28.2.10

Danças com os bobos

Apesar de, com este tempo, boa parte da maralha a quem me dirijo estar certamente debaixo de uma mantinha com um pijaminha do Noddy ou das Winx a ver “A pequena Sereia” em DVD, sou um gajo de palavra. Várias até. Nada melhor que o tema da dança para vos dar baile e se juntarmos ao mix uma abordagem sobre talentos dançantes no masculino, temos aqui uma calamidade para juntar às outras dos últimos dias. Na realidade, existem até vários homens que dançam bem ou, mais factualmente, tipos que não envergonham o seu par, mas qual seria a piada de me pôr aqui a elaborar sobre pares fofos e memórias do “Dirty Dancing”?

Ai, o Dirty Dancing, até fiquei comovido. As pessoas por vezes são...são... são mas é horas de tomar a medicação.
Pronto, já passou.

A questão base é, gajo que é gajo sabe que a dança não é só ballet, nem coisas que ameaçam a masculinidade, como sapatos de tacão ou bebidas com palhinha. E, pondo-se no papel de John Travolta de trazer por casa, sabe que há-de chegar uma altura em que vai ter de mostrar do que é feito na pista de dança.

E às vezes o resultado não é bonito. Senão vejamos alguns craques:

O encostado – Este homem podia ter ido longe, não fossem os problemas no ouvido interno. Esta é certamente a razão porque dificilmente o conseguem afastar do bar, onde procura apoio para o seu corpo. A amargura de ver outros a aproveitar a música enquanto ele é obrigado a ficar atracado, levam-no também a ter quase sempre um copo na mão. Poderá abanar a cabeça de quando em vez, devido a uma réstea de ritmo que tenta desesperadamente fugir de si.

O simbiótico – Este homem ama a música, mas esta não lhe retribui o gesto. Talvez por isso insista em ser sempre diferente do ritmo escolhido por ele para mostrar os seus moves, que parecem oscilar entre um exorcismo e uma aula dos jovens heróis de Shaolin. Não existem estilos nem ritmos diferentes para esta alma, existe sim um único fluxo de energia que o une à música de forma inqualificável. E não há maneira de o desligar.

O totem – Este homem deseja ser venerado. Não pelas suas capacidades de dança, mas pela sua extrema parecença com um... totem. Mexendo-se o mínimo possível, esta deidade tem princípios firmes e a sua imobilidade comprova-o. Espera que todos dancem à volta dele, nem que seja para invocar a chuva. A parecença com um dançarino vem do facto dos seus olhos se mexerem e ambos respirarem.

O caretas – Se há alguém que não tem medo de dar a cara pela dança é este homem. Quando muitos apostam no jogo de pés e de cintura, a expressividade deste senhor centra-se nos músculos faciais. Quer parecer sexy? Os lábios juntam-se, formando um beijo com ritmo. Quer mostrar ritmo? Os dentes superiores cobrem o lábio inferior, mostrando descontracção e dentição alinhada. Quer espelhar concentração ou um AVC? Os olhos semicerram-se, as feições contraem-se e a esperança do AVC desaparece, por entre uma língua de fora que salta enérgica.

O eufórico – Embora tenha parecenças com o simbiótico, este homem difere, porque não dança para si mesmo. Na realidade, ele quer dançar com toda a gente. Desde gritos de guerra, a palmas, ao acompanhamento de refrões, quem disse que a dança é feita apenas de ritmo. Há sempre um truque para ensinar, um movimento colectivo para gerar entusiasmo e é claro, uma rodinha em que ele é sempre o primeiro a brilhar. Se não fosse o eufórico, a dança seria só música, pessoas e ritmo.

O pseudo pro – Este homem cometeu uma proeza – convenceu-se a si mesmo que sabe dançar e bem. A sua auto confiança cega-o mais que as luzes da pista e, entre um ar confiante e uma certa condescendência com aqueles que dançam à sua volta, ele mostra que na escola onde os outros aprenderam a dançar, ele já deu aulas, mas de autismo.

O comunicador – A dança é uma forma de comunicação, mas para este homem isso não é razão para desperdiçarmos todas as outras. Daí que nada melhor para acompanhar o ritmo, tentando conversar por cima da música, dando toques e fazendo gestos que pretendem signifcar um valor acrescentado, se bem que só o próprio percebe qual. E, se a coisa estiver animada, não faltará mímica a rigor, para mostrar que há mais do que uma maneira de dizer que os nossos corpor comunicam, mas às vezes a chamada cai.

Muito mais se pode aprender numa pista de dança, mas vocês não pagam e o fato e os sapatos que uso nas galas dos Alunos de Apolo ainda custam dinheiro.

Vemo-nos nas pistas.

26.2.10

Os homens e a dança

Não resisto a colocar este vídeo, depois de o ter recomendado ainda há poucos dias. Mostra que há gente que nasce com o ritmo dentro de si. Não se iludam, por cada um desses, há 20 que nasceram com 10 baldes de cimento e juntas sem óleo.

Mas, para além de quem se dedique profissionalmente à dança, acho que esta deve ser incentivada junto da população masculina, na qual me incluo. Nem que seja pelo espectáculo à parte que pode constituir um homem a dançar.

Se se portarem bem, este fim de semana vou ilustrar-vos alguns dos estilos de homens dançantes que podem encontrar nas pistas e salões de dança por esse mundo fora.

Infelizmente, nem todos podem ser como eu. Um Fred Astaire de trazer por casa, um grau 10 de intensidade na escala de James Brown, um Nijinsky mas com testosterona ou então...
...um aldrabão com muito boa pinta.

25.2.10

Ponham-me a andar, se faz favor


A minha escola primária era a cinco minutos de casa, indo a pé. A minha escola preparatória era a 15 minutos de casa, indo a pé. Já a minha escola secundária era a 10 minutos de minha casa, indo a pé. Quando cheguei à faculdade, as coisas mudaram claramente de figura.

Agora eram precisos 20 minutos para lá chegar, indo a pé.

Para além de isto significar que cresci com glúteos e quadríceps bem trabalhados, mostra que, se não tivesse seguido por maus caminhos, poderia hoje ser um peregrino exemplar, trilhando os caminhos de Santiago, Fátima ou até do Amílcar, que não é menos que os outros para não poder ter um caminho para ser trilhado.

Ainda hoje tenho a possibilidade de ir de casa para o trabalho a pé. O que é bom, nem que seja por significar que, nos dias que correm, tenho trabalho, caso contrário teria que ir de casa para a taberna, possivelmente também a pé. Mas também o faço regularmente nas férias, nos meus tempos livres e em ocasiões especiais.

Alguns cus tremidos vacilarão um pouco ao ler estas linhas, antes de avançar a medo com a pergunta “Epá, mas qual é a panca toda do andar a pé?”.
Antes de mais, esclareço, não é uma panca, tirando o facto de gostar de o fazer descalço e a tocar harpa.
Depois, porque mais do que uma panca, é uma possibilidade e uma escolha. Primeiro porque sendo um menino da cidade, nunca tive uma viagem maior à minha espera ao início e ao final do dia. Depois, porque me reserva o prazer da condução para alturas em que dá mesmo gozo conduzir. Finalmente porque, quando me dá uma veia masoquista, tenho sempre um transporte público para me levar, nem que seja para outra dimensão.

Mas, acima de tudo, porque por mais que ande, a minha imaginação caminha sempre mais depressa. E, sendo assim, mesmo antes de eu sair à rua já ela anda por lá a abrir caminhos, a conhecer pessoas estranhas e outras estranhamente normais, a ver uma história em cada esquina e avenidas de delírios por todo o lado.

Assim, é fácil perceber porque ando a pé. Não é boa ideia deixar a minha imaginação andar por aí à solta sem mim. Depois, dá nisto.

24.2.10

Ó culos escuros que pairam no Metro

Airosos
seus portadores,
de cegueira não padecem,
pirosos,
seus trejeitos,
esmola não merecem.

Que estilo o meu,
Pensam com seus botões,
Coitadinhos,
Penso eu,
De tamanhos figurões.

Invejo
os ceguinhos,
Que não têm de os ver,
Mas mais cego é quem vê,
mas prefere não o fazer.

Claridade,
Alegam com recato,
Cagança,
É a verdade,
Por detrás de tal acto.

Solução,
Não tenho,
Só disponho de azia,
Já me basta pedir perdão,
Por molestar a poesia.

23.2.10

O call center da sorte

Tocou o telefone. Esperei que fosse engano, mas esperei em vão, já que continuou a tocar. Fui ver quem era mas, por automatismos que a razão desconhece, dirigi-me à porta, algo que o telemóvel não apreciou, tocando ainda mais insistentemente.

Número não identificado.

Pensei um pouco. Ora eu só conheço um Número Simão Delgado, por isso não podia ser o mesmo. Ainda assim, atendi:

”Tou, Número, és tu?”

“Boa noite, tenho o prazer de estar a falar com o Sr. Mak Arena?” (bónus de piada fácil com nome falso)

Aquele início de conversa não enganava, ou era o Euromilhões ou era um call center. Tendo em conta que o Euromilhões para mim está sempre sem saldo, fui pela segunda.

“Sim, é o próprio. Mas deixe-me pô-lo já à vontade, não quero comprar nada, não vou assinar nada e mesmo que não demore nada, eu ainda demoro menos”.

Silêncio. Pausa institucional.

“Não se trata de nada disso Sr.Mak. Gostaria apenas de saber se vai renovar o seu pacote clássico de sorte ou se está interessado em fazer um upgrade?”

“Sorte? Mas isto é alguma brincadeira?”

“Claro que não Sr.Mak, até porque não somos nós que tratamos desse tipo de serviço. A nosso cargo está apenas a sorte. E, obviamente, o azar.”

“Portanto, devo depreender que tenho tido sorte, é isso?”. Depreender é sempre um bom verbo para entabular conversações com um toque de seriedade.

“É o que está nos nossos registos Sr.Mak. Pacote clássico de sorte.”

Pensei um pouco. De facto, nasci com os bracinhos e as perninhas todas, consigo conjugar verbos sem dificuldade e não pareço um arrendatário de Notre Dame. Combinando convívio com mitras de primeira e gente honrada, cresci com uma noção de valores e também a saber como me apropriar indevidamente deles.
Tirando sintonizar ocasionalmente a TVI, não tive de conviver com muita tragédia de perto e pratico regularmente desporto, incluindo modalidades não olímpicas. Profissionalmente, pessoalmente e outras coisas acabadas em mente, os níveis de satisfação flutuam acima do mar da incerteza.

“Sr. Mak”

“Espere um momento, estou em divagações internas”

Sim, podia ter muito mais. Aliás, a insatisfação é o meu motor, mas tenho a sorte de não ser tapado. Espera lá, pois, tenho sorte.

“Oiça lá, vai custar muito continuar a ter esse pack de sorte?”

“Não custa nada Sr. Mak, a não ser que queira ter um pack de Funtastic Lucky Life ou, para os mais ousados, um aZarON, que lhe sai mais em conta e ainda lhe permite passar a vida sintonizado no Canal de Queixas”.

“Deixe estar, não vale a pena. Mas tem a certeza que não custa nada renovar o pack de sorte?”

“Claro que não Sr. Mak, primeiro que tudo porque existir um call center que disponibilizasse sorte seria uma estupidez. Mais estúpido seria cobrar por isso.”

“Mas então, qual é a função do seu telefonema?” Odeio operadores de call center armados em filósofos.

“Basicamente, foi o senhor Mak que criou este call center.”

“Eu? Olhe, não tenho tempo para isto, ficamos....” Estava obviamente a despachá-lo.

“Sim, Sr. Mak e não esteja a despachar-me. Criou isto com o intuito de iludir os seus leitores e projectar-lhes uma pseudo reflexão na vida, levando-os a questionar o que é realmente a sorte ou, na melhor das hipóteses lerem mais uma das suas banhadas esc.....”

Desliguei. Felizmente tenho a sorte de ser uma pessoa objectiva, pouco dada a devaneios e não há pachorra para call centers assim.

22.2.10

Tirem-me as aspas da cabeça


Ser um bom observador é meio caminho andado para rir sozinho regularmente. Ora, como prefiro rir sozinho do que mal acompanhado é uma actividade agradável. Muito apropriadamente, deixem-me abrir aqui um parêntese

(

Pronto, podemos seguir. Tal como a filoxera molesta a vinha, tenho detectado um certo maneirismo à minha volta que tem afectado a minha paciência. E eu não gosto de ver a minha paciência abatida porque depois não tenho pachorra para tentar recuperá-la.

Falo das pessoas adeptas das aspas gestuais, também chamadas de “mãozinhas de citação”. Se não sabem o que é isto, então estão a confirmar a máxima “a ignorância é uma benção”. Se eu fosse um cromo da aspa gestual, teria acompanhado esta expressão com as minhas duas mãos em frente aos ombros, flectindo o indicador e o dedo médio de ambas duas a três vezes seguidas, simulando algo que tanto podem ser aspas como um exemplo de uma variante estranha de Parkinson.

Uma aspa gestual é tão útil como alguns administradores da PT. Está lá, existe, ninguém percebe bem a sua utilidade, mas vai tendo o seu sucesso.

)

Desculpem, tive de fechar o parêntese, que não me dou bem com as correntes de ar, nem com apartes disparatados.
Voltando às aspas, já não bastava termos tido uma banda com uma pseudo-diva a abusar delas, quanto mais este aspismo gestual. Fazer aspas com as mãozinhas é tão necessário como os Malucos do Riso fazerem caretas para nós percebermos que está na hora de começar a rir.

Se eu estou a dar um segundo sentido a uma frase, faço uma citação ou não estou a ser literal, porque raio tenho de elucidar o meu interlocutor à bruta. Ou parto do princípio que é um idiota e, nesse caso, qual é o sentido de usar segundas interpretações, coisa que afecta muito a auto-confiança dos idiotas. Caso esteja a falar com gente inteligente, então fazer estas aspas estilo vira minhoto é estar-lhes a chamar broncos ou pouco perspicazes, coisa que, vá-se lá saber porquê, essa gente inteligente costuma levar a mal.

Isto para não falar no triste que é ver gente adulta a tentar comunicar com as mãozinhas com gestos idiotas para ilustrar o que diz. Já não basta sermos um povo latino, onde se pedes a alguém para falar sem usar as mãos, parece que lhes pediste para estarem dois minutos sem respirar, tal é o esforço de contorcionismo.

Quanto às pessoas que pedem descontos de tempo, usando linguagem gestual do basket, idem idem, aspas aspas. (com a agravante de usarem o gesto errado e acreditem que, enquanto gajo que joga basket, a raiva é redobrada).

Fecho este post, dando as minhas mãos e elevando-as num gesto alto, como se me congratulasse de modo vitorioso sobre a explanação desta matéria de forma brilhante.

19.2.10

Bandas que fica bem a malta dizer que ouve



Como é com o Eddie Vedder ainda ganhamos bónus de retro-coolness

Então a ver se depois combinamos alguma coisa.



Esta frase podia ser o começo de algo. E é, normalmente é o começo de um buraco negro onde terminam encontros, saídas, reencontros ocasionais, cortesias profissionais e toda uma panóplia de eventos sociais muito pouco memoráveis.

Eu depois ligo-te.
A gente depois fala.
Então um dia destes falamos.
Depois diz-me alguma coisa.
Fazemos assim – deixa-me ver a minha agenda e logo acertamos.
Ainda não sei bem como vai ser a minha vida, mas depois vemos se dá....
Foi giro, a ver se repetimos, deixa-me depois ver quando posso...

Em 7 segundos e 38 décimas, gerei um lote premiado de exemplos da chamada execução misericordiosa de expectativas sociais. Não sei bem porquê, mas temos no nosso software algo que nos impele a trocar uma negativa educada mas explícita, por um hipotético futuro conjunto puramente fantasioso.

Isto não é coisa de novelas mexicanas, à procura de tragédia e drama em overdose, com vilões que se disfarçam de anjinhos e fazem chorar criancinhas. É a pura realidade, pois nas mais diversas situações cruzamo-nos com pessoas que gostamos de ver com a periodicidade de anos bissextos, isto no melhor dos cenários. Mas, no entanto, sempre que as vemos, fazemos uma festa, prometemos encontros, damos o braço da frontalidade a torcer até partir, se for preciso.

Damos? Peço desculpa, por um momento de insanidade estava a confundir-me com vocês. Eu não dou nada, sou o tipo de personagem que quando me dizem “Então até um dia destes”, se sujeitam a ouvir, algo como “Só se eu não conseguir evitar”.

Sou educado, cortês, eloquente, ocasionalmente um palhaço de primeira e falo apenas de qualidades menores. Daí que, depois de me conhecerem, muitas pessoas só me evitam no mesmo sentido em que as pessoas com tendência para o alcoolismo evitam bares.
Eu acedo, é melhor para todos, depois ainda tinha que lhes dizer “Epá, sim senhor, temos de fazer isto mais vezes, eu digo qualquer coisa...”.

E para isso, prefiro ir arrancar dentes.
Espero que não fiquem melindrados, que eu aprecio muito a vossa companhia. E acho até que devíamos fazer isto mais vezes. Quando é que vos dá jeito?

18.2.10

O último grito em cirurgias

Apesar do sucesso da lipoaspiração, da cirurgia facial estética, do advento da silicone, do implante salino e todo esse mundo de regabofe e bisturi, continuo em crer que a extracção da consciência continua a ser das operações mais bem sucedidas que vejo por aí.

As pessoas não têm cicatrizes aparentes, parecem viver bem sem ela e, nalguns casos, esse acaba por ser o segredo do seu sucesso. Não se arrependem de o ter feito, essencialmente, porque não têm consciência.

Por ter parcos recursos, procedi apenas à remoção parcial da minha consciência, apesar de já me terem dito que não falta aí quem trate do processo de borla.

Até lá, limito-me apenas a não ter consciência das alarvidades que escrevo.

17.2.10

Sr. Entrudo - Necrologia

Faleceu hoje o Sr. Entrudo Tuga, mais conhecido entre os amigos por Carnaval. Segundo se conseguiu apurar, embora não haja confirmação oficial, a causa da sua morte terá sido o suicídio, muito possivelmente levado a cabo pela sua mão.
Anos e anos de abusos e fingimento, vieram apenas acentuar o que já muitos tinham identificado – o Sr. Entrudo era brasileiro por fora, mas por dentro continuava com a mágoa de ser português. Por mais que sambasse, por mais reduzida que fosse a roupa utilizada, por mais “Olélélé-olalalá” que cantasse, o frio no seu coração não desaparecia e a chuva que cobria a sua alma não se dissipava.

No seu funeral estiveram presentes diversas carpideiras, que vieram mais tarde a revelar-se matrafonas cujo o choro se devia principalmente ao facto de terem perdido a justificação para se vestirem de mulheres (assumidamente) uma vez por ano. Alguns cabeçudos, dos poucos parentes verdadeiros que tinha, vieram também dizer um último adeus, aproveitando para alguns dedos de conversa com actores brasileiros de segunda linha que lhes perguntavam se também há hipóteses de ser pago em Portugal para desfilar na Páscoa. Mais de trezentas jovens que estavam previstas comparecer, não puderam ir, por estarem casa com princípios de pneumonia, depois de dias a desfilar.
Estranhamente para alguns, as crianças não ficaram tristes. O Sr. Entrudo era simpático, deixava-as mascararem-se e tal, mas nunca deu prendas. E, se não dá prendas, também não faz muita falta.

A grande notícia foi que o seu irmão, Entrudo Brasileiro, não pôde estar presente. Teve de ir acompanhar Madonna ao aeroporto e, além disso, nunca teve bem a certeza se era mesmo parente do Tuga, apesar das vezes que este último insistiu em referir isso.

Ao contrário de outros anos, este enterro teve realmente piada. Talvez devido ao facto de ser a sério.

14.2.10

Passados tenebrosos há muitos

Para fechar uma semana em que revelei alguns aspectos tenebrosos do meu passado, gostaria de dizer que, comparado com outros, o meu é uma brincadeira de criança.

Senão vejamos as maravilhas que o Youtube nos revela:

Marisa Cruz em 1992



Ora bem, por onde começar. Sete anos antes de andar a agitar muito cavalheiro no anúncio da Maxmen, saltando à corda, a jovem Marisa tinha sido Miss e isso tinha claramente afectado o seu penteado, isto para não falar na sua dicção e à vontade. Apesar de não fazer bem o meu género, numa coisa esta jovem não evoluiu. Em 1992 tinha a seu lado dois ícones da mitologia portuguesa (um deles de meia branca e tudo), hoje tem um ex-futebolista. Ainda por cima um que arruinou a locução de um jogo de PlayStation.

Pedro Abrunhosa no Natal dos Hospitais



Aqui nem se pode dizer que este passado faz cair Abrunhosa em desgraça. Capaz de cair sozinho já ele é nos dias que correm... No entanto, é apenas mais uma prova do mal continuado que se fez a muito doente e acamado ao longo das várias edições daquele nefasto programa televisivo.
Ver Abrunhosa sem óculos não dá saúde a ninguém e, apesar de alegações de aparente estrabismo, o facto mais grave é que a cantar daquela forma, é natural que ainda ecoem alguns gritos de terror em certos hospitais.

Posto isto, sinto-me bem mais descansadinho com o que andei a fazer nos últimos 20 anos.

12.2.10

Sim, eu fui ao Ponto de Encontro. E depois?

Depois de ontem ter revelado o meu passado de figurante, têm chovido boatos de gente maldosa que alega já me ter visto a bater palmas no programa do Goucha, abraçado ao João Kléber no “Fiel ou Infiel” e por aí em diante. Não tendo eu nada a esconder tirando aquilo que não revelo, desde já afirmo que não é por aí, já que o meu ponto mais baixo, televisivamente falando, deu-se no “Ponto de encontro”, com o saudoso e sempre compreensivo Henrique Mendes.
Foi um one night tv stand e mais nada.

Fui parar ao estúdio, com um amigo meu, certo de que ia à gravação do “Casos de Polícia”, programa que era a minha cara. No entanto, o cheiro a naftalina e os velhotes à porta logo constituíram mau prenúncio. A nossa amiga na produtora, com ar meio culpado diz-me “Desculpem, é que estamos com falta de malta nova na assistência...”
Olhei em volta, o mais jovem a seguir a nós devia ter deixado de ter dentes próprios há 10 anos.

“Ok, vamos lá, mas vamos para a última fila. Tenho uma reputação a defender”. No estúdio, a história foi diferente.

“Vocês aí atrás, os putos novos” esta última parte sentou de novo o velhadas com o andarilho estacionado à porta. “Venham cá para à frente, preciso de gente nova para equilibrar a plateia”. Esta tirada teve a mesma validade de um gajo querer evitar o naufrágio do Titanic pondo panos de cozinha no rombo do casco.

E assim, durante duas horas, na primeira fila mesmo atrás do apresentador, lá me sentei feito (pato)bravo, disposto a entrar no espírito do programa e fazer figuras....tristes.

Durante esse episódio, três casos escolhidos a dedo: uma senhora fez uma toalha bordada em Angola, que já lhe tinha sido paga por uma outra senhora, que se veio embora durante a guerra, Com o remorso de já ter a toalha paga e não a ter entregue, a primeira senhora vivia num sufoco. A produção foi brava, a senhora que encomendou a toalha não, visto que já tinha morrido. Compareceu uma filha, cujo o ar ao receber uma toalha bordada com mais de 20 anos só teve espelho em dois otários que tentavam refrear o riso.

Segundo caso: jovem moça das cercanias de Beja tenta comunicar com o pai, que deixou o lar e foi constituir família para outras bandas sem dar notícias. A produção, brava uma vez mais, percorre os cantos do mundo para encontrar o pai no... Barreiro. À pergunta da filha “Mas pai, porque é que nunca nos tentaste visitar”, responde o pai dissidente “O Barreiro é longe, não tem dado muito gente”. O teor surreal da coisa leva dois jovens às lágrimas....de riso. Henrique Mendes parece descontente.

Por essa altura já uma velhota estranha nos tinha captado a atenção. Sentada ao nosso lado na plateia, ostentava um relógio do Rato Mickey e um ar de quem não tinha os rolamentos todos alinhados. Eis quando cortamos para intervalo e a velhota se levanta, me dá uma palmada no ombro, sorri com os dois maravilhosos dentes que a Natureza lhe permitiu conservar e me diz “A seguir sou eu”. E foi mesmo. Queria encontrar o irmão, já que tinha ido servir para fora muito cedo. “Se tinha fé que o ia encontrar?” Tinha e explicou porquê, desabotoando a camisa e mostrando um fio que, frente a frente, tinha uma medalha de N.Sra de Fátima e de Pinto da Costa. “Ah, mas do meu irmão só tenho uma foto vestido de marujo. Sabe o que é um marujo, senhor Henrique?” Ele sabia.
Nós também. Sabíamos essencialmente que não íamos conseguir deixar de rir, até mesmo na parte em que o irmão apareceu emotivamente por detrás da névoa falsa do programa.

E assim, no historial do “Ponto de Encontro” e da minha memória ficará para sempre gravada uma emissão em que, na primeira fila, dois jovens passaram o programa inteiro com um esgar e lágrimas a bailar nos olhos. O telespectador pensou-os embrenhados no programa, mas na verdade...

11.2.10

O juiz decide



Quando era mais novo e precisava do dinheiro, muitas vezes recorri às minhas capacidades de figurante, para figurar de modo exemplar nalgumas das principais séries/novelas de lastro produzidas em Portugal.
Do "Juíz Decide", com o mítico Dr.Juiz a dizer "A audiência facha vôr de se sentar" e a Liliana Campos bastante longe dos tempos de pseudo fashion-tv starlette, aos "Casos de Polícia" e sim, confesso ao "Ponto de Encontro", não faltaram por aí grandes apontamentos de reportagem que davam para eu fazer 50 posts e ainda sobrava muita matéria.
Para além disso, não faltaram filmes nacionais e estrangeiros, tal como novelas como "Os Lobos", em que interpretei mais de 7 personagens diferentes, todos eles insignificativamente nada memoráveis.

Mas pronto, foram bons tempos, em que me davam dinheiro só pela minha presença. Quem me dera que as coisas ainda fossem assim hoje...Nos dias que correm só me dão dinheiro para me ir embora.

Não sendo possível, vou hoje à tarde figurar a um tribunal a sério pela primeira vez.
Tenho medo de mim, acho que o meu sentido de humor não tem enquadramento legal.

Vamos ver. Se correr mal, espero que haja Internet na cadeia.


Edit: Parece que afinal já não vou, pediram adiamento. Devem ter lido este post e perceberam com quem estão a lidar.

10.2.10

Duelos com chapéus de chuva


Há quem tenha uma certa devoção por filmes de capa e espada. Há quem tenha um certo apreço por usar chapéu de chuva em situações inusitadas como, por exemplo, quando chove. O problema é quando estes dois universos de magia e água se cruzam, em tempestades de mau feitio.

Quem nunca se envolveu num duelo de chapéu de chuva ou, pura e simplesmente, não o usa ou poderá dar-se o infortúnio de não ter bracinhos. Nesse caso, peço-lhe desculpa e poupo-lhe o trabalho de fazer scroll para ler o resto do texto.

Inclina-se o chapéu para a esquerda ou para a direita, baixa-se ou sobe-se o mesmo, dá-se um passo à direita, ops, é melhor ser para a direita, raios ta partam, decide-te pá, tudo isto para evitar levar com uma litrada do melhor líquido que as nuvens produzem. Por cada opção que se possa considerar certa, surge uma nova reacção que a torna errada.
Da dama pós-moderna que aponta o seu chapéu à tromba de quem com ela se cruza sem se dignar a olhar para o lado, ao velhote aguerrido que se recusa a sair debaixo da protecção de um toldo, apesar do seu chapéu poder albergar toda uma família cigana, não faltam motivos para se mistura água, raiva e golpes de pulso.

Já perdi duelos por ser mais alto e acabei vergonhosamente de calças encharcadas, já me regozijei por driblar uma feroz idosa e usar a água acumulada no chapéu num golpe de mestre para lhe dar banho aos botins. Ah, e como eu gosto de idosas de botins.

Olho lá para fora, em dias de chuva, e oiço o Robin Hood dentro de mim, “ vá, larga os collants, empunha o chapelito do Mickey que te alcançou fama e respeito”. E assim saímos à rua, de capa negra e instinto matador, prontos a enfrentar qualquer chapeleiro de segunda.

9.2.10

O porteiro dos sonhos

Outro dia deu-me para dormir fora de horas. Não foi planeado e, por isso mesmo, vi logo a coisa complicada quando, passado o portão do sono, reparei que o porteiro não era o mesmo.

“Boa noite...ou melhor bom dia. O Carlos não está?”
O ar indiferente do latagão funcionou quase como resposta “Não. Ele só faz noites.”

“Pois... costumo passar por cá a essa hora” Arrastei a voz para ganhar tempo.
“Posso ajudá-lo?” Frase automática que não transmitia qualquer vontade em fazê-lo.

“Eeehhr... queria saber se é possível marcar um sonho.”
“Para quando?” sacou de um livro preto e de um ar enfastiado a condizer.
“Agora...se for possível” fiz o papel de jovem humilde.
“Hmmm, quantos disse que eram?”
“Só um, tipo eu” Sorri, para tentar criar uma ligação. Cortou-a pela raiz.

“As pessoas acham que sonhar é fácil, que é só fechar os olhos quando lhes apetece e já está. Mas não pode ser assim, tem de haver um mínimo de respeito por quem trabalha nos sonhos.”. Bateu com mão pesada no livrinho preto, mas parecia haver alguma vontade de fazê-lo em mim.

“Claro...claro” a minha concordância não parecia amansar a fera “Foi mesmo algo que se proporcionou, não foi planeado”.

“O problema é esse, nunca é. Uma vezes juram que é só uma soneca de dez minutos e depois querem uma réplica do Moulin Rouge”

aquele livrinho preto estava mesmo a ficar em mau estado

“Outras vezes, dizem que querem um sonho surreal, mas depois queixam-se noutros sonhos que andam a gastar balúrdios no psicanalista. Isto para não falar nos Chico-espertos que passam a vida a sonhar de olhos abertos e a furar o sistema”.

Os olhos esbugalhados do senhor diziam-me que sonhar na próxima hora, só em sonhos. Assumi a derrota “Pronto, deixe estar, volto mais tarde, também não vale a pena estar a sonhar de mau modo”.
Voltei as costas e fui para a paragem para apanhar o Despertar das 16.15.

Chamou-me.
“Oiça, não é por mal, isto às vezes complica-me os nervos. E dizem eles que é um emprego de sonhos”.

Sorriso amarelo 38 chamado ao palco. Fez de conta que não viu e abriu o livro.

“Olhe, para agora consigo arranjar-lhe um pesadelo de meia horita, com uma modelo finlandesa e carrinhos de choque”
Sorri “Mas isso não é pesadelo nenhum”
Sorriu de volta “Para a modelo finlandesa é”
O árbitro apita para o final dos sorrisos.

Virei-lhe as costas e apanhei o das 16.15. Quando um gajo conhece o porteiro, os sonhos têm outro nível.

8.2.10

Serei eu uma gaja boazona?



A Internet tem uma coisa maravilhosa. E, para os rebarbados da sala, não me refiro à pornografia. Falo da capacidade das pessoas confiarem/acreditarem no que lêem, por exemplo em blogs.

“Deves. Eu não acredito em merda nenhuma que leio neste blog, se é que isto pode ser considerado um blog”. Isto sou eu, a fingir que sou um de vocês a fingir que não acreditam no que acabam de ler, enquanto se questionam sobre a complexidade dos diálogos interiores.

A verdade é que, e acreditem em mim, por norma somos mais desconfiados com desconhecidos no mundo real, do que com desconhecidos na blogosfera. Criam-se laços, a escrita é uma boa forma de identificação e, quando damos por isso, estamos em perfeita sintonia com alguém que não conhecemos de lado nenhum.

O ponto base é, se um tipo com o meu savoir faire do Feira Nova vos abordasse na rua, não pensariam duas vezes em me deixar a falar sozinho. Aqui posso até pôr em causa a capacidade que têm de pensar que, com um bocadinho de sorte, ainda acham piada. Um bocadinho grande.

Nada vos diz que eu não sou uma barmaid voluptuosa da Reboleira cujo sonho era fazer-se passar por um gajo idiota, ainda assim um charme de moço, com a mania que é engraçado. E, para aqueles que alguma vez aventaram essa hipótese, a primeira rodada no “SAM Bar” é por minha conta.
Há pessoas e personagens na Internet, a proporção é incerta e duvidosa, eu próprio sou um deles e vejam lá o ambíguo que isto é.

No entanto, ao contrário dos programas da manhã na TV, nem tudo é mau e tenebroso. Numa era em que é a imagem que dita as regras (exemplo: digam-me qual foi a última gaja não boazona/excêntrica que viram na MTV a cantar ou a tentar), as pessoas na blogosfera seguem outra coisa. Uma percepção, uma vivência, uma história com um fio condutor ou não. Errados ou certos, isso depois é outra história.

Mais vale sonhar um dia do que passar a vida no escuro.

Seja como barmaid na Reboleira ou como eu, o que pode ser ou não a mesma coisa.

Ex-excluído social

Ultimamente não tenho visto muita televisão, talvez por isso me tenha andado a sentir mais inteligente. (o espalho do Abrunhosa não é televisão, é retribuição divina)

Talvez por isso tenha descortinado um certo zum-zum nas minhas costas. As pessoas olhavam para mim, falavam em surdina e não era sobre televisão. Era pior que isso. Nas últimas semanas desdenhavam de mim, não me convidavam para almoçar e, quando pensavam que eu não estava a ver, abanavam a cabeça em sinal misto de desdém e fiambre.

“Lá vai ele. Não sabe o que faz...” ouvia nos corredores. “É este que ainda não...”, as frases interrompem-se à minha passagem. Até que um responsável do meu estaminé me chamou à parte:

“ Já lá vão quase dois meses e tu nada. Pensa nisso no fim de semana, mas não nos podemos dar ao luxo, se isso se mantiver, de continuar a ter uma pessoa como tu aqui na empresa. Está muita coisa em jogo, não és só tu que ficas mal...”

A coisa ficou em aberto, mas eu sabia que a coisa ficou bem clara. Tinha de ser agora.

E pronto, lá fui ver o Avatar.

Hoje fui recebido em ombros, mal me viram elucidar a senhora da recepção sobre o termo Na’vi e as singularidades do povo Omaticaya.

Mal sabem eles que eu nunca vi ou li “O Código de Da Vinci”.

5.2.10

A menina dança?


Música e dança, haverá melhor mistura? Não tendo resposta segura para tal questão, resolvi acrescentar álcool.

Epá, eu não enjoo em movimento, mesmo que tenha um problema nos braços. Espera lá, não é um problema, é uma donzela e sorri para alguém. Deve ser para mim, pelo menos sou eu que a estou a agarrar enquanto dançamos. Dançamos? Sim, deve ter sido essa a minha resposta, senão isto não faz sentido e eu estaria sentado.

Eu danço? Oh, se danço, enquanto passa por mim o Gabriel Alves, dançando um magnífico tango emparelhado com a Charlize.
Theron boas razões para isso digo eu, não resistindo a uma piada em movimento.

“Altossddseenr e párnejeej o bailenazzz!!” A expressão não sai tão bem quando gritamos com uma rosa na boca. O baile pára, Gabriel comenta a beleza da força do baile versus o baile da força. Já eu não comento nada, estou à rasca a tirar espinhos de rosa das beiças. A fazer beicinho está a Charlize, o Gabriel deixa-a fora de jogo com uma entrada mais dura, creio beringelas com vinagrete.

A bater o pé o meu par é ímpar. As socas ajudam, mas não lhe consigo ver a cara. Talvez por ter 35 cms a menos que eu e estar a limpar as lágrimas à minha camisa de folhos.
Desculpem, deve haver aqui alguma falha em relação aos folhos. Eu não uso disso.

Trazem-me outra camisa. É de forças.

Finalmente vejo a cara ao meu par, acho eu que é a cara. Ou tem dos bigodes mais deslumbrantes que conheci até hoje ou o cabelo escadeado não lhe fica bem.
É uma Madre Teresa por me aturar.
Suspeito que anda a ser Madre Teresa com outros nas minhas costas. Só lhe desculpo porque é efectivamente a Madre Teresa.

Começa a cantar-me uma música ao ouvido e diz que quer viver comigo em Ibiza. Suspeito que andou a ler o meu blog.
Tenho comichão na orelha, mas com a camisa de forças não me dá jeito coçar.
Resolvo acordar.
Abro os olhos, tudo parece anormal. Sinal de que já acordei.
Cuspo um espinho da boca que é para não me armar em esperto.

4.2.10

Sem medo de ser parvo


Há uma diferença entre ser parvo sem o saber e sê-lo de forma assumida e descontraída. Se não há, passa a haver, até porque sou parte interessada. Aliás, não sendo o despotismo modalidade olímpica, permitam-me que elabore sobre a questão.

As pessoas que são parvas sem o saber, como essa condição indica, julgam-se bem longe do Olimpo da parvoíce. Podem pensar-se portadoras de fino humor, requintada inteligência, oportuna sagacidade ou sublime genialidade, quando na realidade são essencialmente parvas. E se o sorriso amarelo não os ajuda a perceber isso, é melhor não tentar a pergunta “Tu és um bocado parvo, não?”.

Por outro lado, já eu responderia a essa pergunta com um sorriso aberto e confirmação rápida e concisa.

Sim, sou parvo.

E basta isso para parecer logo menos estúpido. Aos parvos assumidos desculpa-se muita coisa, porque...são parvos. Tendo cuidado em não pisar a fronteira poderás fazer carreira na parvoíce, isto sem descambares em parvalhão, patarmar a partir do qual se acabam as regalias.
A parvoíce é um filtro a partir do qual até a realidade mais dura tem um ângulo mais suave. O parvo, quando domina o seu mister, é uma valiosa companhia, com a vantagem de que não precisa de ser passeado à rua. Curiosamente, os parvos que o são sem saberem, tendem a não gostar dos parvos assumidos. É natural, são parvos, mas de outra espécie.

Não me preocupa ser parvo, enquanto tiver sempre a noção de quando o estou a ser. Como por exemplo hoje de manhã no elevador a caminho do trabalho, ao ser interpelado por uma jovem empresária de sucesso:

“Vai subir?”
retive a porta
“Só na sua consideração, espero”.

3.2.10

Viver contrariado

A vida é feita de contrariedades. Estamos no quentinho do ventre da nossa mãezinha, mandam-nos cá para fora. Somos crianças e não temos responsabilidades, estamos a gozar isso e vêm logo obrigar-nos a ir para a escola aprender. Depois de aprendermos tudo na escola ou fingirmos bem, dão-nos duas opções: ou vais trabalhar ou vais aprender mais para a universidade. Se fores um verdadeiro maluco, fazes as duas ao mesmo tempo.
Por esta altura, se não tiveste a contrariedade de ter o QI de um espargo, já passaste mais de um quarto da tua vida a lidar com isso. E ainda a procissão vai no adro.

É que, se não nasceste com o kit eremita plantado no cérebro, vais perceber a dada altura que há outro vazio na tua caderneta, que só é completa com um cromo difícil de encontrar. E começa aí outro processo de tentativa-erro, que muitas vezes te vai levar à contrariedade de te veres com o coração nas mãos, nos pés e noutras partes do corpo que manifestem interesse em adquiri-lo.
Independentemente do que já tenhas aprendido e trabalhado, poderás portanto sentir-te burro e inútil. Por outro lado, podes efectivamente ser burro e inútil, mas ter alguém com quem compartilhar isso todos os dias. A contrariedade, nesse caso, surge apenas se a outra pessoa te relembrar isso todos os dias.

Lembra-me alguém que há quem não veja muita contrariedade no facto de nascer com o rabo virado para a Lua. Contraponho, referindo que o facto de passar a vida a ser reconhecido por uma determinada posição do meu rabo não é o mais agradável. É, porventura, uma contrariedade.

Não vou sequer mencionar a contrariedade que é chegar o dia em que te dizem que não precisas de trabalhar mais, apenas para descobrires que a tua reforma já não existe, devido a algumas contrariedades do sistema de segurança social. Ops, já o fiz.

Mas, pelo meio disto tudo, podes não ter noção de grande parte das contrariedades que apontei. Em primeiro lugar, pela contrariedade que é passar a vida a vivê-la, o que te deixa pouco tempo para pensares em ti. Em segundo, porque nos foi instituído um certo gozo na superação, ainda que aparente, de todas as contrariedades que se nos vão aparecendo à frente durante a vida.

E isso, para quem gosta de dizer mal da vida, é uma contrariedade.

2.2.10

Intervalo para reclames

Por norma, publicidade é coisa que não se vê muito neste espaço. A não ser que seja má publicidade e, nesse caso, muito possivelmente foi causada por mim.

No entanto, desta vez não é esse o caso. É um bom exemplo aquilo que vos mostro.


Aproveitem, não vão encontrar muito disso por aqui.



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1.2.10

Alien da parte do pai


Enquanto estacionava o meu disco voador em plena Avenida de Roma, buzinando freneticamente ao idoso que insistiu em atravessar mesmo por trás do OVNI, ocorreu-me uma forte possibilidade – “E se eu for um extra-terrestre, não obviamente daqueles fofos com dedos iluminados, mas assim daqueles estranhos, sem roçar também a violência daqueles que saem de dentro de caixas toráxicas de humanos?”

Congelei o parquímetro com o poder da mente, enquanto me debruçava sobre essa possibilidade. “Ora eu nunca fumei um cigarrinho que fosse neste vida terráquea, não aprecio minimamente café e tenho pela cerveja a mesma estima que nutro pelas novelas venezuelanas, ou seja, só para me rir de vez em quando”

Dei por mim a falar comigo em voz alta e, depois deste discurso, já as pessoas fugiam a correr ou olhavam para mim como se ter um braço atrás das costas não fosse algo perfeitamente normal.

Matutei alguns segundos, usando a minha matuta comprada numa loja de penhores em Marte, e prossegui “Por outro lado, há todo um tipo de interacções humanas que aprecio, como as cócegas nos pés, as piadas secas e a utilização de léxico diversificado de modo pomposo e galante em situações que façam pouco sentido. Isto para não falar de regabofe à antiga.”. Portanto, talvez não seja totalmente de fora desta região.

Enquanto pensava mais um pouco, passei uma rasteira a um cego, sinal do máximo respeito pelos invisuais na minha terra, não percebendo a reacção de pânico e indignação de boa parte dos transeuntes. O cego, vá lá, limitou-se a cair e a chorar, certamente de emoção pelo meu tributo.

Não fiquei com certezas, mas já o implante neural sináptico-tamagochi tocava a pedirem-me para ir acabar com a peste do smiffer em Jupíter, que lá ao menos sempre pagam os serviços a horas.