31.5.10

Se não gostas de ironia, muda de planeta

“Quem não tem princípios, faz tudo para atingir os seus fins”.

Esta frase faz sentido e podia ter sido dita por um qualquer filósofo grego de segunda categoria ou um pensador alemão com problemas de alcoolismo e linha aberta para falar com Deus às quartas-feiras. Mas não, fui mesmo eu que a inventei. Ou então já existia e eu fui preguiçoso demais para a ir verificar.

Se não vos apetecer fazer isso, partamos do princípio que a frase é minha e não entremos em longos debates sobre a minha sapiência.

O que interessa é que esta frase reforça mesmo uma coisa – a vida nesta terra é irónica e se não estiverem aptos a lidar com isso, mais vale irem para o topo de uma serra, todos nus, na esperança que a vida noutros planetas não seja tão inteligente como dizem que é e vos venha apanhar num OVNI.

A definição de ironia é, assim por alto, algo que em determinado contexto dá a entender o contrário daquilo que significa ou uma coisa que resulta exactamente ao contrário do esperado.

É uma espécie de tempero que não estamos à espera, o toque no paladar que às vezes nos surpreende agradavelmente ou, de quando em vez, nos leva a sair em corrida até aos lavabos mais próximos. A ironia é moldura e nunca o quadro, não torna as pessoas em desgraçadinhos, nem os abençoa com sorte e fortuna, é apenas o enquadramento geral das coisas.

Quem me disser que a sua vida nunca teve nada de irónico, só por isso tornará a sua vida irónica. Mais no sentido, é irónico eu não achar que isso era possível e vir agora para aqui lixar-me um texto com essa história.

Quem tiver dificuldade em lidar com isso e não tiver gosto em correr nu serra fora, pode tentar habituar-se no seu dia à dia, pouco a pouco. Experimente usar ironia no diálogo, na escrita, identificar ironias na rua e fazer até algumas em plasticina. É irónico, mas isto pode não servir de nada.

E, depois de ler este fardo de palha todo, o mais interessante é que podem estar a pensar “Como é possível escrever tanto sobre tão pouco e não dizer nada?” É fácil, basta ser-se irónico.

Um bom partido

Há em mim um bocadinho de islandês. Não sendo pelo cabelo louro quase alvo e pelos olhos azuis, nem sequer pelo facto de estar falido, deve ser pelo sentido de humor. Apesar de serem pouco originais (nós já temos governos de cariz humorístico há largos anos), a recente vitória do “Melhor partido” nas eleições autárquicas da capital islandesa é uma piada de alto gabarito. Liderados por um comediante profissional e com o lema “Vamos prometer o dobro e cumprir o mesmo: ou seja, nada”, prometeram toalhas grátis, ursos polares e uma Disneylândia o que, por si só, é um voto da minha parte. Pelos vistos, muitos islandeses pensaram o mesmo.

Ao ver este sucesso, dei por mim a pensar, coisa que evito quando está muito calor porque faz suar, especialmente se fizermos força. E se eu formasse um partido, que poderia eu oferecer às pessoas que fosse tão idiota ao ponto de me tornar uma opção viável?

Vai daí, eis o meu micro-mini-absurdo manifesto, de seu nome – “Re Partido – Se o absurdo for para todos, a realidade é mais fácil de suportar

- Vou começar por despedir toda a gente, em todo o lado. Assim, podemos começar de novo e garantir que as pessoas certas vão para os lugares certos. Por piada, vamos começar pelas pessoas de apelido Cunha.

- Irei permitir o estacionamento nas faixas de rodagem. Deste modo, não só vai ser mais fácil encontrar lugares de estacionamento, como serão os próprios condutores a bloquear as vias nas cidades, o que estimulará os percursos a pé.

- Passará a haver quotas mínimas de gente obesa, feia e com perturbações na fala em programas de televisão. Paralelamente, o cargo de modelo-actor-apresentador, poderá ser ocupado apenas por gente que consiga falar 5 minutos sem fazer olhinhos de carneiro mal morto e não diga “póssamos”, “ir de encontro aos objectivos” e afins.

- Gente sem sentido de humor será proibida de ocupar lugares na função pública. O mesmo se aplica a palhaços que não se apresentem maquilhados dessa forma. Todos os burocratas de carreira terão que cumprir serviço cívico com crianças hiperactivas e consumidores de ecstasy.

- A ASAE terá um novo departamento – a AMEI. Essa instituição terá por fim passar multas a todo o cidadão/ã que use linhas de engate foleiras e/ou fora de prazo. Em caso de engates na rua/noite, o engatador poderá ser rebocado caso o engatado apresente queixa nesse sentido.

- O novo ministro da Agricultura deverá provar que tem o nível 70 no Farmville e experiência diversificada em vários tipo de vegetais, incluindo outros ministros.

- O Facebook substituirá o Diário da República. É certo e sabido que a população compreende melhor a informação através de fotos, videos e frases curtas, do que por decretos.

- Os seguidores deste blog poderão ter cargos no meu staff. Basta que comecem já hoje a colar cartazes com a url do blog e escolham para si um posto que comece por “Técnico inutilmente superior de...”


O resto do manifesto está a ser compilado (nem que seja pelo gozo de usar este verbo).

30.5.10

Só para duros

Como ontem achei que o Rock in Rio seria muito infantil para o meu gosto, usei parte do serão para ver o Wall-E. Homens e máquinas, sabem como é...

Além disso, compensava já em antecipação por não ir ver a noite do metal de hoje...

29.5.10

Pianinho, que aqui há sensibilidade

Depois de ter aqui um senhor japonês a tocar piano, numa peça sublime de um filme que prova que o David Bowie até dá uns toques como actor, acaba-se aqui o mito que este não é um blog sensível.

Aliás, há uma fina linha que divide a sensibilidade da bichanice desenfreada. "Como é que sabemos que, afinal de contas, não estás a escrever este post com umas calças elásticas rosa eléctrico e uma manguinha cava a dizer Let's get physical?"

É fácil. Se o vídeo fosse de uma tipa a tocar harpa...

28.5.10

Quando vocês não estão a ouvir

Curiosamente, é também isto que eu digo muitas vezes quando acabo de colocar um post e sei que ninguém me está a ouvir.

Miley Virus

A mãe de todas as Floribellas vem aí e as criancinhas já salivam. E o Colombo vai ter uma sessão de autógrafos que me cheira que pode descambar numa luta de titãs entre pais enervados, miudagem exaltada e guincharia capaz de ser usada como arma de extermínio de tímpanos em massa.
Os tradicionais bandos de mitras que habitualmente pululam no Colombo já decretaram tolerância de ponto nesse dia, visto não quererem arriscar confrontos com as hordas de palmo e meio que não se vão deter por nada.

Depois será a apoteose. Na Bela Vista, milhares de pais arrastados irão peregrinar com os seus rebentos, qual visita papal, mas com o Bento a ter a vantagem de não cantar. Por um dia vender-se-ão mais Coca-colas e laranjadas que cerveja e o espaço de dance music poderá passar mais vezes um remix do “Fantasminha Brincalhão” do que qualquer outro êxito das pistas.

E ao fim de 15 minutos de concerto, vão começar as birras e o sono. E o divertimento que é atirar um torrão de terra à cabeça do outro miúdo em vez de ver o concerto. Ou juntar um grupo de amiguinhas para falar do escândalo que foi o guitarrista dos Tokyo Hotel andar para aí a usar Viagra que nem um maluco.

Anda Montana, canta mais uma.
E os papás a verem o dinheiro gasto no cavalo errado, quando podiam ter ido ver a jeitosa da Shakira. E algumas mamãs solteiras a pensarem que se os putos conseguirem ir sozinhos para casa a noite não tem necessariamente que estar perdida.

E a Milinha vai dizer que adora Portugal.
E o Yannick Djaló vai olhar para a sua Luciana e pensar “Epá, o Miguel Veloso bem me disse para não me precipitar. Mas na altura pensei que estava a falar do penteado...”

27.5.10

O dilema das meias de seda

Tinha passado horas a olhar para as malfadadas meias. Agora, já não tinha a certeza de nada. Não sabia o que pensar daquelas meias, nem sequer sabia se eram as mais indicadas para o que pretendia. No entanto, nos filmes já tinha visto grandes estrelas a usá-las com grande impacto, fazendo cenas de suster a respiração e deixando meio mundo de boca aberta ou apenas uma pessoa, quando era essa a sua intenção.

A verdade é que já duvidava um bocado da sua sanidade mental. Nunca tinha pensado em fazê-lo por dinheiro, ainda por cima com várias pessoas, mas era a isso que a sua vida tinha chegado. Ou então, a sua vida não estava assim tão mal e esse era apenas o caminho mais fácil. Só uns minutos com a consciência desligada e não tinha de se preocupar com estas dúvidas.

Passou a mão pelas meias vagarosamente. O toque sedoso e ao mesmo tempo irregular fez-lhe crescer aquela sensação de que o que ia fazer era vulgar e ordinário. O facto de estar a pensar em qual seria a sensação de uma barba a roçar nas meias também não ajudou.

Não ia haver música, diversão, muito menos abraços carinhosos. Se a coisa corresse como não queria ia ser à bruta, com algemas à mistura e marcas no seu corpo. Em silêncio abraçou-se, procurando a segurança e o amparo que ninguém lhe podia dar.

Estava na hora, suspirou e deixou-se de hesitações. De uma vez por todas ia ficar com o proveito para além da fama. Abriu a porta e pensou “Dê por onde der, não há uma toilette ideal para isto”.

Pôs a meia na cabeça antes de entrar no banco. Aquela merda prendia mesmo na barba.

Rói-te de inveja Perna de pau


Sem pensar muito posso dizer que, possivelmente, o mais perto que estive de uma relação homossexual foi com um tipo deficiente de barba, ainda assim viril e com um pacote que sempre me atraiu. Refiro-me, é claro, ao Perna de Pau e não tenho vergonha em dizer que o tenho andado a comer ao longo dos anos e que me tem sabido bem. A ele também não lhe deve ter feito mal, já que continua com o mesmo ar desde que o conheci.

A verdade é que, desde Terça à noite, quis o destino que eu soubesse o que é ser um Perna de pau. Não por ter passado a ser alvo do afecto de um marmanjão com a mania que é engraçado, mas por ter levado uma real biqueirada entre os gémeos e o tendão de Aquiles.
Haviam de ver o estado da bota responsável por tal acto traiçoeiro. Pelo que sei, ficou em estado de choque, recusa-se a ser calçada de novo e já se tentou enforcar com os atacadores. As botas de basket são, de facto, umas mariquinhas de primeira.

A verdade é que a minha condição de coxo, me tem permitido ver o mundo noutra perspectiva. Uma perspectiva essencialmente lenta e vagarosa. Ainda hoje, nos 50 metros que separavam a paragem do BUS do burgo em que exerço o meu mester, fui ultrapassado por um idoso de andarilho, dois cegos a fazer moonwalk e por uma simpática estátua de um militar condecorado, que ainda teve tempo de recolher um Destak.

No entanto, o verdadeiro regabofe é no local de trabalho. Já se sabe, um deficiente, tal como um bom decote, um bêbado, alguém de novo ou alguém despedido, são sempre bons alvos para conversa de corredor, bitaite de ocasião e graçola de trazer por casa.

Durante os últimos dias, em poucas linhas, ouvi tipo: “Então, ontem conheceste um empreiteiro e ele deu-te um andar novo?”, “Então Mak, andas a dormir ou és sonâmbulo?”, “Se o Mak precisar, alguém lhe dê uma perninha se faz favor”, “Então, ela pediu-te para seres o seu Perna de pau?”, “Ó Mak, este projecto, ao contrário de ti, tem pernas para andar”, “Mak, são 10.30, podes ir andando para o almoço que quando sairmos à uma apanhamos-te na recepção” ou “Se eu der um abracinho ao Mak vai parecer que estou no Natal dos Hospitais?”.

Traço geral, as minhas respostas não são replicáveis neste espaço, até porque sei que os “Super Miúdos” retiram daqui muita inspiração para enfrentarem adultos gananciosos.

Por isso, caro Perna, bem te podes roer meu pirata, que eu não preciso de me andar aí a vender por tuta e meia e a ser comido por quem calha para andar nas bocas do mundo. Basta-me continuar a ser parvo o suficiente para não desistir de me armar em artista do desporto mundial.

Contracepção oral

Simples, eficaz e barato.
Um apontamento de luxo, que nunca me canso de ouvir sem deixar de rir.

26.5.10

Vou dar uma de insular



Dizem que se deve bater na madeira para afastar o azar. Achei que o expoente disso seria ir à Madeira e bater em tudo o que se mexa. Assim sendo, devo ficar livre de azares pelo menos até à idade da reforma.

A verdade é que nunca fui aos principais arquipélagos nacionais, mas a contrabalançar esse facto tenho no currículo as Berlengas, ilha da qual trouxe boas recordações e uma gaivota (don’t ask). No entanto, a maior estranheza desta circunstância de não peregrinação insular deriva do facto de eu estar habituado a rodear-me de gente que mete água por todo o lado, algo sempre bom quando nos queremos convencer que temos algo de genial. Visitar uma ilha deveria ser considerado trabalho específico nessa matéria.

Além disso, acredito na teoria da retribuição divina, pelo que depois de uma catástrofe natural, à Madeira, mais do que iniciativas solidárias e campanhas insípidas, faz falta o Mak, nem que seja para lhes provar que às vezes a Natureza também traz coisas boas do céu.

Também não queria deixar de dar oportunidade ao Alberto João de ter a pisar o mesmo solo que ele alguém com a capacidade de debitar ainda mais alucinações por minutos e sentir-se bem acerca disso. Sem precisar de disfarces carnavalescos. E aproveitei que o Ronaldo não vai estar por lá para não causar ao rapaz a estranha sensação de ser apenas a segunda maior vedeta na sua própria terra. E vamos ficar por aqui, que eu não sou de me gabar.

Não chorem, ainda não é já amanhã, mas vejam isto como uma oportunidade para mostrar que são pessoas viajadas, que são ilhéus de nível ou, simplesmente, malta que viaja muito na net e gosta de mentir.

É que, sendo eu uma mente aberta (de 2a a 6a, das 9 às 18, sem pausa para almoço), estou disposto a ouvir algumas dicas de coisas que não devem perder a oportunidade de serem conhecidas por mim. Mas não dêem baile, que parece que por lá já há quem o faça e bem...

25.5.10

O poder da carta de condução


Espalhados pelas tribos e povos que habitam este mundo existem muitos rituais de iniciação à maioridade. Uns envolvem ferros em brasa, outros acasalamentos com focas, deverá haver mais uns quantos que lidam uma mutilaçãozinha á moda antiga e, pelo meio, há Portugal, onde o “ir às meninas” já não é aquilo que era e o “ir aos meninos” ainda dá, pelo menos, uns processos em tribunal.

Por isso, desde há já uns valentes anos que um dos rituais mais básicos e tradicionais é o chamado acto de “vais tirar a carta de condução”. Por norma, começa algures entre os 16 e 18 anos para machos e fêmeas e pode assumir variantes. Ou é pago pelos paizinhos ou é prenda do avô Armindo e da avó Graciosa, ou vem do suor do trabalho na TelePizza ou do suor depois do assalto à TelePizza. Pode ser prenda de entrada na faculdade, suborno para não fugir com o Carlão ou até descargo de consciência depois de apanhar o papá (ou a mamã) com o leiteiro (ou a leiteira). Pode vir com um carro atrás de prenda no dia a seguir ou ser uma prenda depois uma noite atrás no carro no dia anterior.

As razões não interessam. Traço geral, mal chega a idade, está na hora de ter a carta.

Olha, o palhaço moralista hoje vai dizer mal de quem tira a carta assim que pode.
Errado, o palhaço moralista hoje está de folga e eu tirei a carta mal fiz 18 anos. Agora, se quiserem adivinhar, ali no meio do molho está a razão exacta na base desse feito.

Sempre gostei de testes de escolha múltipla, possivelmente por condizerem com a minha personalidade. Por isso, a parte do código foi canja. No dia do exame suei bastante do bigode, mas porque a porra do sítio tinha o ar condicionado avariado. Apesar de estar convicto que tinha passado, fui o último a sair da sala. Depois de a D.Virgínia ter sido aconselhada a voltar lá pela 7a vez, pois desta só tinha falhado 5 regras e 4 sinais. Ou o Sr. Mamadu se queixar que não era por não saber o código, era por não perceber bem português. Fui o último, quando a mulher que tinha anunciado quem tinha passado fechou a pasta e só depois se voltou, satisfeita com a piada, dizendo “Ah, também tenho aqui a ficha do Sr.Mak”. O Sr. Mak gostou tanto que, ao chegar ao pé dela replicou “Piadinha do c..., hein”.

Durante a parte da condução, tive sorte. Calhou-me um instrutor beirão, com sotaque típico e humor de luxo. Desde razias a prostitutas gritando “Cuidado com essas p.... que não valem o arranjo do espelho”, às travagens a fundo sempre que qualquer gaja jeitosa se aprestava a atravessar a rua – “Mas ela não estava na passadeira...”, “Ó rapazinho, quando a gaja é boa, há sempre uma passadeira”, não faltaram momentos também para explicar a condução e as regras de sobrevivência no asfalto de Lisboa. Isto pelo meio de uns murros na buzina, insultos à escola de condução pelo estado dos carros e ocasionais entregas para a mulher do senhor.

Chegados ao exame, havia sempre a escolha: DGV ou privado. Na DGV vivia o mito dos monstros, os engenheiros do Inferno que só se sentiam bem a chumbar pessoas e a aterrorizar gente em exames. No privado, por mais uns bons cobres, e era a tolerância e a paciência de só chumbar homicidas ao volante no exame.

Aí começava a maioridade. Ou o inferno dos exames repetidos e do adiamento da cerimónia de conduzir um carro lá em casa..

Teimoso como sou, fui pela DGV e tive de ficar raivoso para ficar com a carta. Aos 18 anos, estava feito um condutor adulto. Quanto ao resto, um bandalho infanto-juvenil de primeira.

Até hoje, ambas as premissas se mantêm.

24.5.10

O perfil esquecido

Não cabia no post anterior, mas das do título também já vi umas quantas. Já os tipos vestidos de animais, têm uma atitude ultra-liberal.

Ser mulher

Comecemos pelo seguinte. O que vou dizer a seguir tem a validade de um ponto de observação, tal como se eu dissesse “se eu fosse astronauta”. Como não sou, não posso validar o que quer que seja.

Se eu fosse mulher não podia ser como sou. E não me refiro à barba, aos pelos nas pernas e toda uma outra logística associada. Ok, isso também.
Ser mulher nos dias que correm é, pura e simplesmente, um quadro diferente. Nem que seja pelo facto de não se ser homem.

Nas gerações anteriores à minha, havia um papel definido para a mulher. Num mundo dominado por machos, esse papel era delimitado pelos (pre)conceitos vigentes da fada do lar, da mãe extremosa, do virtuosismo mais recatado e do aceitar desse destino como uma verdade absoluta, mais do que algo passível de ser contestado.
Como em tudo, existiam vozes femininas dissonantes, que queriam algo mais e foram mudando algum do status quo e avançando pela libertação da mulher, em prol de um futuro mais nivelado entre sexos, nos mais diversos aspectos. E isto não as tornava a todas revolucionárias e feministas extremistas. Nalguns casos, eram apenas manifestações de mulheres à frente de seu tempo, que passo a passo traçavam caminhos diferentes para os seus filhos e filhas. Sim, porque a educação de um homem baseada em princípios de igualidade é tão fundamental como o despertar de uma consciência feminina.

Chegados aos dias de hoje, traço geral, a mulher está diferente e, se fosse um partido, podia dizer-se que se dividiu em várias facções, em termos de atitude perante a vida. Assim, sem ser muito detalhado, podemos encontrar facções assim:

Moderna – Assumindo os princípios de uma nova geração, não se revê nos padrões antigos. Acredita que há uma maior igualdade, mas que a balança está longe do equilíbrio. Assume-se como liberal, mas possivelmente só em certos aspectos, apesar de saber por norma como se comportar entre linhas. Não tem um comportamento estanque e, por vários factores, pode mudar para uma das outras facções.

Moderna Liberal – Partilha as bases da facção anterior, mas tem uma atitude mais liberal. Joga ombro a ombro com o homem no seu quotidiano, mas tem a noção que no global, enquanto não houverem mais mulheres a pensar assim, o equilíbrio poderá ser apenas pontual. É liberal no discurso e na atitude, mas não tem de ser extremista. Dificilmente passa a conservadora e defende aguerridamente os seus princípios. Nalguns casos, pode tornar-se ultra liberal.

Moderna/Liberal Cor-de-rosa – Gosta de se ver como uma mulher moderna, actual e até liberal, não tanto por convicção absoluta e mais por reflexo. Na realidade, embora tenha um pensamento e atitude alinhados com essas mulheres, partilha-o com uma visão idealizada de uma vivência cor de rosa, muitas vezes inspirada na ficção televisiva/romanceada. Tão depressa pode assumir um comportamento liberal, como a seguir assumir um comportamento aspiricional de cariz mais conservador.

Ultra-liberal – Abraçou a modernidade e o liberalismo, mas equalizou-se ao homem em diversos aspectos da linha de pensamento o que a torna, até certo ponto, similar em termos comportamentais, com as vantagens e defeitos disso mesmo. É condenatória em relação à mulher conservadora e acha que ela é que está lá, face aos dias de hoje. Tanto pode ser uma revolucionária, como ter uma atitude wtf e ser egoísta. Pode oscilar entre liberal e ultra liberal, mas é a sua personalidade que vai definir o seu ultra-liberalismo.

Liberal de Fachada – É uma mulher moderna qb mas o seu discurso é sempre mais liberal do que o seu comportamento. Defende o liberalismo e pode ser condenatória das mulheres mais conservadoras, embora a sua atitude não seja disso um reflexo. Pode às vezes ser até ultra-liberal em termos de discurso e não ter prurido em gabar-se de o ser, embora raras vezes alguém a tenha visto comportar-se dessa forma na sua vida pessoal. Tendencialmente, está mais próxima do conservadorismo.

Moderna conservadora – Não sendo igual a mulheres de gerações anteriores, nem querendo replicá-las, já que têm uma visão mais moderna do mundo, têm no entanto um ligeiro apego superior a valores e comportamentos tradicionais. Não são retrógradas e são tolerantes, mas em certas aspectos não se identificam com algum liberalismo feminino com que convivem. Podem deixar de ser conservadoras ao longo da vida, mas dificilmente serão ultra liberais.

Ultra conservadora – Reagem com extremo negativismo ao liberalismo feminino, embora se gostem de assumir como modernas. Atribuem isso ao facto de haver uma perca de valores nos dias que correm e, sem dizerem abertamente que antigamente é que era, pois também não pensam exactamente assim, também acham que hoje em dia, a mulher liberal é um mau reflexo do que é ser mulher. Podem ou não ter alguma abertura de pensamento e passarem apenas a conservadoras, mas isso não mudará a sua visão do mundo em muitos aspectos.

Isto são coisas genéricas que se retiram da convivência e observação, não sendo obviamente moldes ou bidões para meter pessoas lá dentro.

Pronto, agora vou só ali para um abrigo nuclear e já volto.

23.5.10

Rádio Gagá

Gosto de rádio. Não tendo tanta afinidade com o elemento químico, refiro-me ao rádio enquanto elemento difusor de música, informação, etc. E, embora vos vá dispensar de umas quantas linhas galantes acerca dos mistérios e sedução das grandes vozes da rádio, de episódios marcantes que se passam ao som de melodias radiofónicas ou de debates e reportagens que moldam consciências, posso dizer que é de um pequeno etc que vos vou falar.

Chama-se "spot de rádio" ou, como é também comum definir, "os anúncios de publicidade que passam nos intervalos da música e da informação". Uma boa parte do que se ouve é mau ou, pelo menos, tão insignificante que não passam de 20/30 segundos que nem chegam a fazer parte da nossa memória. Mas, para quem ouve rádio e possa apreciar, contar uma história que te capte a atenção em 20 segundos para depois passar informação sobre dado produto ou serviço não é fácil. É preciso ter arte.

Quando a coisa resulta bem, há frases e expressões que ganham vida para além dos segundos que estão no ar e passam a fazer parte do nosso quotidiano. Quando a coisa é horrível, curiosamente isso também pode acontecer.

Se quiserem exemplos bons, procurem-nos em blogs da especialidade ou peçam com jeitinho que eu digo. Para os casos piores, fica só um exemplo recente que já tive oportunidade de ouvir várias vezes, mais por força das circunstâncias do que por masoquismo.

Num ambiente de festa ouvimos um jovem a dirigir-se a uma rapariga e dizer-lhe algo como "Desculpe, mas é mulher mais deslumbrante desta festa. Posso oferecer-lhe um café?". Ela responde-lhe tipo "João, sou eu a Ana. A tua namorada...". A voz de companhia diz-nos então que a Ana já foi a um centro fashion qualquer e por isso é natural que esteja deslumbrante.

Armaram-na bonita. Não só é incoerente, como é muito pouco plausível. Desde um tipo que aborda alguém numa festa conjugando "deslumbrante" e "posso oferecer-lhe um café", como está a tentar bater um couro a alguém que julga não ser a sua namorada, ainda por cima num local onde a mesma pode estar. A reacção dela, também é muito natural. Numa situação normal uma mulher relembraria que, de facto, era a sua namorada que ele não reconhece. Mas por meio de um golpe de ninja bem aplicado num sítio que deixe marcas.

Talvez o centro de estética também faça cirurgia de recuperação facial...

22.5.10

Guarda-Redes sociais

Gosto muito de redes sociais. São boas para descansar, para ir à pesca e para uma constante parafernália de novidades e emoções, por parte de amigos, conhecidos, gente vagamente familiar e desconhecidos à procura de calor humano.

Mas, como o nome indica, são redes. E não se usa essa palavra apenas no sentido positivo.
(vide droga, prostituição, meias)

Como tal, experimentem usá-las como o vinho. Com moderação...

21.5.10

Um (mal)Criado ao vosso serviço

Creio que ontem no Metro apanhei uma virose qualquer de altruísmo e boa vontade. A coisa já se manifestou à noite quando ajudei uma velhinha a carregar as compras do Pingo Doce até à porta de casa, em vez do tradicional que é fugir a correr com os sacos.

Hoje de manhã, a coisa estava grave. Fiz mais boas acções desde que me levantei do que no ano inteiro até agora, o que me deixa claramente preocupado. Mas, tendo em conta que eu até acho piada ao "My name is Earl", resolvi capitalizar a coisa e despachar já isto tudo até à próxima década, se for possível.

Por isso, se houver alguma coisa em que vos possa ajudar, disponham. O resultado pode não ser exactamente igual ao que pretendem, mas nisto de ser prestável a intenção é que conta, não é verdade?


O que eu já fiz de bom desde as 9.30 (em actualização)

- Dei ideias para um projecto que gostava de ser eu a fazer, mas não vou ser.

- Não fechei o elevador na porta de alguém que correu para o apanhar, ao contrário do que é costume.

- Aceitei uma crítica comportamental da S* sem lhe ameaçar riscar o carro ou partir-lhe as rótulas.

- Inspirei a Gingerbread Girl (fico contente por ser hoje, mas a verdade é que passo a vida a inspirar pessoas)

- Elucidei a Margarida sobre o significado da palavra "capanga".

- Corrigi um link errado a pedido de outra Margarida.

- Dei uma pequena lição de Sociologia a uma Borboleta, introduzindo Max Weber numa perspectiva teológica.

- Avancei um pouco, numa fase conceptual, sobre algumas premissas de naming a pedido da Miss

-

20.5.10

Composições

Quando eu era pequenito, no formato de criança angélica de caracolinhos irreconhecível no biltre dos dias de hoje, gostava muito de composições. Primeiro que tudo, porque eram portas abertas à imaginação e, em segundo lugar, porque me permitiam tornar a minha vida muito mais interessante. Os temas eram sempre tão previsíveis que, de antemão, já era possível pensar em alternativas muito mais entusiasmantes.

Como tenho uma memória fantástica, ao longo do dia de hoje vou mostrar-vos alguns exemplos das composições que me garantiram altíssimas e consultas periódicas no pedo-psicólogo.

Composição sobre as férias

“Gosto muito das férias. É das poucas alturas em que o papá deixa sair o avô Carlos do armário para arejar. O avô Carlos é muito caladinho mas cheira mal, mas a mamã diz que ele não tem a culpa, que é tudo por causa de ele ter morrido há quase um ano, mas o papá diz que ele fica connosco até o Sporting ser campeão outra vez.
A prima Virgínia vem sempre connosco quando vamos à praia da Cruz Quebrada e gosta de jogar às raquetes comigo. É giro e ela esforça-se muito, mas acho que se ela não fosse cega nos íamos divertir mais.

A mamã não usa parte de cima do fato de banho e isso faz-me um bocadinho de confusão. É que depois fica sempre a queixar-se que não bronzeou a barriga por causa da marca das mamas. O papá não diz nada, mas ele também não liga muito à mamã e fica o tempo todo a olhar para o mar e a ver para que lado é que a maré arrasta o avô Carlos. Depois lá vai ele a nadar buscá-lo para a areia. Diz que foi assim que aprendeu a nadar, mas agora por causa disso eu tenho medo da água.

Mas o que eu gosto mesmo das férias é que posso ter mais tempo para brincar com o meu cão Robbi. Já o ensinei a rolar, a fingir de morto e a abrir a tampa. Os meus amigos dizem que ele não é um cão, que é uma lata de cola industrial. Mas depois vamos cheirar o Robbi, ficamos contentes e já não discutimos mais.”

Crime e cantigas

Passava a vida a fazer assaltos e a ouvir música brasileira. Juntou o melhor de dois mundos e começou a roubar pessoas com um canivete Sangalo.



(se eu repetir esta em todas as plataformas sociais que tenho ao meu dispor, eventualmente irá dar resultado)

19.5.10

A vida feita num postal


Olhou à sua volta e viu-se rodeado de felicidade. Daquele tipo de felicidade de cartão que se pode encontrar em festas de aniversário, ocasiões especiais, junto de amigos e pessoas queridas e a servir de tempero insípido a juras amorosas e despedidas sentidas.

Ele era o mestre dos postais inspiracionais, mas faltavam-lhe palavras para inspirar a sua própria vida.

Depois de anos a escrever mensagens que tocaram o coração de muitos e a carteira de ainda mais uns quantos, já não se sabia expressar de outra forma. O que começara por ser uma brincadeira, passara a ser um biscate ocasional, depois uma ocupação a tempo e inteiro e finalmente um império era agora um fardo. Fardo esse que carregava com as mesmas mãos que tinham escrito algumas das frases mais impessoalmente tocantes que o mundo já vira.

O seu sofrimento crescia à medida que já não conseguia simplesmente convidar amigos para jantar, mas sim “Juntar num momento eterno a alegria que é partilhar uma amizade sincera, com aqueles que nos ajudaram a moldar e a enriquecer o coração ao longo da vida”. Para ele ir ver um filme não era ir ao cinema, era “Pausar a realidade que, qual âncora, nos impede de largar amarras e sonhar mais alto e entrar num universo onde a sublime imaginação humana chega para nos dar asas”.
Não tinha por onde fugir, a sua forma de expressão era apenas uma extensão do postal vivo em que se tornara a sua vida. Ir lá abaixo pôr o lixo? Não, o que ele ia era “Tornar a amálgama que sobrevive ao esforço da nossa existência num gigante adormecido que um dia virá relembrar que o universo retribui o que nele projectamos”.
Que tal se nos fôssemos conhecermos melhor? Bem, “Quero que possamos cavalgar juntos rumo a um pôr do sol eterno pintado em tons de amor, em que o teu sorriso faça esse mesmo sol corar de inveja”.

As suas escolhas oscilavam entre ficar mudo e calado e tornar cada momento da sua vida numa barbaridade metafórica que transpirava felicidade gordurosa. Na verdade, ele não conseguia ficar mudo e calado, mas sim “Fechar em si mesmo a nuvem escura que o atormenta, sem sequer deixar que uma lágrima transborde do temporal interno que o fustiga”. E isso dizia muito de quem já não podia dizer nada.

Durante algum tempo tentou de tudo: novelas, claques de futebol, ir a tabernas, viver em tabernas, trabalhar na construção civil e chegou até a sair várias vezes com uma cabeleireira de Paiões. Nada serviu para lhe embrutecer o espírito e a maneira como se exprimia e, no final de contas, o que retirou destas experiências foi que “Viver na simplicidade de espírito é uma benção que escapa a todos aqueles que aspiram a uma grandeza simplesmente redutora”.

Só lhe restava um caminho para acabar com esta sentença feita de sentenças - o suicídio. Ou, como ele lhe chamava, “O ponto final numa frase rica e sonhadora que, por entre vírgulas, exclamações e interrogações, deu sentido a toda uma existência”.

O problema foi a nota. Incapaz de se decidir sobre a melhor maneira de se despedir e sendo incapaz de o fazer sem se despedir, todos os dias escrevia algo tão maravilhoso que lhe parecia um desperdício deixar o mundo numa nota tão feliz e singularmente tocante.

E assim sendo, ainda hoje continua a mandar postais.

Catálogo de sonhos

Há algo em mim que me faz gostar de catálogos sui generis. Esqueçam portanto exemplares convencionais, como os que são oferecidos pelas gasolineiras ou desfiles de páginas de roupinhas sem sal. Nesse capítulo, a excepção está a cargo da LaRedoute, que desde petiz me fez questionar os adultos à minha volta sobre o porquê do sorriso da senhora com o massajador facial na mão. E porque é que o massajador facial preto era maior...

Mas adiante, porque os catálogos que me fascinam realmente são aqueles que contêm espécimes fabulosos que raramente vemos na realidade (e não meus caros, o catálogo da Victoria’s Secret não é bem aquilo a que me refiro). É no recato das páginas do D-Mail, essa nobre instituição que, para nosso deleite, combina criatividade, imbecilidade e objectos mundanos para nos dar páginas e páginas de gargalhadas continuadas.

Quem nunca ouviu falar do suporte-vaquinha para telemóvel, que muge quando pressente a chegada de uma chamada, do porta-bananas para proteger esta delicada peça de fruta de perigosos embates ou da câmara falsa de borracha para dissuadir assaltantes de casas é porque anda a perder muita coisa boa da vida.

Ainda ontem uma simpática jovem correu para Mak sorrindo, trazendo nas mãos um exemplar do catálogo. Ela sabia que ele iria gostar e não se enganou. Especialmente depois de ele perceber que a sabedoria tem muitas formas de se manifestar. Incluindo na versão mocho insuflável.



PS – Para os discípulos de São Tomé, a versão física da loja encontra-se no Campo Pequeno.

18.5.10

Por isto é que eu acho que sei dançar

Sempre que hesito no passo, que o meu corpo parece que não vai acompanhar a batida e que o ritmo parece fugir de mim, penso neste vídeo.

Depois, agarro no meu cinto e digo para mim mesmo "Tu não achas que sabes dançar. Tu tens a certeza".

Direcção Geral dos Objectivos de Vida

Aquele postal em cima da mesa não podia ficar ali para sempre. Chegado a casa há mais de uma hora, pousara-o e ficara a olhar para ele. Vinha da Direcção Geral dos Objectivos de vida e ele sabia que aquilo só podia significar uma coisa. Decidiu-se e começou a abri-lo muito devagar, como se pudesse retardar o que lá vinha escrito.

“Caro Senhor,

Amanhã irá atingir o seu 40º aniversário. Ao abrigo da lei vigente, cumpre-nos informá-lo que até ao momento não dispomos de qualquer registo em relação à realização de qualquer um dos três objectivos de vida mandatórios para cada cidadão. A não apresentação de prova de cumprimento de, pelo menos, um deles até ao final do dia de amanhã irá determinar a extinção dos seus privilégios de cidadão. Deste modo, a ausência de confirmação da sua parte resultará na sua despromoção a cidadão de segunda.

Gratos pela sua atenção.

D-GOV


Merda. Ele não sabia que havia um controlo assim tão apertado. Desde que o Governo tinha instituído as categorias de cidadão que os objectivos de vida começaram a ser mandatórios e com prazo estipulado. As pressões ambientais justificavam o “plantar uma árvore”, as necessidades de rejuvenescimento da população traduziam-se no “ter um filho” e a iliteracia crescente era combatida pelo “escrever um livro”. Para os cidadão de segunda isto era um incentivo à subida de categoria, que só se verificava pelo cumprimento dos três requisitos, para os de primeira (por nascimento) era um aviso e uma sentença pendente.

Ele estava, como se diz na gíria, a suar do bigode. Quase quarentão e bem apessoado, tinha levado a vida sem grandes preocupações nessas matérias achando que, pura e simplesmente, um dia iria assentar. Entretanto, o preço de plantação de árvores tinha atingido um preço astronómico e mesmo quem tinha conhecimentos, raramente possuía dinheiro para árvore+terreno de plantação. Até porque, por essa altura, raros eram os cidadãos de primeira que não chegavam aos 25 anos já endividados até ao tutano.

Bem, talvez pudesse escrever um livro...Rapidamente se apercebeu que escrever um livro num dia não era o mais difícil. Difícil seria fazer que o Comité de Determinação de Objectivos Literários o aceitasse como tal. É que, nos últimos vinte anos, a produção literária aumentara de modo tão gravoso que tinham sido impostos limites e barreiras. Antes da efectivação dos mesmos, quase todos os blogs tinham sido convertidos em livros, não havia figura pública que não os tivesse e qualquer desgraçado já tinha vendido o seu relato de vida. Até os analfabetos já tinham ditado e editado os seus livros.

Restava-lhe ter um filho. Bem, mulheres já ele tinha tido com fartura, mas achava que um filho era uma âncora que ele não estava disposto a lançar.
Cidadão de segunda...
Bem, talvez uma âncora não fosse uma coisa tão negativa. E, de repente, pensou nela. Eram vizinhos, conheciam-se bem, tinham saído muitas vezes juntos. Na verdade, já tinham feito muita coisa juntos e havia uma clara empatia. Ela era uma viúva muito jovem, pois o marido, na ânsia de cumprir os requisitos para ascender a cidadão de primeira, tinha sido esmagado por uma árvore que tinha acabado de plantar e à sombra da qual se tinha sentado a tentar escrever as últimas páginas do seu livro.

Grávida na altura, foram-lhe concedidos estatutos honorários, em função da desventura conjugal. Criara a filha com dedicação e, mesmo quando saía com ele, só o fazia depois de garantir que ela ficava bem cuidada. De certa forma, ele sabia que ela estava à espera dele.

E ele fizera-a esperar. Talvez fosse altura de andar para a frente

Bateu-lhe à porta, embaraçado. Disse-lhe que amanhã fazia anos e ela sorriu. Entrou e acrecentou que só havia uma prenda que queria – ela. Embora tivesse deixado cair algumas lágrimas, não pareceu surpreendida. Abraçaram-se.

Nesse momento, ela pensou que tinha sido uma boa ideia inventar o prazo dos 40 anos, em vez dos 50 como era de lei. E de como era uma vantagem ter uma irmã finalmente a trabalhar no DGOV, até cartas com carimbos governamentais conseguia expedir.
Também, se não fosse assim, não havia maneira do raio do homem andar para a frente.

Estatisticamente, é a minha cara



Segundo os dados apurados por um post da semana passada, eu devo ser mais ou menos, fora uns retoques, assim. Sendo um gajo de letras, estatística não é o meu forte...

17.5.10

On / Off

(ou, se preferirem, Onofre)

- Sabe, eu tenho muita facilidade em desligar. Assim, tau, já desliguei. É muito bom quando se vai de férias, mesmo por um período curto. Tau, já está. De repente, o trabalho, as chatices de todos os dias, ficam lá para trás. É bom ser assim, mas também pronto, não quero ser convencido Não é tipo TAU, a gritar e a atirar isso à cara das pessoas. Até porque nem toda a gente tem de gostar de levar com um tau na cara e depois ver alguém desligado à frente.
Até porque isto é um tau figurado, não é uma cena tipo interruptor no meio da cara. Ainda por cima isso já existe, chama-se nariz e não faz tau. Faz “foooom” ou “crack”, consoante esteja a assoar-se ou a parti-lo, creio eu.

Mas, realmente, é muito bom poder desligar para ir de férias. Até porque existem maneiras de parecer que tau, não estamos desligados, apesar de estarmos. Eu, por exemplo, tenho um blog, sabe o que é? Não, não é bigode, senão estaria a vê-lo aqui por cima da minha boca. B-L-O-G, um sítio onde se escrevem umas coisas e se leva duas ou três pessoas mais crédulas a pensar que efectivamente temos alguma coisa a dizer. Sim, tipo um livro ou um jornal, mas sem dar para nivelar mesas mancas ou limpar o rabo em caso de emergência.

Adiante, que o que eu ia a dizer é que apesar de tau, eu estar desligado, as pessoas que não desligaram, podem pensar que tau, eu estou como elas. Por esta altura, estou eu aqui descontraído e estão eles a dizer-me em que bairros chunga já passaram ou como é que acham que eu sou, sim porque eles não sabem que eu sou como sou. Melhor ainda estão até a trocar receitas comigo, apesar de eu estar desligado. Assim, tau, do nada, desligo e pronto.

Já pensou, como seria, agora saía do trabalho e tau, desligava, sem ter que aturar mais nada. Fechava a loja e já era. O que me diz a isto, hã, maravilha não era?

- Amigo, gostava de fechar a loja e TAU, mas não posso. Não posso porque você já desligou e continua desligado, mas as pessoas que não o conhecem continuam a pensar que você está ligado. Já eu, que o gostava de desligar, ainda não consegui, porque você não se cala, não pára de me encher a cabeça de TAUS e não paga a merda dos 20Euros de gasolina que pôs há quase 10 minutos e a fila atrás de si já vai até amanhã. É TAU que chegue para si ou quer que lhe explique?

Enfim, há pessoas que não conseguem desligar é o que é.

14.5.10

A ausência dá fome

Tenho passado estes dias fora a pensar em vocês. E digo em vocês, porque este é um simpático termo genérico que permite mentir descaradamente sem melindrar ninguém em particular.
Sei muito bem que, quando regressar, tudo será diferente. Primeiro que tudo, porque deixarei de usar tempos verbais que pretendem criar uma certa ilusão que estou presente e me preocupo, quando na realidade tenho estado a mergulhar em ócio do mais puro que há.
Em segundo lugar, porque quando ler as caixas de comentários, por esta altura já devo saber que uma boa fatia da malta que por aqui gravita tem mais passado em bairros chunga do que eu tenho com discos do Dino Meira (e não são pouco) e outros tantos me descrevem como um cruzamento entre o Macaco Hadrianno, os Parodiantes de Lisboa e o Fernando Mendes do Preço Certo, mas com uns laivos de escriba pós-moderno.

Mas, porque não vale a pena sofrer por antecipação, resolvi que hoje não vamos dar margem para qualquer tipo de especulação para além daquela que enche o estômago. Por isso, para que esta caixa de comentário tenha, pelo menos uma vez na sua vida, riqueza no seu interior (nem que seja calórica) deixem aqui as vossas receitas simples e rápidas para impressionar convidados com apetite.

Para que não digam que este blog com tanto disparate já cheira a refogado, serei magnanimamente ausente, mas chef por um post. A receita, ao contrário dos textos, é coerente.



PS - Obviamente, a receita não é minha. O mérito de já a ter executado e ter ouvido palmas, sem passar o resto da tarde numa lavagem ao estômago, esse assumo-o por completo. Tenho, no entanto, algum prurido em referir no meu currículo gastronómico, pratos trendy tipo risotto. Isso não vai bem com um tipo que lavra a terra com as mãos.

13.5.10

E, para terminar o dia com um sorriso

Não estando eu cá, não sei o que andaram a dizer em relação aos posts anteriores. Especialmente em relação ao último.

Mas, acima de tudo, não se esqueçam. Pode dizer-se tudo com um sorriso.





:) - sorriso pós-moderno.

Gostas do meu corpo?

Como creio já ter referido, era com esta frase com um amigo meu gostava de iniciar um diálogo ao telefone, depois de teclar ao acaso uma extensão no seu local de trabalho. Por norma uma voz cavernosa a arfar e o facto de não estar no seu lugar ajudavam à festa.

Mas, o que interessa aqui é que, tal como a voz, muitas vezes a escrita não corresponde ao personagem real. Assim sendo, tendo em conta que é apenas um escasso número de pessoas aquele que conhece verdadeiramente o crápula por detrás destes parágrafos, façam-me um favorzinho e descrevam-me.

Sim, eu aguento o pior retrato possível, o mais imaginativo e até a noção de um Brad Pitt radicado em Alfornelos ou de um Quasímodo de lantejoulas.

Eu quero acreditar que aguento

12.5.10

Este blog é como um bairro chunga

Toda a gente diz mal, não há muita razão para lá querer ir, mas a verdade é que subsiste uma curiosidade mórbida sobre o que lá se passa e há sempre uma história com o amigo de não sei quem que lá foi e levou porrada ou que saiu ileso como um herói.

Vejo alguns de vocês a comentarem "Epá, fui lá aquele blog manhoso hoje. Aquilo está perigoso pá, aquilo trafica-se ali muita metáfora e passa-se prosa da pesada. Mas eu conheço o Mak e quando lá vou não há espiga. Mas se não conhecesse...

Que gostam de chungaria virtual, eu já percebi. E na vida real, qual foi o bairro mais chunga a que já foram e porquê?

Vou onde me levar o Bento

Hoje foi um dia místico. Ao escrever estas palavras sinto que os dois micronésimos em que vi aquela figura de branco passar, qual Playmobil encaixotado, me passaram uma qualquer energia especial. Isso ou o facto de não pararem de brincar com o ar condicionado nas minhas redondezas.

Por isso, não pensei duas vezes, até porque isso seria pensar duas vezes mais do que costumo fazer. Adjudiquei três dias de férias a mim mesmo e vou partir naquela estrada. Que, com um bocadinho de sorte, não está cortada pela bófia.

Para onde o Bento for, eu vou em direcção contrária. Se ele vai para um local de culto, eu vou para um antro de incultos. Se ele vai para Norte, eu vou para o Sul. Se ele vai de Prada, eu engulo o meu orgulho e vou de sandália e peúga.

Mas, assim de repente, penso em algo mais. Vocês não vão e já se sabe que deixar um blog sozinho ao pé de crianças não é coisa boa. Vai daí, vou usar este tempo para saber mais sobre vocês, não porque realmente me interesse, mas porque é o tipo de coscuvilhice que gera entretenimento e ajuda a passar os tempos mortos.
Também não podem estar a contar comigo para ser sempre eu a animar isto, não é verdade...

Por isso, em cada dia, surgirá um post que vos questionará sobre algo. Um tema por dia e a vossa falta de bom senso fará o resto.

Estou a contar convosco, porque se este blog dependesse do meu talento para vos entreter, há muito que isto estava um degredo pegado.

11.5.10

Papa-phone

(som de Flashing Lights de Kanye West)

- Estou sim.

- Olá Mak, daqui falaarrre Tony Carrera. Querress ir fazerre um piquenicão?

- Bento, eu sei que és tu, deixa-te lá de piadas foleiras.

- Ah, ah, ah. Esta foi o pai que me ensinou...

- Deve andar com pouco que fazer ele.

- Eu estar aí daqui a um bocadinho. Como estarr aí o cenárrio?

- Como é que achas que está? Tu e a mania das grandezas, os gajos do Benfica reservam o Marquês, tu pões uma faixa a reservar Lisboa inteira...

- É verrdade, entre mim e o Jesus ser tudo nosso.

- Essa também foi o pai que ensinou?

- Não, ter sido um cardeal tuga que parra aqui anda. Falando de coisas sérrias, e gajas?

- Estão todas à tua espera.

- Todas?

- Pelo menos as com mais de 70 anos...

- Ah, desde que deixei de fumarree que não aprecio muito beatas.

- Tens outras também: A N. Sra. da Encarnação, A Sra. do Monte, que tem uma vista linda, a de Fátima, a Maria de Belém...

- Marrria de Belém? É aquela anã que terr muita laca no cabeloo? Ou a primeirra mama do Cavaco?

- Nem uma nem outra, é Santa dos Jerónimos.

- Ah, pasteis de Belém, isso sim serr coisa de fé.

- Ouve lá Bento, por falar em fé, achas que por milagre o Queiroz ainda se safa?

- Não sei bem, mas eu terrr um feeling...

- Vais abençoar o Ronaldo agora é?

- Não, mas aquela Ferrrgie eu dar-lhe um crrrrisma...

- Epá, é um bocado coirona.

- Engrraçado, o pai também me terrr dito isso.

- Olha, tenho de ir ali coçar a testa com um agrafador. Acena-me quando fores a passar na Avenida da República.

- Ok, eu serrrr o gajo vestido de branco.

- Sim, tipo urso polar.

(desligo)

10.5.10

Flirt bancário

Tenho com as instituições bancárias uma relação muito própria. Eles acham que me devem cobrar por guardar o meu dinheiro, eu acho que eles é que me deviam pagar pelo privilégio de o fazerem. Além disso, tenho a plena noção que eles não me percebem. Não tenho outro crédito que não seja o que a minha personalidade me garante ao chegar a qualquer lugar, o meu cartão de crédito tem um comportamento mais regrado que alguns monges franciscanos e o meu perfil mostra que quando se paga jogo, drogas e álcool com dinheiro vivo, tudo parece muito mais simpático.

Portanto, quando um rapaz como eu se dirige a um balcão e pede uma pipa de massa, por norma verifica-se uma de duas situações. Ou tem uma meia de seda na cabeça e, mais do que a razão do pedido em si, a nota maior é que este é um rapaz que até com uma meia na cabeça consegue ser eloquente. Ou então, é um jovem temerário que gostaria de saber, por curisoidade, o que é preciso para casar com um banco até que a dívida os separe, usando uma corda no pescoço para o resto da vida só para honrar o compromisso.

Mas, o que é interessante verificar é forma como os bancos tentam criar empatia connosco, a malta que ainda não é velha.. Não que não saibamos que o negócio deles é fazer dinheiro e queixar-se que não o têm. Cada vez vemos bancos com atitudes mais jovens, malta no atendimento mais jovem, condições mais jovens e prazos cada vez mais jovens até aos 70 anos. E ser jovem é fixe, nem porque seja por ser mais fácil arranjar um banco à nossa medida. Seja lá ela qual for.

Muita gente continua a ver no banco aquele amigo a quem se pode cravar uns trocos que ele na volta até se esquece. Quando não é o banco é uma instituição de crédito, daquelas que parecem outro amigo cheio de dinheiro que o dá sem problemas e ao desbarato. E, quando o amigo lhes parte os dentes com um malho não percebem o que se passou.

E a seguir vão a correr pedir um crédito para pôr uns dentes novos.


PS – Os bancos continuam a sorrir a Mak, sabem que ele é um bom partido e gostavam de o conhecer melhor. Mak sorri-lhes de volta, sabe que um dia lá terá que ser. Mas, por enquanto, ficam-se pelo flirt e só lhes resta sonhar com o dia em que eu diga o "sim".

9.5.10

O melhor sítio para estar em Lisboa hoje à noite

Não é no Marquês, nem sequer a correr atrás do autocarro do Benfica com um cartaz a dizer "Jesus te ama, Jesus te ganha o pão de cada dia". Não é no Saldanha, a sorrir para uma família com alguma falta de dentes frontais, nos elementos dos 6 aos 66 anos. Não é num restaurante ou numa tasca, a comer marisco (incluindo tremoços), pregos, bifanas e a tentar gritar para uma cabeleireira entusiasta que a ideia dela pintar as raízes de preto é magnífica.

Não seria sequer na Feira do Livro, onde alguns comerciantes tentam comprar obras de autores conceituados como Margarida Rebelo Pinto para usar como guardanapos das bifanas. Desengane-se quem alegue que é a caminho de Fátima que se está bem, já que nem as bolhas dos pés em que parece ver-se uma imagem do Bentinho valem mais do que isto que vou dizer.
(esta piada, não foi o pai que me ensinou)

O melhor sítio para estar esta noite é em frente à televisão. E não me refiro a quem está a ver pela 65ª vez "O Amor acontece" no Sony Entertainment. Não aguento chorar a ver isso uma vez mais.

O melhor sítio é em frente à televisão sintonizada a ver as entrevistas do povo que rejubila, só para apreciar os dois minutos em que aparece uma senhora de quarenta e muitos com um fato treino feito da melhor fibra artificial que o mercado tinha para oferecer e uma dentição que se assemelha ao que resta do Muro de Berlim. À pergunta "Então como é que vai celebrar a vitória do seu clube?", a senhora responde olhando de lado para o marido, que poderá também ter empenhado um ou dois dentes para comprar outro fato de treino igual.

"Oh, vamos ver o que se arranja aqui com ele". O sorriso diz tudo, alguém hoje vai ver estrelas sem ficar com os olhos roxos.

7.5.10

Vender a alma ainda é um bom negócio?

Houve um tempo em que as pessoas vendiam a alma com ponderação. Ora queriam a eterna juventude, ora iam pela riqueza absoluta, o poder sem limites ou o coração da pessoa amada (dentro ou fora do corpo, consoante o requinte de malvadez). Foi assim que ouvimos falar dos dilemas do Dr. Fausto, muito antes de ouvirmos o Dr.Phil a falar de dilemas.

Como qualquer líder inteligente de uma empresa de sucesso, o Diabo sabia que isto de comprar almas era um negócio de risco, ainda que moderado. Porque raio havia ele de bancar o que quer que fosse, se o percurso de vida das pessoas já as ia levar direitinhas para o churrasco? Portanto, o importante era negociar a alma de pessoas virtuosas que caíssem momentaneamente em tentação. Aí sim, compensava o investimento, o resto era como dar uma salada a um obeso mórbido. Não ia servir de muito.

Os tempos passaram e o capitalismo desenfreado veio mudar um pouco as regras do jogo. Se vivesse nos dias de hoje, o Dr. Fausto possivelmente contentar-se-ia em vender a alma por um T1 em Telheiras e um iPhone (bem negociadinho). Sabendo disso, o Diabo reorientou o negócio e, tal como a banca perante a crise financeira, passou a ser mais selectivo e agressivo na negociação.

Para quem tenha da virtude apenas a vaga noção de que é algo que costuma estar no meio, não é um bom período para negociar a alma, especialmente se tem a mania das grandezas. Pedidos tipo “ser o novo Cristiano Ronaldo” ou “sacar a Beyoncé” arriscam a terminar consigo a jogar no Carregado e/ou a andar com uma cabeleireira de porte duvidoso, que até se safa no karaoke.
Se é mais idealista e pretende vender a alma pela felicidade com um príncipe encantado esteja atenta ao seu historial moral. O Diabo não perdoa e arrisca-se a viver numa casa linda com um gay que percebe mais de decoração que você e a dormir no quarto da empregada, já que ele partilha o leito com um tal de Orlando.

Caso tenha a plena noção da vida de deboche e falsidade em que se tem espanejado, não se arme em esperto a lidar com o demo. Ele já tem a sua alma no papo e, quanto muito, caso o indíce de religiosos que abusam de criancinhas diminua, pode dar-se ao luxo de a querer arrematar mais cedo. Nesse caso pode ser uma vantagem para si, se for razoável pelo menos uma vez na vida. Uma semanita em Ibiza, ser amigo do porteiro do Lux ou uma ida à montra final no Preço Certo podem ser pedidos com retorno positivo.

Se porventura faz parte da minoria virtuosa que ainda sobrevive (estimada possivelmente como cabendo eléctrico da Carris, mas dos antigos) seja cauteloso. Se bem que a escassez de espécimes do género possa até valorizar a sua alma perante Belzebu, este não dará parte fraca. Onde é que pensa que o pessoal dos bancos aprendeu a história da conjuntura difícil, de um mercado pouco atractivo e do crédito mal parado, que faz com que boas almas paguem pelas penadas?
Esqueça o domínio do mundo ou a juventude eterna, porque o demo lhe irá dar apenas cartões de subalternos, responsáveis pelo departamento de política e da Corporation Dermoestética. Coisas mais triviais como acabar com a fome ou descobrir a cura do cancro também não resultam, porque isso faria de si um melhor negociador do que o Diabo. E, nesse caso, muito possivelmente será Deus e não devia perder o seu tempo a ler blogs.

Seja original e peça algo inusitado. Uma coisa que não lembre ao Diabo. Só assim me parece que possa fazer um negócio razoável. Isso ou guardar a sua alma para melhores tempos. Com a vidinha santa que leva, não me admirava nada que fosse irritantemente paciente.

6.5.10

O Inferno terá bar aberto?

Depois de pela manhã termos ido pelo estômago e pelos mistérios do buffet livre, é justo que ao final do dia passemos pelo fígado e pelos desígnios do bar aberto. Embora a questão metafísica do título não procure uma resposta exacta, não será demais afirmar que o bar aberto tem, pelo menos, esplanada com vista para o quinto dos Infernos.

Por mais episódios de bar aberto que se contem, dos memoráveis aos de blackout, dos narráveis aos hardcore e por aínda em diante, haverá sempre quem avance destemido perante a possibilidade de poder beber uns copos valentes tendo apenas como limite o seu discernimento. E, já sabe, o discernimento é algo que se afoga muito facilmente.

A bem da ciência já emborquei que nem um leão, sem nunca perder a consciência, nem sequer ter ido por caminhos gregorianos. Creio que é uma missão que me foi confiada, para que nunca me fosse tirada a oportunidade de recontar os eventos à minha volta. Eis alguns dos resultados de bares abertos a que assisti e posso relatar sem medo de represálias:

- Casal jovem tenta recuperar das suas divergências em festa com bar aberto. Há uma fonte grande porte na zona. Ela cai lá dentro, ele atira-se a pensar que a vai salvar. Ela sai sozinha. Ele fica lá dentro. Visto que não a salvou, pensa que cantar êxitos musicais a boiar de costas é a melhor alternativa possível.

- Artista algo maniento abusa da bebida e, já em mau estado no WC, diz que lhe apetece dormir. Dois amigos, temendo um coma alcóolico acham que é boa ideia dar-lhe umas chapadas para isso não acontecer. Dois amigos podem ter-se entusiasmado no seu esforço EResco. Artista acorda com a cara dorida, uma face ligeiramente arroxeada e sem lembrança do acontecimento. Amigos culpam queda junto a lavatório.

- Em festa empresarial, casal não oficial acha que é altura de aprofundarem lições de anatomia. Deveras enfrascados, optam por fazê-lo no autocarro que irá levar todo o pessoal de volta. São surpreendidos por um cortejo alcoolizado dez minutos depois, com direito a palmas e pedidos de bis.

- Indivíduo, já enfrascado, aborda elemento dos Excesso de seu nome Duck. Como já veio de outra festa aviado não tem pejo em dar-lhe recomendações de carreira. “Tu até cantas bem, mas os outros gajos estão-te a arrastar para o fundo”. Não contente, esse mesmo indivíduo acaba a noite a teimar com um taxista de Mem Martins sobre o conceito “retorno em vazio”. Os restantes elementos salvam-no de acabar a noite a levar porrada.

- Durante festa na praia, um gajo adormece nos puffs. Várias pessoas consideram uma decisão sensata cobri-lo com outros 20 puffs que estão à volta, ainda consideravelmente pesados. No fim da festa, a caminho de casa alguém se lembra que ninguém tirou o gajo dos puffs. Voltam para trás e ainda lá está. No dia seguinte jura que estava atento a tudo.

- Num evento num barco, junto a Tróia, o barco fica ancorado a 100 metros da praia. O álcool, esse há muito que tinha largado amarras. Há quem vá a nado, há quem vá de kayak, há quem vá de barco a remos até à costa. Dois jovens destemidos num kayak, tentando bater o recorde do mundo em kayak-vodka vêem um vulto a nadar na direcção contrária à praia. Vão ter com ele e este, completamente grogue, jura estar a chegar à areia. Depois de o conseguirem fazer agarrar ao kayak, notam que sangra abundantemente do braço. Quando questionado, jovem diz que ao nadar foi contra o barco, mas só porque este se mexeu. Durante o percurso até terra, jovem canta êxitos da música cigana.

E isto minha gente, como diria o comandante do Titanic, é só a ponta do iceberg.

O fascínio do buffet livre


Há que assumir sem medos e de talheres em punho – somos um povo que gosta de comer e, especialmente, comer bem. E é na expressão “comer bem” que começam os problemas. Existem minorias que defendem que comer bem é ter uma alimentação saudável, outras são defensoras que comer bem é ir a restaurante caros ou recomendados em revistas e há ainda quem advogue que comer bem é ter no prato uma obra de arte.

Como disse, são minorias.

Há uma imensa maioria que tem de “comer bem” um desígnio básico que tem 30% de qualidade e 70% de quantidade. É o chamado síndrome do alarve latente. Se quando caminhamos para o Norte de Portugal reparamos que já de base as doses têm outro porte atlético, possivelmente por razões culturais e históricas, em Lisboa a míngua capitalista, que só alguns redutos típicos lhe vão resistindo, as ferramentas pós modernas trouxeram outra moda.

O buffet livre, também disponível na variante rodízio. Bastam estas palavras, ditas antes de um almoço ou jantar, para se verem brilhar olhinhos entusiastas, qual crianças à beira do Natal. Se em tempos existiram snack bars (termo em voga nos anos 80, que decaiu hoje ao nível rústico) que faziam do buffet (menos livre) a sua arma, hoje há um toque de modernidade, que seduz o alarve com pretensões gourmet.

Diz-se que não se deve ir às compras com fome, pois reduz-se a nossa racionalidade na escolha. O mesmo se aplica na escolha do local de refeição.
O Chimarrão, que imortalizou a frase “Maminha, sinhô?”, foi em parte percursor, com barrigadas de carne, banana, arroz e feijão. Dose para lenhadores carnívoros e amantes do axé e samba do prato. Mas, embora aplacasse a ira do deus da alarvidade que vive em muita gente, não aplacava o alarve trendy que também gosta de ir pagar mais para comer demais.

E assim nasceu o buffet livre vegetariano (que enche, acreditem), o rodízio de massas, de pizzas, de comida indiana, de sushi (mesmo que reconvertido de chinês). Todo um nível internacional, onde o prato sempre cheio vence fronteiras e barrigas temerárias.

Enchem-se espíritos de alegria, pratos de comida e egos que comparam quantidadades comida ingerida vs preço (ex: “Epá, enfardei sushi até mais não por 11,90€”). Enquanto houver um local com buffet livre, os peregrinos da alarvidade não perderão a fé. Quando já não houver, restarão os velhos templos do cozido, da dobrada e da feijoada.

Pensem nisto. Mesmo que não concordem, estas linhas podem ajudar-vos na segunda coisa que os portugueses mais gostam de fazer quando estão à mesa (tirando dizer mal de outras pessoas) – falar de comida.

5.5.10

Sopra-me a vuvuzela

Até há bem pouco tempo, esta expressão poderia causar algum embaraço entre portugueses, dada a tendência das pessoas para darem nomes esquisitos e pseudo-engraçadinhos a coisas que podem ter duplos sentidos. Especialmente se a frase fosse acompanhada de uma piscadela de olho armada em marota.

Mas, depois veio o Mundial da África da Sul. E a vuvuzela vai entrar no léxico português, ainda mais por causa de cenas como esta. E, da próxima vez que alguém disser “sopra-me a vuvuzela” não terá apenas como risco sofrer uma chapada, caso as coisas corram mal.

Corre sim o risco de ficar surdo o que, dado o Inferno vuvuzeleiro que pode acontecer, é até capaz de ser uma benção.

Só espero que ninguém se lembre de incentivar o “reco-reco pelo Papa”...

O que é que eu ganho com isto?

Parece inconcebível, mas eu não ganho nada com isto. Do alto da minha sobranceria egocêntrica nunca me tinha apercebido desse facto, pensava que era impossível ser eu a ganhar alguma coisa com um blog e que a minha missão neste planeta era iluminar ou encaminhar para o precipício mais próximo (consoante os casos) as almas que cá vêm parar.

Talvez por não ter uma formação economicista, não me apercebi que deve haver aí malta a bancar lucro dos blogs como idosas tenebrosas a sacar jackpots no Casino Estoril. Foi preciso estar com uma pessoa que vive de números (que até podia ser o Diabo disfarçado, só que com óculos de massa e look casual) para me lançarem numa batalha moral.

- Então, esse blog, já factura?
- Factura o quê?
- O que é que ganhas com aquilo? Ao tempo que o tens deves estar a ganhar alguma coisa...
- Não propriamente. Estamos a falar de coisas materiais?
- Claro que sim. Querias o quê, metafísica?
- Não...mas...
- Man, a net e os blogs, é só gente a sacar algum. E tu até te safas, pelo que sei.
- Não é uma questão de safar, é que a minha vida não é isso.
- Não é? Então é o quê? Para que é que manténs o blog então?
- Eu faço outras cenas e, pelo meio, escrevo coisas que me dão gozo. Não perco assim tanto tempo.
- Mas também não ganhas... ouve lá, já te pagaram por coisas que escreves?
- Já...mas.
- Esquece o mas. Como é óbvio blogs há a pontapé, o teu não é a última Coca-cola do deserto (piscadela de olho paternalista). Mas escreves, tens imaginação, és meio maluco, sabes contar histórias. Isso devia render alguma coisa, se não for dinheiro, influência.
- Como assim?
- Naquilo que fazes, o blog dá-te alguma vantagem profissional?
- Directamente não. Saber mexer-me na blogosfera, conhecer diversos tipos de blogs e exercitar estilos de escrita diferente sim.
- Ok, já me estás a enrolar. E contacto com malta da TV, dos sketches, de conteúdos, safas-te?
- Epá, tenho os meus contactos, mas não é através do blog. Isso é outro campo.
- Então escreves para o boneco, é? Alguém te encomendou textos ou cena parecida através do blog?
- Epá, N-Ã-O. Chega de blog, já me estás a encher a cabeça de coisas que não lembram ao demo.
- Vais escrever sobre isto, já estou a ver...
- Não, não vou.
- Ok, mas começa mas é a pensar o que é que vais ganhar com aquilo.


E assim foi. Vindo de um tipo que o mais criativo que deve ter produzido online foi um email a dizer que ia jantar com amigos e chegava a casa mais tarde, recebi uma lição de capitalismo avançado. E o que é que eu ganho com isto continua a ser uma questão (im)pertinente.

Bem, material para textos já ganhei de certeza.

4.5.10

O fim da linha*


Sempre tinha pensado que, se pudesse, faria aquilo. Estilo, classe e drama num só momento que definiria aquilo que as pessoas falariam um dia dele. E loucura, nunca esquecer a loucura que sempre o acompanhara.

Olhou para o quarto luxuoso. Não era o primeiro que via no género, embora este fosse único. Não pela vista magnífica da praça velha da cidade, onde turistas e locais se misturavam num estranho bailado de fim de tarde. Nem sequer pelos acabamentos luxuosos e modernos da mobília ou da música que tocava discretamente no sistema de som do quarto.
Este quarto era único porque ele o tinha escolhido, no hotel mais distinto de uma cidade onde ninguém o conhecia, mas que ele amava desde pequeno.

Suspirou e olhou para o relógio. Chegara a hora. Ligou para a recepção e pediu para falar com M., com quem tinha passado uns bons minutos a falar de manhã. Como bom funcionário, M. tinha-lhe perguntado porque tinha escolhido a cidade e feito boas sugestões. Sorrira e mantivera-se reservado, respondendo que estava ali para começar de novo. Sem mais explicações, a conversa mantivera-se agradavelmente trivial.

M. atendeu.

“Peço desculpa, mas foi a primeira pessoa que conheci nesta cidade. Não quero causar transtorno, mas o que vou fazer só o podia fazer aqui. Sem culpa de ninguém, é uma decisão minha, queria apenas pedir-lhe desculpas”.
Desligou, indiferente à voz enervada que lhe pedia para ter calma e lhe explicar melhor o que estava a acontecer. Abriu a janela do quarto e espreitou lá para baixo, inspirando o ar morno do entardecer. Fechou os olhos.

O telefone do quarto tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Passados 1 ou 2 minutos bateram à porta do quarto insistentemente, chamando pelo seu nome. Sem resposta, ouviu-se o cartão do gerente a destrancar a porta, entrando dois homens pelo quarto. Um deles era M.

Olharam em volta, chamando pelo seu nome, mas logo dirigiram atenções para a janela aberta de par em par. Havia um robe do hotel perto do parapeito e um par de chinelos em cima do mesmo.

“Oh, não”, o gerente levou as mãos à cabeça “Suicidou-se”. Correram ambos para a janela. Lá em baixo, uma multidão estava reunida em volta do que parecia ser um corpo.
Esperaram uns segundos.

Era apenas um daqueles homens estátua que fazia a vida à conta dos turistas. M e o gerente entreolharam-se. “Terá caído numa varanda?”, o gerente não parava quieto, “É melhor vermos, mas parece-me estranho tudo isto. Não me pareceu uma pessoa que...” Interrompeu-se, pensativo. “Isto não é começar de novo”. E, depois de darem uma vista de olhos pelo quarto, que parecia intacto, saíram.

Passados alguns segundos, no quarto vazio ouviu-se um ruído estranho, misto de uivo e choro. Uma porta do armário entreabriu-se e lá estava ele, chorando a rir como se não houvesse amanhã. E, para a pessoa que se tinha registado no hotel não havia.
Limpou as lágrimas, satisfeito com a forma magnífica como tudo tinha corrido, ajeitou o casaco e preparou-se para sair do quarto. Qualquer pessoa normal teria dito que era louco por ter feito aquilo. A experiência e o dinheiro ensinaram-no que, a partir de um certo patamar, se era apenas excêntrico.

Por fim saiu, pronto a começar uma nova vida.




*baseado vagamente num episódio da vida desse estróina chamado Paul Gascoigne

Mini histórias com barbas

Ernest Hemingway. Indivíduo de barbas com propensão para a literatura e outro tipo de materiais suspeitos, segundo reza a lenda, terá uma vez respondido à questão sobre qual seria a sua melhor short-story com esta frase:

"For sale: Baby clothes, never used."

Há que reconhecer, o folião barbudo sabia do seu ofício e em seis palavrinhas saca de um conceito supimpa que vale por si só, mas também por toda uma margem de manobra para a imaginação.
Não tendo eu aspirações de suplantar o tio Ernesto, achei que estava na altura de exercitar o meu poder de síntese e tentar algo no género. No entanto, sendo um alarve em termos de produção de conteúdos, vou já avançar com cinco exemplares do género.

“Benfica perde, jantar frio– sopeira sem dentes.”

“Atende no Saldanha, jovem universitária desinibida”

“Bebia para esquecer uma vida de engarrafamentos”

“Aluga-se copo de água. Convidados e noiva incluídos”

“Trespassa-se – Coração. Motivo: Falta de uso"


E nem mais uma linha.

3.5.10

O poder do meu email


Frequentemente, três dos meus nove amigos imaginários tendem a questionar-me sobre a necessidade de ter um endereço de email reservado ao blog. Não lhes levo a mal, mas apenas por serem esses três, dois deles analfabetos e outro praticamente cego. Se fossem outros, o caso seria grave.

Mas, o email deste blog tem outro papel fundamental para além de vos dar a impressão que eu me preocupo e que do outro lado da linha está alguém que lerá atentamente as vossas palavras, os vossos desabafos e as vossas receitas de delícia de cenoura.

E, porque neste blog a fantasia e a realidade convivem animadamente como duas amigas lésbicas em películas desinibidas, posso dizer que se o Sampaio ainda fosse presidente, a minha caixa de email já tinha recebido uma medalha de serviço público.

Através dele, já expliquei a crianças que uma luz ao fundo do túnel pode ser um comboio e que, ao contrário do que o Sr. Padre diz, as flautas não têm pêlos.
Já elucidei malta perdida nos caminhos da toxicodependência sobre as vantagens da Curraleira face ao estado actual do Casal Ventoso.
Já fiz aconselhamento matrimonial, com preciosas dicas sobre quais os melhores venenos que não deixam vestígios.
Já falei sobre muito e sobretudo sobre nada e, ainda assim, tive gente que me agradeceu por ter sido dos emails mais enriquecedores que alguma vez receberam.
Já respondi inclusive a uma ou duas religiosas, explicando-lhse as vantagens de voltarem as costas ao Santo António, já que a gelataria na Avenida da Igreja fica do lado esquerdo.

E, para quê vir com esta cantilena toda, quando o que quero dizer apenas que, a partir de hoje, o professor Bambo pode tremer quando souber que mudámos para o gmail e que agora atendemos em mak.omau@gmail.com

Porque se isto fosse um post de duas linhas provavelmente vocês não acreditavam que era meu.

A feira e a banca que não o era

Passeando pelos corredores que já lhe eram tão familiares, surpreendeu-o o facto de estar a sentir aquela dormência que surge por vezes depois de vermos de seguida, por exemplo, cem quadros de grandes autores. Ao fim de algum tempo, mais um Picasso ou menos um, já não faz muita diferença.
Mas, em relação a livros era a primeira vez que lhe acontecia.

Resolveu afastar-se um pouco para suster aquela avalanche de cultura e reparou numa banca que não parecia uma banca. Até porque não era uma banca, mas simplesmente uma mesa, com uma mulher lá sentada. Em cima da mesa, uma folha em branco.
Curioso, aproximou-se. Ela sorriu quando o viu.

- Isto não é bem uma banca típica – ele deu por si a descrever aquilo que já era óbvio – não é um formato muito comum...

A mulher da banca que não o era continuou a sorrir.

- Nem todas as histórias têm o mesmo formato – A voz era alegre, condizendo com o sorriso.

Ainda mais intrigado, respondeu – Uma folha em branco no meio de um mar de livros ainda não é propriamente uma história.

- Um carro, mesmo parado e sem ninguém lá dentro, não deixa de ser um carro.

O sol que lhe batia na cara fazia-a franzir o rosto, acrecentando-lhe um certo ar divertido, que ele não conseguia propriamente acompanhar.

- Portanto, este stand, esta banca ou seja lá o que isto for vende folhas em branco, para gente inspirada pelo ambiente à volta, é isso?

- Não. Aqui não se vende nada, mas damos tudo - Duas pessoas pararam, olhando para a banca que estava longe de o ser, mas rapidamente seguiram o seu caminho.

- Olhando para aí, não sei como podem dar tudo, muito menos histórias em papel em branco.

Ele fitou-a, com um gesto irónico, encolheu os ombros como se não esperasse que houvesse resposta para a dúvida que lançara.

- Não se preocupe, as histórias hão-de aparecer. Aqui ou noutro lado.

E encolheu os ombros, imitando-o, mas usando o seu sorriso como ponto final.
Ele acenou-lhe e seguiu caminho, disposto a esquecer histórias, folhas em branco, sorrisos bonitos e frases enigmáticas. Mergulhar de novo em livros ia fazê-lo refrescar a cabeça.

Um dia depois, deu por si a sorrir. Estava a escrever uma história, mais precisamente uma história sobre uma rapariga e uma folha de papel em branco que tinha conhecido numa tarde de sol.
Finalmente percebeu - as histórias nem sempre crescem no sítio onde nascem.

Um bom mau bom filho

A minha mãe tem uma coisa absolutamente deliciosa que a torna única e especial, vulgo eu.
Toda a gente sabe que as mãezinhas, por mais crápulas que os seus rebentos sejam, vêem neles pequenos génios, aspirantes a santos ou anjos na terra. A minha, pessoa bem formada, não é excepção.
Aliás, tem os meus predicados em tamanha conta que, mesmo que eu espanque uma freira à sua frente, não deixarei nunca de ser o seu pequeno Mak.

Serve este interlúdio para dizer que, neste Domingo de Maio que lhe foi consagrado, apesar de achar que o facto de lhe lembrar que sou seu filho já era prenda suficiente, o destino quis que lhe proporcionasse uma extravagância.

Ao princípio da noite, ao passar por um ecoponto, reparei em vários caixotes de ramos de flores pousados ao lado. Abandonados ou uma homenagem às mães da rapaziada do saneamento municipal? Não sei, porque não li o cartão, mas fui rápido o suficiente para me afinfar a dois belos ramos.
Passei, uma vez mais, por casa da minha mãe. Ver-me duas vezes num só dia já é prenda de Dia de Mãe e de Natal, porque este é quando eu quiser. Agora, juntem-lhe flores.

"São muito bonitas"
"Pois são"
"Não devias ter gasto o dinheiro"
"Não gastei"
"Então?"
"Trouxe-as do lixo"
"Oh, sempre a brincar"
"A sério, estavam no lixo"
"Ai, ai, ai, nem hoje és capaz de responder direito"
"É a verdade"
"A verdade, a verdade é que não devias ter gasto o dinheiro"

Desisti.
As mães têm sempre razão.