30.6.10

A maldição dos segundos nomes

Roberto, Clemente, Hildebrando, Cândido, Venceslau ou até mesmo Libório.

Tenho sorte, nenhum destes é o meu segundo nome. Melhor ainda, nenhum nome do mundo é o meu segundo nome, o que embora possa indiciar que não faço parte da nobreza, indica também que me livrei de anos de tortura e acompanhamento psicológico, pelo menos nesse aspecto.

De facto, estava hoje a cortar as unhas dos pés para dentro de uma chávena cheia de café quando me apercebi de uma coisa – ainda bem que não gosto de beber café. Um garotinho de quando em vez, vá lá, para poder ouvir pela enésima vez a piada do pedófilo ou, mais adequada aos tempos modernos no serviço de cafés - “Não prefere uma garota?”.

Depois de me aperceber disto, apercebi-me que, em Portugal, pessoas que não têm segundo nome são uma minoria, tal como aquelas que não estão endividadas até ao tutano, mas com uma diferença – a culpa, neste último caso, não foi dos pais.
Mas, afinal, para que serve esta história de ter segundo nome?

Primeiro que tudo, serve para os pais e outras figuras de autoridade próximas mostrarem o seu descontentamento quando chamam alguém. “Sandra Carina chega aqui imediatamente” ou “Pedro Bonifácio, eu não volto a chamar-te”, tem certamente outro poder.
Depois, serve para alimentar a indústria dos diminutivos combinados, os Zecas, as Mitós, os Cajós, as Micas e toda uma panóplia de nomes que servem para criar mundos paralelos em que outros nomes que não o que vem no BI ganham vida. Como se os diminutivos, por si só, sem combinado, não chegassem…

Mas, pelo que vejo, o segundo nome também uma política de dinamização e incentivo à esquizofrenia. Temos gente que é tratada por Xana, cujo nome na realidade é Alexandra e que mais tarde se vem a verificar que é o segundo nome, sendo afinal o primeiro Carminda. Entretém, dá tema de conversa e, em muitos casos, permite andar na carteira com 10 cartões diferentes, com nomes diferentes e serem todos de uma só pessoa.

Já nem vou falar de que serve para as pessoas se queixarem. Porque mesmo os que se queixam, depois dão segundos nomes aos filhos e, se for preciso, às partes íntimas do seu corpo.

Para mim, um segundo nome fazia sentido se o primeiro se gastasse, do género aos 38 anos, o Desidério Silvino achou que já bastava e iria deixar cair assim o Silvino. Ou, se permitisse levar uma vida dupla de vida legal, bastando invertê-los, ao estilo de “Bom dia, estou a falar com a Nídia Desdémona, estrela porno e a Desdémona Nídia, peixeira em Matosinhos?”, “Sim senhor, somos eu”. Creio ainda que o segundo nome, em si mesmo, não se deve sentir feliz. É o eterno segundo e, mesmo quando não é na utilização, nunca deixa de o ser. As pessoas estão sempre a dizer que vão deixar o outro, mas são preguiçosas demais para o fazer. A velha história…

Os segundos nomes foram, traço geral, inventados para fazerem as pessoas infelizes, isolados ou em conjugação. Não sou eu que digo, é o Bonifácio Eleutério.
E para que pessoas como eu não tivessem de andar a divulgar online a forma como cortam as unhas dos pés.

Facilitismo

Seria fácil falar no Andrea, no Stevie, no Ray e depois falar no Queiroz que, em matéria de substituições, é tão perigoso que da última vez que furou um pneu trocou-o por uma melancia. Seria também fácil dizer que mentes sugestionáveis como a do Ronaldo não deviam ser expostas a anúncios como o da Nike, porque ontem (e em boa parte do Mundial) o gajo imitou mais a estátua do que o jogador. Seria fácil dizer que o Eduardo nos safou de sair com o saco cheio, mas que poucos acreditam que temos um bom guarda redes. Seria fácil dizer que levámos dois laterais direitos de raíz e jogámos metade dos jogos com um adaptado, que o Hugo Almeida não é mau como o pintam e que o menino brasileiro com olhos de chinês ficou de castigo. Seria até bastante fácil dizer que Espanha é campeã da Europa e que estão muito rotinados por terem metade do Barcelona na equipa inicial, mas eles não jogaram assim tão bem. Seria tão fácil dizer que voltámos à epoca das vitórias morais e do orgulho pequenino que se satisfaz em ter ido lá, jogado com os melhores e depois perder e vir para casa.

Seria tão fácil arranjar agora uma boa frase final, plena de potência metafórica e raciocínio brilhante onde se falaria do país não ser só bola e finalmente ter acabado esta febre.

Mas como para facilitismo já basta tudo o resto e eu tenho mais com que me entreter, fiquem antes com isto.


29.6.10

Passatempo à boca de la baliza

Vamos misturar futebol, cultura da batata, Preço Certo e um gajo com mais pescoço do que o Fernando Mendes.

Então é assim, dizem que Portugal vai jogar com a Espanha e que o Queiroz tem um feeling. Ora se o Queiroz tem dessas coisas, vocês também podem ter, com a diferença que o BES não vos vai dar um eurico que seja por causa disso.
Mas, não me preocupando minimamente com o facto de se calhar preferirem ir adivinhar quantas páginas tem no total a trilogia do Stig Larsson, o que vos posso oferecer é isto:

Deixem na caixa de comentários, até às 19.30 de hoje, a previsão do resultado do jogo de hoje. Deixem também a indicação do minuto do primeiro golo do jogo (indiferente a selecção).

Exemplo: Portugal 2 Espanha 1 Minuto 34

O vencedor será aquele que acertar no resultado. Em caso de mais de haver mais do que uma pessoa a acertar, o factor de desempate é aquele que estiver mais perto do minuto do primeiro golo. Se ainda assim subsistir o empate, desempata-se pelo que tiver postado primeiro o comentário.

Mas, afinal, o que é que se ganha com esta trampa, uma viagem à África do Sul, uma vuvuzela com sabor a gasóleo ou até uma máscara facial em cimento?
Não, ganha-se o mesmo do costume – um texto sobre tema escolhido pelo vencedor, escrevilhado por mim. A escolha do mesmo deve ser feita posteriormente via email. Aceito até fazer cartas de demissão e coisas engraçadas assim, mas não me cravem teses de mestrado.

Se não participarem, os meus sentimentos ficariam ofendidos. Ainda bem que não os tenho.

Dizer tudo sem palavras

Não era fácil ficar sem palavras. Primeiro, porque sabia muitas, depois porque quando não sabia, inventava. Não era à toa que o título de campeão da metáfora, senhor do eufemismo e mestre do trocadilho lhe assentava quem uma luva branca que faria o Michael Jackson corar de inveja se não estivesse morto e, se ainda estivesse vivo, ainda tivesse a capacidade de corar.

Por isso, foi com grande surpresa que, ao colocarem-lhe aquela pequena caixa de cartão na mão, não ouviram nada. Sem uma piada, um toque de parlapié, dois dedos de conversa ou algo semelhante limitou-se a abrir a caixa nervosamente.

Ao abri-la, um sorriso, meio de espanto, meio de susto, se é que possível sorrir de susto. O que se passou a seguir foi inenarrável, essencialmente porque isto foi tudo o que conseguiu dizer:

" ´ , ? ´ ? ~ , . - ´ ´ … ~ ` , - , ? ´ , ´ ´ .

´ ? , ´ ´ ´ , ."

As palavras estavam todas lá, com a diferença que ele não as conseguia colocar de outra maneira. E, estranhamente, nunca fez tanto sentido.

28.6.10

In or out?


Nem sempre o que se passa entre quatro paredes é o mais interessante. E isto é válido para reality shows e para esta fotografia que tirei.

O copo meio cheio ou o verre à moitié vide

Eis os factos: passou-se uma semana e agora vem aí uma semana de realidade mais ou menos mundana. Pronto, agora que já falámos de como vai ser a vossa semana, passemos a debater o êxtase do meu regresso a Portugal.

Mas e então, o balanço?

Terá sido uma semana em cheio ou uma semana que soube a pouco?
Terá sido uma recompensa merecida ou um presente envenenado?
Terá sido bom para a cabeça ou mau para o fígado?
Terá sido aproveitar os dias ao máximo ou passar noites quase sem dormir?
Terá sido convívio com gente de todo o mundo ou gramar com malucos de toda a parte?
Terá sido andar com uma vida de luxo ou constatar que, bem vistas as coisas, estás mais perto de ser pobre?
Terá sido comer com requinte ou ter a noção que andaste a rivalizar com uma lontra?
Terá sido tudo muito intenso ou algo que só se aguenta numa versão curta?
Terá sido bom estares mais tempo com certas pessoas ou apercebes-te que às vezes demasiado tempo com certas pessoas não é bom?
Terá sido porreiro voltar a falar francês sem ser com uma professora anã ou aquilo é mesmo uma língua que te dá sempre pinta de que estás a entrar num filme independente?
Terá sido uma questão de tempo até lá voltares ou o mais certo é não pores lá os pés tão cedo outra vez?

Teria sido possível escrever um post quase todo com uma interrogação repetida?

Teria, mas pronto, não me quero tornar redundante. Prefiro tornar-me um trovador dos tempos modernos, mas sem um corte de cabelo abichanado.

Assim sendo, termino com um pensamento. De que serve falar de copos meios vazios ou meio cheios, quando a questão é: porque raio é que ainda não os esvaziaste?

26.6.10

On y va

Creio que regresso amanhã. E digo creio porque nada nesta vida é certo tirando a morte, os impostos e o facto de eu dizer muito pouca coisa de jeito. Ora, a mim não me dá jeito morrer nem pagar impostos amanhã, até porque já tenho um lanche combinado e depois é uma maçada ter que dar esses motivos como desculpa para faltar, até porque já não se pode com gente que decide morrer ou desatar a regularizar a sua situação fiscal só para não ir a eventos.

Assim sendo, fica apenas a garantia de que muito pouco de jeito continuará a ser dito por mim.

Não vou vos maçar a dizer como tem sido esta semana, até porque há partes que constituem um certo vazio legal. Não porque tenham a ver com matéria de Direito, mas sim porque apesar de não conseguir reconstituir devidademente o evento, tenho a vaga ideia que foi divertido.

Além disso, tenho a plena certeza que a vossa semana foi deveras mais interessante que a minha. Especialmente se ainda continuam a oferecer-se como voluntários para testes farmacêuticos.

Fica só aqui um testemunho visual de que, reunidas as condições, a Lua na Riviera pode não estar completamente imóvel em dadas noites.




Então até amanhã.

23.6.10

Saudade

Vá, não custa admitir. Vocês querem dizer-me algo muito parecido com:

“Epá tu parece que não estás presente, falamos contigo e tu não respondes como deve de ser, vais falando mas não estás cá e assim não vamos a lado nenhum”.

Alto lá, quanto muito vocês é que não vão, porque eu continuo lá por fora. A não ser que já tenha sido deportado e, nesse caso, eu sou aquele tipo com que abriram as notícias ontem.
Sabendo que isto é um suponhamos, a coisa tem estado animada e faz-me lembrar os tempos agitados em que fazia tournées com a Cesária (se não acreditam, vejam o meu sorriso franco ao minuto 4.42).



Já viram e, ainda assim não acreditam?

É por causa de gente desconfiada como vocês que o mundo não avança e blogs como este têm uma clientela muito duvidosa.

E, ainda assim, só para vocês, eu deixo uma troca de palavras que certamente já deve ter verificado e que só um marialva como o Google Tradutor é capaz de levar à letra.

“Si je suis MAK? Celui qui a un palonço blog? Ne pas confondre, je suis le fils que Mère Teresa n'a jamais voulu reconnaître.”

22.6.10

A expressividade inusitada de Mak espanté les gaulois

Por esta altura. já Portugal inteiro rejubila com a vitória de ontem frente à Coreia.
Por esta altura, já Portugal inteiro se sente desiludido depois do empate de ontem frente à Coreia.
Por esta altura, já Portugal inteiro pensa em exilar Queiroz na Coreia depois da derrota de ontem ou, pelo menos, arranjar-lhe uma vivenda no paralelo mais famoso da zona.

Por esta altura, já vocês devem ter percebido que eu não estou propriamente a escrever isto em tempo real.

Por esta altura, se tudo correu bem, já tive hipótese de trocar galhardetes com algumas emigrantes lusas que me confundiram com o Toninho Carreira e fui obrigado a responder-lhes, como me ensinou o meu velho amigo Google Tradutor.


"Je suis un gars de vous dire que cette moustache me souviens de ma tante Gertrude qui était le portrait craché de mon grand-père Humberto".


Por esta altura já vocês se estão a questionar porque é que ainda vêm cá e a divagar sobre a parca qualidade dos conteúdos.
E, por esta altura, eu responderia “Porque, provavelmente, sempre foram um bocado lentos a aperceberem-se das coisas.

21.6.10

A propósito do conceito de inveja

Se continuo com esta atitude de mete nojo, não tarda nada acabo a sentir-me uma espécie de Peugeot.


E as palavras do jour são

Então miudagem, prontos a começar uma semana com um dinamismo de fazer inveja ou estão mais capazes de fazer a saudosa irmã Lúcia parecer uma raver de primeira?
Espero bem que essas garrinhas dos pés já estejam na pista, porque esta semana vão ter de puxar a carroça por vocês e por mim, que eu estou muito ocupado a percorrer uma dade marginal com uma baguete debaixo do braço e uma atitude de quem tem muito para dizer e pouco para fazer.

Eis as palavras do dia, num esforço de tornar isto um espaço multicultural:

Croissant
Professionel
On y va
Ils sont des fous ces Romains


Ou até mesmo

L'envie est une chose laide.

Ide agora tirar cera dos ouvidos com um lápis afiado e reinventem o conceito “lápis de cera”, que eu já volto.

20.6.10

Et voilá




VInda das brumas, como quem não quer a coisa, eis que me surge este destino pela frente durante a próxima semana. Como é óbvio, sendo um bom português, não vou para aqui começar a sentir-me contente com esta novidade e a dizer que o mundo é feito de coisas bonitas.

Estou sim, desde ontem, a dar tudo por tudo para poder arranjar material para dizer mal de tudo com pompa e circunstância. A não ser que me obriguem a divertir-me e a aproveitar as coisas ao máximo, que é coisa para ocupar boa parte do tempo e ser uma canseira e, quando assim é, depois fico irritadiço.

Enfim, com isto tudo agora sinto-me dividido.
Ou, como se diz em francês "Je suis dividi" ou coisa que o valha.

Vão dando notícias, sim.

19.6.10

Nota final

(continuação)

Lembrava-se apenas de ter entrado no carro, com a porta aberta por um motorista de feições completamente esquecíveis. Ela não seguiu com ele, ia no carro da frente. E depois, o vazio que se instalou com um cheiro adocicado no banco de trás.

Acordou numa sala branca a contrastar com o piano preto à sua frente. A luz provinha de uma lâmpada quase por cima da sua cabeça, sem qualquer janela no quarto. Tentou mexer-se e logo sentiu um frio metálico junto ao seu pescoço.

Toca. O melhor que podes e o melhor que sabes. Toca o que quiseres, mas não pares.

Esboçou uma resposta, mas a voz dela soou mais alto, sem nenhum do calor com que a conhecera.

A música faz-nos…faz-me esquecer…Não me deixa sentir o meu coração, sem música, sem alegria, onde ecoa apenas o ritmo de uma tortura constante.

Explicou-lhe que não a conhecia, que não tinha razão porque estar ali. Que tudo aquilo era um engano.

Shhh,,,Não pares, não pares de tocar, porque os enganos nesta sala não fazem parte desta vida. Não pares porque, ao fazê-lo marcas o fim de um caminho que não tem volta atrás. O teu ritmo será o princípio e o fim.
Não pares ou…

Ele começou a tocar, sem perceber o porquê de sentir que tinha de o fazer.
Ouviu-lhe os passos atrás, afastando-se até ao que poderia ser uma divisão adjacente. Soou um choro abafado e, quando ele se aprestava a olhar para trás, um disparou ecoou pela casa. Por instinto voltou-se para a frente, sem parar de tocar e segundos depois ela estava de novo atrás dele.

A vida dela não precisava de acabar assim, mas precisava que tu o soubesses. Para que não pares e para que não duvides de mim. A tua música será agora o coração de alguém e serás tu a decidir quando deve ele parar.

A irrealidade da situação toldava-lhe a racionalidade. Durante quase dois dias tocou sem parar, com uma angústia no coração que não se reflectia na energia que dispensa nas composições que executa. Sentia-a por vezes mais perto atrás dele, mas nunca teve coragem de se voltar.
Na sua cabeça ouvia apenas “Não pares” e o eco de um disparo.

Já esgotado, ao fim do segundo dia, tinham já passado algumas horas sem ouvir os passos dela. O ritmo abrandava, não por vontade, mas por cansaço. Sentia as forças a abandoná-lo e, a cada tentativa, os compassos perdiam fulgor. Fechava os olhos lentamente, tendo cada vez menos força para combater consigo mesmo.

Pareceu-lhe que tinha apenas passado um segundo, mas aquele sono ínfimo foi quebrado por um disparo. Tinha parado. O seu coração acelerou.
Levantou-se e não viu ninguém atrás de si. A dormência do seu corpo era vencida pela sua necessidade de saber e abriu de rompante a porta encostada.
A primeira coisa que viu foi a moldura caída no chão, com um buraco de bala. Na fotografia, uma menina com longas tranças sorria, sentada a um piano. Ainda a segurar na moldura levantou os olhos e foi aí que a viu. O mesmo vestido negro e o ar cuidado, a pistola a deslizar pela mão caída no sofá e o sangue que ia ensopando o tecido, junto a um rosto bonito agora irreconhecível.

Um recorte de jornal estava agora coberto de pingos de sangue. Debruçou-se e viu a notícia, já com dois anos, que relatava como uma menina prodígio tinha morrido atropelada por um músico de renome que regressava a casa de manhã embriagado, depois de uma noite de excessos.

Deu por si a chorar, como se esta história e este sangue estivessem agora ligados à sua vida para sempre.
Uma voz ainda ecoava ao usar o seu telemóvel, deixado numa cadeira vazia, para ligar ao 112.

Não pares.
A partir desse dia, a música deixou de ser a sua vida. Era agora um instrumento com que incessantemente tentava preencher o coração de outros.

18.6.10

As intermitências da morte

Desaparece hoje a única faceta de Saramago que ainda era mortal.

Andamento


Não pares.

O sonho de qualquer artista, ao ritmo de um pesadelo. O travo metálico no fim daquela frase durava há quase dois dias.

Não pares.

Os dedos percorriam as teclas mecanicamente, transformando-se nas composições que anteriormente lhe preenchiam o coração e agora ecoavam apenas no vazio.
Quando há dois dias saíra do hotel em que habitualmente tocava três vezes por semana, não sonhava que as coisas se iriam passar assim. Gostava de tocar piano, destacara-se durante a sua formação, mas não era um génio, as pessoas não lhe pagavam por ser ele, pagavam-lhe para que ele criasse uma atmosfera. E ser pago para fazer algo de que se gosta não pode ser mau.

Tinha reparado nela nos últimos dias, mas já podia ter lá ido mais vezes. Sozinha, o que era raro por ali. Não esperava ninguém, nem parecia interessada em convívio e, cada vez que tinha reparado, parecia fixar um ponto na direcção dele, mas nunca se cruzando com o seu olhar.

Não pares.

A sua voz era agora muito diferente da que ouvira quando ela o abordou uma noite à saída do hotel. Tal como ele, tocara todas as notas certas, elogiando-lhe o talento e dizendo que ia dar uma recepção diferente que se tornaria única, se ele tivesse disponibilidade.
Sempre pronto, chutara um preço alto e ela sorrira, dizendo que o iria buscar na data combinada. Pensou que devia ter chutado mais alto.
Agora, pensava que não havia preço que pagasse o que estava a fazer.

Não pares.

Como podia ele parar, se não tinha outro remédio senão seguir em frente.

(continua)

17.6.10

Dicas para todas as ondas

Aqueles que preferem o mar salgado e gostam de se sentir envoltos nas ondas e na sensação de liberdade que o mesmo proporciona, sabem que podem ir buscar sábios conselhos a um determinado guru.

Aqueles que preferem o mar da leitura e gostam de se sentir envoltos no mundo criado e na sensação de liberdade que o mesmo proporciona, recomendo que vão buscar sábias dicas a alguém que provavelmente me daria um calduço se me apanhasse a chamar-lhe guru.

Pronto, arriscarei talvez um canguru, pela forma como salta de boa sugestão em boa sugestão.


Aqueles que apreciem ambas as sugestões, maravilha. Não recomendo é que as pratiquem simultaneamente.

Piada elitista das dez para as sete

Conheço uns quantos cravas que parecem o Jackson Pollock.
Estão sempre a ver se pinga alguma coisa.

Fill me in

Não gosto de responder a questionários, formulários e, extensivamente, preencher quizzes do Facebook e afins. Não porque me seja difícil fazê-lo, mas simplesmente porque é algo que me aborrece e enfastia.

E, pouco surpreendentemente, isso não é um problema exclusivamente meu. Lembram-se da história dos dadores de órgãos? Não, não me refiro àquele episódio em que acordaram numa banheira rodeados de gelo, sem memória da noite anterior e com uma abertura extra nos flancos? Isso chama-se roubo e não doação.

Há alguns anos, a nível internacional, para se ser dador de órgãos tinha de se preencher um formulário especificamente para o efeito. Em caso de omissão, um hospital nunca poderia utilizar o que quer que fosse. Até que se percebeu que, dada a aversão das pessoas a formulários e o seu respectivo preenchimento, todos sairíamos a ganhar se o processo fosse invertido.
Vai daí, a regra mudou e, hoje em dia, só quem preenche especificamente um formulário a dizer que não deseja ser dador é que tem o estatuto de “não dador”.
Como devem calcular, o número de dadores aumentou exponencialmente.

Vai daí, não contem com a minha argúcia e disponibilidade mental para embalar nesse tipo de regabofe (já não estou a falar dos órgãos, atenção, para isso estou sempre pronto). Mas, porque sou escumalha do pior, resolvi inverter a tendência e lançar uma macacada diferente.

Eu escrevo para vocês:

O filme favorito do Mak é:
Se um dia o Mak escrevesse um livro seria sobre:
A melhor qualidade do Mak é:
O maior defeito (apesar de não existir) do Mak é:
Em três palavras o Mak define-se como:
Se o Mak fosse uma personalidade nacional (mais ainda) seria:


Vocês respondem por mim.

Se não preencherem, não é grave. Prefiro que me doem um rim.

16.6.10

Lenga Longas

Aqui há umas semaninhas, veio a Portugal aquele que é tipo o Papa da organização para a qual viro frangos diariamente. Personagem tipo cromo difícil, como seria típico esperar, revelou no entanto uma perspectiva interessante – tentava passar uma visão idealista.

Digo que isto é interessante porque para chegar ao lugar onde ele está, o idealismo tem pouco a ver com isso. Muita política, golpe de kung fu laboral, jogo de cintura, qualidade e etc e tal. Mas, tal como o alpinista que levou meses a preparar e a treinar para uma subida a um cume difícil, o gajo estava agora num momento de relax, a apreciar a visão no topo da montanha. O tal idealismo depois de camadas de racionalismo empacotado e uns ténis coloridos.

Vai daí, desata a perguntar a todos os presentes naquela reunião a imitar pequena audiência com o Papa “Porque é que quiseste fazer disto a tua vida?”.

O problema neste tipo de questões, quando perante figuras de autoridade, ainda que de uma galáxia distante, é que o idealismo e a informalidade da parte deles não é, regra geral, uma reacção recíproca. As pessoas entendem a coisa como um teste, como algo que tem que ser respondido de modo “brilhante” ou, pelo menos “coerente e racional”, esquecendo-se que o tipo que está a fazer a pergunta daqui a horas vais estar num avião para o outro lado mundo, tentando lembrar-se do nome da cidade que visitou.

A não ser que alguém tivesse dito que tinha querido seguir este caminho para poder sustentar a mãe dele, que era uma cabra de primeira.
O que não aconteceu.

Surgiram verdadeiros épicos de fazer chorar criancinhas como respostas. Queriam mudar o mundo, queriam passar mensagens, queriam mudar mentalidades, queriam fazer as pessoas pensar, queriam trinta por uma linha e um par de botas.
Não duvido que, pelo meio, estivessem ali respostas verdadeiras. Outras foram aquelas que era suposto serem assim. Procuravam o aceno de cabeça positivo, o confirmar que era por ali.

A minha resposta não se ouviu. Estando incluído no grupo dos “cool guys on the back” (por engano certamente), bastou ouvir-lhe a opinião do meu vizinho para tirar a pinta do grupo.
Ainda bem.

Não sei se “Porque gosto de criar e contar histórias, observar reacções e sou bom a dar tangas” fosse propriamente um bom cartão de visita modelo.
Mas seria o meu, a não ser que me ocorresse uma cena com um avô moribundo a exprimir o seu o último desejo nos meu braços. O que iria dar basicamente ao mesmo.

Aspirações a torresmo


Nos tempos da Renascença e não me refiro aqui ao António Sala (apesar deste provavelmente já ser vivo na altura), os cânones da beleza privilegiavam as pessoas de pele mais branca e tom rosado. Apesar da satisfação que me dá usar a palavra cânone, não posso deixar de sentir alguma tristeza por pensar que, muito possivelmente, isso se devia a um certo elitismo em relação ao fenómeno “tomar banho”.

Embora muita gente continue ainda a fazer do banho uma actividade esporádica, os padrões foram mudando e o bronze começou a fazer parte da vida das pessoas. Primeiro dos pescadores, estivadores e outro tipo de gente que sempre marcou os primeiros passos na moda. Se não acreditam, vão ver onde é que o grunge foi buscar as camisas em xadrez e de onde é que vem a história das camisolas de manga cava justinhas.

Depois, quando se começou a perceber que ter um bronze era como ter um Cartão Jovem, mesmo que tivesses 203 anos. Tinhas um ar mais vivaço, mostrava que andavas a aproveitar o melhor da vida, davam-te descontos quando inventavas histórias sobre férias em Papeete quando na realidade o mais perto que tinhas estado da Polinésia foi quando ias ao Bora-Bora e, o teu ar ligeiramente tostado podia até tornar-te uma pessoa mais apetecível.

Finalmente, o bronze tornou-se algo de culto quando se percebeu que era uma actividade de risco, por causa do Sol e daquelas coisas chatas dos cancros da pele. Imagine-se, de dondocas a sopeiras, de badochas a atletas, de Adónis a Toy’s, havia agora algo que os podia unir e mostrar – eu não vivo dentro dos limites, não me conformo com as regras, tenho um Óleo Johnson dentro da mala e não tenho medo de o utilizar. Com o simples custo de ficar estendido algures à torreira, qualquer um podia dizer “Ah, costumas ir nadar com tubarões? Pois eu fico a torrar até ficar com um bronze de fazer corar um leitão no espeto”.

O bronzear , apesar de não ser modalidade olímpica, tem agora tantas disciplinas que não faltam especialistas em várias áreas. Temos o “Bronze à camionista”, “Bronze de solário”, “Bronze da neve”, “Bronze integral”, enfim bronzes para todos os gostos e carteiras.
Depois, existe também o povo-lagosta. Eternamente injustiçado pelo Sol, por mais que tente não chega ao bronze e sofre por isso. Especialmente, porque continua a tentar e aquilo deve doer.

Da minha parte, tenho a consciência e a pele tranquila. Sou moreno de nascença e de cabeleireiro e, apesar de parecer ligeiramente turco no pico do Verão, sou daqueles gajos que com o Sol usa sempre protecção, porque já sabe que não é uma relação segura.

De torresmos e aspirantes aos mesmos não tenho pena, até porque não gostaria de estar na sua pele.

15.6.10

Flashforward da bola

Às 15.00h do dia 15 de Junho de 2010, deu-se um blackout geral de actividade e Portugal parou durante perto de 1 hora e 53 minutos. Durante esse período, muitas pessoas se estiveram a cagar para a sua vida pessoal e profissional só para poderem ter uma visão do futuro da selecção.

Não foi uma visão bonita.

Já Carlos Queiroz não viu nada. O que nele, mais do que um flashforward ou um desmaio, é um hábito.

Azorte do caraças



Já que se vai falando de fitas, na minha opinião (que é bem mais modesta do que eu), esta é uma abertura excepcional para um filme do tio Woody que ainda se torna melhor por ser fora do registo que lhe é mais habitual. Sem tiques lírico-expressionistas de “Ah, isto é a história da minha vida” ou “Que grandes verdades nos transmite” ou “A subtileza das palavras toca-nos na alma por nos dizerem muito mais do que aquilo que significam”.
É mesmo só pelo facto de ser mesmo boa (melhor que a Scarlett e tudo) e fazer aquilo que é suposto a cena de abertura fazer num grande filme – agarrar-te à cadeira desde o primeiro segundo.

Agora que os sentimentalistas já estão todos de beicinho por não ter começado a divagar sobre a maneira como a sorte e o azar moldam as nossas vidas e de como, naquela noite chuvosa de Inverno, se eu não tivesse dito “Foi o destino que nos uniu, mas vai ser aquele eléctrico que lá vem que nos vai separar, até porque ainda tenho que ir entregar umas cassetes”, hoje em dia podia estar no mesmo sítio, mas com bigode.

Há quem acredite na sorte e no azar, há quem diga que a culpa é do Governo. A mim basta-me acreditar que existe um certo grau de aleatoriedade em factores que podem influenciar a nossa vida. Depois, depende de cada um, em termos da importância que lhe vão atribuir e o tempero fatalista que pretendam adicionar à salada que é a vossa vida. Isto sem vos chamar vegetais.

Sem vir para aqui dar uma de filósofo do mundo virtual, associo sempre as pessoas que atribuem demasiada importância à sorte e ao azar a um episódio que se passou num determinado jogo de basket da minha carreira.
Com poucos segundos para acabar um jogo crucial, um tipo da minha equipa vai isolado para marcar o cesto da vitória. Lança, a bola faz um efeito estranho e vê-se que não vai entrar. O tipo ajoelha-se e deita as mãos à cabeça, culpando os deuses, alheando-se do facto da bola ter ressaltado e ficado mesmo ao seu lado. Podia ter feito um novo lançamento, ainda em boas condições e tudo poderia ser diferente. Não o fez e os míseros segundos esgotaram-se. Perdemos.

No próximo capítulo poderia falar sobre retribuição divina que, no caso do episódio que vos acabei de relatar, pode ter-se manifestado no facto desse mesmo tipo ter sido pisado na cara num jogo dessa mesma época lá mais para a frente.

14.6.10

Falta de Nexo e a Cidade

Permitam-me uma coisinha rápida sobre filmes e sobre uma série cuja crítica dá direito a fustigação com raminho de oliveira por esta blogosfera fora.

O segundo filme do “Sexo e a cidade” é a modos que inenarravelmente pasteloso e, como que dizê-lo, mau (na opinião do trolha de serviço). Não porque elas mudem de roupa de 3 em 3 minutos, não porque o argumento (ou a falta dele) seja mais fraquinho que o ombro do Nani, não porque se tivessem de retirar dali muitos ensinamentos, não por ser apenas uma capitalização do franchise e nem sequer por gastar duas horas e meia a contar algo que 90 minutos chegavam e sobravam.

É mau porque banaliza e recauchuta com muito pouca arte os princípios que fizeram da série uma referência para muitas mulheres (e não só). Parece que nos filmes sobrou só a ostentação, a parte fútil e todo um sortido de clichés que, embora pudessem até constar na série, eram aí devidamente espaçados em argumentos traço geral bem construídos para o efeito pretendido. A lógica, embora claramente aspiracional, fez com que muita gente se revisse em certos aspectos da vida das protagonistas e almejasse à outra parte do conto de fadas que aí aparece ou até recriá-la à sua maneira.

Até quem não gostasse ou não fosse propriamente fã, ao ver um episódio poderia encontrar coisas que o levassem a dizer “Olha, já passei por uma parecida com esta”. Porque a vida é feita de relações, encontros e desencontros e havia também sempre um comic relief (muitas vezes às custas da personagem especificamente criada para o efeito), para aliviar partes com menos glamour. Diz-se até que parte do realismo vem do facto de algumas das histórias virem da partilha de episódios por parte das mulheres que integravam a equipa e produção da série.

Nos filmes, em especial no segundo, o realismo e a identificação com a história não interessa. Assistimos apenas à versão pastelosa abarbiesada das personagens, dentro dos estereótipos e arquétipos que já toda a gente conhece, mas sem o valor acrescentado que a série lhes dava
.
Ah, que se lixe, dirão os fãs, é mais uma oportunidade para ver personagens de uma história que nós gostamos. Respeito a opinião, mas para mim é como insistir em continuar a ir comer a um restaurante que já só possui a mesma fachada, mas onde tudo lá dentro é de muito pior qualidade.

Termino referindo que espero que não venha a conversa porco elitista que só vê filmes conceituados, dá preferência a fitas europeias e desdenha do filme mais tosco a puxar à pipoca. Quando digo mal neste capítulo, tento dizê-lo devidamente informado e não pensem que é só pela temática do filme. Por exemplo, digo cobras e lagartos de boa parte dos filmes de super-heróis exactamente pelas mesmas razões. Eu lia os livros e gostava dos personagens pela sua profundidade/personalidade e nos filmes só vejo fachada e efeitos.

Por isso mesmo, quanto muito esqueçam o elitista e tratem-me por Babe.

O síndrome da Makro



Durante estes últimos dias estive ocupado com alguns dos grandes problemas que afectam os portugueses. Sendo mais concreto, essa foi a minha prioridade número 138, o que é também algo tipicamente associado aos portugueses – a sua capacidade de estabelecer prioridades de forma totalmente irracional e, ainda assim, queixar-se disso.

Mas, dentro desses grandes problemas, um deles suscitou-me uma doce memória. Refiro-me, claro está, ao síndrome da Makro. “Então amigo, ainda a inalar vaporizações de loureiro?” questiona o compincha cibernético ao ler estas linhas, enquanto tenta ver quantas moedas de 1 cêntimo consegue colar na testa.
Nada disso, o síndrome da Makro lida com o fascínio tuga pelo açambarcamento e a exposição a grandes quantidades de artigos, das mais diversas espécies, devendo ao seu nome à superfície comercial que constituiu uma febre estranha no seu auge e que hoje, apesar de ainda estar em funcionamento, só deve continuar a interessar a uns quantos profissionais das grandes quantidades.

Mas o que era afinal a Makro? Era, simplesmente, uma superfície comercial virada para os pequenos lojistas que abriu cá nos anos 90, que vendia boa parte dos seus artigos em paletes e quantidades assim para o industrial, a preços ligeiramente mais baixos por isso mesmo. Ou, para o público que almejava o açambarcamento, um oásis.
Não sabendo eu se esta febre era apenas restrita a Lisboa, a verdade é que para entrar na Makro era preciso ter um cartão, que estava na posse apenas de invejados pequenos comerciantes. E, porque o açambarcamento não é para todos, esse cartão dava direito a 1 ou 2 acompanhantes no máximo.

A febre era tal para aceder a esse templo das paletes havia gente que procurava pelo amigo do primo do vizinho da tipa que era da turma para ver se ele emprestava ou cartão ou se podia ir com a malta para, pelo menos uma vez, ver qual a sensaçao de comprar 18 Ice Teas de litro por menos 10 paus em cada embalagem ou um pacote industrial de pastilhas e fazer inveja aos amigos lá de casa.
Depois, chegados lá, mostrando o cartão ao segurança e fazendo cara de quem sabe ao que vai, surgia o deslumbramento de ver caixas e caixas de artigos que estamos habituados a comprar apenas nas mesquinhas quantidades de 1 ou 2 exemplares e que podíamos levar, sem necessidade nenhuma, aos 20 de cada vez. Haveria coisa melhor?

Havia. Pelo meio surgiam sempre umas promoções gigantistas que eram capazes de meter uma televisão de oferta para quem levasse 350 latas de atum Tenório. E era ver o açambarcador de ocasião a contorcer-se e a pensar se seria assim tão mau oferecer latas de atum no Natal à família e amigos.
Com o decorrer dos tempos, o entusiasmo pelo mundo restrito e sedutor da Makro foi-se esfumando em grande parte, mas o desejo de açambarcamento, esse nunca desapareceu. Ainda hoje, na oferta de brindes, no promoção de experimentação, no leve 10 pague 8, há um brilho que desperta na maioria da populaça nacional. É o síndrome da Makro e vive para sempre dentro de nós.

13.6.10

O regresso do Mak vivo

Há muitas coisas que me agradam em regressar de uma viagem satisfeito, especialmente vindo de férias. Primeiro, quando venho a sorrir, está o facto de não me terem partido os dentes todos. Depois, regressar e poder escrever sobre isso também é sinal que não me partiram as mãozinhas.

Depois de resolvermos esta pequena obsessão com partes do corpo partidas e férias, sigamos em frente.

Quando se vai de viagem, para além das expectativas positivas que se possa ter em relação ao destino (tirando se se vai de férias para a praia da Cruz Quebrada ou para a foz do Trancão, pois aí não há nada de positivo a retirar), hoje em dia há todo um outro manancial de situações a gerir.

Se são daqueles cromos pós-modernos que, tal como eu, gostam de marcar coisas pela net, há sempre o factor adicional – espero que isto não dê em trampa. Dos bilhetes de avião ao alojamento, juntem-lhe o aluguer de carro e umas voltinhas de barco, tudo dependendo apenas de uns clicks.

É certo que é a modernidade, mas no meu caso até às coisas se verificarem há sempre aquela expectativa de ver uma cara vazia à minha frente a dizer-me “Desculpe, reserva de quem?”. Até agora, nunca me aconteceu, tirando uma vez um engraçadinho que me fez essa piada. E, se não é a primeira vez que lêem este pasquim, já sabem que em termos de pseudo-engraçadismo, sou muito territorial.

Portanto, mais uma vez, não foi preciso bater na Madeira, no computador e nem sequer no ceguinho.


E, para que do muito mal que eu possa destilar, não possam dizer que sou mal agradecido, fica aqui uma vénia para quem me deu umas dicas madeirenses. Posso dizer que segui algumas e as coisas correram que nem ginjas.

10.6.10

Sobre golfinhos e túneis

Na Madeira há golfinhos. Ou pelo menos havia, até uma população deles dar de caras comigo ontem. COm tamanha figurinha na área, o mais certo é emigrarem para um sítio menos perigoso, tipo Berlengas ou até a Gronelândia.

Mas, mais do que golfinhos, na Madeira há túneis. Muitos túneis. Uma catrefada de túneis. E, se os mesmos fazem todo o sentido, dada a estrutura rochosa da ilha, a piada é ver que o Túnel do Marquês é coisa de meninos. Gajo que é gajo entra é em túneis para ir a sítios tipo Curral das Freiras, que só pelo nome mistura um universo de ramboiada e religião. Agora ir num túnel para as Amoreiras...

O único inconveniente é que vai um tipo a ouvir um fórum em que alguém diz que a história de passar mais férias em Portugal não chega, porque a malta quer é passar a vida a comer camarão e devia ter hábitos mais regrados e o túnel não deixa ouvir o resto.

E isso, meus amigos, não se faz a um tipo do "contenente".

9.6.10

A segunda calhou à quarta

Diz que, num exercício que faria Buda repensar a utilidade da meditação ando para aqui a dizer-me coisas, aproveitando o facto de estar de andar a degustar ponchas ao domicílio.

Segunda verdade.

Não gosto de coisas absolutas usadas ao desbarato. De "sempres", "nuncas", "de últimas vezes", "jamais", "juros" e afins. Mas sou um tipo de certezas e vontades bem definidas.

Só para não andarem para aí a dizer que me contradigo não sei se amanhã aparecer por aqui a Terceira.

Até porque para isso devia estar nos Açores e não na Madeira.

8.6.10

Passatempo do "Contenente"

Vão ganhar a minha admiração e profundo respeito aqueles que conseguirem adivinhar onde estou eu hoje.

(pista, é na Madeira)

7.6.10

Cinco dias, cinco verdades

Como eu não estou cá, vou aproveitar para dizer-me coisas que não tenho coragem de fazer cara a cara comigo mesmo. Só para ver se eu aprendo, que da vossa parte não tenho esperança nenhuma.


Primeira verdade

Quando era pequeno não percebia muito bem a diferença entre ser criativo e ser mentiroso. Vai daí, mentia um bocado. Depois de crescer, comecei a perceber a diferença. Agora sei ser criativo sem mentir e ser mentiroso sem grande criatividade.

Acho que tenho mais problemas.

6.6.10

Tangas em tournée

Sempre me disseram que eu era um bocado tangas.

Sempre respondi que não era bem assim e que uma vez o meu pai tinha ido à NASA e lá lhe tinham dito que eu tinha capacidades especiais e por isso era melhor serem meus amigos, senão lá mais para a frente ainda se arrependiam.

Até que me explicaram que isso era ser um bocado tangas.

Sendo assim, resolvi ir conhecendo outros que fossem como eu. Tipo este.

E pronto, lá fui eu hoje tirar a limpo o que é isso de meter água por todos os lados.

Choramingas no cinema

Há quem diga que é coisa de gaja. Há quem diga que é de ser sensível, o que é o mesmo que dizer que é coisa de gaja, mas com o bónus que é saber usar o recurso estilístico chamado eufemismo. A minha opinião é que chorar no cinema, assim como a ver filmes em geral, é um bocado como chorar a descascar cebolas. Hão-de haver umas alminhas cuja reacção fisiológica, mal aparecem os créditos do filme é chorar que nem madalenas, hão de haver outros tantos que prosseguem indiferentes ao refogado emocional.

Eu sempre achei que chorar no cinema era interessante, quer fosse eu ou quem me acompanhava. Posso até dizer que já por diversas vezes verti umas lágrimas, especialmente enquanto me arrependia de ter ido na conversa de quem me convenceu a ver um filme para lá de miserável. O primeiro filme em que me lembro de ter chorado foi nos “Intocáveis”, ainda era eu uma criança e o Kevin Costner não tinha feito uma porrada de filmes peganhentos. O clip que vai aqui em anexo é a prova do crime, embora eu não tenha chorado pela conjugação da bela área de “Pagliaci” e do Sean Connery feito em picanha. Custou-me imenso foi ver que a piada da medalhinha e do esforço de fé que afinal não é passa um bocado ao lado, por causa do dramatismo. E por isso, chorei.



Já mais velho, percebi que também era de bom tom tentar fazer as pessoas ao nosso lado chorarem, de modo a não estarem para ali a refrear a sua emoção desnecessariamente. Desde aproveitar uma cena mais chorosa para me voltar para o lado com o lábio ligeiramente a tremer, com um ligeiro aceno de cabeça, como quem diz “Eu sei, é natural, estou a sentir o mesmo”, até ao oferecer de um lenço para alguém que está a batalhar com a primeira lágrima, ao género de “Essa barragem não pode nem deve resistir”, tenho feito de tudo um pouco.

Ainda relembro, com saudade, quando a minha turma foi ver “A Lista de Schindler” ao cinema, na aula de História. “Temos filme” disse eu, quando vi a carga dramática a aumentar mais do que o trânsito da manhã na 2ª ponte do Feijó. Ao meu lado, uma moça sensível e prendada, horrorizada com o pérfido Amon Goth e o drama de Oskar Schindler. Aguentou, aguentou, aguentou, até que me inclinei para perto dela e lhe segredei.

“Não há mal em chorar. Só de pensar que isto foi mesmo verdade...aperta o coração e...e... é como se o coração ficasse triste, sei lá” (a eloquência ainda não era a mesma, mas o jeito estava lá)

A seguir, parecia a velha aldeia da Luz a transformar-se em Aquaparque.

Desde então, sou uma espécie de menino da lágrima das salas de cinema, libertando os oprimidos das emoções, onde quer que eles estejam.

4.6.10

Antes de ler isto, vocês já sabiam

No nosso mercado, se há coisa que não falta são videntes. Dos astrólogos encartados e diplomados, ao vasto corpo lectivo de professores africanos com décadas de experiência e pouco gosto para escolher túnicas, passando pela velhinha da aldeia que tem artes no oculto e uma farta bigodaça, ao senhor que viu uma vez um anjo numas papas de sarrabulho e nunca mais deixou de destrinçar os mistérios da vida.

Para além disso tudo, temos sempre os amigos-videntes-com-delay. Este é o tipo de gente que nos disse “Eu quando vi o Sexto Sentido ainda nem tinham passado 10 minutos de filme e eu já tinha percebido que o gajo estava morto”. Curiosamente, o mesmo também se passou comigo, mas só na segunda vez que vi o filme.

Os amigos-videntes-com-delay têm a capacidade inata de prever o futuro, depois de este se tornar presente. Enquanto muita gente tenta adivinhar sobre o que virá, eles adivinham sobre o que já veio. Não é fácil.

Munidos de poderosas dicas psicológicas como “Eu já sabia que isto ia acontecer”, “Eu sempre soube que as coisas iam acabar assim” ou “Estava-se mesmo a ver. Aliás, eu fui o primeiro a dizer”, o amigo-vidente-com-delay não faz nada para mudar o futuro ou sequer alterar o presente. Fica plenamente satisfeito em ir buscar o passado. Curiosamente, a maior parte das vezes, estamos a lidar com pessoas que só põem em prática o seu talento com outros que não os próprios. É como se houvesse uma regra divina que dissesse que não podem usar os seus poderes consigo.

O que é altamente incoveniente, porque assim perceberiam que com aquela conversa de encher chouriços, a futurologia é fácil de fazer – Vão acabar a falar sozinhos ou a receber um pedido para irem depositar os seus bitaites numa parte recôndita da sua anatomia.

Mas isto eu não precisava de dizer. Vocês provavelmente já sabiam.

3.6.10

Prometi, mas não vou cumprir

Eu disse que, depois de ter visto o vosso último concerto em 98, não vos voltava a ver. Mesmo que voltassem.

Não vou cumprir o prometido, mas não fiquem a pensar que é por vossa causa.

Para os mais aborrecidos com o post algo insípido, atentem ao conteúdo desta letra. Tem alguma profundidade e pode fazer-vos ponderar um pouco sobre o vosso futuro. Chega de lamúrias?

Não?

Então, sem fazerem a trafulhice cibernáutica, sempre podem tentar adivinhar em que filme é este vídeo inspirado. Mais fácil só se fosse do Manoel de Oliveira...

2.6.10

Duelo de saltos altos e golpes baixos

Já se tinham visto ao longe. E, nesses eventos, era sempre assim que gostavam de se ver, ao longe. Trajadas a rigor para serem vistas, traziam na ponta na língua o nome do criador do seu vestido, que nunca era o mesmo duas vezes, nem que tivessem de tentar mentir para garantir isso. O mesmo se aplicava ao homem com quem chegavam e ao outro, que era o que tinham em mente na cabeça.

Estavam mais velhas e isso via-se pelo número de operações. No telemóvel, o seu 112 começava por Dr. Qualquer Coisa, Cirurgião Estético. Ainda por cima, as miúdas esbeltas e deslumbrantes, sempre prontas a sorrir para as câmaras com aquele look fresco e pseudo-inocente pareciam andar a crescer como cogumelos.

Por enquanto, chegavam para os gastos. Ainda faziam parte das primeiras listas para qualquer evento e os fotógrafos chamavam sempre pelo nome delas. No entanto, já não o faziam com a mesma frequência e os espaços que lhes eram dedicados em revistas e fofocas não tinham a glória de outros tempos. M

Se uma subia as escadas, a outra ficava no lounge. Se uma corria a sala pela direita, é certo que a outra ia pela esquerda. O porquê de se odiarem já se perdera no tempo. Possivelmente podia nem haver razão nenhuma, mas faltava-lhes a coragem e a vontade de fazer com que as coisas deixassem de ser assim. Além disso, aquela cabra não merecia.

Foi então que os seus olhares se cruzaram de novo. Tinham-no visto ao mesmo tempo, como leoas focadas no mesmo antílope. Não faltava a nenhum evento, sempre com bom aspecto, circulava pela sala fazendo as delícias das senhoras e até de alguns cavalheiros. Às vezes desaparecia misteriosamente, depois voltava apenas para ser de novo o centro das atenções. Nunca ninguém sabia pronunciar o seu nome certo e ele nunca ficava até ao fim das festas. Também, só os desgraçados é que ficam.

Não era de agora, mas ambas tinham uma fixação com ele. Rodeavam-no, abordavam-no com sorrisos e depois de uns segundinhos de convívio ficavam sempre a suspirar por mais.
Hoje não era diferente. Arrancaram as duas ao mesmo tempo na sua direcção, vindas de pontas diferentes do espaço. Uma delas quase que derrubou um daqueles actores velhos que teimava em não morrer, ao passo que a outra teve que se cruzar com a modelo/actriz/instrutora de Pilates do seu 3º ex-motorista da parte do 5º ex-marido.

Nada as deteve. Chegaram ao mesmo tempo, ofegantes e com o coração a palpitar por debaixo do silicone. O empregado mais próximo ficou imóvel como uma estátua e susteve a respiração. Eles já tinham recebido instruções em relação a este tipo de acontecimentos.

Era por isso que ninguém queria ficar com o tabuleiro dos canapés.

Esganadas, mas sem se olharem, à vez foram debicando no tabuleiro, até que só restassem as migalhas mais pequenas. Suspiraram e voltaram costas, com ar de superioridade.

Ele havia de voltar. Voltava sempre.

Horroradores convidados

Ocasionalmente vou a conferências ou a coisas que se assemelham vagamente a conferências. Creio que as pessoas que me enviam pretendem com isso criar mais valias, em aspectos tão incisivos como “um dia sem este gajo aqui ao lado é mais saúde mental para quem fica”. Mas, não pensem que vou como orador, coisa que só fiz uma vez na vida, traumatizando jovens estudantes de forma possivelmente irreversível.
Quem me recebe nas conferências espera apenas o básico da minha pessoa – Quieto, calado e sem enfiar mais de três miniaturas na boca ao mesmo tempo nos intervalos.

O que muita gente não compreende é que a ingestão simultânea de diversas miniaturas permite atingir uma espécie de nirvana na avaliação da capacidade dos oradores. E olhem que aprendi isto depois de observar diversos espécimes durante os períodos de catering, constatando que a iluminação e o conhecimento devem derivar de alarvar o máximo no mínimo tempo possível.

No entanto, não é preciso chegar ao nirvana para perceber que, mais do que o tema, é o orador que faz a diferença. Um bom orador até a falar de batatas cativa uma plateia, é como aquelas pessoas que parecem ter sempre uma boa história para contar apesar da sua vida ser plenamente mundana. O tema pode ajudar, a colocação da voz ou o facto de estar com uma tanga de leopardo e uma rosa na boca, mas no fim de contas é a tua capacidade de transmitir algo de forma empática que te torna um orador de nível.

E depois há aqueles a quem corre mal o dia. Mas desses nem vale a pena falar, para não pensarem mais nisso.

Por outro lado, temos os horroradores, que são gente que sobe ao palanque e conseguem tornar a cura da Sida e do cancro numa banhada de todo o tamanho. E o problema agrava-se quando um horrorador se julga um orador de craveira. Seja pela linguagem corporal, a voz de Isabel Campelo ou pura e simplesmente a falta daquele algo mais que nos deixa a coçar a cabeça intrigados em vez de outras partes do corpo desmotivados, preparem-se para uns minutos penosos. Entre piadas que batem na trave, raciocínios desgarrados, incapacidade de reter a atenção de uma plateia e a forma menos sexy à face da Terra para passar um tema, esta gente podia ser usada pelas farmacêuticas para criar o sedativo perfeito.
A agravar o problema está o facto de, seja pelos cargos, seja pelo seu círculo de influências, os horroradores tendem a fustigar audiências regularmente sem a punição adequada.

Parece-me que o que esta malta que organiza conferências não consegue perceber é que ser bom profissional e ser bom orador são realidades separadas. Tirando no meu caso, que junto as duas e ainda sou bom dançarino de sapateado, bom mimo, bom observador, bom provador de vinhos, bom a aconselhar autocarros, bom ao nível de modéstia e, se fosse atum, bom petisco.






PS – Ser bom orador é como fazer stand up com nível, mas com assuntos sérios e levando as pessoas a aprender algo. Até podes ser um merdas quando desces do palco mas, enquanto lá estás em cima, não deixes que te sintam o cheiro.

1.6.10

Toto-SMS

Antes de mais, o título é dúbio e não é inocente. O propósito do mesmo é dar um certo ar de Totoloto e, ao mesmo tempo, perceber se são totós o suficiente para participar nisto, mas fazendo-o de forma discreta e subtil.

Para que isso resulte, esqueçam a última parte da frase anterior.

Ora então vamos ao Toto-SMS, que é bastante diferente do já conhecido "SMS de totós", coisa que a maior parte das pessoas já deve ter recebido. Aqueles que não receberam foi porque estavam ocupados a enviar as ditas SMS's.
O propósito é sociológico e ao mesmo tempo audaz já que vou partilhar, através de uma consulta ao meu telemóvel, a última SMS que enviei:


"Epá, esquece lá isso. Ainda vou ter q lá voltar, pq passei o dia fora e amanhã até vai apitar. Por isso, ide morrer longe mais o vosso regabofe"


Interessante a minha capacidade de escrever muito e dizer muito pouco. Para além disso, o uso de expressões como "amanhã até vai apitar" e "regabofe" em SMS provam que a minha operadora devia guardar os meus conteúdos para memória futura.

Alguém quer contribuir com a sua última SMS?

PS - Desprezem nomes e locais se quiserem, eu também os iria desprezar de qualquer maneira... É mesmo para um estudo sério da Universidade de Badmington, na qual dou _ursos de Verão.

Ode aos wannabe

No Metro são sempre os primeiros,
Até em xico-espertice patenteada,
Lá vão armados ao pingarelho,
Mas não saem do meio da manada.

Ao volante são ferozes,
Desdenham por tudo e por nada,
Queriam Jeeps, queriam Porsches,
Mas só conduzem um Lada.

Se trabalhamos no mesmo piso,
Ou partilhamos um elevador,
Não se vos pede um sorriso,
Chega bom dia e faz favor.

Passam ao longe no corredor,
De trombil enfastiado,
Se cara de cu valesse ouro,
Não teriam o crédito mal parado.

Pretendem ser craques ou peritos,
Ou porventura damas emplumadas,
A definição certa é traques ou parvitos
E galinhas emproadas.

É na triste sobranceria,
Que procuram ostentar riqueza,
Por muito que digam mal da periferia,
É o seu espírito que não sairá da pobreza.