30.7.10

Questão Pós Moderna de Fim de Semana

Deve Mak, o Mau estar presente no Facebook? Deverá ele destabilizar o equilíbrio de uma rede social que tem vindo a ficar tão crescidinha?

Conseguirá o seu ego sobreviver a ter um grupo de fãs que, com sorte, encherá um táxi

Apreciem um vídeo pós-moderno, com uma mensagem subliminar no título, que o deixa de ser pela minha necessidade de o indicar.




Tenciono roer as unhas dos pés até chegar a um decisão sobre este dilema.

Cartão Lisboa Morta Viva

O cenário: Lisboa amanheceu bonita e os passarinhos cantam, pelo menos aqueles que ainda não foram esturricados pelo calor. O que é que isso interessa para a história? Nada.

Indivíduo com pouco poder de síntese, dado a vagueações mas, ainda assim, dado a partilhar episódios fascinantes da sua vida, sai à rua atrasado. Refira-se que o atrasado é uma questão abordada aqui do ponto de vista temporal, não mental.

Na firma que tem os seus préstimos aguardam-no ansiosamente, mas ele não cede nos seus princípios e vai de transportes. Apercebe-se que o seu passe Lisboa Viva precisa de ser carregado e, apesar de ter pensado ir de autocarro, dirige-se ao Metro. (pausa para dizer que o pessoal que gere os transportes é urso e que não ter máquinas de carregar cartões à superfície, apesar de venderem passes combinados é duplamente urso)

O átrio da estação que frequenta tem três máquinas para carregar cartões. A primeira está envolvida em cenas de nudez com um técnico, que lhe parece estar a carregar em todos os pontos certos, já que ela chuta moedas por tudo quanto é canto.
Indivíduo profere impropério e tenta dirigir à máquina do outro lado, onde depara com a grande excursão de turistas que veio a Portugal só para apreciar a bela experiência que é carregar um cartão no Metro. Apesar de serem apenas 48, indivíduo prefere descer mais um lance de escadas e tentar a máquina que lá está ao fundo.

Curiosamente, só tem uma pessoa à frente e que não é incapacitada na sua relação com máquinas de bilhetes e cartões. A pessoa sai e indivíduo tenta carregar o passe, algo para o qual se encontra preparado, tendo notas e cartão multibanco já na mão.
Azar o dele.

A máquina tem a entrada das notas bloqueada pela gerência e, depois de brincar dois minutos ao “Insira o cartão MB. Tire o cartão. Insira de novo. Tire outra vez”, já pensa que a máquina o está a usar para seu próprio prazer. Não tendo como desporto favorito andar com 30€ em moedas, sobe novamente as escadas.
Na máquina dos turistas, já só estão 47, mas resolve não arriscar nessa benesse. Olha para trás e constata que o técnico já acabou a sua relação com a máquina. Começa a andar e vê que só está uma pessoa nessa máquina. De repente, alguns turistas, certamente inspirados pelos Europeus de Atletismo que estão a decorrer, passam por ele em sprint, apesar do rótulo “Síncope ambulante” que ostentam. Vá lá, são só três.

Mais uns minutos e indivíduo chega à sua vez. Constata que as opções MB e notas estão disponíveis e avança para a operação. Insere o Cartão Lisboa Viva e vê a mensagem “Cartão inválido para carregamento”, algo que a sua validade até 2012 não parecia indicar. Depois de chamar inválida à progenitora do mesmo, reforçando a mensagem com uma referência à sua carreira como meretriz, tenta de novo e calha-lhe a mesma mensagem.

Resolve comprar apenas uma viagem, não carregar o passe, esquecer os mais de 10 minutos que leva naquilo e não pontapear a máquina com algum entusiasmo. Não consegue cumprir esta última resolução.

Corre para o Metro.
Sai do Metro e vê uma máquina vazia no átrio de chegada. Experimenta carregar o cartão e tudo corre bem à primeira.
Lembra-se do que passou e volta a fazer referências a meretrizes e a indivíduos normalmente enganados pelas companheiras, com apontamentos escatológicos pelo meio.

Entra no seu recinto profissional ligeiramente enfastiado.
Diz das maiores pérolas sarcásticas e irónicas na reunião e sai aclamado em ombros.

A conversa da treta não acaba

Tento não falar de mortes. Prefiro apreciar-lhes a vida.

Além disso, quem o Feio estima, acima da morte lhe parece.

29.7.10

A banheira, o Paiva e o horror numa noite de Verão

Ontem à noite, enquanto ponderava se era mais confortável levar a almofada para dentro da banheira ou fazer de tapete de urso no mosaico da cozinha, lembrei-me de um episódio que me foi contado por um grande amigo meu.

Ok, rectificação, que me foi contado pelo meu único amigo.

Não sendo ele de Lisboa, quando andávamos na faculdade, ele dividia casa com mais colegas que também eram da terra dele e estudavam cá. Dado a borgas e à galantaria, muitas vezes ele ficava sozinho na casa de Lisboa, enquanto os amigos regressavam à casa materna, para a roupinha lavada e encher o frigorífico.
Num desses fins de semana, quis o destino e, possivelmente algum desespero feminino, que ele trouxesse uma jovem incauta até ao seu covil já a noite ia avançada, certamente para algo mais do que lhe mostrar a sua colecção de CD’s.

Convicto de estar sozinho em casa, depois de ter falado com os colegas que disseram ir a casa, pô-la completamente à vontade.
Rolava um clima.

A moça, em noite de calor, pergunta onde é a casa de banho e ele, já a testar o seu dente de vampiro, diz que é já ali ao lado.
Passam alguns segundos e eis que, do nada, a donzela sai histérica aos gritos da casa de banho, lhe diz “Para estas merdas não contes comigo”, pega nas coisinhas e sai porta fora.
Visivelmente melindrado, o artista vai atrás dela, não tem sucesso e resolver ir ver o que se passa na casa de banho.

Lá chegado, vê que dentro da banheira está nada mais, nada menos que o seu colega de casa, chamemos-lhe Paiva. Ora o Paiva, fã de álcool a rodos, tinha tido uma má experiência com gregório, que tinha envolvido cama, lençóis e um quarto em alerta crítico. Rapaz previdente, ao apanhar uma nova cachola, resolve não ir para a terra, chegar a casa, despir-se completamente e ir deitar-se na banheira, de modo a que se vomitasse, sempre teria a sanita por perto e não sujaria nada e assim adormeceu, de cortina fechada.

A jovem incauta, ao entrar na casa de banho, sentou-se na sanita e, com isso acordou-o. Paiva puxa a cortina para trás, pensando que será engraçado mostrar a sua invenção ao amigo. A jovem passa de um momento de intimidade privada para estar cara a cara com um gajo todo nu deitado numa banheira. Os princípios básicos do constrangimento entram em acção.
Paiva, perturbado, mas sempre educado, estende a mão e diz “Olá, eu sou o Paiva. Se quiseres tomar banho, avisa que eu saio”. É ela que sai e aos gritos.

Ainda hoje, quando vou a casas de banho que não em minha casa (e também na minha, que eu sou desconfiado), abro sempre a cortina da banheira, quando ela existe. Mais vale prevenir, do que encontrar um Paiva todo nu, pronto para nos cumprimentar.

Post Xerox

Utilize a caixa abaixo e duplique o seu comentário, de forma totalmente gratuita e sem compromissos.

Aviso: Devido ao aborto ortográfico, poderão haver ajustes automáticos. Sorria e faça de conta.


Samytech disse...
Confesso que não percebi à primeira...

7/29/2010 11:58 AM


Samytech disse...
Confesso que não percebi à segunda...

7/29/2010 11:59 AM


S* disse...
Não bates bem da bola, mas és um ser iluminado.

7/29/2010 12:42 PM


Sebastião disse...
As gajas no meu local de trabalho nunca são grande coisa!
Esperemos que as aqui vêm sejam melhores.

7/29/2010 1:37 PM


Sebastião disse...
.serohlem majes mêv iuqa sa euq somerepsE
!asioc ednarg oãs acnun ohlabart ed lacol uem on sajag sA

7/29/2010 1:41 PM

Verytonta disse...
No muppets!

28.7.10

Eu e uma freira, no mano a mano

Na raça, no duro, sem medos.

A velha, certamente fazendo do seu um mau hábito, sai do prédio, entra a pés juntos e começa-me a falar de trampa de cão, deixando insinuações e acusações implícitas pelo meio de um mix de castelhano e português.

Eu, que por acaso trazia um cão pendurado por uma trela, fico a olhar para ela, questionando-me se as palavras do dito Senhor falavam em dar a outra face ou uma marrada old school. Quando esta versão apinguinzada de Concha Buíca decide fechar a matraca, quem é que aparece em cena.

O Sr. Saquito.

Vindo do meu bolso, este senhor é composto por um saco de plástico, a minha mão lá dentro e um sentido de ética e comédia muito peculiar. Semelhante a uma marioneta a abrir e a fechar a boca, o Sr. Saquito lá foi explicando à Irmã Gaga que não era bonito fazer acusações sem saber do que se fala e que, da mesma maneira que nem todos os padres abusam de criancinhas, nem toda a gente que passeia cães deixa nos passeios instalações de trampa a estragar a vida dos servos de Deus e outros transeuntes.

Olhando espantada para o Sr. Saquito e depois para mim, fez uma expressão penitente de quem já sabe que hoje as fustigações com raminho de oliveira vão custar mais um bocado.

Seguiu o seu caminho. Nós também, na alegria do Senhor.

Ai que o rapaz é tão sensível

Pronto, na sequência do post anterior, resta-me então eleger 28 de Julho como o Dia da Sensibilidade, pelo menos da minha.

Em honra disso, visto não ter encontrado um vídeo com esta música e gatinhos a saltar ou crianças a brincar na relva, serve esta peça de orquestra ao vivo.

E, se não choram depois de ver isto é porque na vossa vida nunca viram o Barnes a disparar sobre o Elias.

Ah, e porque estão mortos por dentro.

Cartas de Amor? Overrated

Comecemos por dizer que a última vez que entrei por terrenos tão perigosos eram 23.45 de uma noite de Inverno e andava eu perdido algures por uma zona menos recomendável da Amadora.

Agora passemos a dizer que, em parte, contra mim falo já que quiseram as forças do Universo que me safasse um pouco melhor na escrita do que, por exemplo, a fazer pastéis de massa tenra. O que significa que, mesmo que nunca o tivesse feito, teria boas hipóteses de escrever uma carta de amor minimamente decente.

O problema das cartas da amor é a influência do lirismo literário e o excesso de exemplos épicos que a História nos foi deixando, pondo as mesmas, quando são realmente bem escritas, (quase) ao nível de uma jóia oferecida. Embora também existam mulheres que as escrevem e bem, a questão nos cânones amorosos que se arrasta num reme reme e que por vezes faz distinções de classe é “ELE nunca/já me escreveu uma carta de amor que até me saltaram as órbitas de tão boa que era”.

E isso, é uma bela tanga. Porque nem toda a gente se expressa da mesma maneira, porque um pasteleiro pode cozinhar um bolo divino para a sua amada e, ao mesmo tempo, dar dois erros só num bilhete a dizer “Amoute”.

É certo que a intenção é que conta, o gesto é que se torna sublime e que quem cantava o “Dançando Lambada” eram os Kaoma. Mas as cartas de amor são sobrevalorizadas e pastelosas porque são “clássicos manhosos” que pressionam as pessoas a tentar demonstrar algo que não tem que ser expressado dessa maneira. Cada um que se expresse como lhe aprouver e lhe for mais natural e que dê uma cabeçada no primeiro/a que lhe apontar o dedo na matéria.

Até porque, quem é hábil com palavras, pode torná-las montras muito bonitas, mas de lojas que não têm nada lá dentro. A escrita é perigosa porque a intenção só é visível no que está escrito e não a cabeça de quem o escreveu.

Veja-se o exemplo:

“Amar-te é como dançar tango. É intenso, elegante, sensual, é ser parceiro e cúmplice, é saber o passo seguinte sem ter de dizer uma palavra.
É estarmos juntos, mesmo quando nos afastamos, é sentir que o mundo roda à nossa volta, é algo que nos envolve e nos torna um só.
É sentir que cresce no coração um fogo que me incendeia a alma com tal força, que nem o tempo será capaz de o apagar. É ver em todo o lado uma música, a tua música, que só eu oiço, tornando-a tanto minha como tua.
É saborear cada momento como se depois de uma noite inteira a dançar, esperássemos impacientemente que o dia passasse para que caísse a noite para começarmos novamente.

Amar-te é saber que, mesmo que não soubesse dançar, me farias sempre voar quando dizes o meu nome como só tu sabes dizer.”

Isto não é nenhum clássico, nenhuma ode apaixonada, nada foi sentido, mas tudo calculado para um determinado efeito. E isto, literalmente, foi para um trabalho e, por isso, a minha parca consciência nem foi chamada ao barulho.
Mas, se alguém usou/usar isto num contexto pessoal, a coisa pode parecer genuína, sentida e direccionada para uma só pessoa. É uma breve carta de amor, mas é também um logro.

Pensem nisso, que eu agora vou ali lavar as mãos com decapante, porque já estão suadas e este tipo de temas ainda as torna mais gordurosas.

27.7.10

Bloqueadores de conversa

Ela (fresca e jovial) – Ai, adoro cantar no banho, sei lá, é daquelas coisas que já fazem parte do meu ritual diário.

(gajo com ar de quem toma poucos banhos ri-se por perto)

Ela (sentindo-se o centro das atenções, rejubila) – Estás a rir-te, mas também tens ar de quem gosta. Diz lá a verdade, tu cantas no banho, não é? (ler esta última parte com aquela voz que certas mulheres fazem, como quem fala com um bebé)

Gajo – Não, no banho não canto, eu toco-me.

Riso atrapalhado de quem não percebe se aquilo é piada ou a sério. Riso não atrapalhado de quem sabe que o que disse é dúbio o suficiente para não ter que se justificar. Fim de conversa.

Mak observa tudo isto de perto e olha para o seu amigo com misto de apreciação e pena. Ainda há esperança de não ser o traste mais intratável à face da Terra.

Soma e cede

Interlúdio filosófico das 16.33

As pessoas cedem demais no que não devem e não sabem ceder naquilo que deviam.







PS - Ai, Mak estás a ficar um filósofo tão assim para o abichanado que se eu tivesse visto que isto ia ficar com este tom, tinha-me dado um tiro, mas sem aleijar muito, que eu ainda me faço falta por mais uns bons tempos.

Então e o sexo, pá?

Na vida dos blogs, possivelmente até mais do que na vida dos seus autores, chega uma altura em que uma pergunta ganha forma, normalmente intensificada pela ausência do tema em questão na postagem do dia à dia.

Ah, sim senhor, és um belo artista do verbo lírico e da prosa sentimental ou, por outro lado, és o rei da galhofa e não há quem te bata na arte de transformar linhas em sorrisos, tudo isso é muito bonito mas…

ENTÃO E O SEXO, PÁ?

Blog que é moderno, blog que é arrojado, blog que é descomplexado e tem ao seu leme alguém com uma líbido v2.0, tem que capitalizar no tema. É algo natural, é algo artístico do ponto de vista literário, é carnal, é algo que à bruta ou subtilmente seduz multidões. É como pôr um gordo ao pé de uma piscina – A tentação de fazer uma bomba está lá, latente, até ao momento em que se concretiza.

A questão do sexo não tem nada a ver com sexos, dá para o menino, para a menina e até para o eclesiástico encapotado no anonimato virtual. Tem a ver com à vontade e, porque não, com a vontade.

Certo, Sandokan. Muita dissertação, muito jogo de palavra, metáforas com gordos e tudo, mas…

ENTÃO E O SEXO PÁ?

Já lá vamos. Deixem-me só colocar uma citação que faz algum sentido e que vi algures na net, enquanto o RedTube estava em baixo “Sex in blogs is like sex in high school. Everybody says they’re doing it, many aren’t really doing what they say, and a good part of those doing it, aren’t doing it well”.

Portanto, se é para falar de sexo, eu passo a bola a verdadeiros peritos



Muito bem, tem cenas em inglês, vídeos e tal, mas no final de tudo…

ENTÃO E A PORRA DO SEXO PÁ?

26.7.10

Leituras do contador de histórias

Um dia calou-se e todos deram por isso.
Não porque fosse o mais inteligente e deslumbrasse pelo seu conhecimento das coisas.
Não porque fosse o mais viajado e cativasse com o relato das viagens que fez e dos sítios e gentes que foi conhecendo.
Não porque fosse o mais político e deixasse sempre no ar discursos que marcavam.
Não porque fosse o mais odioso e destilasse veneno em cada palavra e magoasse todos os que pelas suas palavras eram tocados.
Não porque fosse o mais rico e poderoso e fizesse mover montanhas pela sua influência.

Calou-se e todos deram por isso porque era um contador de histórias.

Quando falava, nunca era pelo gozo da sua voz, mas pelo gozo na reacção dos outros. Adivinhava-lhes o arregalar dos olhos nas partes mais emocionantes, o cerrar dos punhos e dentes, quando as coisas davam para o torto. Mas, acima de tudo, antecipava-lhes o sorriso e, nesses momentos, via as suas palavras ganharem vida e um pouco de si a fazer parte da vida dos outros.

Calou-se pensando que já não tinha mais histórias para contar. Depois de tanto tempo a fazer da realidade uma arte e do trivial especial por breves momentos, pensou que já não lhe restava o que quer que fosse que o tornava aquilo que era.

O silêncio foi breve.
De todos os lados, próximos e distantes, aqueles que tinham ouvido e feito parte das suas histórias, vieram ter com ele e contaram-lhe a história de como os seus caminhos se tinham cruzado e como esses momentos eram uma memória que estimavam, formando uma nova história, de cada vez que as recordavam.

Sorriu. Tinha agora mais uma história para contar. Aquela sobre o dia em que as suas histórias vieram ter consigo e lhe explicaram que, uma vez contadas, o poder de as deixar de contar já não estava nas suas mãos.


Um dia, se puder contar esta história na primeira pessoa, dar-me-ei por contente.

A lenda dos fins de semana fora

A lenda começa quase sempre com “Fui passar um fim de semana fora”. Depois, a doutrina divide-se:
Os mais afortunados evoluem sobre as maravilhas que testemunharam, partilham fotos deslumbrantes e ligeiramente artísticas de paisagens naturais, faustosos manjares e momentos que tocam no coração (pelo menos daqueles que o têm).

Já aqueles a quem o azar e o infortúnio acompanham sempre que vão a algum lado, o pós fim de semana fora serve para destilar a raiva acumulada por dois dias em que tudo o que podia correr mal correu e mesmo aquilo que não era possível correr mal, descarrilou. Aí, é o lamento que soa mais alto, quer na versão dramática, quer na versão bem portuguesa da auto-ironização da desgraça. É impossível não sentirmos uma ligação emocional com essas pessoas (pelo menos aqueles capazes de sentir emoções).

Mediante este cenário, resta uma questão importante – Então e os realmente parvos que vão passar fins de semana fora?

Ok, tudo bem, a maior parte dos parvos encaixa-se numa ou outra das categorias anteriores, mas quando por realmente parvo se entende EU, a coisa muda de figura. Neste caso, o mais importante não é se o fim de semana correu bem ou mal, porque eu tenho a capacidade de mentir sobre isso das mais variadas maneiras, mas o que é que dá uma boa história.

Portanto, digam-me vocês como é que correu o meu fim de semana fora, que eu agora vou ali dançar umas mornas ao pé da bomba de gasolina só para me esquecer que hoje vão estar 40 graus.

23.7.10

Um fim de semana no banco


Durante os próximos estarei num destes bancos, disponível para conversas idiotas, alegorias diversas e recebimento de notas de Euro legitimadas pelo Banco de Portugal.

Possuo mais de metade da minha dentição própria, por isso não abordem idosos locais por engano.

A boleia

- Vais para onde?

A voz dele era sumida, como se fosse um preciso uma força épica para dizer algo tão trivial. O seu carro era como ele, inassumido, longe das bombas de alta cilindrada, dos carros cool e daquelas latas pitorescas que percorrem as nossas estradas. Ainda assim, havia algo, um apelo misterioso, como se houvesse algo mais para descobrir, para além do que era visível.

- Vou para baixo, para sul. Ando atrás do Verão, mas ele não pára quieto.

A frase saíra-lhe mais sorridente do que pretendia e sentiu as suas mãos apertarem o seu saco de mão florido, gasto de tanta utilização, em busca de uma segurança palpável.
Encostada à janela, teve o cuidado de não se debruçar demais, para não parecer demasiado provocante. Ele também não parecia deslumbrado, olhando agora frente, com os dedos a bater no volante, ao som de uma qualquer música moderna, em que alguém repetia “Girl I love you, but your loving has gone forever”.

- Vais para os festivais e essas cenas?

O desinteresse foi cortado por um olhar na sua direcção e uma espécie de sorriso por detrás dos óculos escuros.

- Logo vejo, talvez… E tu, também vais nesse sentido?

Sorriu mais abertamente. Tinha os dentes certinhos.

- Agora podia falar sobre o sentido da vida e passar por filósofo. Mas caga nisso, está um calor que não se pode. Se queres boleia, vamos nessa.

“Gonna miss you but your love has gone forever”.

Havia ali algo que ela não compreendia, mas sorriu e entrou no carro. Apertou o saco com mais força e sentiu-a lá dentro, o que a sossegou um pouco. Logo se via no que ia dar a viagem. Aquela velha e fiável faca de mato garantia que, caso ele se tornasse complicado, lhe podia fazer o mesmo que aos outros três.

Se bem que com aquele calor insuportável se tornava difícil cortar gajos aos bocadinhos.

Chamem-me nomes

Pensem nisto como uma época de saldos - Até às 11.11 desta manhã, chamem-me os nomes que entenderem.

Peço apenas que sejam originais. É que se for só para dizer baboseiras e lugares comuns, eu chego perfeitamente.
Caso sejam tímidos ou tenham deixado a criatividade ir de fim de semana prolongado, inspirem-se aqui.


Não existirão retaliações, nem provocações infantis, até porque quem diz é quem é.

22.7.10

Ouve lá que já te acalmas

Tudo bem que o gajo parece o Ned Flanders dos Simpsons, mas a música está lá e o jovem até tem uma camisola curtinha como as que eu costumo usar.



Post cem palavras

Fazendo
Cálculos
Mentais
Pouco
Mais
Tinha
Para
Dizer
Com
Piada
Talvez
Por
Isso
Decidi
Dar
Asas
À
Minha
Capacidade
E
Reinventar
Cada
Palavra
investindo
nos
Meus
Sentidos
Figurados
Nem
Tanto
Com
Os
Vossos
Embora
Aposte
Que
Estão
Sentados
Desculpem
Foi
Impossível
Resistir
Desta
Vez
Foi
Reflexo
Do
Gracejo
Idiota
Característica
Inata
No
Artista
Ou
Autista
Se
Preferirem
Embora
Seja
Hospitaleiro
Ao
Ponto
De
Vos
Abrir
Parte
Do
Mundo
Em
Que
Vivo
Saudando
Com
Aceno
Simpático
Abracinho
Fofo
Mas
Másculo
Todos
Aqueles
Dispostos
A
Aturar
Uma
Demência
Inusitada
Tentei
Não
Me
Repetir
Haverá
Certamente
Alguém
Picuínhas
Satisfeito
Por
Lixar
O
Esquema.

Uma questão de fachada

Numa mão, a Egoísta, na outra, o Record. Na cara, o mesmo sorriso irónico de sempre e um ligeiro ar de palhaço com barba de alguns dias.

Será um intelectual trendy que, apenas por momentos, tem uma encruzilhada desportiva pela frente nos próximos 15 minutos que dura o percurso do autocarro? Ou será um cromo da bola ferrenho que leva um calço para a sua mesa e aprecia o anúncio com a jovem voluptuosa na contracapa?

Os passageiros entreolham-se, o motorista está-se a cagar desde que o gajo tenha o passe a dar o sinal verde, uma idosa pensa que muito provavelmente a aragem que sente vem do facto de provavelmente se ter esquecido de trazer cuecas. Olha para baixo e vê que, na realidade, não se vestiu da cintura para baixo.

Surge uma terceira hipótese - será que é um gajo que decidiu segurar nas duas publicações durante alguns momentos para depois deixar outras pessoas questionarem os seus gostos "literários", alheios ao facto que ele gosta mesmo é de ler a Proteste durante o caminho?

O autocarro segue.

21.7.10

Plástico is forever

Alguém me explica a obsessão dos velhotes com o açambarcamento de sacos de plástico? É que, onde quer que eu vá, se há sacos à borla é vê-los a atafulharem-se deles e a alambazá-los como se aquilo lhes fosse fazer milagres pela próstata ou servir para descontar na conta da farmácia.

A minha única teoria é que o plástico é quase imortal e, ao coleccioná-lo, os velhotes ambicionam ficar com um pouco da sua imortalidade. Isso ou uma extensão do síndrome "Gratuito" que afecta qualquer português com menos 8 dentes que o normal.

Estou disposto a aceitar outras opiniões e também poemas líricos dedicados à minha pessoa, desde que sejam inéditos.

O efeito de Forer ou a razão porque há quem acredite em tudo


Há quem acredite que é possível ler o futuro nas borras do café ou que é possível ler alguma coisa de jeito neste blog e, vai daí, é fácil chegarmos ao Efeito de Forer (ou de Barnum, em honra deste Cardinali do seu tempo).
Para os desafortunados que o mais perto que convivem com o mundo da psicologia, é nas barracas do Psicológico em concertos e afins, acedo a uma explicação – O efeito de Forer ocorre quando uma pessoa se foca unicamente no que quer ou deseja acreditar, marimbando-se para todas as provas que tendem a comprovar o contrário.

Como diria a Alcina Lameiras, se soubesse ler ou até pensar, chama-se a isto validação subjectiva, coisa natural das pessoas, que rapidamente sacrificam a razão, em favor da emoção ou de um pires de tremoços. É por isto que os horóscopos vendem e é por isso que homens e mulheres se continuam a relacionar e a queixar-se sucessivamente das mesmas coisas. Sim, porque a teoria de sobrevivência da espécie é claramente sobrevalorizada.

E, já que estamos numa de paranóias mentais, veja-se o meu exemplo, um mau exemplo portanto. Parece que nasci num dia de transição, do ponto de vista astrológico e até pensei que isso explicasse alguns eczemas nos dedos dos pés, mas parece que não é por aí. Quer apenas dizer que, no dia do meu nascimento, tanto se pode ser de um signo como de outro, dependendo da hora e do ano. Mas, cresci convicto que era de um signo e, quando senhoras melífluas e artistas do candomblé, me perguntavam qual era, eu dizia qual era, sem medos. Vinha logo:

“Vê-se logo. Tem muitos traços disso, vê-se quer na maneira de ser, quer na forma como interagem consigo”. Em conversas de café “Eu vi logo”, “Ui, és desses”, “Epá, sim senhor estava-se a ver”.

Há cerca de dois anos, alguém se deu ao trabalho de verificar e parece que afinal o meu signo não era o que eu pensava, mas o outro que também faz parte do dia. A mim ainda me deram umas dores no estômago, mas foi por causa do abuso do sushi. Mas, para muita gente do meu círculo, desabaram edifícios “Ah, és desse? Via-se logo que havia coisa que não fazia sentido”, “Ah, nunca te vi como A, mas sim como B, tem mais a ver contigo”. E por aí em diante.

Não faço porra de ideia se tenho mais de um signo ou de outro ou do diabo a quatro. Sei que é bastante cool um gajo dizer que tem dois signos. Há sempre quem acredite nisto e em tudo na vida e, como disse o tio Barnum “There’s a sucker for everything”.

Alerta psicológico

Durante o dia de hoje, irei publicar um post onde é abordado um assunto do ramo da Psicologia. Sabendo eu que na net pululam psicólogos e psicólogas das mais diversas espécies, credos e falhas no quadro eléctrico, era só para dizer para irem preparando as espátulas ou os sofás ou seja lá o que for que usam para fazer exercícios psicológicos.

Obrigadinho, sim.

20.7.10

O salto

(conclusão)


Morando a dois quarteirões, foi por ruas e vielas menos percorridas e, se ainda tivesse alguma fé, teria rezado para não se cruzar com nenhum vizinho, coisa que conseguiu. Subiu até ao 7º andar, esperando encontrar alguém na sua casa. Ninguém, vazia, como era costume.
O telemóvel, outra vez.

“Não está cá ninguém.”
“Sabes bem quem é que falta…”
“Não….”
“Sabes. Vai à janela.”

Olhou lá para baixo. Não era a primeira vez. Eles também sabiam disso.

“Sou eu.”
“Sim, és tu.”
“E ele, vai ficar bem”
“Depois de o fazeres, sabes que sim”
Abriu a janela
“Digam-lhe que….que eu…”
“Ela sabe. Sempre soube.”
O vento frio da noite. Os barulhos da cidade. E, de repente, o vazio.

Cerca de meia hora depois chegou a ambulância à área isolada pela polícia.
“Então, é este o maluco que limpou dois tipos ao pé do parque?”
“É esse mesmo.”
“Deixou alguma nota?”
“Nada. Só tinha um telemóvel sem bateria, nem cartão na mão e uma fotografia do puto no bolso da camisa. Acho que era o filho, que morreu atropelado há dois anos por um gajo que ia a falar ao telemóvel.”
“Pois, não falta é disso, infelizmente…”
“Disso e malucos, desses é que também não temos falta”.
E ouviu-se o barulho de um zipper a correr.

Tele-Mata

(parte 1)



O primeiro foi o polícia. Nem deve ter visto a barra de metal a vir na sua direcção, enquanto estava encostado calmamente ao carro patrulha à espera do colega. O barulho estranho que o metal a embater em ossos a estalar fez deixou-o agoniado, tal como o rio de sangue que jorrou. Duas pancadas foram suficientes e os gritos da senhora ao longe puseram-no em fuga para o parque.

“Olho por olho, dente por dente. Três vidas pela do teu filho”. A voz ao telemóvel tinha sido fria e objectiva e a dúvida tinha-se dissipado quando ouviu a voz do seu filho do outro lado. Deviam estar a vê-lo, porque a indicação do polícia e de onde encontrar a barra de metal foram quase imediatas. O barulho do gatilho do outro lado e o minuto em contagem decrescente fizeram o resto.

O tipo que fazia jogging no parque foi a seguir. “Calções vermelhos. Usa as pedras das obras junto à fonte.” A voz do outro lado parecia estar em todo o lado e o número anónimo não lhe dava pista nenhuma. “Papá, eles têm uma pistola como a dos cowboys”. Desapertou a gravata, o calor era insuportável, apesar de estarmos em pleno Outono.
Correu atrás do atleta ocasional. Os pés doiam-lhe naqueles sapatos que não foram feitos para correr. Ele não deu por ele, com os seus headphones a jorrarem uma qualquer música moderna. Uma pedrada com força no meio das costas quase que o derrubou. Voltou-se espantado e com muitas dores. Só viu uma figura meio humana, de fato e ar alucinado a saltar na sua direcção com uma pedra na mão.

“Desculpa” deve ter sido a última palavra que ouviu. A pedra na sua mão subiu e desceu várias vezes, ensopando-lhe a manga com algo que ele nem sequer quis olhar. Chorava e gritava coisas incompreensíveis e o parque, embora pouco frequentado ao início da noite, parecia cheio de olhos focados nele e no corpo inerte por baixo de si. Correu novamente.

“E agora?”
“Agora, falta um. Vai até tua casa.”


(fecha da parte da tarde)

19.7.10

Maus perdedores anónimos

Quem nunca teve mau perder, que não atire um baralho de cartas com força contra a sua mãe quando era mais pequeno.


Sim, fui eu. Tenho vindo a melhorar, mas ainda me falta muito amargo de boca e inconformismo para palmilhar. Por cada exemplo de mau perder que me dêem, posso facilmente retorquir e acrescentar aqui à lista.

Nunca me importei de perder bem. O meu conceito de perder bem é que é restrito.
Exteriormente, cresci a tentar nivelar a coisa pelo equilíbrio necessário e saudável para uma vida em que o sucesso e a derrota fazem parte da ementa. Nem sempre consegui e cheira-me que, em certos aspectos, nunca vou conseguir.


Bem, antes isto do que a droga ou gostar de novelas.

Sons do pós-modernismo

Esta tarde ouve-se disto, mas acha-se altamente duvidosa a melena que o indivíduo cançonetista ostentava nesta altura.





(Mas, nem me obriguem muito a falar de penteados na juventude, que eu aposto que 2 em cada 3 mulheres agora na casa dos trinta e picos, ou perto disso, algures na vida fizeram uma permanente da qual se arrependem amargamente, mas que ainda sobrevive em registos fotográficos na festa do primo Zé Humberto ou naquelas férias em Armação de Pêra).

Uma vida em 15 linhas – Alice, a da paixoneta

Alice, outra que não a das maravilhas, nasceu com os pés na terra, a cabeça no ar e um coração em chamas. Com apenas duas coisas sonhava acordada, com as mesmas sonhava também adormecida. Sonhava em voar, voar alto numa avioneta e deixar também voar seu coração, numa paixão que não fosse da treta. No fundo, no fundo com o que ela sonhava mesmo era com a invenção de uma paixoneta, coisa que ainda não tinha sido descoberta.
Uma paixoneta? Não te iludas rapariga, Isso não faz voar ninguém, é coisa obsoleta. Alice não se rendia, muito menos a opiniões caretas. Estudou mecânica dos céus, engenharia do coração e aerodinâmica do Cupido e sua seta, tirou brevet de piloto e voou até parte incerta.
Um dia Alice voltou, quando muitos pensavam já que tinha ido para o maneta. Olharam para cima e viram-na, mas não era um avião pela certa. Pelo tamanho do seu sorriso, era certo e sabido, Alice finalmente tinha encontrado a sua paixoneta.

18.7.10

Cinco minutos de aeroporto

É natural que, entre os vários minutos desocupados que preenchem a vossa vida, tenha surgido uma preocupação nos últimos dias: “Ó Diacho, mas onde raios tem andado o Mak, que não o tenho visto muito por cá?”.
Primeiro que tudo, não acho muito correcto esse tipo de linguagem brejeira comigo à mistura, em segundo lugar, a verdade é que vocês nunca me viram mesmo, por isso é uma espécie de realidade paralela criada pela blogosfera que vos pode atormentar um pouco o raciocínio.

Tenho andado ocupado e, de uma tal maneira, que nem sequer tenho tido tempo para salvar o mundo ou acabar com a fome em África. Já ter dado para cortar o cabelo já foi uma sorte. A coisa tem andado de tal maneira que até comigo próprio tenho tido dificuldades para marcar coisas. Sorte que hoje, por acaso, encontrei-me no aeroporto e tive tempo para me cumprimentar e dar dois dedos de conversa.

Sabem aquela emoção especial que nos invade no aeroporto, quando vimos famílias que chegam e se unem com os que os esperam. O abraço de uma mãe e de um filho, o beijo entre amantes que reacende a paixão, o calor da amizade que prova que estás de volta ao teu país, o calor dos sorrisos à nossa volta, a surpresa de quem chega pela primeira vez e o indivíduo com a placa a dizer “Mr. Epaminondas” que é beijado por um velhote que chega, porque lhe mentiram e disseram que isso era tradição neste país?

É bom que saibam e guardem isso bem guardadinho no vosso íntimo, porque não contem comigo para essa fanchonice. Ai o aeroporto é fofo e lindinho. Não, é um ponto onde se vai de A para B. O resto foram coisas que os filmes vos meteram na cabeça.

E, se continuam com essas ideias, não me apanham por aqui tão cedo.

16.7.10

Hoje vim assim



A podridão é evidente, mas o sorriso é de ouro.

15.7.10

Se eu fosse ciclista...

Diria que tenho entre hoje e amanhã uma espécie de Volta à França metafórica, sem lycra e outro tipo de materiais aderentes para a fazer. Não vou ficar com um bronzeado esquisito, nem sequer com parte da minha anatomia dorida devido ao esforço, mas deixo ao vosso critério todo o tipo de frases motivacionais bacocas que aqui pretendam deixar.

Apesar de não ajudar as crianças desfavorecidas da Somália, é bonito da vossa parte. E eu não agradeço, que não gosto muito de gente narcisista.

Agora vou só ali ouvir o adágio do Samuel Barber para me motivar e já volto.

Estou mesmo, mas mesmo mesmo mesmo, a chegar

Estou mesmo, mas mesmo mesmo mesmo, a chegar

Segundo elevados padrões científicos desenvolvidos por mim, enquanto passava férias numa das luas de Marte, a frase “estou a chegar” é das mais ditas por gente que não está efectivamente a chegar onde quer que seja. Há algum dispositivo em nós, ao género dos que estão nas paragens dos autocarros a dizer quantos minutinhos faltam, que acha que ninguém vai notar se o tempo que damos e o que efectivamente se passa não são muito parecidos.

“Estou quase aí”, “Dois minutos e já aí estou”, “Estou mesmo, mesmo aí”, “Já quase que te estou a ver” ou até, para os mais bélicos, “Estou aí num tirinho” são variações muito utilizadas por gente que trabalha num paralelo temporal que transforma dois minutos em quinze, vinte, meia hora ou um calvário de espera.

O que eu não sei (apesar de já me terem chamado atrasado muitas vezes, sempre presumi que era mental) é como é a turma do quase quase não se apercebe que isso é trampa a dobrar para quem espera, pois não só tem de esperar, como ainda fica com a nítida noção que está a levar uma tanga do pior. E, às vezes, nem a esperança de regabofe à antiga, recebimento de elevadas somas em dívida ou troca de cromos de Panini são incentivos que cheguem para compensar os atrasados da vida.

Não querendo eu incentivar tal prática, a não ser que por incentivo se entenda um pau com pregos espetado no meio da testa, uma dica: quando dão essa tanga, não quantifiquem minutos, nem utilizem muitos conceitos de proximidade. Ex: “Epá, já não falta muito”. Quantificação de tempo dá origem a quantificação de atrasos e proximidade dá origem a debates semânticos sobre “o teu quase” e o “meu quase”.

Porque estou sempre atento às vossas necessidade, vou passar a aplicar o mesmo em relação aos meus posts. Adivinhando eu que, por esta altura, alguns de vocês já perguntam: “Então, esta trampa, nunca mais acaba?”, respondo sucintamente:

“Está mesmo, mesmo, mesmo a acabar”.

Depois, acaba mesmo.
E assim, já podem ir esperar para outra freguesia.

14.7.10

Alegoria do pincel

Tirando matéria para ocasionais rebarbados que não resistem a trocadilhos com pincel e uns quantos eclesiásticos viciados em alegorias, não há muito que se aproveite neste post. Pretendia fazer dez linhas em grande estilo, utilizando todos os segundos sentidos e jogos de palavras possíveis à volta de tinta. Mas, quando vi o resultado final, entrei em choco e desisti da coisa, não por ser um troca-tintas, mas por ser fácil de mais.

Quando é para pintar a manta é a sério, se é para ser primário e armar-me em diluente juvenil prefiro não borrar a pintura e arriscar-me a andar de cavalete para burro.

Não gosto debotar as coisas assim na mesa, mas também não me fico por meias tintas. E, sendo assim, se quiserem tintar, tintem vocês.

Levar um pontapé nas citações

Não há melhor forma de começar isto do que usando as palavras de um grande filósofo que eu acabei de inventar agora mesmo “Diz-me quem citas e levas uma biqueirada que até gritas”.
A verdade é que tenho mais pachorra para descascar um ananás à dentada do que para estar a ouvir malta que abusa de citações com a mesma falsa elegância de quem carrega no perfume até ao limiar do enjoo.

Ok, se for daquela sabedoria do provérbio, que mete as barbas de alguém a arder, outras que são despidas pelo alheio e isso, é ligeiramente perdoável porque é de raiz popular e pouco pretensiosa, desde que não se tornem em manjericos ambulantes.

Mas, se entramos no já muito gasto Carpe diem, que o tio Horácio até deve dar voltas na tumba a pensar nos trocados que podia ter feito se tivesse mandado fazer umas tshirts e uns autocolantes para a quadriga no seu tempo, a conversa é outra.

Há frases que são inspiradoras é certo, mas depois há quem as repita com a frequência que um político diz que vai mudar tudo ou que um agarrado diz que aquela ajudinha não é para a droga. Se gostam delas, nada contra, mas imprimam-nas numa placa e ponham na porta de casa, no carro ou, em casos extremos ao pescoço. Não pensem é que são uma extensão do Óscar Wilde, do Mark Twain ou do Bugs Bunny só por andarem sempre a repeti-las e que as pessoas vão pensar “Epá, esta pessoa é profunda, faz citações e tudo”.

Como é óbvio, sei bem que este post só terá comentários em forma de citação e me vão avisar sobre a sobranceria de quem desdenha de motes de vida alheios mas, parafraseando um autor lírico que vive dentro do meu tímpano direito “Lá porque a vida é um circo, eu não tenho de gostar de palhaços”.

13.7.10

Pessoas com menos de 1,70m não têm concerto

Para aqueles que me conhecem, não é novidade eu dizer que sou capaz de assumir o ponto de vista dos outros. Para quem não me conhece, não se voltem agora que eu estou atrás de vocês a espreitar o vosso computador.

Wallpaper com gatinhos, sim senhor, muito bonito…

Mas, esta história dos pontos de vista, tem um pouco que ver com os concertos da semana passada. Quiseram as forças do universo que eu tivesse em altura o que não tenho em bom senso e vai daí, resolveram presentear-me com 1,85m.
Não sendo um gigantone, nunca tive problemas de maior a ver concertos e em vê-los bem. Mais perto ou mais longe, mais de frente ou mais de lado, a coisa era sempre visível. Como por norma tenho na minha entourage pessoas mais baixas, sempre existiu o cenário recorrente de ouvir “Vamos mais para ali, que estão uns cabeçudos à frente” ou “Daqui não se vê nada, nem sequer consigo ver bem o video-wall”.

Soltando alguns impropérios, fui acedendo a esta gente mais pequenina, pois não sou de acirrar sofrimentos. Até que, neste último festival, imbuído de espírito experimentalista e algum álcool no bucho, decidi ver parte de um concerto pelos olhos deles e baixei-me até para aí 1,60m e pouco, mantendo-me assim durante uns bons minutos.

Depois do que vi (ou melhor, do que não vi), vou fazer três linhas de pesar.



É muito difícil ver mais que costas e gente a pular numa perspectiva normal e o palco é visto da mesma forma que um tigre vê uma potencial refeição através da folhagem, a espaços e em esforço.
Tentei dar alguma esperança a uma ou duas pessoas e levantei-as à minha altura, para terem a minha perspectiva. Choraram primeiro e depois deram-me uma chapada.

Larguei-as e desapareceram no meio da floresta lá em baixo.

Há mais tigres brancos que bons críticos

Caso eu, nestes dias ligeiramente acinzentados, me desse para fazer perguntas esquisitas às pessoas, certamente que vos estaria agora a perguntar sobre a cor da vossa roupa interior. Mas, como não existe no meu ser um necessidade intensa de vergonha alheia, esse é um capítulo que vamos deixar em standby.

Sendo assim, falemos do que é a crítica e, para isso, consultemos um amigo que dá pelo nome de dicionário. Amigo meu, acrescente-se, que eu não ponho as mãos no fogo pelas pessoas com quem vocês se dão.

crítica
s. f.
1. Análise, feita com maior ou menor profundidade, de qualquer produção intelectual (de natureza artística, científica, literária, etc.). = apreciação
2. Capacidade de julgar.

E, em sentido figurado - opinião desfavorável.

Em termos gerais, é da natureza humana ser crítico, o que nos deve tornar únicos entre os animais. Não se vêem para aí elefantes a dizer “Epá, já viste aquele tipo sempre de trombas, já não se pode com ele. Deve pensar que é o Babar não?” ou até mesmo “Desde que arranjou emprego no circo, tem a mania que é artista. Mas, do irmãozinho que trabalha no Zoo não diz nada não é?”.
Algures no tempo, a coisa derivou do patamar da análise para a festa do sentido figurado carregada de negatividade. O tio Kant, quando da “Crítica da Razão Pura” não veio para ali dizer que a razão pura era uma cabra e que apesar de andar enrolada com o empirismo e sabe-se lá com quem mais ainda insistia em chamar pura e por aí em diante.

Hoje em dia, o significado de crítica é, traço geral, negativo. As pessoas pedem uma crítica construtiva como quem pede um pão de leite com queijo, mas sem manteiga, ou seja, a lógica está invertida. Havendo até quem seja pago para criticar, esse “poder” é usado muito mais vezes com carácter acusativo do que formativo. É difícil encontrar o crítico capaz de se afastar da sua posição pessoal, para um ponto de neutralidade, onde é o seu conhecimento sobre a matéria que dita o resultado da sua crítica.

Na vida pessoal, eu percebo o desvio. É mais difícil ser imparcial quando se está a levar pontapés nos tomates. E, mesmo que não seja algo tão gráfico, criticar no sentido de dizer mal sabe bem.

Quando as pessoas começam a ser pagas por isso, a festa devia acabar, o fatinho do gosto pessoal devia ficar em casa, quando começa o trabalho. Mas eu olho para os críticos de cinema, os de espectáculos e até os de pelota basca e não é isso que vejo.
E não, um crítico não é o mesmo que um comentador. Um crítico é pago pela avaliação que o seu conhecimento permite fazer, um comentador é pago pela sua opinião, que não tem de ser neutral.

Mas pronto, podemos voltar a falar de roupa interior, que aí todas as críticas são lícitas.

12.7.10

Cortes de água fazem de nós homens


A sociedade, a par de televisão a mais e alguns exfoliantes torna-nos mais moles. Começamos a pensar que, para além do banho regular, um cremezito não vai fazer de nós menos machos, que já agora arranja-se a sobrancelha porque um acerto nunca pode ser considerado depilação e, pelo meio usa-se um gel magnífico para a pele não se irritar com a barba a ser feita todos os dias. Quando se dá por isso, já a população masculina está dividida sobre qual a posição correcta em relação a pintar as unhas dos pés.

Até que uma 2a feira acordas e não há água. Esperas uns minutos, enquanto pões um creme para as mãos que ficaram ásperas de tanto tentar abrir a torneira.

Continua a não haver água.

E de repente sentes o teu cheiro natural e pensas, enquanto olhas com alguma vergonha para o toalhete húmido que ias usar para safar a situação - Não, o cheiro a homem não é uma coisa má. E, enquanto lavas a cara na sanita, onde subsiste a última água limpa no horizonte, sorris. Å barba irregular e o penteado aleatório não fazem de ti um bandalho, fazem de ti um tipo com personalidade que não se deixa domar pelas regras e nem sequer tens de beber um Sumol para isso.

Escolhes uma camisa florida e uns óculos escuros modernos. Ponderas até fazer um corte no lábio para poderes parecer o Joaquin Phoenix na sua nova fase. Sais à rua confiante, se o Tom Hanks ia ganhando um Oscar nesses preparos, imagina as possibilidades.
As pessoas afastam-se para te verem passar.
Preferes acreditar nisso, do que pensar que é do teu cheiro.

A sociedade não te domou, tu és um homem.

A cena dos vizinhos

Não sei se é dos filmes ou do sushi de ontem à noite, mas creio que não ando bem a aproveitar a história dos vizinhos. Desde miúdo que oiço histórias e vejo na TV e no cinema relatos sobre a multiplicidade de emoções que os vizinhos podem trazer à nossa vida e nada.

Da vizinha desinibida, que gosta de se vestir de janela aberta / que gosta de ir correr só de lycra / que gosta de gritar desenfreadamente no acto do amor ao vizinho psicótico que gosta de ficar sozinho às escuras nas escadas / que se ouve a serrar à noite / que lambe o espelho do elevador até à velhota que ouve novelas aos gritos / que grita quando não há novelas / que gosta de sair à rua com um saco na cabeça, só tenho vislumbres muito distantes dessa realidade.

Não tenho vizinhos amigos do peito, não tenho gente a bater-me à porta a pedinchar raminhos de salsa ou a tentar converter-me ao taoísmo, nem sequer tenho um vizinho cego que me pergunte se tenho visto a pouca vergonha que vai no andar de baixo, que ele não consegue e gostava de saber.

Casais demasiado prestáveis e atenciosos, dos quais fugimos pelas escadas para não irmos pelo elevador? Nem vê-los. O companheirão confidente que joga PlayStation e não tem os hábitos de higiene nos píncaros? Nada disso. A vizinha boa samaritana que nos traz fatias de bolo e nos conta a história da vida do prédio inteiro? Não consta.

É certo que já não moro no prédio onde cresci, mas parece-me que os relatos de boa vizinhança já não são o que eram ou então nunca chegaram a sê-lo na minha realidade do centro de Lisboa.
A não ser que eu seja o vizinho psicótico que toda a gente evita. Mas também não acho que passar a noite a driblar uma bola de basket e gostar de ir buscar o correio vestindo apenas um saco do Continente seja razão para tirar essa conclusão…



PS – Por falar em vizinhos, a Espanha é campeã do mundo. E há sempre quem não goste quando a vida corre demasiado bem aos vizinhos.

10.7.10

Round 3

Para os mais nostálgicos, sensíveis e amantes da flanela haverá disto. Lá mais para o fim da festa, em cima e à volta do palco, não faltará disto.

E, embora não havendo semáforos, antes disso teremos disto e, para outros apetites, uma frutinha fará sempre bem.

Hoje vou com calças de napa, corrente ao pescoço e colete leopardo. Só para não dar nas vistas.

9.7.10

Frigonóia

Abriu o frigorífico sem bater primeiro.

Então, já não se bate, perguntou-lhe o abacate.
É muito mal educado, desabafou o que sobrava do guisado.
Na volta é só quando vem aqui, aventou o abacaxi.
Aqui e em todo o lado, provocou o gelado.
Nem deve ter lavado as patas, queixou-se o pacote de natas.
Nunca vi tanta preguiça, admirou-se a linguíça.
Olha só aquele trombil, gozou o tamboril.
Se ao menos ainda disfarçasse, lamentou-se a alface.
Vai-te embora ó melga, lançou o chocolate belga.
Vais-te embora sem um beijo? Atirou-lhe uma fatia de queijo.

Fechou a porta meio espantado.
Afinal o seu frigorífico não era tão cool como pensava.

Last night a Patton saved my life

Vamos fazer um sumário que o escriba dormiu pouco e o escriba quando tem soninho fica mais irascível:

- A organização do Alive é ursa. No ano em que esgotam dias e passes de três dias, o sistema caseirinho e manhoso de troca de bilhetes por pulseiras é reles e só não deu molho pior, por sorte. Fila tipo gado com pouco escoamento para quem vai aos 3 dias, na hora de ponta do primeiro dia é estar a pedi-las. Só quando a coisa estava a dar para o torto, com gente a esperar mais de uma hora para entrar é que se lembraram que quem tem passe de três dias poderia voltar mais tarde para trocar a pulseira. Entretanto, já tinha convivido com vários sovacos pós-modernos.

- Nos Alice in Chains, não foi só o vocalista original que morreu. Se descontarmos que o novo vocalista parece o Ben Harper que ganhou o concurso de imitadores de Alice in Chains e tem uma tendência para fazer uma pose com uma perna algo suspeita, o resto são só memórias. O Cantrell é o mesmo, mas falta força e o som da banda é um eco do passado que vale a pena só pelas boas memórias dos clássicos e pouco mais.

- Sobre bandas pós-modernas a atirar para o-na-berra-mas-ainda-tens-que-comer-muito-pãozinho: Se Florence & The Machine, pelo pouco que deu para ver, tem ali qualquer coisa e a senhora tem presença, dou XX e LaRoux de borla com o efeito overhype, sem dizer que são maus. Os primeiros têm pouca presença, ligeiramente em piloto automático e pronto, em festival não convencem. Quanto à senhora que já tinha dado duas negas ao Lux, é filha da produção em estúdio e nestes ambientes nota-se sempre a diferença e a coisa fica tremida. Pode ser que se os ouvir com outro barulho das luzes melhore a opinião.

- Kasabian, pronto, é Kasabian. E eu não gosto de andar por aí a chamar Kasabians às pessoas.

- Faith no More é mais que só o Mike Patton, mas o Mike Patton é muito mais que um vocalista. É um espectáculo dentro do concerto. Tinha visto o fim da banda em Lisboa em 98, não vi a reactivação o ano passado, mas ontem estava lá tudo. Pode não se gostar da sonoridade, mas é impossível negar o espectáculo. E quando o artista ainda fala português e dedica um belo tema ao Ronaldo, está tudo dito. E o fatinho branco e sapatinho branco tinha estilo e mostra que partilhamos gostos de guarda-roupa.




* Mais que as bandas e o regabofe musical, os amigos. Bem tentaram fugir de mim, mas não conseguiram. Eu corro bem até em festivais.

8.7.10

Lugares comuns

Visto que metade da população jovem de Lisboa e arredores vai estar daqui a bocado nessa bela localidade de Algés, então até já e, se pensarem que aquele sou eu, não chateiem o gajo de calças de linho brancas, camisa às flores e colar de conchinhas...

Se quiserem que vos reconheça, um post it na testa a dizer "Alarve & Kicking" chega.

Blog à Lagareiro

Comece por arranjar um tipo parvo com algumas ideias, mas tente que seja equilibrado, para que não seja nem demasiado parvo para o seu gosto, nem que passe o tempo só a ter ideias e não faça nada.
Não o descasque.
A ideia de ver esse tipo descascado a escrever em frente ao computador pode ser demasiado penosa para o leitor.

Embora as boas regras de culinária para blogs recomendem posts curtos, incisivos e inteligentes, faça exactamente o inverso. Assim, pelo menos, pode dizer que nem sequer tentou e aumenta o seu factor distintivo, nem que seja pelas piores razões.

Se gosta de avariar, ou pura e simplesmente é avariado, carregue na ironia, no sarcasmo e no nonsense. É certo que os docinhos têm sempre saída e o molho pessoal e intimista nunca falha, mas se escrevesse com o coração não tinha tempo para ler isto por já estar amargurado com uma coisa qualquer e não ter cabeça para estas merdas.

Nunca faça a mesma receita duas vezes ou, se a repetir, faça-a de tal modo que nem você perceba o que fez. Deste modo, ninguém saberá muito bem o que esperar de si e, neste ninguém, você também está incluído.

Embora seja um condimento raro, sempre que puder use a hipotipose. Não só vai fazer certos curiosos irem ao dicionário confirmar se o que ele queria mesmo dizer era “hipnose”, como ajuda o cozinhado a ficar dinâmico dentro das xaropadas que para lá deita.

Respeite aqueles que, por doença ou falta de lucidez, lá vão gramando com o seu cozinhado. E por respeito entende-se insultá-los de forma inteligente, de forma a que eles não atinjam plenamente a coisa. As pessoas reagem muito melhor ao despeito do que à graxa.

E depois desta receita, a pergunta é: Como é que cá vieram parar?

7.7.10

O pesadelo

- Calma, já passou.

Sentado na borda da cama, suava copiosamente e o seu olhar transparecia era um misto de vazio e desespero que ganhava forma na força com que lhe apertava a mão.
Tentanto a melhor voz calma que conseguia, usando a mão livre para lhe alisar o cabelo, tentou acalmá-lo de novo:

- Pronto, respira fundo…. já passou.

A voz que lhe respondeu, parecia tudo menos calma.

- Já passou?? Já passou? É só mais um não, é? Mais um jogo de sombras, de truques, de enganos e confusões, onde nada é o que parece. E depois este mais outro e mais outro e nunca mais vou sair deste labirinto.

- Foi só um dia…. – colocou-lhe a mão no ombro – os dias fazem parte da vida de toda a gente. Qualquer um que acorde pode passar por isso.

- Foi horrível, acordar para um dia assim. As pessoas tão…tão…normalmente assustadoras, tudo tão falso. Por mais que quisesse adormecer e acabar com aquilo não conseguia.

Parecia agora ter acalmado. Com um gesto suave, conduziu-o de novo para a almofada. Em breve adormeceria e esqueceria aquele dia. Até ao próximo. Sofria de um acordar crónico e, para quem vive no mundo dos sonhos, lidar com a realidade era o pior pesadelo.
Deitou-se ao seu lado. Felizmente só acordava quando ele se levantava e saía em pânico para o mundo dos não sonhadores. Nessas alturas, restava-lhe então esperar que ele voltasse e lhe contasse mais uma experiência aterradora.
Depois, acalmava-o e voltavam, pura e simplesmente, a sonhar.

A maturidade tem um preço

Ainda era um petiz e já algo em mim apontava para um espírito mercantilista. Na caderneta de cromos do Euro 88 troquei um Ruud Gullit por mais de 20 cromos e em colecções seguintes, toda a gente temia fazer trocas com aquela criança de sorriso irónico.

Já mais velho, no ensino secundário, quando as cassetes de Spectrum já não eram aquela moda, cedo me lembrei que poderia revertê-las em belos mixes musicais e vendê-los a coleguinhas em busca das últimas novas discográficas.

Pelo meio, existiam sempre negócios com livrinhos da Marvel (que hoje me arrependo), que não só renderam uns belos trocados como poderão ter vindo com bónus na forma de simpáticos magazines internacionais com artigos deveras interessantes e reportagens fotográficas com moças desinibidas que acreditavam no amor.

Chegado à universidade, poderei ou não ter feito negócios com batons e vernizes, decorrrentes de um contacto próximo numa perfumaria, mas o que me ajudou a custear parte da viagem de finalistas foi a venda de tabaco a preços mais baixos do que os de tabela. Não seria estranho, a quem partilhou o mesmo espaço académico que eu, encontrar um mitra de mochila junto à máquina do tabaco a perguntar “Fumas Marlboro? Epá, eu vendo-te maços selados muito mais baratos”. Isto para não falar nalgumas senhas de bebidas em festas académicas que poderão ter sido forjadas…

Apesar de tudo isto poder indicar uma carreira como feirante e algum cadastro criminal, tal não aconteceu. Há ainda um pequeno negociante/candongueiro dentro de mim, mas hoje em dia deixo-o tirar férias com regularidade.

Só isso pode explicar o facto de ter vendido dois passes de três dias para o Alive virtualmente a preço de custo, quando andam aí artistas a vendê-los de 150€ para cima.
Por isso, pensem bem, se porventura o bilhete que andavam à procura vos veio parar à mão por via de um amigo de não sei quem que vos disse “Epá, houve um otário que me vendeu isto ao preço de tabela e pronto”, sorriam e agradeçam aos deuses, porque eu não era assim.

E depois têm entre amanhã e sábado para me encontrarem no recinto e beijar-me a mão com reverência.

6.7.10

Goodbye Pónei

Já não era uma criança, mas não tinha vergonha de estar abraçada a um cavalo, com lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. As duas últimas semanas tinham sido pura e simplesmente fantásticas, como se de um sonho se tratasse e do qual ela não queria acordar.

Não tinha sido o seu sonho de menina ter um cavalo, nem sequer tinha memória de ter passado tardes a pentear pequenos póneis de crina sedosa. Mas, nestes últimos dias, quantas e quantas vezes não tinha galopado de olhos fechados, sentindo a brisa na cara e agarrando com força as rédeas do seu fiel companheiro.
Sempre forte, sempre decidido no caminho a tomar, mesmo antes dela decidir e, ao mesmo tempo, tão dócil e calmo, deixando-a aproximar-se sem sobressaltos e parando sempre que era preciso. Não era um cavalo jovem, mas os seus olhos brilhavam com a energia de quem nunca seria domado, mesmo que tal não fosse verdade.

E agora, eram os seus últimos momentos juntos. No dia seguinte ela voltaria a ser mulher inflexível, sempre pronta a tomar decisões sem hesitar no seu trabalho e a deixar todo o resto em standby na sua vida pessoal. E aquele cavalo, talvez ficasse ali, talvez partisse, talvez desse voltas e voltas à sua procura, mas os seus dias juntos acabavam ali.

Abraçou-o uma vez mais. Não existiriam mais cavalgadas com gargalhadas pelo meio, nem passeios pelo meio de outros animais, que nunca se aproximavam como se temessem aquela dupla majestosa. O seu cavalo branco, que quase parecia cor de rosa, teria que procurar outra princesa…

Hesitou um segundo… talvez o pudesse comprar. Levá-lo consigo e….

- Ó minha senhora, importa-se de largar a porra do cavalo? É que nós queremos desmontar o carrossel e assim nunca mais saímos daqui.

Fingiu que lhe tinha entrado uma coisa para o olho e afastou-se.
Cabrões, eram todos iguais. Quando tinha sido para receber dinheiro pelas voltinhas eram só sorrisos, agora eram uns insensíveis de primeira. Acenou ao cavalinho e voltou-lhe as costas, talvez o lugar dele fosse mesmo ali, entre a ambulância e a chávena de chá giratória.

5.7.10

Vamos lá lançar os dados


Sei bem que com este calorzinho, vocês não têm grande cabeça para debater grandes questões do panorama actual. Com menos calor também não, com a diferença que suam menos do bigode ao fazê-lo.

Sendo assim, vou facilitar-vos a tarefa e, numa lufada de ar fresco virtual, lançar o tema:

Jogos de tabuleiro jogados por adultos, desde o simples Monopólio, Scrabble e Pictionary, até aos épicos que demoram horas valentes e nomes estranhos.
É coisa de cromos, uma interessante forma de esgrimir argumentos e descarregar emoções, algo que depois de alguns copos se torna perfeitamente plausível, desculpa para criar "clubes do bolinha", é o poker dos intelectuais ou agora não podem responder porque agora é a vossa vez de lançar os dados e está muita coisa em jogo?


Gostava de dizer que a vossa opinião é de crucial importância, mas creio que a relação que já desenvolvemos vos permite concluir que não há necessidade de ser hipócrita a esse ponto.

Escrever para o boneco, para a boneca e por aí em diante

A escrita tem uma coisa interessante, que vai para além do facto de provares que não és analfabeto e deixares de assinar o teu nome em cruz. Pode ser um dom, uma capacidade profissional, uma arma, um segredo, uma receita de bacalhau à Zé do Pipo e muito mais. De facto, a escrita é algo que oscila do muito especial ao mais mundano, do íntimo e pessoal ao javardamente generalista. Já dizia Júlio César:
“Bem vindos a mais um Minas&Armadilhas”.
Não tem muito que ver com o tema, mas a experiência ensinou-me que uma citação de uma figura histórica reforça sempre a mensagem que pretendemos passar.

Pus-me a pensar nisto enquanto comia uma talhada de melancia e cuspia as pevides para cima de um ceguinho que tocava acordeão à minha frente. Não por maldade pura, mas sim porque me irritam os ceguinhos que entram nos meus textos à má fila e começam a tocar acordeão do nada.

Embora não seja recompensada ao nível de um bom canalizador ou electricista, a escrita e os intérpretes que se safam na mesma, tendem a ser requisitados regularmente por familiares, amigos e chupistas de ocasião como se da mesma fossem biscateiros.

Qualidade à parte, cheguei à conclusão que, não profissionalmente, já me pediram para safar / rever / fazer melhoramentos / dar jeitinhos em coisas tão diferentes como:

- Recensões críticas
- Declarações de intenções
- Cartas de Motivação
- Cartas de Despedimento
- Textos de Recriminação (também chamado ajuste de contas via mail)
- Teses
- Frases e textos para passatempos
- Textos para BD’s
- Sketches
- Discursos
- Cartas de Amor (para exercício, não era numa de Cyrano de Bergerac)
- Recomendações
- Reclamações
- Convites de Casamento
- Convites para Festas
- Testamentos (ok, esta é tanga, mas é só para ver se estavam atentos)

Partindo desta base de exemplo, a coisa é preocupante. Não porque, na maior parte dos casos, me tenha custado por aí além a tarefa, mas por ver que há por aí tanta gente inocente e incauta ao ponto de deixar nas minhas mãos estas coisas. É como deixarem um pirómano sozinho na Fábrica de Fósforos Quinas…

Depois queixam-se que a vida lhes corre mal.

4.7.10

Aquém das expectativas

Gostava de ter algo introspectivo, ligeiramente depressivo e, ainda assim, inteligentemente metafórico e desafiante para dizer neste Domingo à noite, deixando assim antever um início de semana de reflexão pessoal e uma questão da vossa parte - Será que este tipo toma drogas enquanto ouve o Rui Santos?

No entanto, jantei bem e acabei a dar um passeio pela avenida, aproveitando uma brisa quente e ostentando um aspecto que oscila entre o chunga, o descontraído e o turista.

Como tal, só sobrou um post misto de ironia mundana.

Mas também, quem visita blogs ao domingo à noite também já sabe que se sujeita ao requentado...

Para quem gosta de fazer filmes

Gosto de cinema.
Gosto de fazer fitas. Gosto de dramatizar, mas não de borrar a pintura.
Gosto de drama, horror e emoção, especialmente se for o Albarran a dizer.
Gosto de comédia, mas não de palhaçada.
Gosto de mistério e thriller, mesmo sem o Michael Jackson.
Gosto de filmes mudos e espectadores idem.
Gosto de enredos que me mantenham ligado e telemóveis que permaneçam desligados.
Gosto de musicais e outros que tais...
...não, não gosto especialmente, mas foi bonito acreditarem por dois segundos.
Gosto de filmes negros e sobrenaturais, mas não aprecio películas para anormais.


Gosto de finais inesperados, especialmente se

2.7.10

O homem a sério está de volta

Que nunca se diga que este blog não expressa uma ligeira preocupação com o bem estar do seu público ligeiramente efeminado.

O desabafo

“Epá, não dá para falar contigo.”

Com ele, este tipo de desabafos eram comuns. Também era comum o facto de não obter qualquer resposta aos mesmos, possivelmente devido ao simples facto de gostar de desabafar com peças de fruta.
Mas, ao fim de tanto tempo, fartou-se. Fosse por causa de achar que havia ali truque na manga, por estar prestes a levar uma pera ou que era tudo muita parra e pouca uva, não havia fruta que o compreendesse.

Desesperou.
Não confiava nas pessoas, achava-as demasiado humanas e aquela história de desabafar com a Natureza, para além de um bocado abstracta, cheirava a coisa de maluquinhos.
Para ele, desabafar era algo essencial, mas com regras tão particulares que tornavam quase impossível a sua concretização.

Tentou desabafar com um pacote de leite. A coisa azedou.
Experimentou desabafar com um rissol. Achou-o um bocado frito.
Pensou em desabafar com um pimento, mas custou-lhe a digerir o assunto.

Até que a conheceu.
Envolveram-se a quente, mas ele resolveu deixar esfriar as coisas antes de se colocar a questão de desabafar. Havia quem dissesse que ela era um bocado quadrada, mas vindo de pessoas que passam os dias a falar com empadões, ele sabia que podia esperar tudo.

Perguntou-lhe se podiam ser amigos. Ela não respondeu. Prometeu-lhe que não estava ali só por ela ser boa. Não respondeu novamente. Tocou-lhe suavemente, tentando obter uma reacção. Ela fez-se de dura.

Sorriu, pois sabia que tinha encontrado o que procurava. Finalmente pôde desabafar.
E depois, uma vez que já eram íntimos, comeu-a à bruta e adormeceu.
De manhã acordou e viu que ela nem sequer tinha deixado um bilhete. Só um guardanapo e migalhas.

Não se preocupou. Sabia bem onde podia voltar a encontrar uma tosta mista.

1.7.10

Para quem ocasionalmente se sente sexy

Apesar do muito que aprendi, não vou pagar o bolinho.

Mortinho por morrer descansado

Querido Diário,

Segunda Feira
Saí de carro e fui encontrado afogado dentro do meu próprio veículo que foi incendiado. Como um dos meus dentes ficou preso no porta-luvas e a marca da pasta dentífrica era muito incomum, foi fácil prender a manicure da minha amante que era afinal minha meia-irmã.

Terça Feira
Estava no trabalho quando me engasguei com uma bolacha. A água que bebi soube-me mal, mas o problema foi o copo cujo plástico tinha um reagente que me foi fatal e me fez sufocar em sofrimento. Como é que podia saber que o tipo com que eu gozava na escola primária abastecia agora as bolachas na máquina dentro do meu trabalho.

Quarta Feira
Para relaxar, fui ao cinema. Fiz um corte de papel com o bilhete e havia uma resina esquisita no apoio para os braços. O meu amigo começou a tremer a meio do filme e teve de ir à casa de banho injectar-se, porque é diabético. Quando voltou eu estava rígido que nem um bacalhau seco e tinha pipocas no nariz, nos ouvidos e nos olhos. Ah, estava morto. Uma vez que a terra encontrada no chão era igual à dos cenários em que se passava o filme, foi fácil prender o meu primo afastado, que entrava no mesmo e soube que eu ia herdar muito dinheiro. Não fizeram nada aos miúdos que me encheram a fuça de pipocas.

Quinta Feira
Fiquei em casa, para evitar problemas e para acabar o meu livro. Morri com dois balázios na cabeça, feitos por balas artesanais de um sniper que tinha uma panca com o número da lotaria que lhe tinha sido roubado e eu tive o azar de estar a morar no 43-4º no código postal 3210-231. Ainda bem que ele deixou cair o bilhete de lotaria quando me foi arrancar os olhos de souvenir, senão não o tinham apanhado.

Sexta Feira
Fui atropelado e morri no local, mas não tive culpa. O motorista é que tinha sido envenenado por uma moeda de troco dada por uma idosa que estava farta de esperar nas paragens.

Sábado
Convidei umas miúdas para uma festa lá em casa e fui encontrado morto na varanda, com um sorriso desenhado a baton, de bikini posto e efeitos evidentes de sobreutilização de Viagra. Fui confundido com o guitarrista dos Tokyo Hotel, mas o vocalista é que foi preso, porque aquela marca de baton era produzida de propósito para ele. Mesmo morto, pedi aos santinhos para me desligarem a música deles que passava em loop nos meus phones.

Domingo
Estou farto de ser figurante em séries de CSI’s, patologistas, criminologistas e afins. Ando mortinho por escrever a minha carta de demissão.