30.4.10

Programas da manha

O título pode ser enganador, por dois motivos. Primeiro porque o leitor mais picuínhas poderá dizer “Ah, manhã leva acento não leva?” – sim leva, mas é de manha que se trata e não de manhã. Segundo, porque chamar-lhes programas é como chamar literatura às autobiografias dos jogadores da bola.

Mas, vejamos primeiro o público alvo dos programas da manhã que infestam a televisão – Velhotes, reformados, gente doente e/ou acamados, desempregados e estudantes ressacados ou a caminho disso.
À partida diríamos que é malta que já tem problemas suficientes, sem necessitar de acrescentos. Ou, numa perspectiva mais positivista, é gente que devia procurar o melhor da vida ou, pelo menos, algo positivo.

O que é isso tem a ver com os programas da manhã? Nada e, se procuram eutanásia, mais vale ligarem para o Dr. Kervorkian que, apesar dos anos na choldra, ainda é gajo para dar umas dicas.

Pelo que me é dado a conhecer, eis parte do programa da SIC ontem pela matina. Um camafeu violou duas mulheres que conheceu no hi5. A namorada, ao telefone, contradiz uma dicção que aparenta alguma presença de espírito “Ah, tenho dificuldade em acreditar, ele sempre foi meigo comigo e se elas o convidaram para ir lá a casa, foi consentido”. Apresentadora, acompanhada por jurista e ex-polícia, contrapõe o facto de ele também ter diversas armas em casa. Otá...perdão, namorada contrapõe “Eram falsas, não eram arma de verdade de certeza” – na imagem vemos mesinha de detenções da polícia com arsenal de elevado potencial. Apresentadora volta à carga “E, se se vier a comprovar que ele é efectivamente culpado, considera ainda assim um futuro com ele?”. Urs...perdão, namorada “Ah, ele é muito boa pessoa, sempre preocupado e carinhoso, até me disse – continua a tua vida sem mim. Continuo a achar que as coisas boas que ele tem valem muito mais que os aspectos negativos”.

...Não consigo acrescentar nada. Nem eu consigo ter uma visão tão deturpada da realidade. É um violador armado e perigoso? Compensa na confecção de uma óptima lasanha...

Por esta altura, já diversos violadores estão a ligar para a produção do programa, em solidariedade e perguntando a morada da namorada do outro. Têm também amor e carinho para partilhar.

Mas, seus glutões por castigos mentais, não pensem que isto se fica por aqui. Pequeno intervalo e voltamos, agora para animar a sério. Oh, mas esperem, entra um casal, com a mulher já a chorar ainda não se sentou. É Nelinho, jogador do Benfica na década de 70 e sua esposa. O filho, de 25 anos, envolveu-se num despique automóvel, encostou na bomba com o outro condutor, envolveram-se à pancada e, quando se vinha embora, foi baleado e morreu. Choram, como é natural. A apresentadora faz uma pergunta pouco vulgar “Então, Dona X, tem sido difícil?”. A senhora chora e diz que só não se suicida porque tem mais filhas. O Nelinho chora. A decência e decoro choram.

A exploração emocional é notória neste tipo de programas. Pelo meio do rancho e do comediante ocasional, a versão moderna do circo romano vai ditando conteúdos. É fácil, se é desgraça vende. E, se nalguns casos, a capa da solidariedade se ajusta, com o apoio a um criança com uma doença complexa ou a alguém a quem falta algo básico e essencial, há depois um grande vazio para além da miséria que se vê.

Estou bastante mais focado na minha carreira de parvo do que na de moralista, nem sequer venho com a história de que se fosse um programa cultural ninguém via. Mas, se no pastelão da Oprah, o desfile de cenas quotidianas tende a equilibrar e vemos uma boa dose de finais felizes ou pelos com uma lição de vida, por cá chega ser desgraçadinho para dar uma boa história. Para quê florear com finais felizes.

Nunca irão faltar conteúdos. Até porque a desgraça dos outros ajuda a esquecer a nossa.

28.4.10

Perdidos na tradução

Um coração de pedra, uma arma escondida,
Posso dar-te vida, Posso tornar-ta negra
Um coração de pedra, Uma arma escondida,
Estou a tentar perceber, estou…
Porque só te inferiorizas?
Porque não te valorizas?

Volto
as costas à luz
Torno-me
adulto
Procuro
A minha alma

Queria
Morder e não destruir
Senti-la
por dentro
Procuro a minha alma

Ela não está a pensar bem
Ela não está a pensar bem

Ela uma mente tão suja e nunca, nunca pára
E o teu sabor não é o dela, nem nunca, nunca será igual
E não lemos os jornais, não ouvimos as notícias,
O céu não nos chega, nunca seremos enganados

E se sentires um pouco para trás
Vamos esperar por ti no outro lado
Porque estou em brasa
Sabes que fico em brasa quando chegas
Sabes que fico em brasa
Sabes que fico em brasa,
Por isso acaba comigo.


Calma, o fim do mundo ainda não é hoje.

É que o inglês é muito posh, o inglês é muito trendy e fica sempre bem mostrar que se tem um golden heart and a groovy mind. Já quando se traduz, ainda que livremente uma letra para português, até a faixa mais sensível fica ali num cruzamento entre um êxito do Clemente, uma balada do Abrunhosa e uma letra dos Adiafa. Por isso, antes que comecem para aí a pensar que vesti uns collants e abracei uma carreira de poeta lírico, tentem mas é descobrir de onde é que eu traduzi isto.

Pode ser que o mais rápido ganhe um prémio. Daqueles que não interessam sequer ao Baby Jesus.

Post Anoréctico

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27.4.10

Um caso e um carro mal parado

Carro desconhecido lá na rua era sempre motivo de alarido.
A noite estava quente e, mais do que copos e saídas, o pessoal queria era aproveitar a brisa na esquina da mercearia do Sr. João para desbastar temas da maior relevância. Entre os últimos resultados da Academia e o facto da Carla Susana andar ou não com o Careca, havia sempre quem tivesse opiniões divergentes, mesmo que dissessem a mesma coisa. Calado é que não ficava ninguém, tirando quando o estivador vinha à janela perguntar se sabíamos que horas eram e se queríamos que ele viesse cá fora. Normalmente, não queríamos.

Até que chegou o carro.

À primeira vista, parecia o do Pedrinho. “Ná” disse logo o cromo dos carros, o do Pedrinho tinha outras jantes e um autocolante no vidro do lado. O carro abrandou ao pé da paragem e parou uns metros mais abaixo. Não se conseguia ver quem era, aqueles vidros pareciam meio baços.

“Deve ser o Zé, o Bulldog” avançou-se sem grande confiança “Népia, népia, o Zé espetou-se em Monsanto o mês passado, a dar voltas nas rotundas. O seguro ainda não deve ter pago para o gajo andar de bólide outra vez”.
O sacana do carro parado e não saía ninguém. Estavam a brincar connosco.

“Só se for daquele gajo do stand, o Tó”. “Aquilo??” houve logo quem se risse “O Tó não anda nestes, é muito fino e os “amigos” dele depois não gostam”. Mais risos.
“Então e o Orlandão?”, “Fónix, esse gajo já não mora aqui”, “Por isso mesmo meu, separou-se da mulher, mas anda no controlling”. A proposta não convenceu “Esquece lá a cena, o tipo é agarrado, andava num Panda todo partido e agora vinha para aqui naquilo? Só se roubasse um banco...”

A dúvida continuava a agitar as hostes. Já do lado dele, nem um movimento e às horas que eram, já nem autocarros haviam para o obrigar a sair dali.

“Já sei, já sei” todos se voltaram “É da mãe do outro puto, aquele do apelido estrangeiro. Ela não é enfermeira? Pode ter carro novo e ter chegado agora do turno”. Alguns olhares de concordância, a coisa parecia estar a resolver-se. “Não pode”, avançou o Joni, com ar pensativo “A minha mãe falou com ela hoje à tarde, ela faz as manhãs e não conduz, pelo que ela me disse”.

Desânimo. Aquele carro estava a estragar a noite.

“Espera, espera”, o Roger parecia agora irritado “Na volta é aquela malta lá de cima, do bairro. A semana passada aviaram num puto da Academia, o irmão dele foi lá acima arranjar confusão e agora...na volta querem arranjar estrilho”. “Bora lá ver, bora lá ver”, disseram logo um ou dois. Não estávamos ali para ter que levar com aqueles filmes.

“Mas vamos como, assim à campeões?”, “Fónix, somos seis, estás com problemas?”, “Problemas tens tu meu palhaço. E esse corte de cabelo?”, “Brincamos, é?”.
De repente, o barulho de um motor.

“São os gajos, devem ter ouvido, bora lá ver”. O vidro abriu. Parámos, mas só de falar, já que ainda não nos tínhamos mexido. Alguém atirou um papel pela janela e o carro arrancou suavemente, cortando na rua do eléctrico.

Corri na direcção do papel. Vieram todos atrás de mim. Apanhei-o e desdobrei-o cautelosamente.
Não estávamos preparados para o que encontrámos.

Uma pastilha elástica e o facto de ir abrir um restaurante indiano ali ao lado.

Carro desconhecido na rua dava sempre alarido. Disso não havia dúvida.

Defeitios

Na História da Humanidade, a confusão entre o que são defeitos e o que é feitio tem tido contornos marcantes ao longo dos tempos. Senão vejamos citações retiradas do grande livro da sabedoria de Mak:

“Ah, o maior defeito do Nero é a curiosidade. É do feitio dele queimar coisas só pelo gozo científico conhecer melhor o efeito de combustão” – Mãe de Nero durante um barbecue, quando ele tinha 10 anos.

“Mania das grandezas? Não, o meu Napoleão é um homem de feitio equilibrado, sem problemas em relação à sua estatura.” - Josefina, ainda embeiçada pelo minorca.

“O meu Adolfo não é nada neurótico. É do feitio dele brincar com essa história da supremacia ariana” - Eva Braun, ao sair de uma imobiliária de bunkers para férias.

“O senhor Salazar não é um ditador. É do feitio dele gostar de ter a casa arrumada e o jantar pronto a horas” - Empregada do dito senhor, antes de ir levar as cadeiras a estofar.


Como vêem, a história ensina-nos que, onde uns viram defeitos, outros viram feitios, tornando a desculpabilização uma moda recorrente. Sendo eu uma referência para muitos jovens que me seguem (ainda hoje contei três no semáforo), evito por isso desculpabilizar-me com o feitio. Veja-se o caso do jantar de ontem, que me juntou a duas pessoas bem formadas.

Jovem bem formada – Bem, teria que dizer que o meu maior defeito é a ingenuidade, por acreditar sempre no melhor das coisas. Se calhar, ser optimista em demasia é um defeito, tendo em conta aquilo que anda à nossa volta.

Não tão jovem, mas igualmente bem formado – Epá, nem gosto muito de falar em defeitos. Custa-me assumir as minhas fraquezas e se calhar isso já é defeito. Isso e ser tão conciliador, amocho com muita coisa só por querer ver toda a gente mais satisfeita.

Rio-me. Eles olham para mim e esperam uma resposta. Bem podem esperar, estou a comer uma maçã assada e não tenho vergonha de o assumir. Além disso, uns segundos de interiorização fazem sempre bem. Limpo os beiços.

- Vocês são boas pessoas, eu sei – (curiosamente, não sorriem) – mas isto parecia uma entrevista de emprego, com o velho truque de vamos usar defeitos que possam parecer qualidades para mostrar que temos falhas, mas somos feitos de bom material, quando na realidade somos é manhosos.

Não gosto da forma como agaram os talheres com mais força. Podem ser de sobremesa mas ainda aleijam.

- Eu sou preguiçoso, mas não o pareço. Eu sou crítico em excesso, mas passo bem por perfeccionista. Eu posso ser demasiado racional, mas aparentar apenas ser ponderado. Sou hiper-irónico, mas ao longe pareço apenas bem humorado. Sou picuínhas, casmurro e teimoso, mas basta definir-me como empenhado. Eu sou...

Interrompido por duas pessoas bem formadas, que alternam estilo dupla sertaneja.

- Manipulador
- Pouco tolerante
- Arrogante
- Demasiado sarcástico
- Um bocado troll
- Mau perdedor...

Sorrio, com ar condescendente. É claramente um engano, tinha a ideia que estava a jantar com pessoas bem formadas. Agora, também já se riem.

- Estamos a brincar contigo pá. É claro que não és assim.

Aceno com a cabeça. Eles não têm culpa de ser cínicos e desprezíveis. É do feitio deles.

26.4.10

A triste história de um olho roxo

Já não é a primeira vez que me acontece. Também já não é a primeira vez que falo nisso. Aliás, um passado de desporto e vida algo desregrada, juntamente com um triste feitio irónico, contribuíram para que este advento seja cíclico, tipo cometa Halley.

Tenho um olho arroxeado.

Para alguns é sinónimo de vergonha. Para outros de bravura e bravata. Há até quem faça textos sobre isso. Seja como for, tal não muda a realidade.

Há roxo em redor do meu olho e não são sobras de uma festa glam rock.

Não é difícil aprender que um braço lançado em velocidade que falha uma bola de basket e acerta na cara de um indivíduo, tende a deixar marcas. Consta até que esse indivíduo, com grande presença de espírito, proferiu até uma frase de grande gabarito, que marcou jovialmente o acontecimento:

“F&%”$-se, car&$#”0, olha lá essa m#$%@”

A dor não é muita, até porque a fita é maior do que as consequências. No entanto, dado que o evento tem lugar a uma sexta feira à noite, com toda uma panóplia de eventos sociais pela frente no fim de semana, um grande problema se levanta.

Como é que se vai contar a história do olho roxo?

Quem leva uma vidinha sã, diria mesmo sensaborona, vê nas pessoas com olhos roxos uma fonte de emoção, agitação e entusiasmo social. Terá sido num clube de strip, a regatear? Terá sido atacado por Jeovás, depois de pisar o Sentinela? Terá feito um risco num Fiat Panda alheio? Terá feito uma qualquer acrobacia no leito que só o facto de a estar a filmar poderá provar que foi verdade? Ou terá, pura e simplesmente, enfrentado mais de dez meliantes, enquanto comia um sorvete?

O olho roxo é o que menos importa. A maneira como o vendes aos outros é que faz a diferença.
As pessoas querem preencher a emoção e o gozo que falta na sua vida sorvendo as aventuras e desventuras dos outros. Querem chegar a casa com o conforto de saber que se dão com gente que tem aventuras estranhas para contar.

Desculpem, fiquei com o olho roxo a jogar basket.

A desilusão instala-se. Há um certo desânimo nos olhares retribuídos. É só um parvo com a mania do desporto. Já devia ter percebido que isso não é vida. E agora, que vamos dizer no dia seguinte, quando precisarmos de algo para contar?

Mais vale dizer que o tipo anda metido na droga. Seja como for, deve estar a mentir com a história do basket de certeza...

Um olho roxo não merece uma história assim.

23.4.10

Dilema excruciante da tarde

Um amigo, um bom almoço e vinho em quantidades generosas. E agora, quem é que arrasta este ser modesto de potencial magnífico e ego a condizer para as tarefas redundantes que a tarde obriga?

Esta história não é minha

Que eu gosto de contar histórias, não é novidade. Que sou uma pessoa de maus fígados, também não.
Daí que não possa deixar de ficar com uma certa inveja por não ter sido eu a criar esta.
Resta-me ir criando outras...



Que se lixe o facto de ser publicidade. Afinal de contas, a publicidade é como as pessoas - por detrás de muito lixo, ainda se vai encontrando alguma coisa de jeito.

22.4.10

As crianças e o melhor do mundo

Estava a olhar para o lago quando ele veio a correr até ao pé de mim e, ainda com a respiração ofegante, puxou-me um braço e disparou:

- Paiiii, porque é que há senhores que vêm para o parque com cães e não com meninos.

Sorri. Os miúdos são mesmo assim. Continuava a olhar para mim fixamente, como que a exigir resposta.

- Bem, porque os cães são tão bons como as crianças para conhecer senhoras. Elas normalmente gostam tanto de um como de outro.

Fez uma careta, como se eu tivesse dito algo feio.

- Oh paiiii, foi assim que conheceste a mamã??

O sacaninha era esperto. Mas eu também não me fico atrás.

- Não, não foi. A tua mamã trabalhava num sítio a dançar...

- Que giroooo. Era uma princesa?

- Não exactamente. Trabalhava num sítio onde não entram nem cães, nem meninos, nem outras senhoras que não trabalhem lá a dançar. E, para além de dançar, a tua mamã também tirava a roupa, como tu, quando tomas banho. Foi assim que eu a conheci.

Fez-me outra cara feia, de olhos semi cerrados.

- A mamã disse que era uma princesa...

Baixei-me para ficar frente a frente com ele.

- Bem, chamavam-lhe Lady... Não fiques triste, ela só fez isso porque precisava do dinheiro. E agora, vamos falar de coisas sérias. Não trouxeste os óculos, pois não?

Baixou a cara e acenou um não meio sumido.

- Sabes bem porque é que não deves sair de casa sem eles não sabes?

- Sim....porque quando for crescido depois não vou ver as coisas bonitas.

- E não só – Peguei-lhe no braço e virei-o para um senhor que já estava a olhar para nós há algum tempo – Porque assim não me confundes com o teu papá, que é aquele senhor lá ao fundo que não tarda nada pensa que eu sou da Igreja.

O miúdo saiu a correr.
Eu continuei a andar. É bom contribuir para a educação das crianças.

Lições de vida no Salão de Jogos


Nos dias que correm, é difícil encontrar um bom salão de jogos. As consolas, em grande parte, acabaram a viabilidade desses antros em que tão bons momentos passei. Entre Playstations, Wii, PSP’s, Xbox e a Internet sobra pouco tempo para ir a um sítio mal iluminado onde a troco de dinheiro se passavam horas ou minutos de prazer agarrados a manípulos e botões (matraquilhos e snookers para os mais convencionais). Até as Mecas dos salões de jogos, que se encontravam na Feira Popular ou no Monumental Salão de Jogos, junto ao Rato, não passam de ruínas ou são agora lojas dos chineses. O que é um bocado chato para quem quer educar os jovens de hoje no sentido de que há mais diversões suspeitas para nos entretermos nos intervalos das drogas e do sexo.

Foi nos salões de jogos que aprendi a mentir sobre a idade. Foi também aí que aprendi válidas noções de economia, como o facto de ser possível almoçar com um terço do dinheiro e usar o resto para dois ou três créditos na máquina. Aí se aprendia que existiam adultos, encarregados de trocar moedas, capazes de tentar enganar adolescentes dando-lhes moedas a menos. Aprendíamos ainda que esses adultos ficavam ligeiramente melindrados ao ouvir a frase “Então c#$&$ho, faltam moedas”.

A gestão do tempo era também aí ensinada, aprendendo a ter noção que passar mais três níveis equivalia a faltar a uma aula de Filosofia a menos, pondo-nos perante o racionalismo das coisas. Ou seja, podíamos estar a jogar Cadillacs&Dinosaurs, mas não andávamos longe de Kant, Hegel e até mesmo de Kirkegaard. A boa forma física era também um incentivo, pois correr 500 metros em menos de cinco minutos era uma prova regular para não chegar depois do segundo toque.
Técnicas de persuasão psicológica também eram uma clara mais valia. Como convencer um meco com pouca experiência da oportunidade única que era participar neste jogo com apenas uma moeda, indo já no nível 5, sem que ele se apercebesse que os perto de dois minutos de participação serviriam apenas para o “Boss” do nível enfardar outro que não eu.

A troco de algumas/muitas moedas recolhi muitos ensinamentos nos salões de jogos da minha juventude. Aprendi inclusive que há até lugar para o romance nesse espaço, tem é que se saber escolher a hora.
Veja-se o exemplo do jovem que calha a passar à porta com uma rapariga ocm a qual tem alguma intimidade e esta o desafia para um jogo de snooker.
Ele sabe que aquilo é muito mal frequentado, hesita, mas não gosta quando ela lhe chama mariquinhas.
Entram, com ele a medo e ela com a confiança de quem não faz ideia no que se está a meter.
Ele vê a fauna do local e começa a pensar que é má ideia. Ela está cega pelo jogo de sedução (ou pelo menos perturbada pela luminosidade duvidosa do espaço). Há gente que grita ao fundo.
Ela pergunta ao encarregado se há alguma mesa livre. Ele tenta evitar o bafo a álcool do encarregado. O encarregado olha para ela como se fosse um Happy Meal.
Ele puxa-a para trás quando a gritaria aumenta. Ela não percebe porquê. Quando um taco de snooker se parte nas costas do encarregado, ela já percebe. O encarregado corre com outro taco para o fundo do salão. Eles correm para a saída.

Ela está em choque e grita-lhe para ele nunca mais a levar a um salão de jogos e que não volta a ir a um sítio assim. Ele pensa que foi ela que quis entrar, mas diz apenas que também nunca mais lã põe os pés.
Um deles mente.

21.4.10

Campeão Nacional de Bad Atituding

Ainda há pouco tempo vos falei de um tipo, campeão nacional de boring. Agora imaginem outro, isto se não estiverem muito ocupados para andarem a imaginar tipos cada vez que eu vos peço para o fazerem.

Este tipo não cresceu num bairro chique, mas também não cresceu no Cambodja. Num laivo pós-moderno infanto-juvenil, furou a orelha quando tinha 13 anos e acompanhou o acto com um penteado esquisito. Esse tipo de atitude continuou com ele ao longo da vida. O penteado, felizmente, não.

Teve diversas faltas a “vermelho” na escola e foi suspenso pelo menos três vezes. O facto de ser inteligente safou-o de problemas maiores. Preencheu, sem ajuda, um protesto em folha azul de 25 linhas quando uma professora mentiu, prejudicando-o numa nota final. Deram-lhe razão e, ainda assim, não se reconciliou com a dita senhora.

Andou uma vez à porrada por causa de uma rapariga na escola. Não foi ele que começou. Mais tarde percebeu que tinha sido um erro. A rapariga.
Guardava religiosamente as faltas que tinha para dar para o último período. Contava com o bom tempo para poder utilizá-las melhor.

No seu percurso desportivo andou mais algumas vezes metido em escaramuças. Nunca foi ele que começou. Mas não deixou os seus colegas divertirem-se sozinhos.
Deveras competitivo, houve uma vez em que os seus colegas de equipa se queixaram que ele lhes chamava mais nomes do que aos adversários. Pode ter dito a alguns dos seus treinadores o que pensava deles. Só aos que estavam a pedi-las.

Na Universidade, este indivíduo que passou mais horas nos matrecos do que em certas aulas. Marcou também o seu programa de rádio para a hora de Inglês e disse à professora que aprendia mais com as letras das músicas do que com as aulas. Um professor chamou-lhe urso. Ele gostou desse professor. Poderá ter falsificado senhas de bebidas em festas por mais do que uma vez. Poderá ter criado testas de ferro fantasiosos quando questionado sobre a origem das mesmas.
Financiou parte da sua viagem de finalistas a vender tabaco que obteve de maneira não totalmente lícita, chegando a estar ao lado da máquina de tabaco da universidade a vender maços ligeiramente mais baratos.
Venceu feirantes em processos de regateio, levando-os ao desespero.

Nalguns locais onde trabalhou, algumas pessoas confundiram a sua atitude descontraída com ingenuidade. Por norma, essas pessoas arrependeram-se disso.
Usou o facto de ter deslocado um ombro para sair do local onde mais deslocado se sentiu a trabalhar. Irritado com a falta de frontalidade nesse local, poderá ter feito a responsável chorar na altura que saiu, através de uma história de horror e miséria confeccionada a rigor para o efeito.

Pessoalmente, haveria certamente muito mais para dizer sobre este indivíduo. Mas, tal como o outro, isso só redobraria o trabalho que é fazer este tipo parecer agradavelmente cordial e com bons fundos.

Mak Q&A


Na sequência deste meu acto de insanidade temporária, resolvi segui-lo com outro ainda maior, ou seja vou fazer praticamente tudo o que disse que ia ali fazer. E, como hoje começo o dia um bocado aziado, nada melhor do que transformá-lo num dia de Q&A.

Quais são as regras?

Não há regras, mas cada pessoa só pode colocar um máximo de duas perguntas. Se forem anónimos então só podem colocar uma. Quanto mais idiota for a pergunta, eu agradeço, porque assim a resposta pode ser idiota ao mesmo nível. Podem haver perguntas pessoais? Podem, nada garante que as respostas o sejam. Podem haver perguntas ofensivas? Podem, mas peço ao menos um certo nível de imaginação nas mesmas. Perguntem sobretudo, sobre tudo. Mesmo que não valha de nada.

Ó meu, mas isso são regras.
Pois são, mas vocês também já tinham percebido que coerência aqui também não é coisa que seja apreciada.


Ah e isto não é resposta imediata, porque isto de trabalhar no talho mexe comigo e não gosto de teclar com as mãos sujas de sangue. Juizinho, hein.

Pelo início, dá para ver o nível ligeiramente alienado da turminha que por cá passa.

20.4.10

Gaga antes de o ser



Eu sou um gajo versátil, tão depressa uso um lápis atrás da orelha, como a seguir o uso para escrever, como a seguir ainda o uso para virar umas febras. É um desígnio que habita em mim.

Já esta senhora, pelo que me é dado ver noutros espaços, decidiu virar apenas umas febras. É pena, gostaria de a ver uma semana neste registo, na semana a seguir tipo Barbarella ninfo-electro-pop-choc. Que é inteligente eu não tenho dúvidas, já que a evolução/regressão musical-visual prova isso mesmo. Se tem princípios ou não, não me preocupa, afinal de contas está no mundo da música e aí vale tudo, especialmente arrancar olhos.

Ah, é uma trampa, é lixo, é cópia do que já era cópia, é o diabo a quatro. Não, é pop e o pop sempre fez de tudo para ser vendido. Vão lá aos livros, o que não faltam são receitas para o mesmo prato e se calhar ainda encontram alguma coisa que gostam.

Se daqui a uns anos se lembrarem tanto dela, como disto é sinal que tiveram sorte.

Os assaltados estão assaltando o assaltante*



Não tenho um grande historial em relação a assaltos. Enquanto vítima, claro está. Tirando um ou outro episódio escolar, que resolvi rapidamente tornando-me amigo dos maiores meliantes da zona, creio que só fui assaltado uma vez depois de adulto. E aqui assalto deve ser visto no sentido lato da palavra.

Cenário: Rossio 22.41. Dizem que é de noite.

Intervenientes principais: Mak, jovem intrépido praticante de basket, que orça para aí 1,85m. Um amigo de Mak, praticante do mesmo desporto, mas que leva de acréscimo mais 10cm.

Interveniente secundário: carocho anão (ou muito perto disso).

Cena: Vindos de um jogo, Mak e o seu amigo dirigem-se à Praça da Figueira, onde o conforto de um eléctrico nº15 os levará até ao seu destino, já que são pelintras universitários. Falam do jogo, da vida e estudam paralelismos entre o Jogador de Dostoyevsky e Gambit, personagem da Marvel.

Visivelmente entretidos, não reparam que têm agora alguém atrás deles. Depois de pigarrear algumas vezes, finalmente o pequeno carocho diz alguma coisa, sem que nenhum dos intervenientes abrande a sua marcha.

- Não me orientam uns trocos?

Surpreendido pela nossa falta de disponibilidade, volta à carga 10 passos depois.

- Epá, preciso mesmo de uns trocos, como é?

Não era, já que nem troco lhe demos. De repente, acelerou o passo, o que no caso dele era o equivalente quase a um passo de trote. Tal como Jesus, estava no meio de nós.

- Vocês não estão a perceber, eu preciso mesmo de trocos. Já.

Não foi tanto a verve do pequenote que captou a atenção de Mak, também conhecido como “Olho de Lince” entre algumas tribos americanas. Foi o brilho de algo metálico na mão do artista. Mas, havia algo que não batia certo e foi isso que impediu Mak de dar rapidamente com o saco de desporto na tromba do vil pequenito.
Olhando de relance, Mak viu que o seu companheiro também já tinha mancado o cenário e ficou em standby, sem nunca pararem de andar. O gesto seguinte iria ditar o resto da história.

O pequenote esticou o braço e vimos um cabo verde alface fluorescente. Erro nº1. “Eu quero...” ia a começar, revelando falta de educação. Erro nº2. Tinha 1, 57m. Erro nº3. Nós perdemos o jogo. Não foi erro dele, mas aumentou a nossa azia.

- É melhor ires-te embora, antes que te aleijes. – Mak sempre quis fazer de good cop. O seu amigo, menos hollywoodesco, limitou-se a agarrar o pequenito pelo pulso e a puxar-lhe o braço para cima, quase que lhe tirando os pés do chão. “Eu...eeu”, a altitude estava a afectar-lhe o raciocínio. Ou isso, ou a falta de drogas.

- Tu nada. Ou vais agora ou isto vai ser complicado para ti, ouviste c#$!”%” – Mak sempre gostou de falar duro.

- Tá bem, tá bem, mas podem dar-me essa cena – referia-se ele ao seu objecto metálico que estava agora na posse do amigo de Mak.

- Não.

Ele não pareceu muito interessado em negociar, talvez porque estava focado em bater o recorde dos 100metros. Mais facilmente lhe encheríamos os bolsos de dinheiro do que iríamos devolver o objecto. Senão, que outra prova sobraria de que alguém nos tinha tentado assaltar utilizando um descascador de cenouras.



*este título também ficou para sempre no meu coração, tirado de um livro memorável do Peninha.

19.4.10

Saudosismo 100% Algodão

Já por mais de uma vez fui bombardeado com a questão da saudade, do saudosismo e da beleza latente que transparece e entristece em tão lusitana palavra/conceito. Ora eu, pouco dado à elegância poética (tirando uma fina capa que uso apenas para me conferir ar sensível), tenho sobre o assunto uma visão maniqueísta – ou és ou não és.

Se és um saudosista fofinho e peganhento, tendes a lamentar-te do que não tens, do que já tiveste mas agora não tens, do que pensaste que já tiveste mas na realidade não tinhas, do que poderias ter se não tivesses deixado de estar onde estavas para ter o que tinhas ou do que já não podes voltar a ter, pelo que as leis da física assim determinaram.

Se não és um saudosista fofinho, estás agora a regozijar-te com as linhas anteriores, pensando que eu sou como tu. Desengana-te coração empedernido, pois tu és daqueles que desfruta apenas num instante fugaz aquilo que a vida te oferece. Vives o momento e fazes bem em fazê-lo, mas ao quebrares a tua ligação com o mesmo, negando toda e qualquer saudade, mesmo que não em grau demasiado doentio, mostras uma certa amputação emocional que não te faz bem.

Mas então afinal, de que lado estás tu? Esta é também uma pergunta que oiço frequentemente, após acirrar discussões em que não sou parte interessada e que, neste caso, poderá tocar de perto aqueles que não tiveram de ir ao dicionário informar-se sobre as virtudes do maniqueísmo. Ah, e também aquelas pessoas irritantes que fazem de tudo uma questão de lados.

Não estou de lado nenhum, simplesmente acordei dividido sobre o facto de ser ou não possível sentir saudades de uma peça de roupa, uma T-shirt que me acompanhou nos últimos 15 anos e rasgou a última ponta de dignidade que a unia à vida útil no passado fim de semana. Aliás, se o vestuário falasse, há muitos anos que esta T-shirt me andaria a extorquir dinheiro, depois do que já presenciou.

E, se eu não me conseguir sentir bem com este assunto, farei com que se interroguem sobre a matéria até sobre os talheres de plástico que usaram hoje para comer o resto do ensopado de borrego do fim de semana.

18.4.10

Rafelectire sobre o futuro

Estou a trabalhar num novo acordo ortográfico e, neste título, já se vê que é algo com potencial. Mas, como potencial é o sal que move este blog e impele os meus dedos, a par da humildade, deixo aqui algo para rafelectirem.

E que tal, durante a próxima semana, pelo meio da minha verborreia habitual vos dar a hipótese de escolherem uma espécie de tema para um "especial de corrida". Dar-vos-ei algumas opções, enquanto choram copiosamente por já ser Domingo e amanhã já não poderem andar com o pijama do Noddy pela casa.

- Retrato de Mak, o artista, enquanto jovem - Um espelho sensível de algumas peripécias que ajudaram a definir o carácter desta personagem. Poderá incluir trechos de James Joyce e também de Rudyard Kipling.

- There can be only one - Ao melhor estilo dos imortais, farei um texto sobre um tema a pedido de um visitante aqui do burgo. Qualquer tema é válido, qualquer tom também. Se esta hipótese vencer, eu explico como é que isto se processa.

- Q&A - Vocês perguntam, eu respondo. Um dia inteiro dedicado à filosofia, ao conhecimento intrínseco da humanidade ou demência pura. É o que estiver a sobrar na loja.

- O tema - Numa caixa de comentários, milhares de pessoas lutam para votar em temas pré-popostos. Através do consenso, o pequeno Mak irá, no dia seguinte, escrever 3 textinhos sobre o mesmo tema em registos diferentes. Um pardieiro de emoções no seu auge.


E agora, vou ali comer um gelado e já volto, que isto mexe comigo.

16.4.10

Post Agorafóbico

.



(peço desculpa, mas ele ainda não conseguiu sair da caixa de comentários)

15.4.10

Clic

Por mais que ela sorrisse, depois de anos ele já não tinha vontade de rir. Lembrava-lhe a professora do Charlie Brown só que, infelizmente, conseguia perceber o que ela dizia.
Todos os dias a mesma conversa, aquela vontade de ser jovial, de se mostrar preocupada. Por mais profundidade que tentasse reflectir era sempre um espelho de superficialidade.

Sentia-se preso. Olhava para aquela mulher e lamentava o facto de algures no tempo ter perdido o comando. De ser comodista e ficar ali naquele limbo que não lhe dava satisfação alguma. Mas também, que podia ele fazer? Por mais que falasse e lhe dissesse o que pensava, ela parecia não o ouvir. Quando estavam juntos, ela tinha sempre a necessidade de trazer mais pessoas para a conversa, sempre pelas melhores razões. Pena que fossem só as dela.

Ela piscou-lhe o olho e, por um instante, ele pensou que hoje podia ser diferente, podia ser o dia em que ela lhe dizia algo que o faria acreditar que tudo voltava a ser possível. Esse instante fugiu pela janela, quando logo a seguir ela lhe começou a falar de um rancho folclórico onde havia um rapazinho sem um braço.

Ele achou que era demais. Não ia deixar que ela o tratasse assim.
Numa fúria de agora ou nunca, usou esta centelha de força para se levantar e carregar no botão, fazendo-a desaparecer.

Desta, era a sério. Não ia voltar a ver o programa da Fátima Lopes.

Não volto a escrever...

...posts com mais de 185 linhas.

Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
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Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.
Não volto a escrever posts com mais de 185 linhas.

Depois deste pequeno acto de contrição, já me posso voltar a bajular com o devido entusiasmo, pois desejo apenas manter um ligeiro equilíbrio entre a constatação “Este gajo escreve é demais” e “Este gajo é demais a escrever”.

14.4.10

Passatempo Agarra Aqui - Conclusão

Último comboio para lado nenhum – Epílogo

Toda a gente tinha ficado parada depois da sugestão de Mnemósine. Não pela sugestão em si, mas pelo facto de eu não ter escrito mais nada. Resolvido o problema, acharam todos que seria uma boa ideia, tendo Gui comentado que a achava extremamente sexy e Miúda-Mulher acrescentado que era do escafandro. Afinal de contas não é todos os dias que se apanha um comboio para Lado Nenhum.

Uma Besta qualquer decidiu avançar sem pensar, como é típico das bestas e, ao levantar-se, derramou o copo de gin e bagas de zimbro de Flávio, que não achou muita piada. Pelo menos até começar a lamber os estofos do banco da carruagem.

“Bem, a minha razão é simples – estou farto que me digam que, sendo uma besta, não vou a Lado Nenhum. Além disso, disseram-me que há lá um workshop de ninjas cinco estrelas...de ninja. Perceberam esta?”

Ninguém percebeu. Nem eu.
Miss Complicações foi a próxima a dar um passo em frente. Ainda bem que o fez, porque tinha desaparecido e, sem esse passo, ninguém a teria visto.

“Bem, creio que já devem ter percebido que tenho um problema. Estou sempre a desaparecer, sem perceber porquê.

Gui interrompeu “Mas isso é estranhamente se...”

Miss contra-interrompeu-o “Sexy, eu sei. Mas quando um dia tem apenas 24 horas não podes desaparecer por dá cá aquela palha”.
O comboio passou por um túnel e, quando saiu, Miss tinha aparentemente desaparecido.

Aproveitando uma pausa na lavagem do estofo, Flávio resolveu que bem podia contar agora a sua história “As pessoas dizerm que há quem beba para esquecer, eu bebo para lembrar. Em cada baga que migo está a amargura que não me largava por nunca ter visto a minha banda favorita ao vivo. Até que me disseram que os Zimbro, ao contrário do que os críticos diziam, ainda vão a Lado Nenhum. E, sendo assim....

“...Apita ó comboio, lá vai à apitar” Tal foi o coro em uníssono, que quem ouvisse não diria que ia a Lado Nenhum, tal a sua singularidade.

“Desculpem lá, mas eu não tinha acabado” Miss reapareceu, envergando agora um fato de treino com motivos florais. “É que não só desapareço sem saber porquê, como também apareço sem controlar o que trago vestido. Já fui a médicos, professores Bambos e outros que ficavam direitos e ninguém me sabe dizer o que tenho. Dizem que é uma variante de Sebastianismo, mas como nunca me dá para aparecer em manhãs de nevoeiro, deve ser uma estirpe diferente.
“Um xarope de nabo não cura?” Vera arriscou a pergunta, tentando passar por naba.

“Não, mas como me disseram que nunca ouviram falar disso em Lado Nenhum, é para lá que vou ver se isto desaparece. E por isto não me refiro a mim”. Fecharam todos os olhos, mas Miss não desapareceu desta vez.

“Conheci-o num museu” Começou Miúda-Mulher do nada, olhando pensativamente para a marioneta de um marreta que repousava nas mãos de Gata Escaldada, com ar sufocado.
“Era diferente dos que já tinha conhecido, até em museus. Não andava em busca de nada, limitava-se a deixar que os outros o encontrassem. E eu encontrei-o.”

Por esta altura, Outra Besta qualquer pode ter ressonado. Já Sophia esperava que a história desse em boda e RL escutava, coisa que lhe parecia dar alguma satisfação.

“Sorri-lhe, mas ele não me sorriu. Aproximei-me, mas ele não se aproximou. Era frio, mas ao mesmo tempo imponente, como se fosse de outro tempo. Ficámos sozinhos numa sala. Era o escafandro mais sedutor que conheci. Disseram-me que a nossa relação não ia a Lado Nenhum. Cá estou e lá está ele no compartimento das malas, a provar que o mundo também erra.”

Ariadne não resistiu a colher algumas lágrimas do seu rosto com um aparelhómetro. Mnemósine, algo nervosa, pediu-lhe um lencinho. Ariadne não gostou de ver gente a dar nomes aos seus aparelhómetros.

(a parte dois do fim já vem, é só para o choque não ser tão grande)

Eu sei o que isso é” Fausto tinha um ar sofredor, como se uma Besta qualquer lhe estivesse a dar murros nas costas. Mas, quando a Besta parou, o ar continuou.

“Eu também” atirou Gui “É sexy”.
“Não, não é” Fausto agarrafa o seu poster com uma girafa “É triste. Triste como ir ao Jardim Zoológico e cair no espaço das girafas a tentar apanhar uma moeda de 2€. Triste como depois tentar sair só para descobrir que há uma girafa que nos ama. E que o faz de forma tão intensa que já temos marcas dos cascos nas costas. Triste como passar dias no hospital a pensar no pêlo suave e no longo pescoço, só para depois ser proibido de voltar a entrar no Zoo. Triste como ter que ir a Lado Nenhum, o único lugar onde o amor entre homem e girafa é legal...”
Por esta altura, o número de bocas abertas e ares enojados deteve Fausto. Só Sophia esperava que o assunto desse em boda.

“Bem, triste, triste era se esse fosse o meu caso. Mas eu...ehr, vou só lá visitar uma tia”. E sentou-se. Fez-se silêncio.

RL, que se levantava, foi detida por Gui que, em tom casual acrescentou “Eu sei que o silêncio é sexy e as girafas também. Já me disseram que, em termos de sexynez, não há como eu em Lado Nenhum. Eu não acredito e é por isso vou lá ver. Por isso e para assim poder participar nesta história, que é definitivamente sexy”.

RL escutou-o e, depois disso, escutou o silêncio. Resolveu então escutar as suas próprias palavras – “Desde pequena que tenho olho para a escuta, tanto que pensei entrar para os escutas, mas ninguém me deu ouvidos. Quando atravessava estradas, mais do que parar e olhar, antes de atravessar eu queria era escutar, o que por vezes fazia que me viessem tirar a cabeça do alcatrão na passadeira. Tenho ouvido das boas, outra vezes das más, mas o que eu queria mesmo era trabalhar na PJ a fazer escutas. Em verso, se fosse possível. Ouvi dizer que haviam vagas em Lado Nenhum. É para lá que vou, mas poderia ficar aqui para sempre, a escutar-vos”. E, dito isto, pôs-se à escuta.

“Olha, nunca escutes um nabo, é o que eu te digo” Vera parecia agora ter ressentimentos contra um vegetal o que, ao contrário dos mesmos, não é saudável. “Passei a minha vida rodeado dos mesmos, alguns deles plantados na terra, outros à minha porta e o que é que isso faz de mim?”

“Uma nabiça?” aparentemente, foi o marreta de Gata Escaldada que respondeu, mas foi também o esforço de ventriloquismo mais miserável de sempre, a par do tipo que molesta um pato nos programas da manhã.

“Talvez, mas gosto de pensar em mim mais como um molho de brócolos. O certo é que o meu fascínio por nabos já me levou até ao Entroncamento e daí a Lado Nenhum é um pulinho. Pelo menos foi o que me disse o nabo da estação”.

A viagem parecia aproximar-se do fim, nem que fosse pelo número de palavras gastas ao longo do percurso. Os passageiros desta viagem resolveram então dançar a Macarena, sem perceberem que isso tinha sido apenas uma maldade da minha parte. Só Miss se escapou a isso, essencialmente porque nem eu soube para onde ela tinha desaparecido desta vez.

Ainda a transpirar, depois de relembrar o seu passado nos Unidos da Kizomba, Outra Besta qualquer pigarreou, mostrando vontade de falar:
“O meu sonho sempre foi vender trivelas para o cinto”

“Fivelas” corrigiram os restantes.

“Não, não Tri-ve-las, como aquelas do Quaresma, só que para os cintos. Era juntar o melhor dos cintos e da bola”.

Ninguém achava que aquilo fazia muito sentido, tirando Flávio, que nitidamente já tinha abusado das bagas de zimbro.

“Olha, de aparelhómetros percebo eu” interveio Ariadne “E digo-te que não há trivelas para o cinto em Lado Nenhum”.
“Exacto” os olhos da Outra Besta brilharam “E por isso serei eu o primeiro a comercializá-las nessa bela localidade.

Era um plano bestial. Nos mais diversos sentidos.

(se pensam que isto já acabou, estão enganados, já vem aí mais uma parte, possivelmente a última no post que irá fazer a bíblia corar de vergonha)

A Gata Escaldada aproveitou que o seu marreta foi à casa de banho (também conhecida como o escafandro de Miúda-Mulher e disse de sua justiça – “Sabem, eu tenho uma cena com marretas e acho que me teria saído muito melhor que a Alexandra Lencastre na Rua Sésamo

“Dizem as más línguas que a gaja teve de fazer uns favorzinhos a metade dos bonecos só para lá chegar” Mnemósine era muito dada a parlapié de vão de escada “E depois de lá chegar aviou a outra metade, para não haver invejas no elenco” avançou uma Besta qualquer, refreando-se de fazer uma piada com a expressão “pacote de benefícios”.

“Pois” a Gata não se deixou abalar “mas eu sou mulher de um marreta só e fugi com o meu porque ele é menor e só em Lado Nenhum é que já se viu uma coisa assim. Eu sei que ele só tem olhos para mim, ainda que eles só estejam colados na cara...”

Ouviu-se uma marcha nupcial assobiada. Podia ser uma versão do “Apita o comboio” ou até o “Final Countdown” dos Europe, já ninguém percebia muito bem o que saía da boca de Flávio. Sophia e o marreta entraram de braço dado. “Eu não vos disse que ia haver uma boda. Porque raio viria eu numa viagem para Lado Nenhum se assim não fosse”.

Ariadne registou o momento com um aparelhómetro que tinha comprado a um bispo de Cracóvia. Gata Escaldada registou um punho, por engano em Gui, que se colocou no meio do caminho a dizer que toda aquela situação era muito sexy.
Ecoaram gritos de “Cabra” na carruagem. Fausto pensou que uma cabra não era solução. Queria mesmo uma girafa.

Mnemósine estava em êxtase, mas começou a hiperventilar. “Ai, que nervos, logo agora que eu ia contar que sou agarrada ao parlapié e com esta rambóia toda estou prestes a entrar em overdose”. Ninguém a ajudou, tirando outra Besta qualquer, embora a sua definição de ajuda fosse uma rasteira que a deixou estendida na carruagem.
“Ai, que nervos, parem com isso que senão não vou a Lado Nenhum”.

Eis que Ariadne, sacando de outro aparelhómetro a que alguns chamam bom senso, proferiu
“Tens toda a razão, estou aqui a verificar e já se viu que esta conversa é que não vai a Lado Nenhum. Nós nunca saímos do sítio”.

O desânimo instalou-se na face dos presentes. Foi mauzinho, havia lugares livres no fundo da carruagem.

“Embarquei nesta viagem para descobrir com os aparelhómetros mais avançados se era possível chegar a Lado Nenhum de comboio ou de conversa e este aparelhómetro comprova que não é” Acenou com algo na mão para o comprovar.

“Desculpa” interrompeu Miúda-mulher “mas houve um dia que me apresentaram isso que aí tens. Chama-se tampão”.

“Ops, não era esta aparatura, como se diz em polaco. Era isto” Ariadne foi à mala e tirou um quadro. Ao contrário do que ela própria pensava não era uma obra de Vanderlin, mas sim uma mancha de Rorschach.

Algures no seu escritório, enquanto comia uma dose de espargos, Pólo Norte não conseguia deixar de sorrir. Ela bem sabia que tinha arranjado maneira de lixar o fim da história.

Preparem-se para o post mais longo de todos os tempos

Não é agora, é a seguir.

Da próxima vez que eu fizer um passatempo com textos, relembrem-me de o fazer em formato SMS.


O que vale é que vocês também não vão a lado nenhum.

A vida não está fácil para os malucos

Quero começar por dizer que tenho pelos malucos o maior respeito, não que para eles isso valha mais do que eu dizer que acabei de enfiar dois lápis no nariz, mas pronto fica a minha opinião.

É que ser um maluco a sério não é fácil e eu, que pratiquei maluquice federada durante algum tempo, sei do que falo. Como é que se define o ponto em que andar com umas cuecas na cabeça é maluquice? Se fores um artista do rock n’ roll e fizeres isso, és irreverente, se fores na 24 de Julho e fores contabilista, és maluco.
Se falares sozinho na rua em voz alta, a tendência é para que sejas maluco. Se tiveres um auricular...és um bocado parvo e mal intencionado, porque não tinhas nada que andar a enganar as pessoas que passam por ti e pensam que és maluco.

Neste último caso, para os tentar distinguir, costumo atirar uma beata para o chão. O que a tentar apanhar é o maluco verdadeiro. Visto que não fumo, tenho que apanhar previamente uma beata do chão para fazer o teste, o que o pode enviesar caso me vejam a fazer isso. A não ser que pensem que eu sou maluco.

A crise financeira mundial só veio agravar isto tudo, porque como bem sabemos, a sanidade mental tem um preço. Ora, se boa parte das pessoas não tem dinheiro para comprar o essencial, certamente não vão investir em coisas superficiais e daí à filiação no grupo dos malucos, vai um passeio pelo escritório vestido de lycra com um ursinho-panda debaixo do braço.

Por isso, tão piroso como o novo riquismo é o novo maluquismo. Querem ser malucos à séria? Então trabalhem e façam carreira no ramo, porque a aproveitarem-se de crises, depressões e tecnologias de trazer por casa não vão lá. E esqueçam o factor cunha, porque só se já fossem malucos é que faria sentido tentarem utilizá-lo na matéria.

Mas, se ainda assim não vos demovi e continuam desse lado a lamber o monitor na esperança de vir um dia a ser malucos de primeira, aceitem um conselho:

Não façam um blog.
Por mais maluquice que escrevam, as pessoas vão pensar sempre que são apenas divertidos.

13.4.10

Passatempo Agarra Aqui - Revelação

Último comboio para lado nenhum - A partida

Um grupo de personagens deambulava por uma estação de comboios já a noite ia avançada. O que faziam ali todos juntos? Sendo um grupo de personagens, iriam fazer o que o autor, vulgo eu, decidisse. No intercomunicador soou uma voz roufenha:

“O último comboio para Lado Nenhum entrará na plataforma 3 daqui a dois minutos. Apeadeiros em: Pera-aí-que-já-lá-chegas, Estás-aqui-estás-ali e Aguenta-que-o-pai-já-vai”.

“Dois minutos? Mais dois minutos? Mas eu tenho apenas 24 horas, estes gajos estão a brincar comigo!” Ninguém ligou muito ao desagravo de Miss Complicações, já que estavam todos mais preocupados em perceber onde era a plataforma 3 numa estação que tinha apenas uma linha. Proferindo impropérios, Miss desapareceu por uns instantes.

Dois minutos mais tarde deu efectivamente entrada na linha 3, que era também a linha 2 e a linha 1 o último comboio para Lado Nenhum. Não era nenhuma merda mágica tipo Harry Potter, era uma locomotiva e uma carruagem, com aspecto de quem já não iam a Lado Nenhum, a não ser obrigados.

Um a um, os treze passageiros foram entrando, despedindo-se das poucas figuras que tiveram pachorra para esperar até aquela hora só para entrarem em duas linhas da história. Vera despedia-se de um nabo que, sendo um nabo, estava mais preocupado em ajustar o guiador da sua BMX. Fausto abraçava ternamente uma girafa que, curiosamente, se mantinha quietinha. O facto de ser feita de madeira poderia justificá-lo. A Gata Escaldada segredava algo demoradamente ao ouvido de um marreta, o que incomodava uma Besta qualquer. Essencialmente porque o marreta era um fantoche e estava preso à sua mão.

Ariadne, mulher dada às viagens, serviu-se de um complicado aparelhómetro para calcular que estava na hora de partir. Os outros passageiros fizeram o mesmo, mas porque o intercomunicador anunciou “Última chamada para Lado Nenhum”. Miss Complicações desapareceu uma vez mais, desta vez para dentro da carruagem.

Sendo apenas uma carruagem, com poucos adereços e modernidades era natural que se fossem observando uns aos outros, conforme foram entrando. Tal não se aplicava a Flávio, já ocupado a migar umas bagas de zimbro. O comboio arrancou e a viagem para Lado Nenhum tinha assim início.

De repente, RL, que até aí se tinha entretido com umas asinhas de frango do seu farnel, debaixo do olhar ávido de Outra Besta qualquer, interveio:

“Oiçam, ou melhor, escutem isto”.
Dois minutos mais tarde, não se ouvindo nada, Gui achou por bem intervir.
“A frase foi sexy e posso dizer que estes dois minutos foram também bastante sexys, mas escutamos o quê?”

“Oh, nada e tudo ao mesmo tempo. É na escuta que ouvimos e captamos a essência das coisas e....” RL gostava de escutar e não tinha medo de o demonstrar, mas foi interrompida.

“Escuta lá isto” ataviou Flávio “onde é que é o bar aqui da cena? É que estas bagas de zimbro não dão sequer para um copinho de genebra e eu escutava agora era um gin tónico”.

“E um Jim Morrison não escutavas?” é preciso ser uma Besta qualquer para arriscar estes trocadilhos.
Mnemósine, que vinha ganhando alento com o parlapié que se gerou, resolveu participar “Ai, que nervos. Todos a falarem e assim não consigo partilhar uma ideia que tive. Uma coisa que podíamos fazer para o tempo da viagem”. Miss Complicações resmungou novamente por causa do tempo e por só ter 24 horas, desaparecendo em seguida.

“Mas isso é extremamente sexy” comentou Gui.

“Já sei” Sophia tinha saltado e acordado Fausto, que dormia agarrado a um poster de uma girafa “Vamos fazer uma boda”.

Olharam uns para os outros, sem ninguém falar. Miúda-mulher, colocou uma mão no ombro de Sophia e disse-lhe em tom baixo. “Para isso, alguém tinha de se casar antes....e aqui no comboio, é capaz de não dar jeito”.
“Oh, podia ser um momento quase perfeito”. Sophia baixou os olhos e deu um pontapé noutra Besta qualquer só para se sentir melhor. Pela parte que lhe tocou, ele não partilhou o sentimento.

“Ai que nervos, não é nada disso”, exclamou Mnemósine “Vamos é dizer porque é que cada um de nós está aqui a viajar para Lado Nenhum”. A Gata Escaldada que trocava uma receita de sopa de nabo com Vera bateu palmas. Não, afinal foi só para matar uma mosca.

Ariadne registou a ideia noutro aparelhómetro destinado a registar boas ideias. Havia quem lhe chamasse bloco de notas.

Quem disse que as boas ideias não iam a lado nenhum?

(continua)

Amigos, amigos, critérios à parte

A sorte é que eu ainda não cobro por lições de vida.

"Ah é uma jóia de ser humano, dá-se bem com todos, É AMIGO DE TODA A GENTE / TEM AMIGOS EM CADA ESQUINA"

Desconfiem deste tipo de pessoas. Indivíduos que são amigos de toda a gente e assumem indiscriminadamente comportamentos hiper mega user-friendly é malta que não tem critério.

E, se não tem critério ou é tolinho ou é perigoso.
Ou é traficante de droga e daí o facto dos amigos estarem na esquina.

12.4.10

Pipoco a quanto obrigas

Depois de saber que este ícone em ascensão entre o público feminino da blogosfera destacou este reles espaço como um dos seus primeiros links, a minha reacção foi só uma – suar.

Suar do bigode e de outros enclaves corporais por tamanha responsabilidade. Suar por saber que aquele link é uma mira apontada para um indivíduo que, dado como inapto para o serviço militar, lida muito mal com metáforas militares.

Que poderia ter eu para oferecer a uma maioria de espíritos femininos que procura prosa com distinção, sagacidade, humor inteligente, um toque de romantismo e, porque não, uma ocasional peixeirada blogosférica?

Nada.
Este acesso de modéstia preocupou-me ainda mais já que, desde criança, nunca tinha sofrido disso. Fiz então uma pesquisa rápida pela net, entre os gurus e os campeões de visitas, para saber o que estava a dar neste momento. Ao contrário do que pensava: pintores de automóveis, curling e arroz de pato não estão entre os temas em voga. Segundo consta, o que está a dar é isto:

Casamento. Nova Iorque. Relações entre homens e mulheres (com R grande, para não haver confusão).

Fui rapidamente ao meu arquivo de viagem e, pelo meio do ano passado, encontrei a salvação. Um chamado 3 em 1 que, ainda por cima, prova a importância que as mulheres devem dar ao que um homem tem no banco.




Espero ter aplacado a vossa fúria, ó provenientes de Pipoco.

Figura de estilo

Ultimamente, muitas são as pessoas que se dirigem a mim sem olhar e, baixando a voz em tom de confidência, me perguntam:

“Como é que tu, tendo umas origens modestas, conseguiste progredir e superar até alguns cortes de cabelo bem duvidosos para, sem seres propriamente uma estrela de Hollywood ou teres descoberto a pólvora, teres chegado onde chegaste?”

Quando lhes vou a responder, nem me dão tempo, continuando.

“É que não só te safaste em Portugal, como depois ainda te orientaste lá fora e ainda por cima todo contente a acordar todos os dias com uma modelo estrangeira ao teu lado. As criancinhas gostam de ti, os velhinhos também e quando vais ao Algarve é sempre uma festa. Dinheiro deve ser coisa que não te falta e, apesar de haver quem goze da maneira como falas, deve ser só inveja. Qualquer dia, na volta, também tens uma fundação.
Como é que tu consegues, como?”

Já algo entediado, mantenho no entanto alguma cordialidade na resposta.

“Peço desculpa, mas evidentemente está a confundir-me com o Luís Figo. E ele já tem uma fundação”.

Nessa altura, as pessoas tendem a responder “Ah, pois é, deve ter sido das pernas arqueadas” e vão-se embora.



PS -Antigamente também me acontecia muito isto, mas era com o Khadafi. Devia ser dos caracóis.

O Zé da esquina


Na minha rua (e eu chamo minha não à actual, mas à rua onde cresci) o Zé era bastante conhecido. A sua fama não se devia a qualquer tipo de actividade ilícita, factor que por norma confere fama a pessoas que passam a vida em esquinas. O Zé também não se tinha celebrizado por vender qualquer tipo de artigo naquele local, nem sequer por dirigir piropos de categoria às mulheres que por ali passavam.

O Zé era muito conhecido essencialmente por passar a vida na esquina e gostar de falar sobre isso. Na realidade, o Zé gostava de falar sobre tudo.

Muita gente daquela rua recorda, dada a proximidade geográfica, que quando o CCB foi construído o Zé foi dos primeiros a fazer ouvir a sua opinião. Na esquina, claro está.

“Ah, já fui lá e gosto muito, é muito bonito, muito espaçoso”. Apesar de o verem sempre na esquina, as pessoas sorriam e diziam ao chegar a casa “Olha, o Zé foi ver o CCB e gostou”. Uma vez mais, o Zé era referência.

Outros usavam o Zé como pêndulo dos transportes. Saindo de casa à pressa, mesmo de manhã cedo, perguntavam “Zé, o 32 já passou?”. E o Zé, do alto da sua esquina, logo dava o seu boletim “O 32 acho que não, passou foi um eléctrico e vinha a abrir, nem sequer parou. E olha, acho que deve vir aí um do Palácio”. E assim o Zé era também o tipo que ajudava a perceber quando estávamos atrasados para a escola ou para o trabalho.

Habituado a distinguir os locais dos visitantes, aproveitando-se do seu poiso privilegiado, o Zé era também pródigo a dar indicações. Fossem camones ou visitantes, o Zé dava indicações, sugeria caminhos e recomendava até locais de estacionamento na zona. Muitos daqueles que não o conheciam, olhavam-no com desconfiança, pouco decididos a seguir o seu conselho. Muitas vezes era um leve assentimento de cabeça de alguém da rua que passava perto do Zé que tranquilizava as pessoas e as punha no trilho recomendado por ele. O Zé nunca levava a mal e nem sequer comentava essa desconfiança. Para ele era tudo simples.

À noite, a rua era bastante mais calma. Depois do jantar, quase sem falha, lá vinha ele a subir a rua calmamente, cantarolando uma qualquer música tradicional. Tradicional, dele, já que nem toda a gente percebia o repertório do Zé. Chegando à esquina, normalmente a sua primeira frase vinha depois de acender um cigarro e era sobre o tempo. “ ’Tá fresquinho”, “ ´Tá abafado” ou um mais popular “Tá caloréu esta noite”.

Depois, tocava harmónica. Só dois ou três minutos. Felizmente. Porque apesar de dotar aquela esquina de uma peculiaridade única, no que à música diz respeito o Zé não era dotado.

Outro dia, não vivendo lá há já alguns anos, passei lá no bairro e não vi o Zé na esquina. Pensei, com um sorriso, que se calhar emigrara para esquinas com mais sol. Mas, eis que oiço o som característico que anunciava a proximidade do Zé. Uma voz conhecida.

“ ´Tá fresquinho hoje”. Voltei a cabeça e com a bengala no pulso, lá estava ele a acender um cigarro. Arrisquei “Então Zé, ´tás bom?”
“Vai-se andando, sabes como é”. Bastante mais grisalho com os seus óculos escuros, sorriu e lá continuou em direcção à esquina. Talvez me tivesse conhecido a voz.

É que, apesar de ser cego, a partir daquela esquina ninguém via o mundo como o Zé.

10.4.10

Modernidade, Spectrum e NY

Este é um post automático. Ou seja, eu não estou a abdicar do Sol que está lá fora para vos dar pérolas de sapiência enquanto choram para participar no passatempo "Agarra aqui".

Este é um vídeo pós-moderno que anda a fazer sucesso na intermete. Imaginem a bonecada do Spectrum a destruir Nova Iorque com music hall no background. Caso ainda fizessem parte dos info excluídos que não o conheciam, abençoado seja o meu nome.

9.4.10

Passatempo "Agarra aqui"

Todo o blog que se preze tem um autor com imenso glamour e também passatempos. Como neste espaço as coisas são sempre à miséria, só conseguimos cumprir um dos requisitos. E, como miséria é mesmo o prato do dia, o prémio são, nada mais nada menos que - vocês.

“Então amigo, a snifar os toners da impressora antes do fim de semana?” exclama boa parte de vocês, mais habituada a sair na rifa às pessoas do que propriamente a ser um prémio. “Calma” sereno eu, limpando uns pós de magenta que ainda tenho no nariz, sabendo no entanto que até têm alguma razão.

Vocês são parte integrante do prémio, porque o prémio é um texto em que vocês entram. Mas, ao mesmo tempo, são os leitores que me calharam na rifa, por isso já percebem a estranha dicotomia. Caso não percebam porque raio estou a mencionar a partilha ilícita de honorários entre médicos, talvez convenha clicarem na palavra assinalada.

Como os milhares que se acotovelam neste espaço não cabem nos textos típicos do burgo (por pouco), o sistema é simples, eu vou deixar aqui 13 palavras. Na caixa de comentários, pela ordem de chegada, quem quiser ser um dos eleitos e fazer parte do texto, basta escolher uma das palavras. Em caso de repetição o primeiro tem prioridade, portanto mais vale escolher logo outra se a que querias já tem dono. Quando as treze palavras já estiverem escolhidas, terão que choramingar para ver se eu ponho mais treze para serem escolhidas para outra história. Por isso, os mais atrasados que choraminguem bem.

A par da escolha da palavra, peço que me dêem a razão pelo a qual a escolheram. Isso tanto pode servir para eu definir como a palavra se liga a vocês na história, como para vos fazer perder tempo. São assim os mistérios da vida.

As palavras são estas:

Marreta / Nabo / Parlapié / Girafa / Sexy / Escafandro / Trivela / Sebastianismo / Boda / Aparelhómetro / Escuta / Ninja / Zimbro

Até o fim de semana a coisa está em aberto, posso até vir cá colocar mais treze palavras e textinhos só para a semana, que eu quero ver se disfarço a sujidade na praia da Cruz Quebrada.


PS - É conveniente fazer identificação, mesmo que assinem como "Madame Min" ou "Professor Ludovico". É que para fazer um texto sobre 13 anónimos mais me falar discorrer sobre o plantel do Belenenses.

Ode à pochette


Ser másculo não se compromete,
Mas decerto reflecte,
Quando pela cabeça,
Lhe passa uma pochette.

Parecerá loucura,
Poderá sentir ardor,
Poderá até ser herança,
Se na Carris tiver parente revisor.

Será abichananço?
Será afirmação?
Se não queres passar por tanso,
Não digas que é inspiração.

Mas o Ronaldo usa,
Poderás ter alguma razão,
Só que ele também usou a Paris,
É esse o exemplo que queres dar?

Vens falar-me da Vuitton,
Da Burberrys e do padrão,
Pode não ser de bom tom,
Mas para marcas me estou a cagar.

Não sei que mais te diga,
Sobre o que levas debaixo do sovaco,
Gostava de dizer não há espiga,
Mas nem sequer combina com o casaco.

Por causa de uma pochette,
Geraste todo este corropio,
Pareces a minha tia Arlete,
Que antes de a usar era meu tio.

8.4.10

A banda é boa, o vídeo é bom, só eu é que sou mau

Estes ainda não vi, mas tenho ouvido. E se eu oiço, deveria ser norma.

We Have Band "Divisive" from SoLab on Vimeo.

Bater no ceguinho

Que tipo de idiota se dirige um senhor, que é um espectáculo de senhor (um senhor daqueles que não fica mal chamar-lhe isso mesmo três vezes na mesma frase), e constatando que ele tem uma pala no olho na sequência de um acidente doméstico que lhe amarfanhou a vista durante uns dias valentes, o cumprimenta num local público em tom bastante audível com a seguinte alarvidade:

"Bom olho o veja Sr.XPTO"
(não é um cidadão emigrante, isto é um nome fictício)


Um idiota com um blog idiota seria uma boa resposta.

Tens dois minutos para me dar música

Perguntaram-me: “És capaz de dizer todos os concertos a que já foste em dois minutos?”
E eu respondi:

"Depeche Mode (Devotional Tour)
Prince
1º Festival Sudoeste , 2º Festival Sudoeste , Sudoeste 2003
Smashing Pumpkins (Praça Touros de Cascais)
Massive Attack (1ª visita ao Pav. Atlântico)
Faith No More (Coliseu, último concerto antes de acabarem em 1998)
Dr. Alban (ok, eu era jovem e o facto de ser na Amadora constituiu um desafio maior)
Fun Lovin’ Criminals
Radiohead
Morphine
Air
Rammstein
Limp Bizkit
Korn
Lisboa Soundz 2006 (The Strokes, She Wants Revenge e o resto)
Bush
Super Rock in Lisbon (basicamente, quando mandaram abaixo o antigo estádio de Alvalade) – AudioSlave, Deftones, Marilyn Manson, Disturbed.
Guano Apes
Rock in Rio 2008 (Só porque não paguei e para ver uma garrafa actuar disfarçada de Amy Winehouse)
Jamiroquai
Red Hot Chili Peppers
Incubus
Mariza
Linkin Park
Festival SuperBock SuperRock – Edições 1,2 e 3
Alive 2007 (Dia 3), Alive 2008 (Dia 1), Alive 2009 (Dia 1)
Ena Pá 2000 e Irmão Catita (200 mil vezes)
James
Festivais Académicos (não me lembro de metade, mas estive lá)
Kings of Convenience
Alicia Keys (sim, eu sou sensível)
Beastie Boys (Aula Magna)
Nick Cave & The Bad Seeds
Lisbon Dance Station (Chemical Brothers na Estação do Rossio, !!!, Fischerspooner e muito mais)"

Pausando ligeiramente para ganhar fôlego, acrescentei:

"E tenho a certeza que ainda me faltam uns quantos."

Edit (conforme me for lembrando): Bloc Party, Beck (1º concerto Coliseu), Kaiser Chiefs

7.4.10

Gordo encornado pela mulher - o argumento

Ou, numa versão mais séria O culto das novelas vs As novelas dos cultos. Imagine-se o enredo:

Um tipo gordo anda a ser encornado pela mulher que, apesar de boa não é de Ermesinde. Outro artista, que trabalha com o marido, também se anda a fazer à febra mas é rejeitado pela mesma. Despeitado e portador de maldade para dar e vender, esse artista presencia um encontro entre a esposa adúltera e o seu amante efectivo, que a tenta convencer a fugirem juntos.
Maquinando uma vingança, o artista vai até à taberna, onde o marido encornado passa os seus tempos livres e diz-lhe que, se se despachar, ainda apanha a mulher a dar bónus tracks ao amante.

O encornado, acompanhado de um amigo, dirigem-se ao local e ainda apanham o amante com as calças na mão a fugir, sem lhe conseguirem no entanto ver as trombas. A mulher é também apanhada a gritar-lhe “Serei sempre tua”. O marido tenta resolver o imbróglio ordeiramente, recorrendo a uma navalha. O amigo impede-o, provavelmente porque não quer manchar a camisa nova e o marido, nem sequer sob ameaça de pancada consegue arrancar à esposa o nome do folião.

O problema é que trabalham todos juntos na mesma firma e têm uma apresentação importantíssima nesse dia. O gordo encornado chora enquanto se prepara, lamentando a vida e o facto de não ter um ginásio disponível por perto.

Com a apresentação prestes a começar, o marido pensa ouvir a mulher a dizer “Serei sempre tua” e grelha o fusível. Conhecido por ser um bonacheirão bem disposto, apanágio dos gordos, nenhum dos presentes leva muito a sério quando ele ameaça mulher com uma faca e lhe ordena que lhe diga o nome do amante. Deixam no entanto de rir quando a senhora começa a espichar sangue depois de levar umas quantas navalhadas.
Dando alguma razão aos que afirmam que as mulheres não sabem ficar caladas, antes de borregar a tipa chama o amante, que está na reunião.
O tipo levanta-se e corre contra a faca do gordo encornado. Sete ou oito vezes.
O marido chora novamente e diz “Bem, a apresentação fica por aqui”.

Tendo este exemplo em conta, o que é que diferencia uma novela de uma ópera?

Se o gordo for o Nicolau Breyner, é novela. Se for o Pavarotti, é ópera.
Se a banda sonora for do Toy, do Rui Veloso ou canastrão semelhante, é novela. Se for de um tipo com apelido italiano ou, no mínimo, estrangeiro, é opera.
Se não souberem falar, é novela. Se o fizerem cantando, é ópera.
Se a mulher tiver excesso de maquilhagem, é novela. Se não for a Alexandra Lencastre, é ópera.
Se a história tender a ser uma palhaçada, é novela. Se falarmos do meu exemplo, é ópera.

6.4.10

Nem tudo do oposto que se atrai é bom



Sou daqueles tipos que acreditam que os opostos se atraem. Poderia agora explicar o sentido da vida, enunciar metáforas capazes de comover até o coração mais empedernido, e um ror de balelas sobre pássaros e flores, mas para isso existe o resto da blogosfera cor-de-rosa.

Interessa-me sobremaneira a capacidade das boas pessoas (e elas existem, acreditem) em atrairem para junto de si o que vulgarmente definimosmos como escumalha. Eis um exemplo simples: o meu amigo Abril (chamemos-lhe assim por causa do mês) é boa pessoa, longe do nível de biltrice deste que vos escreve estas linhas. Ora isto de ser boa pessoa nota-se ao longe mas, ao contrário do cheiro a sovaco nos transportes, não desaparece com um bom banho ou lavagem a 35ºC.

Sendo assim, o meu amigo Abril é um magneto para drogaminas, não por ser um dealer como seria de esperar de amigos meus, mas por parecer um bom alvo para cravar uns trocos. No entanto, apesar de ser meu amigo, o jovem Abril é inteligente o que resulta nestes diálogos numa Sexta-Feira Santa.

Tóxico – Epá, desculpa incomodar-te, mas nesta época do ano é triste, ninguém pára, ninguém tem um segundo para falar. Estão-se todos a cagar para o próximo.

Abril – Diz lá então.

Tóxico – Tenho fome pá. Não me podes dispensar uns trocos para ao menos poder comprar umas carcaças e umas latas de atum.

Abril – Não tenho trocos, mas também dinheiro não te dou, mas vou contigo ao supermercado ali ao lado e compro-te essas coisas.

Tóxico – Eeeehhr...pois, mais eu não posso entrar no supermercado.

Abril – Então porquê?

Tóxico – Por causa da fome. Da última vez que lá fui tinha tanta fome que comecei a comer coisas assim que entrei.

Abril (vê o alarme bullshit acender-se) – Pois...então ficas à porta e eu trago-te as coisas.

Tóxico – Epá, epá, não podes antes ir ao multibanco levantar notas e depois destrocar....

Abril – Já te disse, não te vou dar dinheiro. Queres as carcaças e as latas de atum ou não?

Tóxico – Eeehhrr...eu queria mesmo era um frango.

Abril – Um frango??!!! (até as boas pessoas se irritam) Mas porque é que estavas a dizer-me que querias pão e latas de atum?

Tóxico – Aaaa....Ehhr, é que as pessoas para o frango não dão. Além disso, eu já tenho pão aqui na mochila. Podes dar-me uns trocos para o frango então?

Abril – Não. Mas ali no supermercado vendem frangos, posso ir lá comprar...

Tóxico (afastando-se e em voz alta) – Epá, estamos na Páscoa e ninguém ajuda, é uma tristeza, ninguém tem tempo...

Abril (em 2 segundos de raiva) – Mas tu estás a brincar comigo, é?


Felizmente, não tinha um frango nas mãos ou poderíamos ter tido o primeiro homicídio com frango assado. Já eu, a última vez que fui abordado por um artista do género, que me queria vender um chapéu de chuva, consegui negociar até ele estar disposto a vender cinco chapéus de chuva pelo preço inicial que pedia para um. Princípios morais e o facto de estar Sol podem ter ajudado à não conclusão do negócio.

Crime no vale da secretária (conclusão)

(Não duvide, o autor desta prosa é mesmo alucinado. Mas, por descargo de consciência, leia os dois posts anteriores. Ou então faça a espargata, se for mais fácil).

- Para ti é tão fácil inventar histórias, não é minha cabra? – o agrafador não se conteve, quase soltando um agrafo – E o meu nome já cá faltava não é verdade. Mas, não é preciso ser cientista da NASA para perceber que eu fui usado nesta história.

- Ninguém te está a acusar de nada – o saco de papel tinha bom fundo e gostava de o mostrar – Todos temos o nosso papel nesta história. O teu é agrafar...

- Desculpa, mas eu sei como é – o agrafador tinha um tom metálico e frio na sua voz – aparecem folhas agrafadas e o culpado é o agrafador. É óbvio que os agrafos são meus, mas alguém me pressionou para que isto acontecesse. E também é óbvio que se aproximou de mim pelas costas, para eu não ter hipóteses de ver quem era.

- Gostava de dizer algo que é capaz de ajudar.

Todos se calaram, voltando-se para o pacote de açúcar. Parecia amarelo, mas feliz por ter a atenção dos companheiros.

- Vá, desembucha – os cabos dos headphones não tinham muita paciência para quem lhes dava música.

O pacote de açúcar pigarreou, aclarando a voz, antes de dizer:

- Um dia juntamos as escovas de dentes. Hoje é o dia.

Silêncio. O pacote tinha agora um ar sonhador.

- Mas tu és atrasado mental ou quê? – o agrafador já estava pelos arames – que merda foi essa com escova de dentes? O que é que isso tem a ver com alguma coisa do que se passou?

O pacote de açúcar chorava agora. Era muito sensível.

- Ah, meu caro agrafador – a garrafa de água vazia interviu com leveza – aí é que tu te enganas. Eu e a garrafa cheia estamos habituadas a situações em qua alguém mete água e o pacote de açúcar acabou de fazer isso.

E-e-e-e-u-u? – O pacote estava nitidamente agitado.

- Sim, tu – a voz da garrafa cheia tinha outro peso – Sabias bem que a relação entre aquelas folhas não estava bem e tu querias à força juntá-las.

- Mas há algum mal em querer ver folhas felizes? – o pacote estava agora na defensiva.

A garrafa continuou como se não o ouvisse. – Quando aquelas folhas lhe disseram para não se meter na vida delas e que fosse encontrar um café que o aturasse, este pacote rancoroso não aguentou. Apanhou o agrafador pelas costas e desferiu dois agrafos sem dó nem piedade, deixando as folhas mortas, mas juntas para sempre.

O pacote baixou os olhos – Eu só queria vê-los juntos. Para sempre.

- Nunca confiei nestes pacotes – concluiu o telemóvel ainda a tremer de SMS – sempre moralistas, sempre com sentenças, a quererem passar por inspiradores, quando na realidade acabam sempre vazios.

Os habitantes do tampo sabiam que a história iria chegar ao Grande Desarrumador, como chamavam ao ser que punha e dispunha da sua existência. E, quando assim fosse, não restaria ao pacote de açúcar senão acabar os seus dias na copa, sujeito a ser consumido por uma matrafona qualquer ou, se tivesse sorte, rasgando-se por acidente. O teclado sorriu, era altura de colocar um ponto final no assunto.

5.4.10

Crime no vale da secretária

(consulte o post anterior, para verificar que isto não se deve a falta de cuidados clínicos)

A secretária estava toda em alvoroço. Havia quem andasse aos papeis, que não eram poucos, mas o teclado tentava colocar ordem no tampo.

- Meus amigos - teclou ele ordeiramente – alguém agrafou aquelas duas folhas a sangue frio e ninguém sai daqui até se descobrir quem foi. Afinal de contas, SOMOS OBJECTOS A SÉRIO OU SOMOS RATOS?

- Isso é comigo? – Sempre susceptível neste tipo de afirmações, o rato deu dois clicks de fúria, pronto a abrir uma discussão.

- Desculpa, às vezes com o caps lock entusiasmo-me, foi sem intenção. – O teclado deu um Enter com calma, para amenizar.

O rato acalmou-se por instantes, mas a verdade é que continuava tudo muito nervoso. O telemóvel não parava de tremer e a caixa dos óculos até lhe ofereceu uma flanela para ele se aquecer. O telemóvel rejeitou a oferta, mas também a chamada que era na verdade o que o fazia vibrar.

- Podemos não ver muita coisa – avançaram os óculos escuros – mas já somos muito viajados e sabemos que isto não foi um acaso. Aquelas folhas foram agrafadas assim por uma razão que nos está a escapar. Se calhar fizeram-nas pagar por alguma coisa...

A carteira não se conteve – Tu irritas-me com essa conversa, primeiro com esse tique de falar de ti próprio no plural, depois com essa insinuação do pagar. Sabes bem, especialmente depois de todas as vezes que saímos juntos, que quem paga sempre sou eu. E, se te aparo os golpes as vezes todas em que ficas em cima da mesa a destilar estilinho e cagança, desta vez não sou eu a pagar por nada.

- Esse discurso foi um luxo, carteira – o post it não perdia ocasião para deixar a sua marca – posso tirar notas?

A carteira avançou para ele e teve de ser o guardanapo a separá-los.
- Calma, aqui ninguém se vai limpar de culpas, até porque se já o tivessem feito eu estaria todo sujo. Vamos lá ver se recapitulamos as coisas. Caneta, caderno, o que dizem os vossos apontamentos?

- Oh, as baboseiras do costume – o caderno já tinha visto tantas coisas que pouco o surpreendia – Umas quantas ideias sem nexo, um esforço de programação organizada que não leva a lado nenhum, jantar amanhã às 21h, ligar ao Rod por causa do fim de semana. Queres que vire a página?

- Não fala nada de agrafadelas suspeitas? – o guardanapo desdobrava-se em atenções, já que percebia que a caneta estava a roer-se para intervir.

- Bem... – a caneta parecia sempre incapaz de dizer tudo de uma vez só – Eu não queria fazer correr muita tinta com o assunto, mas vi uns rabiscos numa das folhas agrafadas que falava qualquer coisa com o agrafador precisar de agrafos...

(continua)

A boa da minha secretária



Desde já afianço que este post não tem nada a ver com este tipo de secretária. Trata-se simples e efectivamente de uma foto de parte da minha secretária. A parte arrumada acrescente-se.

“Muito bonito”, poderão alguns acrescentar, “E o que vem a seguir, instantâneos do cesto da roupa suja?”. Apesar de ser uma boa ideia, não vai ser por aí, porque o que virá a seguir é uma história idiota que me proponho a construir a partir dos elementos presentes nesta foto. “Mas tu és parvo?”
Pensei que isso já tinha sido confirmado nos primeiros posts deste blog.

Portanto, entre hoje e amanhã teremos exactamente isso. Uma história da minha secretária.
Até lá, estou disposto a aceitar questões sobre aquilo que vêem aqui, mas não sobre o que irão ver.

E tu, o que aprendeste com a Páscoa?

Quem, eu?
Sim, tu. Pões-te com perguntas retóricas e diálogos interiores e depois as pessoas não te percebem.
(Verdade seja dita, mesmo quando não te pões com essas cenas, não é fácil arranjar quem te perceba...)

A quem, a mim?
Não vamos começar outra vez.


Posso começar por dizer que aprendi porque é que as pessoas vão para o Algarve neste fim de semana. É que assim aumentam as probabilidades de aparecerem na televisão a dizer mal do tempo ou com ar resignado e casacão pelas costas na praia a dizer que ainda assim vai ser divertido.

Também posso confirmar que as amêndoas da Páscoa fazem mal. Especialmente quando são atiradas à cabeça de uma pessoa com força.

Para os amantes da tradição católica, é uma altura em que se apercebem que, mais perigoso do que beijar os pés ao menino ou à cruz, é deixar crianças sozinhas com indivíduos que têm posters dos Teletubbies e do Macaulay Culkin na sacristia.

Aprendi ainda que a tshirt que usei para ir correr uns valentes kms no Domingo de Páscoa não tem o carismo do santo sudário. Mas tem também um cheiro peculiar...

Cheguei também à conclusão que vou tirar a Alexandra Solnado do meu Facebook. Desde que fiz o post da freira e do Jesus está sempre a mandar-me convites para o Cristoville.

2.4.10

Rent-a-Cross

Era para ter ido passar estes dias às Filipinas mas, nesta altura do ano, nem com marcação antecipada se consegue arranjar lá uma cruzinha disponível para ser crucificado...