31.3.10

Pastéis de histórias de Belém


Para muita gente, os Pastéis de Belém estão para a gula, tal como Fátima está para o catolicismo nacional. De famílias em peregrinação, a gente que matará pelo seu cartucho de pastéis ou magotes de turistas entusiasmado, não falta quem veja nata, na massa folhada e no açucar e canela um momento divino. Ora eu, especialista na arte de desmanchar prazeres, tendo crescido a dez minutos a pé dos Pastéis, já não me excito com isso. É que há gente que não come na vida inteira os pastéis que eu comi até aos dez anos.

Tal não implica que não tenha uma boa história com Pastéis, como cromo de renome que sou. Na minha rua, havia um casal mais idoso, cujo marido era daqueles senhores que adora passar o dia a mexer no carro sem razão aparente. Sua esposa, infelizmente quase cega, ficava muitas vezes sentada no carro, enquanto ele operava o motor e a bagageira pela enésima vez. Certo dia, esperava eu por um amigo em frente a um café da rua, quando reparei no carro estacionado, com a senhora lá dentro e o homem cá fora.

Oiço a senhora “Ai, apetecia-me tanto um pastelinho de Belém. Bem podíamos passar por lá”. Não viu ela, mas vi eu o ar de desagrado do senhor que, suspirando, lá entrou no carro. Ligou o motor, esteve perto de dois minutos a fazer aceleradelas, ligou os piscas e deixou o carro ligado em ponto morto, tudo isto sem sair do sítio. Abre a porta, sai e vira-se para ela:

Pronto, já cá estamos. Se alguém perguntar, diz que eu volto já.

Percorre os dois metros do passeio e entra no café. Dois minutos depois sai, com um pires com dois pastéis de nata. Entrega-os à sua senhora, dizendo: “Estás com sorte, dois pastelinhos de Belém quentinhos e tudo”. E assim testemunhei o milagre dos pastéis de Belém que não o eram mas passaram a ser. Também aí aprendi uma ou duas coisas sobre a maleabilidade da verdade.

Para que não fiquem aí a remoer sobre as amarguras da vida e a minha faceta de escroque, deixo-vos duas pérolas de sabedoria local. Se são mesmo devotos a sério dos pastéis e, ainda por cima, caem no erro de lá ir parar ao fim de semana, experimentem comprar a vossa dose e irem comê-la para a Ermida de São Jerónimo. A vista é um mimo e, apesar de ser a cinco minutos de carro, é desconhecido da maralha em geral. Não se recomendam visitas nocturnas a não ser que não sejam pastéis o que vão lá comer. Se não gostam desses pastéis, mas são arrastados na maré até Belém, esperimentem os de cerveja. Não dão para afogar mágoas, mas sempre são diferentes.

Caso já conheçam isto tudo, deixem de snobismos e mostrem-se agradecidos à mesma.

Deixei de me dar com freiras

Haverá coisa que mais prejudicial para o ego masculino do que conviver com freiras? Não falo daquelas que o são da boca para fora, mas sim das que o são do coração para dentro.

Primeiro que tudo, convida-se para ir beber um copo e é um épico para encontrar um sítio que sirva água benta. Depois, quer-se ter uma conversa descontraída entre amigos e fica-se com a sensação que o Senhor está sempre entre nós. E, fica logo a saber-se de antemão que o Senhor está ali para atrapalhar, porque sendo omnipresente, podia estar em Caxias e ainda assim ouvir a conversa.

Depois, é tudo uma questão de hábitos. Ou porque o hábito com cinto de corda já não está na moda ou porque agora há um tom de preto mais suave ou até porque há maus hábitos que andam para aí à solta.

Quando finalmente somos obrigados a ser nós a rezar para ver se aquilo acaba, lá vem a conversa suspirada sobre o tipo a quem são devotadas: “Ah, o Jesus é fantástico, demos um jantar, não havia vinho e ele transformou logo uns garrafões de água em Barca Velha”, “Ah, o primo Lázaro morreu antes do casamento da prima Laura, que ficou devastada e o Jesus ressuscitou-o mesmo a tempo de ele ainda a levar até ao altar”. Em dois minutos já nos sentimos aziados e a procissão (do Jesus, obviamente) ainda vai no adro.

“Não imaginas o que o Jesus decidiu outro dia, depois de fazer à mão os móveis todos da casa em dois tempos. Vira-se para mim e diz-me que vai morrer para absolver os pecados todos da humanidade. E eu fico a olhar, comovida, sem saber o que dizer e pergunto-lhe se tem a certeza. E aí o Jesus vira-se para mim, caminha por cima da piscina e abraça-me, dizendo que sabe que vai ser um calvário, mas que pelo menos vai ser porreiro ser crucificado com dois tipos do bairro em que cresceu”.

Já pedi a conta por esta altura. Já ela, vai nas alturas.

“E eu a chorar, viro-me para o Jesus e digo-lhe, então e depois como é, não ias passar na casa da tua mãe no Sábado? E ele sorri, cofia a barba e diz-me para não me preocupar, que se for possível ressuscita na sexta, vamos lá no sábado e depois, sendo assim, ascende só aos céus no Domingo”.

E lá fica um gajo calado, sem dizer nada, a pensar que nem vale a pena dizer que fazemos um risotto magnífico para mostrar alguns dotes. Porque Jesus, calhando bem, também deve ser um cozinheiro divino.

30.3.10

A mulher que esperava e desesperava



Junto à estação dos barcos, uma mulher esperava. O sol de fim de tarde aquecia-lhe o rosto e fazia esquecer, entre outras coisas, o vento fresco que já se fazia sentir. Olhando...

“Olha, desculpa lá, vou ter que esperar muito mais tempo? Custa-me horrores esta coisa da espera, ainda por cima sem saber bem para quê...”

Se não me interromperes, chego lá mais depressa. Que mania têm as minhas personagens de começar com histórias.

“Pronto, também não se pode dizer nada, pareces logo uma virgem ofendida. Mas, visto que já interrompemos, podias pôr-me um casaquinho ou coisa parecida? É que isto do Sol de fim de tarde é muito bonito de descrever, mas este vento ainda incomoda....”

Adiante. Olhando em volta, a mulher puxou para si o seu casaco de bom corte (satisfeita?), como se de repente sentisse um arrepio. Voltou-se, mesmo a tempo de ver uma jovem esbelta, que corria elegantemente à beira rio.

“Muito bonito, realmente.”

Importas-te que eu continue o texto?

“Por acaso importo-me. Então eu, que sou a protagonista, estou aqui especada à espera, vá lá consegui um casaquinho por favor e nem uma palavra sobre os meus atributos. Uma tipa qualquer passa para aqui a correr, só porque trazia corpinho à mostra é logo esbelta e elegante. E eu sou o quê, um calhau com olhos?”

Não te sabia assim tão melindrada.

“Não te faças de parvo. Foste tu que me criaste, sabes bem que não me ia ficar”.

Aquela tipa não significa nada. É paisagem apenas.

“Paisagem esbelta e elegante”.

Sim, está bem. Vamos tratar disso, mas espera mais um pouco, ok?

“Não me provoques...”

Conforme aquele vulto se afastava em corrida, a mulher sorriu. Sabia o que era ser observada por outros, sabia também deixar-se ser observada e tinha aquele toque de fogo, próprio das mulheres que combinam beleza e inteligência. (serve?)

“O toque de fogo está a apagar-se....Deve ser do frio que está nesta porcaria de estação. Não podia ser um hotel ou um bar trendy. Não, calhou-me um lírico...”

Bem, parece-me que não me entendo contigo. É porque tens frio, é porque não te gabo, se te gabo é porque a história não avança. Ainda por cima que agora que vinha aí o rapaz moreno de casaco com capuz.

“O quê, aquele que me tinhas falado. O do sorriso que move montanhas?”

Esse mesmo.

“Ok, se calhar aguenta-se o frio mais um bocadinho. Ele demora?”

Vem já ali ao fundo.
“Certo. Despacha-te, vá, vá, não enroles”.

Foi nesse instante que a mulher reparou nele. Parecia-lhe familiar, talvez porque aquele rapaz moreno se aproximasse com um sorriso capaz de mover montanhas. Ela manteve um ar expectante. O rapaz sentou-se ao seu lado e, aproximando-se com um perfume suave, disse-lhe ao ouvido – “Acorda”.

De repente, ela acordou desnorteada. O mesmo sonho, pelo quarto dia consecutivo e...

“Não, diz-me que tu não me fizeste isto. Que merda é esta??? Então o rapaz alguma vez ia dizer acorda e isto era um sonho??? És, és, aiii que raiva!”

Já percebeste o que acontece quando as personagens se armam em espertas? Quando estragam o mood de uma história?

“O mood? Eu dou-te o mood. Só podes estar a gozar comigo. Este sonho é trafulhice tua, admite. Eu ali, com o rapaz, fim de tarde de postal, romance no ar... és um traste e digo mai

A mulher que esperava, de repente ficou afónica, sentada na cama, gesticulando e fazendo alguns sinais ofensivos com as mãos. Havia raiva no seu olhar, mas havia também paz na cabeça do seu autor.

Marketing corporal

Quem tem boca vai a Roma.
Usando o resto do corpo há quem visite a Europa inteira...

Chamadas da tanga

Tempos houve em que, na casa de um amigo meu dado a engenhocas, jovens imberbes e algo idiotas se dedicavam a fazer chamadas aleatórias usando o telefone fixo, gravando o resultado das mesmas em belas cassetes audio.

Como é óbvio, o tino era pouco e, desde convites ao último senhor da lista para aderir a uma promoção em que passaria a ser o antepenúltimo por apenas cem escudos (sim, a rapaziada ainda brincava com o câmbio antigo) até a chamadas posteriores para o penúltimo dizendo que agora era o último e por aí em diante, assim se passavam horas de diversão.

No entanto, havia sempre a tentação de ir mais longe. típica de miúdos que acham que o limite de uma piada é...bem, na realidade acham que não há limites para uma piada. Sendo assim, depois de uma luta para ver quem fazia a próxima chamada, em que perdi apenas porque enfiar dedos nos olhos não valia e fui eu o único que cumpri essa regra, um outro amigo achou que estava na hora de passar ao próximo nível.

Escolhida uma senhora, já não me lembro bem porquê, eis a dica do engraçadinho:

"Olhe, bom dia, fala da casa de p#tas?"

"É sim, mas olhe que está com azar"

"Então porquê" A risota era abafada na sala e a cassete gravava este momento épico.

"Porque a tua mãe já saiu e agora se calhar só a encontras na rua" A voz era calma, assertiva e, como se diz na gíria, marcou três pontos para o País de Gales.

Clic

A chamada acabou. A cassete parou. Quatro miúdos parvitos perceberam que os adultos também podem gozar com eles.

29.3.10

Estar na mesma é bom?

Contava outro dia quantos amigos a sério guardei eu da universidade. Apesar de nunca ter sofrido nenhum acidente ao manusear fogo de artifício, verifiquei que não precisava dos dedos todos das mãos. Não me surpreendeu, até porque eu sou daqueles que faz uma distinção entre conhecidos e amigos e se tivesse incluído os primeiros, ia precisar de uma resma de mãozinhas para os enunciar.

Assim sendo, dei por mim este fim de semana com parte desse núcleo de amigos, num daqueles jantares em que é legítimo falar de boca cheia enquanto se desbaratam as alarvidades do tempo em que éramos crianças maiores de idade, com os benefícios de álcool, sexo e desvario que tal facto acarretou. Até aí, tudo normal, tão normal como a afirmação de uma cara senhora (creio que já se pode chamá-la assim sem levar dois murros) que já não via há algum tempo, que me diz:

“Ah Mak, tu estás igualzinho ao que eras”.

Venha mais um copo, brinde-se a isso mas, depois de recuperar do acerto horário, fiquei a pensar – será realmente bom estar na mesma?
Fiz uma auto análise; do ponto de vista físico não me parece mau. Mantive a higiene pessoal em níveis não comprometedores e não sofro do síndrome tradicional que tende a afectar gente que não se vê há algum tempo, o gene “gordo, careca e com ar acabado”. Também não possuo carteira profissional de “casado/divorciado com prole acoplada”, o que pode retirar margem de manobra para inovar em histórias familiares com partos e crianças a bolsar.

Resta o resto – o miúdo de resposta pronta, trocadilho instantâneo, piadista, sempre com uma história para contar e para animar nos bons e maus momentos. A maturidade que exista (e, para meu bem, é bom que exista) convive com esta faceta mas fica sossegadinha a ver a performance do artista.

Vá lá, já tenho noção disso, deixa lá ver se os outros o conseguem. Senão depois acontece como no dia em que fui dar uma espécie de aula à minha universidade e tive um professor meu a assistir que me disse “Epá, o Mak está na mesma, essa barba de três dias e alguns cabelos brancos é que ajudam a dar outra credibilidade às suas palavras”.

Palhaço. E isto, possivelmente, aplica-se aos dois.

GPS a dois

Virou-se, sorriu e disse algo meio suspirado:

- Às vezes gostava que me deixasses ser o teu GPS.

Ouvindo isso, devolveu o sorriso e acrescentou-lhe em tom adocicado:

- Para me poderes guiar em segurança pelos caminhos e vielas da vida?

O olhar levantou-se. Nos jogos de palavras, nem todas as regras vêm escritas na caixa.

- Não. Para ouvires atentamente o que te digo e depois fazeres as coisas como te peço sem refilar.

26.3.10

Cheira a homem

Esqueçam os tempos do Denim, em que ela ia a pôr a mãozinha e ele dava-lhe o arroz, com um gesto brusco e firme. Para cheirar homem, agora o truque é outro.



Um mimo, é o que vos digo, para senhoras, cavalheiros e até cavalos.

A vida entre duas fatias de pão


Para muita gente, a vida é feita de episódios com encontros e desencontros, aproximações e afastamentos, avanços e recuos. A minha tem largos capítulos de histórias com sandes.

Algures no traçar do meu destino, ficou escrito (será conveniente ler esta parte com voz grossa e profunda): “Terás sempre muito para contar jovem e, ao longo da tua existência cruzar-te-às por diversas vezes com duas fatias de pão recheadas com algo para te lembrar disso”.

E assim foi.

Reza a lenda que um dia me fui encontrar bastante cedo com alguém numa zona pouco recomendável da cidade. Como o local do encontro era apenas uma zona de transição para irmos para outro lugar, esperei na rua. Visto o pequeno almoço não ter sido suficiente para aplacar um jovem do meu porte, dei por mim com uma certa fome enquanto esperava. Não tendo aprendido com este episódio, resolvi entrar no único café tascoso que vi aberto nas redondezas.

Os primeiros passos não auguravam nada de bom, em parte porque foram extremamente pegajosos. O facto de serem dados depois de passar uma cortina de franjas que tornava difícil distinguir sujidade de sombra também não ajudou.
Ninguém à vista e nem sequer um “Facha vôr” a medo resultou.
Resolvi tossir alto.

Uma porta por detrás do balcão abriu-se e foi assim que a conheci. Pouco mais de metro e meio, frondosa permanente loira com algumas raízes pintadas de preto, formas misteriosas em que era difícil perceber onde começava uma parte do corpo e acabava outra. A cintar essas mesmas formas, uma bata de trazer por casa com o elan que só as florzinhas estampadas e as nódoas conseguem conferir. Ia jurar que ainda vinha a ajeitar a cinta.

A sua voz fez-me sonhar, mais precisavamente com não ter de estar ali.

“’Tão, o que é?”

“Bom dia....olhe tem sandes de queijo?”

“Não.” Se o pão fosse tão seco como a resposta, podia desistir já.

“Ah... e de fiambre?”

“Também não” Já vi gárgulas com ar mais amistoso.

Nesta altura eu devia ter saído, mas não, achei que podia haver esperança.

“Pronto, sendo assim, o que é que tem que se coma?”

A disposição mudou e vi surgir aquilo que podia ser um sorriso, pelo meio da ausência de alguns dentes e a podridão de outros. Ajeitou novamente a cinta e a bata e isso arrepiou-me.

“Se quiseres, podes comer-me a mim”. E riu-se, com um riso de bruxa da casinha de chocolate.

E eu fiquei sem resposta, o que é raro em mim. Também fiquei sem pinga de sangue, mas isso não me preocupou muito. Meio sorriso amarelo, rotação rápida a 180 graus e corrida em passo acelerado para o exterior. O riso ainda ecoava na minha cabeça.

Durante o resto da manhã não falei muito. Também não tive muita fome.

25.3.10

Campeão nacional de boring

Imaginem um tipo que não fuma, nem nunca fumou nada.
Adicionem-lhe o facto de não beber café, quanto muito um garoto clarinho, sujeitando-se ao lote habitual de piadas na matéria.
Cerveja também é coisa que não agrada a este indivíduo. Apenas em países estrangeiros para cumprir tradições ou na herege versão Green, localmente.
Vá lá, bebe vinho, mas foi preciso educá-lo.
Para pratos como cozido, dobrada, tripas ou feijoada não o convidem. Recorrerá aos mesmos apenas para não morrer à fome.
Anda e sempre andou de transportes diariamente.
Tem uma conta no mesmo banco desde que nasceu.
Nunca chumbou um ano na escola e até ao 12º ano só tinha tido uma negativa.
Nasceu em Lisboa, estudou sempre em Lisboa, trabalhou sempre em Lisboa e ainda vive em Lisboa. E por Lisboa entende-se cidade e não concelho.
Leu os Maias muito antes de ser obrigado a isso no secundário.
O primeiro desporto que praticou foi ginástica, daquela que se anda de sapatilha branca e camisa de alças.

E isto é só uma amostra.


Agora, imaginem só o trabalhão do caraças que deve dar fazer este totó passar por um tipo com muita pinta...

Sensibilidade e mau senso

Que gosto de escrever não é preciso ser um iluminado para perceber. Depois, gosto de desafios. Também gosto de apanhar as pessoas de surpresa, coisa que aliás me tem rendido várias carteiras, relógios e telemóveis.

Daí que tenha criado um texto para o blog desta cara senhora. E um grande bem haja para quem gostou e também para os que pensaram "Este tipo afinal é um nhonhinhas".

No entanto, que não se pense que este é um espaço dedicado à sensibilidade. Para isso abria uma loja de bonsais. A sensibilidade tem por aqui uma periodicidade semelhante à da passagem do Cometa Halley.

Por isso, bebam mais um copo, leiam mais um delírio, mandem mais um bitaite, mas não fiquem à espera de me ver a declamar sonetos e a dissertar sobre simbioses e a essência da alma.

A não ser que me apeteça.

Mas isto também pode ser uma estratégia para vos fazer gramar com 10 posts que tenho preparados sobre castanhas piladas e outros frutos secos.

24.3.10

Este post é grande e proporcionará imenso prazer

Chama-se a isto publicidade enganosa.
Ou serviço público, se o ensinamento sobre gestão de expectativas tiver alguma validade.

Não façam essa cara.
Afinal, a vida é feita destes pequenos momentos.

Ao princípio era o Sundy


Tempos houve em que outros chocolates caminhavam sobre a face da Terra, para além do relambório que ainda hoje sobrevive. O Twix ainda era conhecido como Raider e, nalgumas mercearias de bairro, caso se fosse cliente assidual, ainda se arranjava um bem refundido Táxi.

O Toffee Crisp já era pronunciado Tofe Crispe pelo vendedor menos abonado em língua anglófona e por todo o português com mais de 45 anos e/ou bigode. O chocolate Regina era recorrente até nas padarias, não havendo a bichanice retro de ser vendido no Magnólia, inexistente por essa altura.

O conceito “barrita de cereais”, em que a palavra barrita tenta tirar toda a carga calórico-balofa que os cereais possam acarretar e dar-lhe uma dimensão fitness, não passava ainda de uma intenção na cabeça de alguém que queria enfardar doces de embarda e, ainda assim, passar por saudável.

Numa categoria à parte competia o Sundy. Misto de chocolate e cereais, mas sem o bullshit todo de cariz pseudo saudável, esta simpática barra fazia as minhas delícias em tempo de juventude. Mas isto de ser diferente tem o seu preço e ao passo que qualquer matarruano conseguia comprar o seu Mars, Snickers, Crunch ou até mesmo um Lion em qualquer papelaria/pastelaria perto da escola, eu tinha de fazer uma peregrinação até a uma mercearia específica.

Em determinado dia, a escolha de um Sundy ficou gravada para sempre na minha memória. Depois de uns bons 15 minutos a pé, chego à mercearia dos eleitos. Fechada. Olhando em volta, com o desejo por uma barra estaladiça envolta parcialmente em chocolate, resolvi tentar um pequeno café/tasca mesmo ali ao lado.

Erro nº1 – Não deixes que seja a gula a ditar as tuas escolhas.

Tendo entrado, o cenário não indicava que pudessem haver Sundys em lado nenhum. Ainda assim, arrisquei:

“Boa tarde, tem Sundy’s?”

Erro nº2 – Não fales como se tivesses uma certeza antecipada de que as pessoas sabem do que estás a falar.

“Tenho sim senhor. De quêjo e fiambre.”

O sotaque não deixava enganar. Estava a decorrer uma gaffe.
Sem saber o que responder, com um ataque de riso eminente, restou-me tapar a boca, tentar dizer “Deixe estar” e sair rapidamente, não sem antes ouvir “O miúdo deve ser mas é parvo”.

E assim, ainda que hoje seja muito mais complicado encontrar Sundy’s, não há pedido de sandes mista que ocasionalmente não me faça sorrir. Isso e gente a ajeitar as cuecas nos transportes.



(esta embalagem sacada não é a original, essa tinha raios dourados e castanhos)

23.3.10

O homem que se conhecia bem demais



Saiu à rua quando não devia. Já não era cedo, mas era supersticioso e se alguma mulher lhe sorria antes dele pôr os pés na rua, nesse dia o melhor era nem sair. Talvez por isso acordasse muitas vezes sozinho.
O problema é que ele não percebeu se ela sorriu. No elevador. Quando desciam, houve um momento em que pareceu que ela sorria, mas o momento foi mais rápido do que ele. Baixou os olhos, ela não era de confiança, tinha pinta de ser daquelas que sorriam com facilidade. E ele até gostava de mulheres que sorriam, mas nunca antes de sair de casa.

Na dúvida, saiu. Cada um para seu lado.
Foi a pé. Como se conhecia bem, sabia que assim não ia pensar naquele sorriso que podia não ter sido. Enquanto pensava naquilo em que não ia ter de pensar por ir a pé, meteu-se por uma rua sem olhar.

Era uma rua sombria, sem movimento. Parecia boa para assaltos e isso era coisa que não lhe agradava. Nunca tinha sido assaltado, tirando por dúvidas e pelas finanças, mas tal não era o caso. Ali, era uma rua onde podiam perfeitamente haver assaltos a sério.
A rua parecia não acabar, tal como os seus receios. Começava a ouvir barulhos em cada recanto e cada entrada de prédio parecia ocultar um tipo à espera de o assaltar. Como se conhecia bem, sabia que a tendência era para piorar e que estava algo para acontecer e não era bom.

Pensou em voltar para trás, mas rapidamente descartou a ideia. Sabia bem que, mal voltasse as costas, aumentava a probabilidade de ser assaltado. Não sabia bem porque pensava assim, mas na dúvida, resolveu continuar em frente. Os prédios pareciam estreitar a cada passo e estava agora a suar em bica. Para além deste assunto, também ele começava a cheirar mal.

Cada vez mais tenso, decidiu que estava na hora de pôr um ponto final nesta história. E, como se conhecia bem, sabia que só havia uma solução – Acabar com a incerteza e assaltar-se a si próprio.
Começou por surpreender-se imediatamente com um puxão na própria gravata. Desequilibrou-se, mas reagiu pontapeando a sua perna. Caiu, chamando nomes a si próprio.
Já no chão, com o braço direito no seu peito, empurrou-se contra a parede. O braço esquerdo tentava em vão soltar-se. Com uma chapada, enervou-se, mas ganhou a sua própria atenção.

“A carteira e o telemóvel” pediu a si mesmo. “Epá, fôdasse, só a mim” respondeu baixinho. Aplicou mais uma chapada em si, para aprender a estar calado. “Vá, vá, saca lá isso, não me fôdas”. Desagradado com o seu próprio tom e algo assustado, tirou a medo a carteira e o telemóvel.
“Isso”, disse com um sorriso porco que não conhecia, apesar de ser seu. E então desferiu na sua cara um soco no nariz. Foi outra vez ao chão, a sangrar, gritando ainda “Filho da puta, eu um dia apanho-te”. Depois desatou a fugir de si mesmo.

Como se conhecia muito bem, voltou para casa a pensar que não devia ter saído. E tudo por culpa do sorriso de uma mulher.

Pequeno interlúdio da madrugada

Para alguns, ter ideias é hobbie. Para outros, dá trabalho. A mim, dá-me emprego.

“Mas então não és estivador?” Correndo o risco de desanimar a plateia, confirmo que a estiva está-me no espírito mas não no horário de trabalho.

Por falar em horário e em ideias, deixem-me que vos elucide. A hora deste post não se deve a truques do Blogger, nem a insónias ou sequer a regabofe digno desse nome.

É tudo fruto de uma rica ideia.
A cabra.

Cabra? Mas, então não é tua?

Sempre a questionar-me o atento leitor. Ainda por cima usa as minhas próprias mãos para colocar as suas questões. A ver se paramos com essa brincadeira.

É cabra porque é rica e eu não. E no fim do processo continuará a ser rica, independentemente do seu destino, e eu não, apesar de já ter destino certo. A cama.

E, nas entrelinhas, percebes que o que te move não pode ser só o bling bling, que é mais bling e meio que outra coisa. Tem de haver um gozo qualquer por trás disto.
Eu sei que há.

Mas estou cá com uma moca que nem o encontro.

22.3.10

Run, Mak, Run

E, em resumo, a modos que parte deste Domingo foi passado assim.



No entanto, a terem havido trocas de palavras com idosas, terão possivelmente ocorrido com a utilização de termos mais rudes, como por exemplo:


"Com licença minha senhora"

"Está com pressa, é?"

"Não é uma questão de pressa sabe, isto é uma corrida..."

"E não pode esperar um bocadinho, é?"

"Não me dava jeito, porque eu quero correr e a senhora e as suas 10 amigas, vão em cordão, a andar..."

"Se não lhe dá jeito, vá a nado."

"Antes eu que a senhora, que com as ligaduras ainda ia ao fundo"

"Ligaduras?"

"Sim sua múmia paralítica, mais o grupo de cantares de Queops que veio consigo"

"Olhe, vá..."

"Vou, vou e a correr. Com licença" (gesto abrupto, que poderá ter indignado alguns idosos).

19.3.10

Melodrama venezuelano-urbano-cretino


Abandonada no altar pelo seu príncipe-até-aí-mais-que-perfeito (que fugira com o pai dela horas antes), não aguentou ficar dentro daquela igreja enquanto sentia as vozes crescerem cada vez mais, dentro e fora dela.
Desnorteada, anestesiada mas em dor profunda, apetecia-lhe rasgar a alma em pedacinhos. Desatou a correr e nem as portadas góticas a conseguiram deter. Saiu.

O Sol fazia doer. A rua e as pessoas faziam doer. Ser fazia doer.

Correu, sem saber como e para onde. Desceu para o metro. Sentado na plataforma, apenas um homem. Bem parecido, pareceu sorrir-lhe. Aproximou-se, réstea de noiva, de pessoa.

“Não me conheces, eu não te conheço. Não te vou contar a história da minha vida, nem sequer a história das minhas últimas duas horas. Mas, por favor, diz-me, mas diz-me sem receios nem merdas – Porque devo eu acreditar num homem mais um dia que seja na minha vida? Porque devo acreditar que um dia algo que vai ser diferente?".

O homem pareceu confuso. Olhou-a de cima para baixo e com um ligeiro encolher de ombros abriu a boca sem proferir uma palavra. Ela limpou as lágrimas e sorriu.

“Deixa estar, a culpa não é tua. Não precisas de procurar uma resposta. Mais vale que as coisas sejam assim.”

E, olhando para trás, deixou-se cair na linha de metro com a graciosidade de um cisne. O rápido que se aproximava não foi tão gracioso.

Nesse dia, sentado na plataforma ainda em choque, um surdo-mudo decidiu que talvez devesse tentar aprender a ler os lábios.

18.3.10

Se eu tivesse uma irmã mais velha

Queria que ela fosse um bocado mais velha. Onze anos mais velha era capaz de chegar. Assim, iria desaparecer um bocado aquela tendência dos irmãos mais velhos para afinfar nos mais novos e, sendo mulher, seria provável que assumisse um papel protector e educativo.

Como sou picuínhas, não queria uma irmã qualquer, queria material de qualidade, culta, poliglota, inteligente e com bom gosto (especialmente no que toca a irmãos). Que me estimulasse o gosto pela leitura desde cedo, que me fosse ensinando a escrever e a falar inglês, não por imposição, mas de modo natural. Que, apesar de alguns tormentos, me desse a conhecer muitos estilos musicais e um background polifónico alternativo dos anos 80, que ainda hoje surpreende muita gente.

Mas, não queria que se ficasse por isso, porque irmãs dessas há aí a pontapé. Queria que fosse uma irmã mais velha irreverente, que dominasse o Bairro Alto quando ele ainda era pequenino, que tivesse veia artística, que gostasse de viajar para longe de destinos e lugares comuns.

E, se tivesse uma irmã assim, ao fim de algum tempo não me ia surpreender se ela, pela sua maneira de ser, incutisse em mim uma série de valores que crescessem comigo até a uma altura em que eu já seria um bocado maior do que ela.
Uma irmã mais velha, nesse estilo, não me importava. Porque de certeza que me ia levar aos meus primeiros concertos, não ligaria puto a futebol, mas veria atentamente cadernetas de cromos da bola em conjunto, estaria comigo no dia em que me passasse pela cabeça furar a orelha ou iríamos até juntos a Londres quando eu ainda nem sequer fosse maior de idade.

Resumindo, seria aceitável ter uma irmã assim. Porque apesar da diferença de idades, seríamos sempre próximos mesmo que, por moldes de feitio, pudéssemos por vezes parecer distantes. Seríamos diferentes, mas ninguém poderia dizer que não éramos irmãos.

E, conforme crescesse, possivelmente nem sempre seria capaz de demonstrar a minha reverência e estima por ela da forma mais apropriada. Porque há coisas que nem as irmãs mais velhas moldam na nossa personalidade. Mas acreditaria que ela soubesse, porque eu também o sei.

Quisesse a genética familiar que eu tivesse uma irmã assim e estaria agora a jantar com ela e termos como “Mô” ou “Verme fariam sentido em dia de aniversário. E ela nem sonharia que, por causa dela, o seu irmão mais novo teria escrito um post do mais lamechas que há, coisa que até lhe arrepia os cabelos.

Ainda bem que eu não tenho uma irmã assim, senão ainda pensavam que este post todo sentimentalão tinha alguma coisa a ver comigo.

Coisas que nunca me vão apanhar a fazer

Enquanto corria ontem à noite pela Avenida Rio de Janeiro, seguia para a Avenida do Brasil, descia a Gago Coutinho, subia a Avenida dos EUA e continuava por aí em diante, lembrei-me de umas quantas coisas que gostava de não ter a capacidade de me lembrar e que, depois de me lembrar delas, me lembraram que há coisas que não se devem esquecer, para nunca ter de as fazer. Assim como:

- Vestir-me de campino a rigor e estar 2 horas à porta das Amoreiras.

- Brincar aos telefonistas e ligar para extensões internas a arfar de modo suspeito e dizer em voz ofegante - “Gostas do meu corpo?”

- Explicar a uma coluna de veículos militares qual o caminho certo para um dado hospital e perceber segundos depois que os enviaram na direcção errada.

- Fazer uma dissertação num exame sobre “A importância do polegar oponível para o desenvolvimento cultural humano” de forma totalmente ad lib e usar expressões como “papagaios com mãozinhas” ou “macacos bem falantes”.

- Descobrir que a diferença entre primeira classe e turística na auto-motora que liga Évora ao Barreiro (em 220 horas) é que os bancos são acolchoados na zona onde se apoia o braço.

- Não perceber (ou fingir que não se percebe) o que é que uma gaja está a querer dizer com o uso repetido da expressão “Ir dar banho ao palhaço”.

- Responder a um superior que diga “Este trabalho que fizeste está um bocado abichanado” com “Na volta foi por isso que me pediram para o aprovar contigo”.

- Consumir Gold Strike de modo desenfreado. Correcção: consumir Gold Strike.

- Pensar que o nariz é mais resistente que uma bola de basket.

- Fazer listas que possam levar as pessoas a pensarem que dadas coisas se passaram connosco.

17.3.10

O som dos estúpidos

Ser estúpido é chique. Não sou eu que digo, é a Diesel. Agradeço o epíteto, o primeiro elogio não é de agora, mas o segundo é novidade. No entanto, não fiquem a pé até tarde à espera do meu dinheiro. Não dá saúde, nem faz a vossa conta bancária crescer.

Mais depressa o dava para ir ver ao vivo estes senhores, que vos dão som à campanha.



Mas, há que reconhecer, a estupidez está na moda.

Contra-informação

Não resisto a colocar um conteúdo altamente criativo, se bem que não da minha autoria. E sim, já tinha ouvido, já tinha lido, já tinha até esboçado um sorriso de desdém intelectual, como se não ligasse a estas coisas
.
Eis o speaker que chamou o primeiro ministro pelo seu nome de boneco na contra informação, durante a apresentação do plano para a Energia.




Será que o gajo usou um smilie?

A triste vida de um smilie


Liderados pelo seu famoso cabecilha, estes são apenas alguns dos inibidores de seriedade que pululam em emails, trocas de mensagens instantâneas e toda uma panóplia de meios de comunicação digital.

:)
:D :S :( :’( :P

Para aqueles que não estão ainda em êxtase pelo uso do verbo pulular, passo a explicar.

Antes de mais, tenho pela figura institucional do Smilie a maior consideração. Aliás, vendo-o ali a sorrir, apesar do rosto amarelo prenúncio de saúde débil, mantendo a sua boa disposição, sem lamúrias por não ter nem braços nem perninhas, faz-me pensar no smilie como uma espécie de Stephen Hawking do seu género, uma figura inspiradora de alegria e esperança pelo mundo inteiro.
Se não formos totalmente desprovidos de coração, é impossível não nos comovermos com uma figura careca, sem membros, sem corpo, com sinais de icterícia e que, ainda assim, sorry e diz “Be Happy”.

Chateia-me, contudo, quando por caridade ou falta de arte, começam a dar emprego à bruta ao Smilie e à sua família na área da inibição de seriedade. Ora porque se tem medo que a pessoa não perceba a ironia e lá fica um tipo guarda da passagem de nível. Ora porque se está feliz e se dá uma boa notícia que por si só não chega e oito smilies seguidos vão transmitir a real dimensão da felicidade. Ou porque não se tem pachorra para responder a umas quantas pessoas e se dá um part time a dois ou três smilies para irem continuando a conversa por nós.
Por vezes, o smilie é apenas um testa de ferro que usamos para nos livrarmos de responsabilidades. Queremos dizer das boas a alguém, mas temos medo de segundas interpretações ou retaliações. Ora, deixo ali o smilie no fim a guardar a frase e ninguém vai desconfiar que lhe estou a chamar filho de uma meretriz na sua versão mais curta.

Antigamente, dizia-se “É Carnaval, ninguém leva a mal”. Agora será mais “Tem smilie, ninguém leva a mal”. Vá Smilie, não te acanhes, mostra o meu desagrado em relação a esta matéria.

:(

Da minha parte, é certo que já pequei na matéria. Mas prefiro atirar a primeira pedra do que levar com ela.

16.3.10

O tamanho importa?



O título, tal como a questão em si, pode ser enganoso. Muita gente já debateu sobre isto e o consenso é algo utópico. Há quem diga que é o talento do artista que define o resto, mas há também quem diga que o formato e o local onde é aplicado é que faz toda a diferença.

De ambos os lados da barricada encontramos gente satisfeita com aquilo com que estão habituados a lidar. Como é óbvio, do lado de quem lida com uma razão de grandeza, existe a satisfação derivada da autoconfiança de saber aquilo que se tem entre mãos. Mas, por outro lado, quem lida com um formato mais reduzido é obrigado a uma maior ginástica para que tudo funcione como é suposto de modo eficaz. Consta até que neste caso a inspiração e a imaginação podem fazer toda a diferença.

Ora eu, que gosto pouco de segundos sentidos, prefiro pôr as coisas em pratos limpos e perguntar directamente:

Em termos de tamanho, dá mais gozo ler posts maiores ou mais pequenos?

O Deus das portas (conclusão)

Caso não tenha lido os dois posts anteriores, as linhas que se seguem poderão parecer-lhe absurdas caro leitor. Caso tenha lido, pode suceder-lhe exactamente o mesmo. Tal não se deve à ausência de medicação, pelo menos da sua parte, mas é sim sinónimo do chavascal que é apanágio deste espaço.

“Olha, somos estes e queremos entrar. Tudo na boa?”

O resto da fila parecia não existir. Permaneceu imóvel, como uma rocha.

De repente, sorriu como só ele sabia sorrir. Com um gesto pareceu abrir-lhes passagem com um braço. Erro crasso do primeiro que avançou, pois o braço ganhou balanço e ouviu-se um maxilar a estalar, como se fosse de borracha.

Eis quando tudo começou a fazer sentido. Ao deixar de o ter.

Saltaram dois ninjas da fila e pareceram vir auxiliar aquele grupinho maléfico, que se dividia agora entre dois que ajudavam o que já estava estendido e dois que tentavam perceber se avançar era boa ideia.

Espera aí, ninjas? Do alto dos seus músculos, o porteiro pensou estar a alucinar ou, a sonhar. Mas os sonhos não deixam marcas e os dois pontapés que levou no estômago fizeram-no. No entanto, um dos ninjas escorregou e a força bruta do porteiro fê-lo pagar por isso, deixando-lhe um braço preso por arames depois de lhe bater repetidamente com ele no passeio. Desnorteado, o outro ninja afastou-se para a rua principal, sendo colhido por um carro dos bombeiros que passava a alta velocidade. Os gritos aumentavam à volta e o pânico era geral.

Ouviu-se um som oco. Metal a bater em pele. O porteiro voltou-se, com as costas a latejar. Um dos engraçadinhos tinha-lhe dado com um objecto comprido de metal. Outro aproximava-se com uma faca. O passado é aqui bem usado, porque a faca ficou sem par, já que o seu acompanhante foi colhido com um pontapé no estômago que o fez dar um mortal de costas e cair com os queixos na calçada.

Toda a gente fugia. O porteiro, esse rugia. Não trocava este momento por nada da sua vida. Ele e o outro, frente a frente. O outro estava em desvantagem, só tinha o pedaço de metal na mão. Ele tinha o seu corpo. O confronto foi rápido.
Conforme o outro avançou com a sua arma improvisada, o porteiro recuou. Mas só o tempo suficiente para deixá-lo tentar brandir o pedaço de metal. A meio caminho, a mão do porteiro interceptou a sua e com uma pancada seca, ouviu-se algo a ceder. O ferro caiu no chão. O porteiro agarrou-o. Cego de raiva e dor, o outro lançou-se para cima dele. O ferro beijou-o em cheio na cara. Um líquido saltou, conforme o corpo caiu no chão. As coisas não acabavam aqui. Uma e outra vez, o porteiro desferiu golpes com o ferro, salpicando-se cada vez mais daquela mistela. Finalmente parou.

Só havia silêncio na rua. Fechou os olhos e passou as mãos pela cara. O líquido salpicado era-lhe bastante familiar. Sangue? Não, não era sangue. Mas então....

Leite???

Ouviu um grito.

“João, que porcaria é esta? O leite todo entornado, bonecos espalhados por tudo quanto é sítio. Olha, este ninja já tem um braço estragado. E a colher, está a fazer o quê no chão?”

Tentou fazer o seu sorriso especial.

“E não te estejas a rir, que ainda tens idade para levar umas palmadas”

Não funcionou.

“Vá, acaba lá de comer os cereais e vê se estás pronto daqui a cinco minutos. Não é hoje que tens os treinos para ver se entras para a equipa da escola?”

“É, mãe.”

“Então vê lá se te esforças, para não apareceres aqui a chorar como quando não foste escolhido para fazer de pirata na festa da escola”.

Suspirou. Um dia ia ser ele a decidir quem entrava e nas suas brincadeiras a sua mãe não punha os pés de certeza.

12.3.10

Vocês decidem (ou não)


No post abaixo está uma história. Falta-lhe o fim. Ou então não.

Pretendo publicar o fim na segunda feira, até já sei o que poderia fazer, mas toda a gente sabe que sou escumalha altamente influenciável. Por isso, se são malta que recorda com saudade o "Você decide" com o António Sala (acho eu) e estão interessados em fazer parte de uma experiência bloguístico-social, usem a caixa de comentários para me influenciar.

Querem sangue?

Querem budismo e atitude zen?

Querem fenomenologia extraterrestre?

Querem novela mexicana?

Querem que eu pare de fazer questões começadas por querem?


Aceito sugestões, bitaites e afins. Não quer dizer que me obriguem a fazer o que querem, mas testo-vos a imaginação e/ou demência.

O deus das portas

Tudo começou quando não o deixaram entrar. Era um miúdo franzino e eles não o deixaram entrar na equipa da escola. “Não tens cabedal para isto, vai lá comer os teus cereais. Isto não é para meninos”.

Não era para meninos...eles iam ver.

O ginásio logo se tornou o seu melhor amigo. Máquinas, pesos, dores, suores e esforço eram a base da sua amizade. Havia outros lá, mas ele não ligava. De alto e magro, passou à categoria bisonte, depois de muito trabalho, proteínas e dedicação. “Raging Bull” era o que lhe chamavam os outros, quando pensavam que ele não estava a ouvir. Mas estava. E gostava, não porque conhecesse o filme, mas porque lhe parecia imponente, daquele tipo de imponência a que não se fecham portas.

Um dia abordaram-no, à saída do balneário. “Ouve lá, com esse cabedal, não queres dar uma ajudinha na porta de uma disco? Não te metes em drogas nem essas merdas pois não?” Não se metia. A oferta parecia-lhe irreal, ao mesmo tempo sedutora. Nunca tinha pensado no queria ser, tirando que queria ser forte. E agora ia poder decidir quem entrava ou não. Agora eles iam ver.

A sua voz tranquila aceitou o trabalho. O corpo gigante foi atrás. “Vê se vens bem vestido, nada de calças de ganga”. Ele foi e levou consigo uma expressão de marca. Era uma espécie de sorriso que, consoante quem o via tanto parecia afável, como parecia um esgar de raiva mal contido. Era melhor que qualquer dress code.
Durante meses tornou-se o guardião, o detentor da chave de acesso à disco. Sabia de cor quem eram os amigos do chefe e, especialmente, as amigas. A esse grupo dispensava apenas um aceno de cabeça como troco ao “Boa Noite” que lhe ofereciam. Não lhe interessavam.

Interessavam-lhe os comuns. Aqueles sobre os quais exercia o seu maior poder. Gajos que, do nada, eram os seus melhores amigos. Mulheres de toilette aprumada que gostavam de lhe falar de perto, deixá-lo cheirar o seu perfume e, ocasionalmente, lhe punham a mão no braço tratando-o por querido e fazendo beicinho.
“Lamento, terão que esperar”. Tal como uma senha mágica, essas palavras lavavam a onda de amizade, charme e glamour com que o banhavam. Dez minutos à espera e logo ouvia em surdina “Quem é que este anormal pensa que é?”. E lá vinha o seu sorriso.
Era inteligente o suficiente para não criar conflitos e deixar passar os habituais e os gastadores em número suficiente para não ter problemas com a casa. Todos os outros eram o seu rebanho e ele decidia onde pastavam.

Não havia corpo voluptuoso, nota acenada ou conversa fiada que o demovesse. A decisão do deus das portas era soberana. Mas, os envergonhados, os “ratinhos” como ele os chamava, contavam com a sua simpatia. Não raras vezes ele dizia:

“Aí atrás, por favor”. O braço enorme separava as águas. E, à primeira, lá vinha uma tipa dengosa ou um pintas com mais lata. O dedo dizia que não e o rapaz e a rapariga discretos, que nunca pensavam que era com eles, lá vinham a medo. “Boa Noite” e o sorriso, ainda que intimidador, abria-lhes as portas do seu reino.

Até que um dia eles apareceram. Os da escola. E da equipa na qual ele não podia entrar. Todos juntos, seriam talvez cinco. Talvez não o conhecessem.

“Boa Noite”

Conheceram-no.

“Olha quem é ele!!” aquela voz permanecia irritante “Bem, tens comido esses cereais como eu te disse”.

“Olha, somos estes e queremos entrar. Tudo na boa?”

O resto da fila parecia não existir. Permaneceu imóvel, como uma rocha.

11.3.10

Era una viez en el Mexico


Já me perguntaram várias vezes se não tenho histórias de viagens. Ora eu, que tenho dificuldade em responder seriamente a certas perguntas, sinto-me sempre tentado a falar sobre o meu périplo por Fernão Ferro, as minhas deambulações por Linda-a-Pastora ou de incursões nocturnas por Santo António dos Cavaleiros.

No entanto, creio que os episódios aí passados seriam tão exóticos que poucos acreditariam em tais feitos. Como também não gosto de dar aquele ar de pseudo-aventureiro- destemido-ainda-assim-intelectual, não me ponho a falar de escaladas do Atlas, dos mistérios da Patagónia e Machu Picchu, do outback australiano ou dos macaquinhos do Bangladesh. Até porque a minha disponibilidade para mentir não é assim tão viajada.

Contudo, entre os países que já tiveram o orgulho de me receber, dá-me um certo gozo falar no México. Primeiro porque vos posso dizer que vos escrevo usando apenas um poncho e um fausto bigode, sem vos deixar escandalizados. Segundo, porque foi uma viagem de finalistas e só isso garante um imaginário de deboche em que tudo o que disser pode passar por verdade.

Todavia (e começo assim um terceiro parágrafo usando sinónimos), vou fazê-lo apenas em 200 palavras, tudo de seguida e não necessariamente por ordem. Assim, não só vos fertilizo a imaginação, como me poupo a figuras tristes pouco condizentes com uma figura do meu gabarito.

Então cá vai:

Cancun via Madrid, 10 horas autocarro, mais 7 avião, calor que até apita. Hotel requinte, fruta descascada, miudas idem. Água, álcool, quente, transparente, à grande ou com gelo. Tartarugas, golfinhos, parques aquáticos, ilhas das mulheres, giras, sim com o álcool giras, mas se não tens cuidado marchas. Maravilha, sim também há, e das 7 Chichen Itza, olha eu na pirâmide maia, olha eu a acordar na praia. Sobremiesa? No comprendo. Embrujo? Isso é feitiço, pede lá o embrulho. Regatear? Fixe, el aldrabon de Lisboa rula. Disco dancing, si, si soy português, yes, yes, i’m american. No, no, no tattoo for me. Vou para o quarto, qué isto na cama? Ops desculpa, já volto, acordar na piscina. Cidade colonial, ah isto é o México, pois Cancun não, é plástico. Ajuda a família maia, sorri, nem tudo é regabofe, última noite, sim é regabofe. Tequilha sunrise, sunshine, late night mariachis, malta a nadar pelada. Ui, não pago pay per views marotos. Ah, é à borla, então deixa lá ver se aquilo é humanamente possível. Foi do camarão, não foi do álcool, ai alguém tem comprimidos. 7 horas avião mais 10 de bus. Foi bom filho? Ah, foi porreiro, tens para aí comprimidos?

10.3.10

Enbrutece-me o uso de “Brutal” à bruta

Vamos começar por estabelecer um princípio – sou bruto como as casas. O que é um bom princípio, quer para me definir, quer para iniciar este texto. Adepto de jogos de palavras, trocadilhos manhosos, aforismos e outras macacadas linguísticas, nada me dá mais gozo do quer perverter palavras e significados.

Mas....(e em textos pseudo-moralistas-intelectuais existe sempre um mas) há limites e, no caso de certas palavras pelas quais tenho algum apreço, estes já foram brutalmente ultrapassados.

Vejamos a palavra bruto:

adj.
1. Irracional.
2. Grosseiro, rude.
3. Tosco.
4. Tal qual sai da natureza.
5. Sem descontar a tara.
s. m.
6. Animal irracional.
7. Homem rude.

Por descargo de consciência, vejamos brutal

adj. 2 gén.
1. Próprio de bruto.
2. Desumano, incivil.

Ah, banhos de sangue, violência doméstica, massacres, o horror, o horror, a brutalidade de tanto significado é imponente.
Mas, escapou-me alguma coisa ou há aqui algum significado a dizer “baril, fixe, do caraças, fantástico, espectacular, me so horny, etc e tal”. NÃO, será a resposta vencedora.

No entanto, todos os dias sou confrontado com malta que diz que fez coisas brutais, ouviu cenas brutais, viu filmes brutais, almoçou em sítios brutais, conheceu pessoas brutais e toda uma brutalidade de eventos e acontecimentos, que me massacram o sentido estilístico, já de si muito debilitado.

Querem ser brutais? Dêem cabeçadas no monitor, usem o teclado para dar auto-chapadas, comentem até este texto com a violência e a assertividade de um canibal depois de uma greve de fome mas, por favor, vão passear o “brutal fixe" para outra freguesia. Nesta, já temos parvoíce suficiente.

E não vale chamar-me filho da bruta.

9.3.10

A doença da Macarena, do Saturday Night, do Ketchup e do raio que os parta

Antes da moda das flashmobs, dos happenings grandiosos de gente dançante, muito antes disso, havia já uma preocupação dentro de mim. Preocupava-me o facto de nunca ter havido uma coreografia de dança assumidamente má feita por "artistas" portugueses. Se somos rápidos a captar influências do pior que há, para quando alguma originalidade, nem que seja no pior sentido.

E não, Iran Costa aqui não entra.


Vejamos alguns exemplos que muito já me fizeram chorar, algumas vezes de riso, outras de desespero:











Só aqui têm um manancial de tormento para a humanidade, sem podermos ter um exemplo verdadeiramente português. E, se me disserem sinceramente que nunca na vida reproduziram alguma destas coreografias ou são muito pequenitos para estarem a ver blogs deste calibre ou então são como eu.


Mentirosos.

Uma pequena história

Gosto de histórias, por mais pequenas que sejam. Por mais trivial que seja o seu assunto. Porque uma história, quando bem contada, é algo que vai dar valor acrescentado aos minutos que perdermos com ela, ao dia em que se passou, ao ano em que ocorreu. Em suma, à nossa vida.

São histórias que se contam às crianças para lhes alimentar a imaginação. São histórias contadas entre adultos que ajudam a tirar um pouco da rotina do quotidiano, que conquistam ou afastam, que dão vida a serões bem passados, entre a imaginação e a realidade uns dos outros.

Uma história, verdadeira ou falsa, é um instrumento poderoso, pronto a ser usado para o bem ou para o mal. Ou, se assim for preciso, para algo que fica num estranho limiar que serve os dois lados. Sem culpa de ser assim, porque em si mesma é apenas uma história.
E faz chorar, Faz rir, faz doer, faz curar, faz o que for preciso para não ficar esquecida num qualquer canto da nossa memória.

Porque a nossa vida é feita de grandes histórias, por mais pequenas que sejam.

8.3.10

O dia da mulher é quando o homem quiser

Hoje existem essencialmente dois temas para tentar passar por gente de bem. Sobre um deles não direi mais do que isto – eu bem disse que este senhor ia levar para casa aquilo a que tinha direito. E com um discurso de nível.

Sobre o outro, não há grande segredo, o meu título é mais oferecido que a Elsa Raposo.

Mulheres.

Mas olha lá, (baixe a voz em caso de reprodução literal do texto em local público) não corre por aí o boato de que os homens pouco ou nada sabem sobre as mulheres?
Corre. Mas, também corre o boato sobre esse boato classificando-o como um boato de conveniência, criado por homens à procura de desculpa conveniente “Epá, não percebo as gajas” e por mulheres que acreditam nas desculpas que certos homens dão.
Se formos a ver as coisas, os homens sabem muito sobre as mulheres. Por exemplo, no meu caso, só para verem o esforço de compreensão, – vivi inclusive nove meses dentro de uma. Veja-se a literatura, as artes, a música e não faltam exemplos de homens que percebiam tão bem as mulheres que as imortalizaram das mais diversas formas. Fora do campo artístico, mais próximo de nós, veja-se também o Tony Carreira, o qual eu não percebo nem pretendo perceber, mas pelo vistos percebe e é percebido pelas mulheres do nosso Portugal. Percebem?

“Ah, mas esses são uma minoria, uma raridade”, clamam vozes algo agastadas, que eu ia jurar que parecem ligeiramente femininas. Errado, digo eu com frontalidade, mas ainda assim sem um tom agressivo, mostrando compreensão.
Usando em analogia o futebol, área sempre didáctica no que à relação homem-mulher concerne, o que esses senhores são é os Cristianos Ronaldos da compreensão feminina. Não obviamente no sentido de regabofe do artista, mas sim no seu estatuto futebolístico. Mas, seja na estratosfera do futebol ou na quinta divisão distrital, os jogadores partilham uma paixão pelo desporto que praticam. Possivelmente, por ser menos dotado, o jogador da distrital tem até que se esforçar mais, passar mais provações para fazer o que gosta. Tal funciona também assim, na compreensão feminina. Abaixo dos iluminados, há quem também se esforce, quem saiba e quem queira, mesmo que seja mais tosco a demonstrá-lo. Resta saber se quem está do outro lado se recusa a querer do mundo outra coisa que não seja um Cristiano Ronaldo. E aí, não há compreensão que valha.

Por outro lado, não é preciso ser muito iluminado para perceber que também existem calhaus com olhos que nem um pontapé sabem dar na bola. Provavelmente, correspondem aos que tratam as mulheres a pontapé. Mas, desses nem falo, porque depois na volta ainda lêem isto e não pretendo pôr-me a jeito para me tornar um alvo novo para a biqueirada.

Dia da mulher? Tipos inteligentes sabem que para isso não existe data marcada, a não ser as que a sua cabeça ditar. Até porque junto com a compreensão feminina, para muitos vêm refeições a horas, roupa lavada, pezinhos quentes e a certeza de que se se estão a rir neste preciso momento, é porque não têm nenhuma mulher ao pé de si.

Milagre do Festival da Canção

Porque daqui a pouco só se irá falar dos Óscares, fecho a noite com a frase que mais me marcou numa tarja de apoio a uma concorrente, vista ontem no Festival da Canção.

"Um dia, até os surdos te aplaudirão."

Esta, até os cegos gostavam de ter lido.

7.3.10

Fazendo do Lobo a história da carochinha


Como já referi anteriormente, os monstros estão na moda. Seja no cinema ou nos blogs, assistimos à capacidade das pessoas se transformarem em seres assustadores e criar histórias arrepiantes. Nalguns casos são precisas horas de maquilhagem e efeitos especiais, noutros apenas algumas linhas e a ausência de medicação apropriada.

Tendo eu espelhos em casa, sempre apreciei um bom monstro e, por já estar servido em termos de blog, optei por ir ver as modas ao cinema. Contrariando o conselho de um amigo, tipo avisado e sensato (pois que na amizade os pólos também se atraem), lá fui ver o Wolfman. E, acreditem, é mais um exemplo da arte do bom trailer.

O Benício é bom actor e fará sempre suspirar algumas moçoilas, o Anthony Hopkins já é um clássico, o Hugo Weaving será sempre o Agent Smith, pelo menos na minha cabeça. Agora, os pobres lobisomens é que não tinham culpa nenhuma.
História previsível, para além do previsível que é lobisomem = carnificina = maldição = amor condenado = carnificina. E os efeitos que, neste filmes costumam fazer as delícias, parece que se esgotaram nas transformações, já que me pareceu que usaram as máscaras do Lobijovem nas cenas restantes. A tosta que comi ao pequeno almoço gerou mais empatia comigo que os personagens e olhem que a tosta não se esforçou muito...

Há filmes melhores para ver? Há, eu próprio já vi uns quantos e ai que é noite de Óscares e esse corropio todo. Não é esse o problema. O problema é querer ver monstros de categoria e acabar com gnomos de jardim.

Por falar em categoria e em Óscares, só espero que hoje haja um momento assim.

5.3.10

O último modelo em amigos



- Bom dia, podia dar-me uma informação.

- Com certeza. Diga, por favor.

- Aquele amigo que está na montra, estava a pensar comprar um...Qual é o preço?

- O amigo? Não prefere antes o conhecido? Não é tão completo, mas também é menos exigente e só paga quando utiliza.

- Pois...sabe, é que eu já tive uns quantos desse tipo e, quando é preciso, nunca funcionam. Daí o meu interesse no amigo da montra.

- Hmmm, de facto já não é o primeiro que diz isso dos conhecidos. E que tal um colega, como estes que eu tenho aqui atrás? Impecáveis em horário de expediente, tirando o modelo crápula obviamente e, de quando em vez, funcionam até em horário pós-laboral. E é preciso não esquecer que, com sorte, o upgrade de colega para amigo pode sair-lhe mais em conta...

- Não, não, colega não. Conheço quem tenha adquirido um desses de top , começou a usá-lo fora do expediente e agora anda todo enrolado com ele.

- Mas isso é prova que o modelo é altamente atractivo.

- Não quando já tem um modelo familiar em casa...

- Ah, isso não. Modelo colega de topo não é compatível com o modelo familiar, dá sempre confusão. Na loja deviam-no ter informado disso.

- Sabe como é, as pessoas nunca lêem os manuais. E contra mim falo, obviamente. Mas e então quanto ao amigo...

- O da montra? Sabe, se calhar é melhor esperar por uma promoção. No Natal é sempre mais fácil ou, se calhar, no seu aniversário.

- Oiça, eu quero mesmo um amigo. E aquele da montra parece-me bem. Importa-se de me dizer o preço??

- Pois...sabe é que aquele é mesmo a sério. Dos verdadeiros, que duram para a vida.

- Mas isso é óptimo! Melhor ainda...

- Pois...só que um amigo a sério não tem preço.

- Não tem? Quem disse?

- O fabricante...

- Ahh....mas, sendo assim, porque é que está na montra?

- É o artigo de exposição, só para demonstração. Nunca pensámos que houvesse alguém que o quisesse levar. Não têm assim muita saída. Hoje em dia, os conhecidos e os parceiros de rambóia, que vêm com mp3 e kit festa rija é que estão a dar. Não quer ao menos levar um catálogo?

- Deixe estar, eu preciso mesmo é de um amigo...

- Só se tentar na loja aqui ao lado...eles costumavam ter amigos de ocasião. Parecem iguais a os outros, só que às vezes desaparecem e nunca mais ouvimos falar deles. Mas, para uma necessidade imediata....

- Bem, ok, vou ver, pode ser que sirva. Obrigado e bom dia.

- Disponha sempre. Bom dia.

4.3.10

Histórias de cuspo em horário escolar


Há rapazolas que crescem zangados com o mundo. Ora eu, que sempre me dei bem com malta duvidosa, tenho no mundo um bom amigo desde os bancos da escola. Aliás, nesses tempos, o mundo proporcionava-me momentos de riqueza inolvidável. Se por um lado era bom aluno, apesar de estar longe de ser um devoto do estudo, por outro tinha a minha dose de baldas e faltas a vermelho, uma suspensãozita ocasional e bom aproveitamento dos “tempos livres”.

Assim, em casa não levavam a mal os deslizes porque até era promissor e na escola não levantavam ondas, porque era um tipo porreiro que me dava com toda a gente e tão depressa estava a faltar a uma aula para jogar basket com os dreads, como a seguir estava a dar uma bela tanga num trabalho sobre as “Viagens na minha terra” do tio Garrett.

“Então e o cuspo, jovem?” perguntará o leitor mais impaciente, enquanto se lembra do seu ponto alto escolar, na forma de umas calças verdes de bombazine que se rasgaram num intervalo.

O cuspo tem justamente que ver com Almeida Garrett, neste episódio particular. Sendo eu amigo do mundo, ele ensinou-me que era boa ideia fazer trabalhos de grupo maioritariamente com raparigas, uma espécie diligente e não tão dada à mandriagem como os rapazes. Eu contribuía com skills de apresentação, elas com a papelada burocrática por detrás de um trabalho de grupo. Mas, como é normal na adolescência, hormonas aos saltos tendem a tornar imprevisíveis certos processos.

Susana, chamemos-lhe assim, muito possivelmente por ser esse o seu nome, tinha ficado encarregada de ler a introdução do trabalho sobre o livro “Viagens na minha terra”. Ainda Joaninha não tinha começado as suas tropelias e já a jovem leitora achava que era divertido fingir ser sopinha de massa a ler, cuspindo gafanhotos propositadamente para o azarado à sua frente. Vulgo, eu.
Depois de dois minutos naquilo, chegou a minha vez de apresentar. Mas, toldado por salpicos de cuspo, achei por bem começar com um aparte:

“Susana, se é para cuspir numa pessoa, não é preciso tanto trabalho. Basta isto.”

Se o lançamento de cuspo ao alvo fosse modalidade olímpica, então o que se seguiu ter-me-ia tornado o mais jovem medalhado português. Minutos de gritaria, zaragata e lencinho a limpar a cara depois, a professora interviu – “Bem, foram longe demais e talvez seja boa ideia irem lá para fora acalmar”.
Saímos. Eu e a Susana. Vítimas do cuspo e da estupidez. Amuados, mas não primos e casados. A coisa resolveu-se. O facto de termos ido para a rua não. Tentei explorar um vazio legal e fui lá bater à porta 10 minutos depois. A professora abriu. Não pareceu contente por me ver.

“Já me acalmei” – sorriso angelical para acompanhar os caracóis de anjinho.
“Tu estás a brincar comigo?”
“Não, estou mesmo calmo”
“Pois eu não” – e bateu-me com a porta na cara.

Encolhi os ombros e fui ter com a Susana, a ver se podíamos explorar essa história do cuspo de maneira mais harmoniosa. Quando se é amigo do mundo, nunca se dá nada como perdido.

Vamos dar um tempo


Tal como qualquer boletim metereológico que se preze, este título é enganador. O romantismo lírico está de folga hoje e o analista sentimental ficou retido num acidente na A1. Resta-nos, por isso mesmo, falar efectivamente e uma vez mais do tempo.

Há quem diga que falar do tempo é uma perca do mesmo, mas o facto é que as pessoas passam o tempo a falar do dito cujo, usando-o para tudo e mais alguma coisa.

Não tenho tempo para isto.

Ai não? Então pronto, adiante.

O facto é que nunca estamos contentes com o tempo que temos e todo o tempo é pouco. Se está mau tempo, ansiamos pelo bom tempo.
Se está bom tempo, queixamo-nos de não termos tempo para o aproveitar.

Quando dás um tempo não o dás por estares contente, inclusive quando dás tempo ao tempo. Mas dás com uma mão e tiras com a outra, porque precisas de tempo só para ti.

Até que depois te lamentas porque o tempo não volta para trás, mas rapidamente afirmas que tudo tem o seu tempo e já não era sem tempo ver chegar outros tempos.

De tempos a tempos, inventamos coisas como os bancos do tempo, protestanto pelo meio sobre o tempo que passamos nos bancos.
Nos tempos que correm, é difícil parar a tempo e perceber que a riqueza do tempo não é falar dele.

Usá-lo enquanto é tempo, esse é que é o segredo do tempo.

Será que ainda vamos a tempo?

Desconto de tempo – E galos do tempo - Será que eu sou o único saloio que delirava com estes objectos quando era petiz?

3.3.10

Sou avariado, mas gosto de concertos

Querem histórias? Eu dou-vos.


11 de Julho, 1993.

Estádio de Alvalade.



Por obra e graça da sua irmã mais velha, um Mak bastante mais jovem, mas já razoavelmente mau, vê-se na posse de bilhete para o concerto de Depeche em Alvalade.
Embora já percebesse a relevância de falar de si mesmo na terceira pessoa, Mak não atinge a total profundidade das letras e devoção em volta dos DM. Mas, gosta do ritmo e acha que o vocalista, apesar de abusar obviamente da fruta, até tem pinta (depois de saber que o homem já esteve clinicamente morto por dois minutos, Mak rejubilou duplamente).
E, no meio da maralha, sem sequer ter idade para comprar álcool legalmente, Mak apercebe-se que há um ambiente diferente num concerto, que nem a estereofonia lá de casa, nem a cacofonia proveniente da sua irmã conseguem alcançar.
E Mak gosta. E Mak pula, incomodando algumas pessoas, pois já era assim para o altito, facto que utiliza sobremaneira para entrar em salões de jogos, passando por mais velho.
E Mak sai de Alvalade para sempre fã de DM e com um intenso cheiro a sovaco. Esse, não seria eterno.
Mas, Mak sai também com a certeza que vai ver muitos concertos na sua vida. E que usará muitas vezes mais a terceira pessoa para falar de si mesmo.

PS – O primeiro concerto causou tal impacto na sensível moleirinha de Mak que este se recusou a ver posteriormente DM em concerto, para que as imagens gravadas na parca massa cinzenta permaneçam para sempre iguais.

A guerra das estrelas

Skywalker estava, como se diz em linguagem Ewok, F#$%&o. Sorte que Chewbacca tinha sempre paciência para o ouvir.

- Epá, mas tu já viste a lata daquele Darth Vader naquele bloguito de trampa que ele tem?

- Mwaaahhhh

- Sim, é uma lata preta, ah...ah... Mas aquele piroso não é que já escreveu dois posts, um a dizer que eu era tão burro que já tinha tentado engatar a minha irmã, quando as coisas não se passaram nada assim e outro a dizer que eu só queria ser Jedi porque ele também era. O gajo, que é um pretensioso de primeira, com aquela capita e aquela voz grave.

- Bwaaaaahhhh

.- Pois é Chewie. Nem se pode dizer nada que vem logo aquela legião de fãs do lado negro a insultar e a dizer que tenho um corte de cabelo foleiro e que não aceito uma piada e que ando na sombra do Yoda e o camandro. O Yoda até já colocou no Twitter dele “Fraco é, quem blogs usa para outros achincalhar”, mas um gajo, mesmo Jedi não tem que amochar sempre com tudo.

- Dwaaaaahhh

- Tudo bem, eu sei, se calhar também não devia dizer que ele comprava peças na candonga mas depois diz que são de marca e que ele e o Imperador....mas fdx, o blog é meu e um gajo não cai no lado negro só por ter uma visão alegre da vida e mandar umas bojardas..

- Kwaaaaaah

- Se eu já vi o perfil do Han Solo no Facebook? Não man, bora lá espreitar isso, a ver se ele tem fotos daquela com festa de modelos com três m...

- Rwaaaahhh

- Isso.

Entretanto, no Cybercafé da Estrela da Morte, Darth Vader, farto de esmagar pescoços só com a força do pensamento e de ter enviado a sua crónica para a revista “Caras do Lado Negro” punha a escrita em dia com o Imperador, sempre disposto a meter veneno.

- Aquele Luke, pá, sempre a fazer de coitadinho. Deve pensar que eu sou pai dele.

- Um biltre Lord Vader, do pior acrescento.

- Ai o menino quer ser Jedi, o menino vai ser o mais forte, o menino é amicíssimo do Yoda, o menino vai às festas todas do Solo. Haja pachorra, naquele blog não há sumo nenhum, parece uma cópia daquela série “O sexo e a Galáxia”, com as quatro amigas de Naboo.

- Eu, por acaso gostei da série....

- Ó Imperador, não é isso que está em causa. Eu até tenho os DVD’s em Black Ray, mas não passo o tempo a fingir que a minha vida é assim.

- Obviamente, um gajo do lado negro não se deixa enfraquecer assim.

- Exacto. E o tipo não tinha nada que falar nas minhas peças soltas, que eu bem já sofri por causa disso. E continuo aqui, forte, determinado, pronto a apreciar o que de pior a vida tem. Eu, que já fiquei sem Amidala....um gajo não é de ferro...

- Pois, no teu caso é mais fibra de carbono, mas ele não tinha o direito e eu deixei um comentário no blog a dizer isso. Obviamente, ele não publicou, o saloio.

- É sempre a mesma coisa. As pessoas vão na conversa do gajo, só porque pensam que ele é bonzinho, mas eu conheço-lhe a família e sei bem de onde lhe vem o azedume...

- Sabes?

- Eehhrr... Mais ou menos.

- Deixa lá isso agora e vamos mas é ao DeathTube, que parece que o Bobba Fett, colocou lá um vídeo da princesa Leia com uma granda narsa na Queima das Fitas Solares.

- Ok, mas deixa-me antes ir por uns comentários maldosos em nome do Yoda, a ver se o puto se vai abaixo.

(continua....ou não)

2.3.10

Falta de inspiração

Levantou-se, decidido a escrever. Voltou a sentar-se, pois não lhe dava jeito escrever de pé. Olhou para a folha em branco e pensou em como gostava de folhas em branco, mundos inteiros à espera de ganhar forma através das suas palavras. A folha continuava em branco. Por vezes a sofreguidão desse vazio incomodava-o, todo aquele imenso nada a chamar, a exigir que ele o preenchesse, que lhe desse vida e um propósito. Fechou o caderno, irritado com as manias das folhas em branco.

Pegou na caneta. Não ligava muito a canetas e nem sequer tinha aquilo a que se pode chamar uma caneta da sorte. Costumava até dizer, em jeito de brincadeira “Sorte tem a caneta, que cria sem ter de imaginar”. A caneta não se manifestou e ele largou-a, enfadado.

Bem, já era hora. Se o método artesanal não resulta, há que apelar à maquinaria moderna. Abriu o portátil. Identificava-se muito com o computador, apesar de achar que era menos quadrado. Começou por abrir uma janela, porque estava calor, abriu outra porque queria ir à Internet. Orgulhava-se de considerar a sua imaginação uma espécie de Google interno da sua cabeça. Bastava-lhe pensar em algo e logo apareciam inúmeros resultados.
“Não foi possível carregar a página pretendida”. A mensagem foi simultânea, no computador e na cabeça.

Olhou lá para fora. Possivelmente lá fora estava a resolução para os seus problemas. Não havia razão para ficar cá dentro. Tirando que tinha de escrever. Ter não tinha, mas queria. Queria, mas não saía nada. O uso do condicional estava a condicioná-lo e isso ele não admitia.

Resolveu sair à mesma, escrevendo só algo enigmático para sossegar a sua parca consciência. Podia ser que ninguém desse por isso.

1.3.10

O Spectrum da felicidade



Quando consola ainda era apenas um tempo verbal e entre marido e mulher só se metia a colher e não o gamepad, existiu um outro mundo. Um admirável, apesar dos gráficos deploráveis e música bastante redutora, mundo novo de diversão que marcou a geração que tem a honra de me ter como membro.


Pausa para saudosismo bacoco e ingestão de fruta o mais ácida possível (para tirar a noção que comer uma frutinha a meio da tarde é coisa de gaja).


Falo, claro está do Zx Spectrum. Atentem que neste link está toda uma riqueza escondida, dividida por anos, horas de diversão e, porque não, saudável pancadaria entre jovens à procura de afirmação. Se não perceberem do que estou a falar, então fazem parte de uma outra geração. Se for anterior, tragam lá um baralho de cartas que ainda vos ensino umas coisas. Se forem mais novinhos, vão lá buscar a consola do papá que eu espero.

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Over & Out


(Ah, e recebi queixas de alguns dançarinos indignados a dizer que as senhoras também fazem figuras tristes na pista de dança. Não era preciso, eu já sabia. Mas talvez elabore sobre isso, para nivelar a balança.)