem. E o certo é que a história é outra quando estamos envolvidos, todos os dias nos chegam aos ouvidos e aos olhos enredos vividos por outros.

E, mesmo que nem sempre saibamos como a história acaba, resta-nos o gozo de poder tentar adivinhar, projectar ou tirar conclusões a partir dela. Depende sempre do enredo...

24.9.10

O amigo do bitoque


Pausa no Makcedário para falar de um amigo em comum que, traço geral, boa parte de nós tem. A referência aqui é factualmente alimentar, mas tem também uma perspectiva metafórica, que fica sempre bem à sexta feira.

Falo eu do amigo do bitoque. Não, não é um amigo que é um bitoque. O amigo do bitoque é a pessoa que se destaca, em termos de excelência gastronómica, pela sua constância na escolha do repasto. O cardápio mais vasto, a ementa mais diversificada e sedutora, quer pelos seus acepipes exóticos, quer pela qualidade de inúmeros pratos, são apenas um passo a mais, um atraso formal que antecede a costumeira frase “Para mim é um bitoque, se faz favor”.

Aversos à mudança e ao pós-modernismo, traço geral o amigo do bitoque contorce-se perante convívios agendados para antros como japoneses, indianos ou vegetarianos. “Eu vou lá ter depois”, “Não pode ser num sítio mais tradicional” e “Epá, não me dou nada bem com isso” são respostas a esse tipo de convites, por parte deste nosso amigo.

No entanto, muitas vezes, o amigo do bitoque tem uma certa sensibilidade em relação ao apontar da sua condição de bitoquiano recorrente. “Mas tu comes sempre bitoque?” é uma pergunta a evitar quando essa condição é detectada, pois à mesma segue-se uma cara ofendida e a enunciação de um ror de pratos de que também gosta muito, mas os quais só degusta no sítio X, em casa da avó, feitos pela mãezinha and so on.

Nem sempre é bonito ver um amigo do bitoque em negação.

A razão de ser do amigo do bitoque nem sempre é visível. Pode advir de factos tão diversos como uma mãezinha protectora, um estômago desconfiado, aversão ao desconhecido ou até à bitocófilia, uma condição clínica muito pouco investigada.

Seja como for, nem tudo são adversidades entre os amigos do bitoque. Graças a eles, o mundo desse tradicional repasto tem outro glamour e, desde escalas, que avaliam precisamente o equilíbrio entre bife, batatas, ovo e arroz, debates sobre se a salada faz ou não parte do prato e a condição necessária para declarar um ovo estrelado perfeito, muitos outros feitos lhes são devidos.

Pode não haver consenso sobre se a melhor batata frita é às rodelas ou em palito, se os pickles são uma invenção do demo ou se o pão se molha no ovo ou nem por isso, mas nunca ninguém duvidará de um conselho de um amigo do bitoque em relação à escolha de uma boa casa para degustar o mesmo.

Amigo do bitoque, posso por vezes achar-te demasiado conservador e gastronomicamente monótono, mas admiro a tua persistência. E isso, dá um (bi)toque especial à nossa amizade.

23.9.10

D de Desfasado

Há um desfasamento entre ao valor comum dada à palavra desfasado e o meu entendimento da mesma, já que o desfasado da realidade é, muitas vezes, olhado de lado por aqueles que vivem escravos da realidade. Que não se entenda por isso que a realidade é uma coisa má, afinal de contas é nela que podemos comer gelados, ir passear junto à praia ou atirar pedras a janelas de gente de quem não gostamos. Simplesmente, há uma diferença entre “viver com” e “ser escravo de”.

Por outro lado, o apelo de um certo desfasamento da realidade não tem que ver com uma fuga amedrontada da mesma, para um mundo onde somos nós que ditamos as regras, onde tudo é perfeito e as coisas más são como as senhoras que nos querem dar uma palavrinha sobre Deus – vulgo, ficam à porta. Isso não é desfasamento, é uma condição clínica e neste blog não existem pessoas doentes ou, se existem, estão em fase de negação.

O desfasado da realidade, em pleno equilíbrio, é como aquela pessoa que já bebeu um bocadinho, mas ainda não está a tentar correr toda nua por uma das avenidas da cidade. É a pessoa que, por exemplo, consegue sair da sala sem ter de sair do sítio, que pode perceber tudo o que lhe dizem, mas gostar muito mais de imaginar o que fica por dizer. É todo aquele que vive contente com o que tem, mas usa a sua imaginação para criar muito mais do que aquilo que alguma vez podia vir a ter.

Ser desfasado não é um problema, não é uma vantagem, não é uma obrigação, não é sequer algo que se ligue e desligue quando apetece. É um traço, que faz parte de um quadro bem maior. Mas é um traço que quem gosta que 1+1 nem sempre tenham que ser dois, aprecia, tal como aquele personagem secundário daquele filme, que poderia passar tão despercebido, não fosse nós gostarmos tanto dele.

Obviamente, sou parcial. É um part-time que me ocupa, quando a realidade me dá umas folgas.

C de Cafofo - A sopa de letras continua

Vamos lá com calma, que até para o Makcedário esta pode ser dúbia. Mas, para eu a escolher, quer dizer que a valorizo acima de “chalaça”, “conivente” ou até mesmo “canícula”. No entanto, atenção uma vez mais à turminha do balão mágico, Isto não é algo que eu utilize ao ser confrontado com ursinhos de peluche ou ao contemplar de forma emocionada o pôr do sol.

Um cafofo, falando mais especificamente, é um casebre, um barraco, um espacinho imundo e com poucas condições de higiene. Metaforicamente, poder-se-ia dizer até que poderia ser este blog.

Mas, no meu discurso, um cafofo vai muito para além dessas míseras quatro paredes. Posso usar cafofo para definir o teu lar, para definir o teu nauseabundo micro-espaço laboral ou, pura e simplesmente, para qualificar um bar mal afamado em que, por obra do destino ou do demo, acabaste abraçado a duas senhoras que te insistem em falar em Euros, quando tu só queres dançar até ao esquecimento total.

No final de tudo, cafofo pode até ser usado para vos deixar colocar-me uma questão “Mas que raio se passa dentro desse teu cafofo, que só saem alarvidades cá para fora?”

Eu diria que se passa muita coisa e arriscaria até que nem tudo é legal.

22.9.10

B de Biltre – Makcedário

Como sempre, uma escolha controversa entre os especialistas gramakticais. O gnomo romântico que há em mim queria “Beijo”, mas eu não iria colocar palavras onde o Doisneau andou a pôr a câmara. O meu lado profético-nortenho queria “Bicissitudes”, mas tive que lhe explicar que, se calhar, isso fazia mais sentido entrar no “V”. Mandou-me para o c”#$”##$”, coisa que posso até fazer, mas só no C.
Finalmente, com pouca cabeça para pensar e ainda a ressacar, o meu lado mais festivo avançou apenas com “Borga” (ou Borges, não percebi bem). Achei melhor não ir por aí, ele anda a precisar de abrandar um pouco.

Biltre, pura e simplesmente, é a minha cara. Numa era de insulto fácil e trogloditismo primário, há que inovar. Biltre enquanto palavra tem carácter, tem distinção, é rica mas, ao mesmo tempo, enquanto significado é um defeito de carácter, uma falha de personalidade e, na sua génese, vem da definição francesa de mendigo.

O que ainda me dá mais prazer, pois não gosto do insulto gratuito (nem sequer do boné do Correio da Manhã que sofre da mesma condição). Gosto de gente que sabe insultar, é com esse tipo de escroques e patifes que me interessa argumentar. Para quê baixar o nível, quando podemos elevá-lo de forma desprezível, vil e mesquinha?

De biltre para biltres, chamem-me nomes, mas chamem com arte. É que não existem nomes feios, existem é pessoas sem arte.

A de Atazanar – Makcedário

Existiriam inúmeras maneiras de começar o Makcedário de forma graciosa. Com o “Amor” mesmo ao virar da esquina, a “Amizade” a transbordar por todos os lados e o “Álcool” para nos entorpecer a todos e pensarmos que o mundo é feito única e exclusivamente de coisas bonitas e inocentes, como eu.

Mas, isso não me diz muito. Ou melhor, diz-me tanto como a milhões de outras pessoas, são denominadores comuns, portanto é muito melhor começar com algo que me apraz sobremaneira – Atazanar.

Começa logo por ser uma derivação, originalmente de atenazar ou da variante atanazar. Assim sendo, não só vou dar uma grande volta só por causa de uma palavra, como ainda por cima já vos estou a atazanar com gramática de trazer por casa.

Uma lufada de frescura face ao aborrecido aborrecer ou até ao formal incomodar, atazanar é mais do que palavra, é uma atitude desafiante que nos permite não só ser um chatos do caraças, como ter uma palavra igualmente irritante, para nos definir.

E isso, simpáticos amiguinhos de olhos esbugalhados no monitor, se não vos deixar satisfeitos é sinal que este post serviu os seus intentos. Atazanar-vos a paciência.

21.9.10

Makcedário

O trabalho abunda (não confundir com a bunda) e, como tal, tenho tido este espaço naquilo a que se chama banho maria. E se um banho é uma coisa que nunca faria mal a este espaço, por outro lado isso não quer dizer que eu não tenho coisas parvas para partilhar e influenciar negativamente essas mentes fragilizadas.

Assim sendo, durante os próximos dias, não teremos épicos (não acreditem numa palavra desta frase, sei bem que a tentação dos 50 parágrafos não me larga, por muito trabalho que tenha), mas sim uma versão simples e simpática do Makcedário.

“E o que é o Makcedário?” perguntam vocês enquanto tentam mostrar que comer duas chamuças ao mesmo tempo não é algo quadrado.

São 23 a 26 posts, baseados em letras que se traduzem em conceitos/palavras que me dizem alguma coisa. Também podiam ser textos sobre objectos inanimados que me costumam dizer alguma coisa, mas não achei correcto partilhar conversas privadas.

Espero que alguém ache piada a isto. Eu acho que não vou conseguir.

19.9.10

Dúvidas pereniais

Os diálogos são excepcionais, o filme é genial, a questão da intimidade e da massagem aos pés podia dar um "Prós e Contras" de eleição, mas a questão essencial com que me debato ao ver este clip é e será sempre:

Para a semana, qual destes penteados vou fazer?

18.9.10

Dar folga às palavras

Tenho a noção de que, durante a semana, exijo muito das palavras. Pressiono-as, faço-as andar ao meu ritmo, não lhes dou descanso, textos longos, invenções idiotas, trabalhos, mensagens, conversas. Ainda não descansaram e já estão a ser escritas de novo, uma e outra vez.
As minhas palavras trabalham, acreditem, e trabalham bem.

Por isso, ao fim de semana, sempre que posso, dou-lhes folga. Deixo-as andar por aí, à solta, a fazer tropelias e a meterem-se nas conversas dos outros. A relaxarem em sms’s alheias, combinando saídas e regabofes diversos, fazendo programas ou a partilharem momentos no sofá.

É raro ficar sem palavras, guardo sempre umas quantas para estes dois dias. Mas, às vezes peço emprestadas aos outros, sem eles darem por isso.

Depois, é vê-las voltarem, mais calmas, mais folgadas, com outro ânimo. Ao Domingo à noite contam-me o que andaram a fazer e eu agradeço. É sempre assim que começam as histórias da semana a seguir.

17.9.10

Superprodutividade matinal

Dizem algumas vozes na minha cabeça, quando não estão a insistir para que eu chacine meio mundo, que às vezes sou preguiçoso.

Ora hoje aproveitei que essas vozes ainda estavam a dormir e levantei-me ainda não eram sete da matina. Tive que esperar que o cão tomasse banho e o pequeno almoço, para depois ele me ir passear à rua e olhem que o gajo ainda demorou um bocado e eu estava à rasquinha para fazer uma mijinha.

Muito perto das oito da manhã já eu estava de calção, fita na cabeça e bigode falso nas pistas do Estádio Universitário. Apostei dois euros e ganhei acesso a cacifo, balneário, duche e uma pista de atletismo só para mim. Rói-te de inveja, Euromilhões.

A pista e uns pássaros riram-se de mim, “Olha-me este, armado em atleta matinal”. Da pista não tive pena, já que lhe ia dar com os pés a seguir. Aos pássaros disse apenas “Riam-se, riam-se, que as primeiras milhas são para os pardais”.
Uma hora depois, dez sprints de 400m e uns kms mais tarde, com suor incluído e algumas interjeições de baixo nível, recolhi ao duche, sem esquecer os alongamentos e os chinelos.

Metro, trabalho, abraço ao chefe, dizer que se gosta do trabalho dele mas que se tem que esforçar mais um bocadinho, tudo isto sem sentar, porque o oftalmologista está do outro lado da rua à espera. Em menos de 30 minutos, sentei-me, fiz testes, fiz piadas sobre testes, falei sobre os testes, desculpei-me pelas piadas, levei uma palmadinha nas costas, a senhora gostou de mim ou então fui eu que vi mal e saí de lá aviado.

Regresso ao trabalho, dispenso os colegas de se levantarem quando eu chego, faço afirmações brilhantes, mas ainda assim inconclusivas sobre a minha pessoa e mostro a razão porque estar a escrever um post agora não é motivo de despedimento.

O gajo é rápido, o gajo é produtivo, o gajo tem um desodorizante simpático, que não assusta as pessoas.
Um telefonema, um almoço marcado e figas feitas para não pagar a conta.
O gajo é mitra, mas ainda é meio dia e não fica bem julgar pessoas a esta hora.

16.9.10

Campeonato do Clichê Visual

Sou candidato.









Por motivos de coerência, só se aceitam comentários-clichê.

Abrunhosa-mos

Não sei qual é o método de composição do Pedro, mas sei que ele tem queda (ok, piada fácil incluída) para a amálgama de palavras, por vezes de ligação duvidosa. Mas, ao comentar ontem no blog deste rapazolas, apercebi-me que uma letra à Abrunhosa é tudo o que eu precisava para me livrar de algumas palavras que vão sobrando dos textos que vou fazendo, simulando uma certa índole poética.

Aproveito ainda que estou a dever a um composição lírica a cerca de 200 almas sem rumo, que andam por aqui, e mato dois coelhos com uma queijada (dura, obviamente).


Um polícia sinaleiro,
Uma laranja espremida,
Isto só faz sentido,
A gente toda f#”%$a.

Uma corrida na praia,
O colesterol é lixado,
Fui para a cama,
Com uma chave inglesa a meu lado.

Coração que abana,
Uma pizza bacana,
Olho para o IRS atrasado,
Está tudo desfocado.

Seguidores no Facebook,
É tudo alucinado,
Aqui cabe um pimento,
E mais uma estrofe marada.

Podia continuar o dia inteiro,
Uma estufa de plantas,
Uma alma num canteiro,
Tu a leres isto ainda me espantas.

Lontras que fogem,
Sentimentos que me encantam,
Um T2 em Xabregas,
Eu dou a música e vocês...
Dançam.

15.9.10

Piadas que eu ouvia quando era um puto

Não sei se as piadas têm prazo de validade, embora desconfie que para certos humoristas esse prazo existe. É uma espécie de indicativo não linear que uma coisa pode, ou não, deixar de ter piada com o passar do tempo.

Existem piadas intemporais, mas existem também piadas que vão desaparecendo do mapa com o avançar dos anos. Lembrei-me disso a propósito de uma que uma velhota repetia incessantemente, cada vez que eu calhava a vê-la na padaria lá do bairro.

"Ó Sr. Simões, as migalhas pagam-se?"
"Não Dona Aurora, as migalhas ofereço eu."
"Então esmigalhe-me aí meia dúzia de papo secos e uma madalena para o lanche."


Onde está a graça?
Deve estar em casa, a lavar a loiça...


Desculpem, mas não desisti a terminar em dose dupla de piada já expirada.

O pão por debaixo da sardinha

Às vezes não é o prato principal que dá o sabor especial à coisa. São os pequenos pormenores que ajudam a tornar a experiência deliciosa.

E abrimos assim um espaço dedicado a metáforas baseadas em comida, mas que alimentam apenas a alma (daqueles que não a venderam ainda ao Diabo).

E agora vou agora tomar um ENO mental e já volto.

Conversas no duche

Posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que já tomei duche com dezenas de pessoas ao longo da minha vida. E, por duche conjunto, não se entende aquele duche formal antes de entrar na piscina, à saída da praia, etc. Trata-se mesmo da versão em que, para além de um frasco de gel de banho, a única coisa que separa as pessoas é uma distância de segurança.

Quis também o destino, através da minha carreira desportiva, que a percentagem de homens com quem tomei duche seja nefastamente superior à de mulheres. Talvez por isso tenha mantido uma certa curiosidade em relação aos balneários do corfebol, em que as equipas são mistas e, em prol do espírito de equipa, aposto que não há cá balneários separados.

Mas, após anos de conversas no duche, a rotina ainda não se instalou e há sempre margem para novidade. Ontem, por exemplo, depois de mais uma corrida e em trânsito para um jantar, encontrei um velho conhecido nos duches do Estádio Universitário. Dispensados os cumprimentos formais, visto termos ambos as mãos ocupadas, perguntou-me “Então, o que andas a fazer?”

Lá lhe disse, de forma resumida. Pareceu surpreendido.
“Mas, o teu curso não era disso, pois não?”
Agora fui eu que fiquei surpreendido. Nunca pensei que ele soubesse o meu curso e, de facto, não sabia já que o que faço e o que estudei têm ligação.
“Por acaso tem a ver, faço parte dessa minoria”.

Riu-se, com ar distraído. “Pois, se calhar fiz confusão. Mas, o que é preciso é continuar a fazer pelo cabedal”.

Conversa trivial de duche, dirão os experimentados nessa actividade. Não exactamente e daí a minha surpresa, já que durante todo este tempo, o indivíduo esteve a lavar a sua roupa desportiva no duche e de forma rigorosa, com sabão e esfregadelas vigorosas.

Após tantos anos, levei dali novos ensinamentos. E agora levo também no saco do desporto um carregamento de meias e cuecas para rentabilizar o próximo duche, se possível em amena cavaqueira.

14.9.10

Vida longa ao Salão Diogo

Sou um tipo dado a caminhadas por vias urbanas pela fresquinha. Sou também um tipo dado a fazer o “robot” nas pistas de dança, mas isso não é agora chamado para o caso.

Foi por isso que, através de observação matinal repetida, posso confirmar que na Avenida da República, número 10, muito perto do McDonalds fica o Salão Diogo. Perguntam vocês, enquanto se tentam lembrar de como era a coreografia da Macarena, “E que tal ires pentear macacos, em vez de andares a fazer roteiros idiotas?”

Não posso, porque possivelmente estaria a tirar negócio ao Salão Diogo que é das poucas barbearias que ainda vejo subsistir numa das principais avenidas lisboetas. Todas as manhãs lá está aquele que presumo ser o Sr. Diogo a fazer os preparativos para receber a clientela. Com a sua bata branca e ar concentrado, lá está ele a ler “A Bola”, certamente para poder debater, entre patilhas, os casos do fim de semana desportivo ou se o Queiroz ficava efectivamente melhor de bigode.

Nunca lhe vi muita clientela e parece-me que, entre o consultor pós-moderno que que prefere cortar o cabelo num cabeleireiro de aprumado nome francês, o artista que só vai ao Bairro Alto e o pai de família que corta o cabelo no hipermercado, quando vai fazer as compras do mês, a sobrevivência do Salão Diogo deve ser mais capricho que rentabilidade.

Se eu tivesse um penteado conservador (ou, vá lá, um penteado), podia até arriscar ir ao Salão Diogo e fazer história. Mas sei bem como as coisas são, um tipo vai a uma barbearia old school num dia e no outro a seguir já está a tratar as pessoas pelo apelidado e uma semana mais tarde a coçar a genitália em público de forma vigorosa.

Fora isso, fica-me bem acabar o post a dizer que fazem falta sítios assim a Lisboa. Têm história e dão histórias.

O fim da praia

O Sol estava abrasador. Gostava de pisar areia quente, mas tinha medo que pensassem que era masoquista. Por isso fingia-se apressado e saltitava até à areia molhada, mas nunca demasiado depressa.

Ia para a praia sozinho, mesmo quando ia com outros. Era capaz de combinar com dez pessoas diferentes e acabar por não ir ter com nenhuma.

Nesse dia decidiu ir até ao fim da praia.
Foi para além da família com a criança que parecia mais adulta que os pais. Para além do culturista que todas as semanas levava uma miúda diferente, mas que gostava mesmo era do nadador salvador. Para além até daquela rapariga que levava apenas uma toalha, um livro e um sorriso que lhe assentava bem demais para alguma vez querer ir falar com ela.

Junto à água, uma velhota apanhava com carinho algumas conchas. Por instantes pensou que seria interessante haver quem também pegasse nalguns velhotes com o mesmo carinho, os levasse para casa e os estimasse. Achou que, para fazer filosofia lamechas mais valia ir dar milho aos pombos no jardim.
Deixou-se de filosofias e chamou o vendedor de bolas de berlim. Na realidade, não gostava de bolas, mas o tempo daquele senhor de tez morena e ar cansado, era feito de dinheiro, açúcar e conversas curtas.

Amigo, onde fica o fim da praia?
Ora, fica onde o senhor quiser.
Como assim?
Então, as coisas acabam quando as pessoas querem. Se não for assim, é porque não lhes conhecem o fim.

Calou-se e deixou-o ir, ouvindo-lhe os pregões cada vez mais ao longe.
Olhou para o mar, olhou para as dunas, sentou-se e começou a pensar em ir procurar o fim de outra coisa qualquer.

13.9.10

Regressar a falar do que não se sabe

Tendo a benesse de não ser surdo, tenho ouvido muita coisa ao longo da vida. Tenho ouvido das boas, das más, das mais ou menos, ouvido mais do que de devia, ouvido o que não interessava e ouvido até por conta de outrem.

Estas férias não foram excepção, por muita areia, água e outras matérias primas que tenham entrado (ou saído) pelos meus canais auditivos. E embora esteja longe, mas mesmo muito longe, de tornar este blog num espaço de reflexão sobre relações entre homens e mulheres, homens e animais, homens e flores do bosque ou até mesmo homens e o diabo a quatro, ouvi algo que versa um pouco sobre isso.

Assim sendo, deixando opiniões e abordagens válidas sobre o tema para autoridades pseudo competentes na matéria (e há várias na blogosfera), eis uma conversa de almoço que ouvi nas férias.

Cenário: Restaurante Vegetariano, em que simpáticos empregados ucranianos mostram que o pós-modernismo nem sempre é linear.

Intervenientes: 3 Gajas (personagens principais) e eu, na mesa ao lado.

Cena:

Estava eu a deglutir a minha refeição, quando os ânimos na mesa ao lado se exaltam. Gaja 1, mais contida, revela que ao fim de um ano e tal de casamento, há coisa que não correm tão bem como ela queria. Ora eu, que na semana anterior tinha ido ao segundo casamento da minha vida, senti-me habilitado a ser um observador passivo desta conversa.
Gaja 2 e Gaja 3, supostamente suas amigas e ligeiramente mais velhas, tratam-na mal, como se fosse uma lorpa.
Ela defende-se, dizendo que é normal existirem queixas, que nem tudo é perfeito.
Já eu, dou uma garfada numa bela paella vegetariana e penso “As amigas não a deviam ouvir, antes de lhe dar bordoada?”.

Gaja 2 e Gaja 3 não lêem pensamentos, já que a primeira coisa que fazem é – Dar bordoada mental na amiga.

Para além de tratarem Gaja 1 como se fosse palerma, dão-lhe lições de matrimónio e mostram como, no seu pouco modesto entender, se “doma” um marido. Os minutos seguintes são um chorrilho de alarvidades e lugares comuns.

Gaja 1 amocha e tenta ainda dizer que cada caso é um caso e que não vê as coisas assim de forma tão definitiva. Gaja 2 e Gaja 3 respondem que todos diferentes, todos iguais e dão-lhe mais umas dicas de trazer por casa. Eu peço mais um sumo do dia.

Finalmente vão-se embora e fico a confraternizar com uma simpática tarte de pêra. Desconheço em absoluto o destino das senhoras e da sua vida conjugal, mas arrisco que a dar ouvidos à Gaja 2 e à Gaja 3, daqui a uns meses a Gaja 1 vai estar a almoçar com elas para lhes falar do seu divórcio. E elas certamente terão muitos conselhos válidos sobre a matéria.

De positivo retiro apenas que saber ouvir é quase como beber – deve ser feito com moderação, mas nem sempre deve ser feito em ocasiões sociais, para evitar barbaridades.

10.9.10

Estou a planear não fazer planos

Há quem diga que a minha ausência dos últimos dias é a melhor coisa que aconteceu à blogosfera desde a criação de “O meu pipi” e eu, que me tornei uma referência em criar conteúdos de parco interesse e estimular um blog no mínimo duvidoso não faço planos de contestar tal afirmação.

Aliás, não faço planos de fazer nada.

Descobri estas férias, ao ser atingido na cabeça por um calhau atirado por uma criança com perto de 30 anos, que passamos demasiado tempo a fazer planos. Planos para ganhar a vida, planos para lixar a vida a outros, planos para constituir família, planos para fugir à família, planos para férias, para festas, para fugas e também para outras coisas começadas por F.

É muito plano para tão estafadas cabecinhas, mesmo para aquelas que juram a pés juntos que nasceram para planear, mesmo que o plano necessário seja arranjar um lenço para nos assoarmos. E, nesse caso, o plano deve alterar-se para fugir dessas pessoas com a maior brevidade possível.

Por isso, estas têm sido as férias sem planos, mesmo que não ter planos seja em si mesmo um plano. Mas pronto, esse eu aceito.

E têm sido boas.
O que, confesso, estava nos meus planos ao não fazer planos.

Agora vão lá trabalhar. Ou planeiam ficar o resto da manhã a olhar para tão alarve discurso não planeado?

6.9.10

A não repetir

Pontos a favor: Determinação, resiliência, bravura, uma ligeira insanidade que se torna admirável, uma capacidade de se sobrepôr ao mundano em favor de objectivos concretos e a força necessária para não se deixar subjugar pelas circunstâncias.

Pontos negativos: Mas que raio me passou pela cabeça para, depois de um casamento em que se bebeu bem (e bem é aqui um termo relativamente simpático), se mostrou algum talento na pista de dança e se deitou às tantas da matina, dormir cerca de cinco horas e levantar-me para ir correr 10km, julgando que era uma boa ideia.

A coisa correu bem, eu até corri bem, mas agora pareço um repolho. E não é do penteado.


PS - Nota mental: Trocar título "A não repetir" por "Repetir apenas se desejar sofrer de formas estranhas".

4.9.10

Matrimónios bestiais

Há cerca de um ano e pouco, eu utilizava regularmente uma t-shirt a dizer "Eu nunca fui preso, nem nunca fui a um casamento", que provava que pertencia a uma elite muito restrita de portugueses.

Mas então, houve outra besta qualquer que se casou e me arruinou metade da tshirt, para não falar da reputação....

E, não é que hoje há uma besta qualquer que me vai fazer passar o patamar para "Eu já fui a dois casamentos"....

Cheira-me que, uma vez perdido por cem, sou gajo para comemorar a situação arruinando a metade da t-shirt que ainda é verdade. Só assim poderei voltar a considerar-me original, usando uma t-shirt que diga "Eu já fui preso num casamento"...

Não sendo casamento cigano, porte de arma na igreja é crime?

A Antítese do dia

Num dia em que tanto se passou em Portugal tive que ser eu o factor de equilíbrio, não fazendo a ponta de um corno.


Bem, não fazendo quase a ponta de um corno, porque houve ali um espanejar na toalha ao sol que ainda exigiu um bocadinho de mim.

Os 8km corridos pela fresquinha eu dou de borla. Foram só aquecimento para o mergulho.

2.9.10

Checklist da praia

Quando se trata de ir à praia, a maior parte das pessoas ligeiramente normais faz-se acompanhar de um conjunto de coisas que lhe parecem adequadas para esse fim. Tal não se aplica ao grupo de pessoas que se limita a acordar na praia, sem a mínima noção do que se passou na noite anterior e uma tatuagem nova a dizer "Berlengas Forever" numa parte algo recôndita da sua anatomia.

Para desespero de alguns de vocês, a minha checklist não inclui uma geleira azul e uma cadeira do reformado. Mas, a título de exemplo, traço geral, eis o que levei hoje até às belas areias da costa de Portugal:

- Chapéu de sol (não gosto de viver na sombra dos outros, por isso levo sempre a minha)

- Livro de craveira (mesmo que não seja, que o pareça ao longe e tenha tamanho suficiente para caber o jornal desportivo dobradinho lá escondido)

- Garrafa de 1,5l água, mas só porque é mais fácil enchê-la de vinho e colocá-la na mochila do que levar o garrafão.

- Miúda de bom porte atlético (não só ajuda quando o livro não é grande coisa, como contribui para bons exercício de postura e fanfarronice. Contratempo - funciona como íman de senegaleses).

- Baralho de cartas (é muito mais fácil explicar as regras do strip poker na praia, em poucos passos).

- Tampões para os ouvidos (não por ter uma relação conturbada com a água, mas sim com telemóveis que funcionam como os saudosos tijolos).

- Calções suplentes (podem não haver tubarões nas redondezas, mas há rasgões que a ciência desconhece...)

- Bengala e óculos escuros (é fantástico aquilo que se descobre, quando as pessoas pensam que o tipo deitado a 3 metros é ceguinho).

- Raquetes (não sendo tão cool como o surf ou pós-modernas como o frisbee, as raquetes permitem no entanto maravilhar a audiência, especialmente depois de umas horas a usar a bengala e os óculos).

O resto é tão trivial como muito provavelmente foi o vosso dia hoje.

1.9.10

Momento "Não, afinal não, o gajo só é mesmo parvo"

As pessoas passam tanto tempo a ouvir e aproveitar citações de outras pessoas para tentar definir e encontrar pontos de apoio para a sua própria vida, que se esquecem do mais importante.

Esperem, ainda agora me lembrava do que era o mais importante quando me pus a ver o livro e, deixa lá ver....


Olha, não me lembro. Bem, vou continuar a procurar citações e já volto.

Momento "Este gajo tem tanto de anormal como de filósofo"

As pessoas passam tanto tempo a tentar varrer partes da própria vida para debaixo do tapete, a ver se os outros não notam o que de mal se passa, que se esquecem que às vezes dava menos trabalho arrumá-las como deve de ser.

"Oh si cariño" e outro tipo de filmes

É certo que este título poderia trazer à baila um tipo de películas que fizeram do saudoso canal 18 um rival de gabarito em relação ao Instituto Cervantes. Mas, estando eu agora possivelmente para os lados da Comporta a receber Setembro com uns mergulhos e vocês aqui ressabiados a ler posts de qualidade duvidosa, não arrisco tendo em conta a segurança da caixa de comentários.

Sendo assim, na sequência do post anterior, posso dizer que dos filmes indicados, só não vi o Contraluz e o porquê é fácil - Joaquim de Almeida. Não porque ache que o tipo é um cepo, mas sim porque tenho problemas em ver filmes de gajos que foram sócios de um estabelecimento chamado "Porcão".

Alice, do Tim Burton - Por muito que eu goste do Tim, cenografia / guarda roupa de luxo e um 3D mal amanhado não fazem a diferença. É porreiro, mas soube a pouco. (para ti, sua Besta, ao menos no Planeta dos Macacos tinhas a Estella Warren e eu aprecio ver ex-nadadoras olímpicas de natação sincronizada a fazer pela vida).

Coucous etc e tal - Não é mau, mas como diz o Prezado, vês muitos destes e começam a olhar-te de lado e a chamar-te alternativo nas tuas costas.

Inception - É, para mim, o melhor filme que vi nos últimos tempos. Sofro da parcialidade de gostar do Christopher Nolan, mas também tenho o desconto de achar que o DiCaprio só muito recentemente é que acordou para a vida, apesar de passar demasiado tempo na Bar.

GhostWriter - Boa premissa, bom início, mas depois a coisa torna-se previsível, redutora pela forma como te tentam explicar tudo e, ainda por cima, tem 30 segundos a mais. O tio Polanski já fez melhor.

Toy Story - É divertido, mas nada de dobragens em português. O argumento serve para entreter crianças e adultos, mas fiquei grande fã de um personagem terciário no filme. Chuckles, o palhaço (talvez por ter muito a ver comigo, especialmente na maquilhagem).

Deixo aqui três pequenas sugestões interessantes, de filmes não blockbusters, mas que não são alternativos demais para ficarem com esse estigma. Já só os arranjam na net ou em DVD, mas também, vocês não estão na praia agora, pois não?

Nove Raínhas (Argentina)




Bem vindos ao Norte (França)Recomenda-se ver com legendas para quem não domine o francês, porque boa parte da piada é no jogo de linguagem.




Let the right one in (Suécia) - Para fãs de vampiradas e afins